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Archive for fevereiro \25\UTC 2010

“Ela agora é um vegetal.”

Foi assim que dona Larissa, de volta do hospital, definiu Toninha, sua própria filha, às vizinhas reunidas na sua casa. Havia um clima de velório, ali, e as crianças estavam muito confusas com aquela história. Dona Larissa ficou com vergonha de confessar que esquecera o nome da doença de Toninha e preferiu dizer que nem os médicos sabiam.

“Ela voltará a si?”

“Pode voltar, pode não voltar. Pode ficar assim por uma semana e morrer. Pode ficar assim para o resto da vida.”

Uma semana depois, quando Toninha retornou a casa, de ambulância e de maca, as crianças suspiraram: o “vegetal” era a mesma Toninha de sempre, meio criançona apesar dos vinte e dois anos, e que gostava de se vestir de bruxa para perseguir a molecada da rua. Era uma farra. Agora, como iria dormir sem hora para acordar, a brincadeira ficara adiada, sabe-se lá até quando. Aquele pessoal com menos de onze anos sentiu muito.

Mas nem se passaram cinco dias, quando o povo, ainda chocado, viu dona Larissa, sempre com um enorme lenço de choro no bolso, receber o caminhão da “Sorte é pra quem pode”, promoção das Lojas Sol. O veículo ocupava metade da rua, que era meio torta, com muitos problemas no calçamento e poucas árvores, e estacionara em frente à pequena casa.

“Dona Larissa! Dona Larissa!”, gritou um palhaço, acompanhado de uma câmara de televisão, “a senhora ganhou a troca de todos os seus móveis e aparelhos domésticos! A sorte é pra quem pode!”

Uma pequena multidão se acercou da casinha, e dona Larissa, cujo marido havia se engraçado por outra, e que vivia de produzir bolos e doces, já não conseguia controlar o choro e o riso, que agora vinham intercalados. As vizinhas, eufóricas, confluíram rapidamente. Ela, no centro das atenções, não largava o lenço grande, orientando a equipe de carregadores a acomodar os móveis novos, belíssimos, e a retirar os antigos, lamentáveis.

Na confusão, um dos carregadores lhe pediu para acordar a mocinha lá dentro, a fim de trocar a cama, e aí dona Larissa caiu num choro mais dramático, correu até Toninha, beijou-a muitas vezes no rosto.

“Ela não acorda mais, senhor. Come, faz necessidades, tudo, tudo, sem sair da cama. Mas, de vez em quando, chora. Eu fico preocupada: será que ela está vendo o que acontece aqui?”

O homem, muito impressionado, disse que seguramente não. Mas, com certeza, e até pra compensar sua situação, ela estaria desfrutando dos mais lindos sonhos que um ser humano poderia ter.

“O senhor acha mesmo?”

“Tenho certeza, dona. Conheci uma pessoa assim que, quando acordou, contou os sonhos que teve. Eram, assim, coisas impossíveis de descrever, de tão bonitas. Eu mesmo achei que valeria a pena dormir daquele jeito”, insistiu o homem, com um hálito de cerveja recente.

“Será?” Dona Larissa guardou o lenço grande, já imaginando uma forma de acomodar a filha na cama nova.

Dona Cléssia, da casa da frente, veio dar um abraço na amiga e lhe garantir que a sorte, de fato, não é pra quem pode, mas pra quem merece.

“Depois de Cristo, a pessoa que mais sofreu foi você, Larissa”, ela garantiu, acomodando no ombro a cabeça da amiga. “Você merece todos esses móveis lindos, e essa geladeira, você viu?, é enorme, de duas portas…”

“Vai ter de ficar na sala, porque na cozinha não cabe”, lamentou dona Larissa. “A televisão é muito grande também, mas entrou no quarto. Se eu usasse uma cama de casal, como antigamente, não daria.”

“Os móveis velhos vão ser um problema, não, minha amiga? O pessoal do caminhão vai levar?”

“Eles vão me indenizar, é um bom dinheiro, faz parte da promoção…”

“Meu Deus, mas que sortuda!” Dona Cléssia aproximou os lábios do ouvido de dona Larissa. “Será que é por causa da doentinha, essa sorte?”

“Não sei, não pensei nisso…”

O palhaço, que acabara de distribuir balas e balões coloridos às crianças que iam aparecendo, veio chamar “a dona da sorte” para dar uma grande entrevista, falando da felicidade que as Lojas Sol lhe haviam proporcionado.

“Não precisa falar da moça com problemas”, disse o palhaço. “Só coisa boa, coisa boa! E meta esse lenção no bolso!”

Ela falou, do jeito que lhe disseram, mas não foi possível demonstrar toda a alegria que eles queriam. A entrevista acabou suspensa porque dona Larissa percebeu que uma pessoa estranha entrara na casa. Ela gritou, dando o alarme. Os carregadores ajudaram a tirar, lá de dentro, um bêbado que procurava comida na geladeira nova.

“Porra! Essa zona toda aqui e tem uma mulher dormindo lá dentro”, ainda comentou o bêbado, antes de levar um empurrão mais agressivo.

“É o vegetal”, esclareceu Neivinha, uma menina de dez anos, da rua ao lado.

Antes de voltar à filha imóvel e de especular sobre aqueles sonhos lindos com que ela se deleitava, dona Larissa ainda atendeu dona Júlia, proprietária de um salão de belezas ali perto, que gostaria de tocar, apenas tocar a menina adormecida, além de fazer uma oração para o seu despertar.

“Eu deixo, dona Júlia. Mas, por que mexer nela?”

“A senhora não entendeu, dona Larissa? Ela dormiu para lhe dar sorte. Vou confessar pra senhora: nunca vi um fogão de tantas bocas, assim, pessoalmente. Mas eu estou precisando, também, de algumas coisas. Sei que pedindo para ela serei atendida. Acho que esse sono dela faz uma ligação direta com os Santos Anjos.”

Dona Larissa agradeceu, esperou ali ao lado que dona Júlia completasse seu pedido e, quando ela saiu, dirigiu-se à filha adormecida, acariciando-lhe a testa imóvel. Toninha não mudou a serena expressão do rosto, própria de quem viaja através dos tais sonhos indescritíveis.

“Eu queria lhe agradecer, minha filha, por todos esses presentes”, disse dona Larissa, “mas eu trocaria tudo, tudo, pelo presente maior que é ver você acordada”.

Tirou o lenço grande do bolso e, como não havia ninguém por perto, assoou o nariz.

Do livro Allegro – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Eu tinha curiosidade de conhecer o grande cineasta Asperceulta, sim, até para lhe perguntar se Asperceulta era nome, apelido ou brincadeira. Sempre me fascinei com pessoas que conseguiram ficar famosas usando um nome só. Como Cher, a atriz. Mas, na hora, acabei nem me lembrando disso.

Foi um encontro muito tenso, o nosso. Estou longe de ser um grande escritor, sei disso, mas sou muito cioso da minha pobre obra. Não poderia ser diferente com o conto “Integralistas”, do meu livro de estreia, “Povo de Deus”, que se encontra temporariamente esgotado. A editora já me havia comentado que Asperceulta tinha a intenção de fazer um filme inspirado em “Integralistas”. Assim, quando ele me telefonou, pedindo um encontro pessoal, “entre treze e quatorze horas da próxima quinta-feira”, eu já me invoquei. ‘Como ele sabe que vamos resolver o problema em uma hora?’, me perguntei.

O viado (nossa… que agonia, de piercing na língua) chegou de carrão cor-de-rosa e secretário particular, mais gay do que ele. Não aceitou água, nem café, fez cara feia para Gandhi, meu labrador, e a primeira coisa que disse foi: “Vamos tentar resolver essa pendência rapidinho…”

“Não sei o que dizer, senhor Asperceulta, porque, para mim, não há pendência alguma. A única coisa que sei é que o senhor estaria interessado na minha história ‘Integralistas’”.

“É fato.” (Ele iria repetir “é fato” muitas vezes, num cacoete.) “Na verdade, já estou com a produção bastante adiantada. A única coisa que me falta é a sua liberação. Afinal, o senhor é o autor da história…”

Disse a última frase como se lamentasse profundamente esse detalhe.

“É muita confiança do senhor adiantar tanto o seu trabalho sem saber se eu vou liberá-lo ou não.”

Houve um silêncio mais ou menos longo. Chamei Gandhi para lhe fazer um carinho. Gandhi deu o seu salto característico, na minha direção, enquanto a bichona do secretário do cineasta gritou um “aiii” de afetado pavor.

“O senhor não sabe que labradores não atacam seres humanos? A não ser que o senhor não se enquadre nessa categoria…”, sorri, fingindo bom humor.

Asperceulta me encarou, juntou as mãos em prece, suspirou fundo, como se eu fosse a causa dos seus males, e disse, pausadamente:

“De fato, de fato. Eu gostaria de fazer tudo certinho, tudo direitinho, e conto com o senhor… O senhor escreveu uma linda história, foi a história que eu mais amei nos últimos anos, e eu quero, quer dizer, gostaria de saber o preço dos direitos autorais para cinema. E se o senhor me permitiria usá-lo como personagem.”

“Como assim?”

“Bem, na minha história, o escritor é quem narra, para que o público entenda que ‘Integralistas’ não passa de um sonho…”

“Só se for na sua história”, eu rebati. “Na minha, os fatos são reais. Os integralistas realmente tomam um bairro da cidade, imaginando iniciar uma revolução. Os livros de ‘História Nova’ mais sofisticados, mais verdadeiros, contam o episódio com alguns detalhes. O que se passou dentro de uma das casas, que é a minha história, foi uma vivência do meu pai criança. Ou seja, não é sonho porra nenhuma. É fato verídico narrado como literatura…”

“Mas o senhor romanceou bastante, não romanceou?”, disfarçou Asperceulta, enquanto seu secretário não tirava os olhos apavorados de Gandhi.

“Claro que não. É matéria de memória.”

“O personagem Aparício, que imagino seja o seu pai criança, foi macho daquele jeito mesmo? Enfrentou os integralistas de peito aberto?”

“Lógico, seu Asperceulta. Naquele tempo os homens eram machos desde pequenos.”

O cineasta não acusou o golpe; pelo contrário, sentiu-se muito à vontade.

“Mas os integralistas eram tão maus assim?”

“Maus? Integralista é fascista, é quase nazista, o senhor não sabe?”

“É fato. Eram maus, perversos, os integralistas. Mas existe a Estética do Mal, o senhor há de convir…” Olhou para o secretário particular. “Me ajuda, Néri, me ajuda a definir os figurinos que criamos, as camisas verdes em vários tons, como se houvesse uma hierarquia no sonho do escritor…”

Néri não se atreveu a dizer nada, só de olhar a minha reação. Levantei-me de um salto, até Gandhi se assustou.

“Senhor Asperceulta”, rosnei, como se fosse o Gandhi, “se o senhor quiser transformar o meu conto numa grande viadagem, terá de pagar muito caro…”

“Quanto?”

Vi, de relance, o brilho pragmático nos seus olhos.

“Duzentos mil dólares. Sem impostos.”

“São quase quatrocentos mil reais, então…”, ele rebateu.

“Trezentos e sessenta mil reais”, reforcei, abrindo a porta.

“O senhor é desprendido, não? Está correndo o risco de perder um bom negócio.”

“Caia fora antes que eu aumente.”

“É fato: o senhor é intratável.”

Estava tremendo quando fechei a porta. Abri um litro de uísque, que havia me prometido evitar até o fim de semana, enchi meio copo, peguei o gelo, usei somente uma pedra. O primeiro gole já me aliviou. Depois, Gandhi completou o remédio, lambendo-me as mãos, como sempre fazia quando eu ficava muito nervoso.

“Sabe, Gan, eu continuo negando tudo o que defendo. Recebi duas pessoas que me queriam profissionalmente, coisa que jamais acontece, e que iam me pagar por uma história que não vale nada no mercado, que ninguém lê e não lerá jamais. Que importa o que vão fazer com ela? Se querem delirar, danem-se. Eu não posso me comportar como um fascista.”

Gandhi sempre foi o meu melhor conselheiro, o meu grande amigo. Os olhos compassivos e a grande língua vermelha me responderam de pronto: “Liga pra eles e pede desculpas.”

“Assim também é demais, Gandhi. Mas vou pensar.”

Do livro Allegro – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Papatcho abriu mais uma garrafa de aguardente, enfiou o gargalo na boca e o líquido começou a descer, como se fosse um refrigerante. Era a terceira garrafa, as outras duas ele dividira com Zezão e Ribamar, que já se haviam apagado sobre as mesas do botequim.

“Há algum problema com esse boliviano”, comentou seu Crispim, que passara por ali somente para comprar cigarros. “É impossível suportar tanto álcool sem entrar em coma.”

Manero, o mestre-de-obras que, apesar de beber pouco, passava as noites e algumas madrugadas no bar, contando histórias de mulheres devassas que jamais existiram, balançou a cabeça, preocupado. Ele já fora amigo de Papatcho, no tempo em que o boliviano esculpia animais, com perfeição, aproveitando troncos velhos de árvores caídas.

“Ele bebe assim”, disse Manero para Getúlio, seu companheiro de garrafa, “desde que a dona Mora não o quis como motorista. Mas como pode uma pessoa imaginar que é ‘casado’ com alguém que não lhe dá a menor atenção? Papatcho apaixonou-se por ela, isso acontece, mas ele exagerou: inventou, para si mesmo, que vivia um romance com a dona, que se beijavam e coisa e tal. Acho que foi por isso que ela lhe meteu o pé na bunda. O boliviano devia lhe encher o saco.”

Getúlio não demonstrou nenhum interesse pela história, e aí Manero, contrariando sua rotina, engoliu o copo de cerveja de um gole. “Ô vida de merda! Só sofrimento, só amor contrariado! E ninguém ouve a gente… Puta que o pariu!”, berrou, assustando o companheiro e o pessoal das mesas próximas.

Papatcho continuava de pé mas, a julgar pela direção dos seus olhares, não via mais nada. Ou melhor, via sim: dirigia-se agora a um personagem imaginário, que chamou, respeitosamente, de Señor Díaz Sarmiento, e de quem ouviu notícias aterradoras.

Todos testemunharam: os olhos baços do boliviano foram-se arregalando para depois encharcarem-se de lágrimas, que derramou sobre o ombro de seu Julião, o dono do botequim. Seu Julião, por outro lado, era um verdadeiro demônio para todos os alcoólatras do lugar. Quando esses atingiam o estágio final, seu Julião preparava-lhes uma mistura secreta de vários ingredientes, em que sobressaíam a raspa de chifre e a jurubeba. Os homens bebiam aquilo, vomitavam as tripas e jamais conseguiam pôr novamente um gole de álcool na boca. Era beber e vomitar. Mas seu Julião sempre fora honesto: só preparava a mistura a pedido da vítima, ou da sua família desesperada. E não enganava o desgraçado: “Nunca mais você vai beber, peste, mas que vai morrer de vontade, ah, vai! Eh, eh! Quer mesmo tomar a gororoba?” Pressionado pela família, desmoralizado, nas últimas, os bebuns aquiesciam e começavam a viver o inferno do desejo insatisfeito. Não há maldição pior.

Agora, Papatcho pedia ao velho bodegueiro que, pelo amor de Deus, lhe desse um pouco da mistura.

“Com a morte da minha amada”, disse-lhe o boliviano, com seu sotaque forte, “quero apressar minha ida para o Além. A mistura é o melhor caminho. Quero morrer vomitando a mim mesmo.”

“Que história é essa de que dona Mora morreu?”

“Assassinada. Esfaqueada. Os lindos olhos abertos. O canto da boca de lábios grossos com um filete de sangue a escorrer.”

‘Ainda bem que ele falou tudo isso no meu ouvido’, pensou seu Julião, que trabalhava secretamente para dona Mora, a grande latifundiária da região. Ninguém sabia mais das coisas e das pessoas do que seu Julião. Um botequim, como um táxi, é uma central de informações. Grandes negócios dona Mora havia feito a partir da ajuda dele. Ainda ontem falara com ela, por telefone. Como, morta? E, ainda por cima, esfaqueada?

Seu Julião chamou Manero, somente com uma flexão de cabeça, e o mestre-de-obras o atendeu imediatamente.

“Manero, segura o Papatcho aqui que eu vou ver se ainda tenho um pouco da mistura.”

“Chegue com ela perto de mim não, seu Julião. Deus me defenda.”

“Você não precisa, meu filho.”

Seu Julião esgueirou-se pelas sombras até os fundos do prédio, assustou os ratos e chegou ao telefone que escondia de todo mundo, para que não lhe pedissem emprestado. Ligou diretamente para a casa da patroa. Era amigo de Neusa, a empregada com dez anos de casa.

“Desculpe a hora, Neusa, mas eu queria saber se dona Mora está bem…”

“Por que, Julião, ela estaria mal?”

“Sei lá, uns boatos que correram aqui. Disseram até que foi esfaqueada.”

“Meu Deus! Que gente demente! Eu não a vi chegar, mas ouvi o barulho do carro, e não vou lá em cima acordar a mulher e perguntar se ela foi morta nem que a vaca tussa.”

“Esquece, Neusa, foi loucura do povo daqui.”

Acabou de dizer isso, tentou pôr o fone no gancho, errou por causa da escuridão. Virou-se para voltar ao bar e acabou tropeçando em algo que ele juraria ser um corpo humano. Sentiu um odor almiscarado, nada comum naquele depósito.

Soy Díaz Sarmiento, amigo de Papatcho. Cuando dudan de mi palabra soy enojado. La mujer es difunta. Mucho sangre. Está con los ojos abiertos”, disse a voz.

“Minha nossa!”, gemeu seu Julião, de pernas bambas, apressando o passo, perdendo o equilíbrio e caindo sobre umas latas velhas de tinta e cal que sobraram da reforma do bar. “Bêbado pode inventar coisas, mas morto- vivo não falha…”

Manero estranhou a cor de seu Julião na hora em que ele voltou ao balcão.

“Papatcho aqui está dando a maior trabalheira”, disse o mestre-de-obras. “Quer, de qualquer jeito, beber a mistura do senhor.”

“Quem vai beber a minha mistura sou eu, Manero”, disse seu Julião, com uma vozinha de nada. Esse negócio de beber todo dia, nem que seja um tantinho, como nós fazemos, pode levar a gente à loucura.”

Neste momento, Papatcho empertigou-se, esquivou-se do braço enorme do mestre-de-obras, que lhe enlaçava os ombros, e fixou os olhos no vazio.

“Caralho”, disse seu Julião, já recuperando a energia da voz e dirigindo-se diretamente ao boliviano, “o que é que o señor Díaz Sarmiento está dizendo para você agora, boliviano?”

Papatcho continuou mudo. Um sorriso apalermado foi-lhe tomando o rosto.

“Que foi, Papatcho? Desembucha!”, gritou agora seu Julião. O que é que o señor quer?”

“Não é o señor. É a senhora. La Señora madre del mundo. Diz que vai amparar a alma do meu amor.”

Seu Julião e Manero olharam-se, com um certo desespero.

“Eu vou lá embaixo buscar a mistura”, disse seu Julião. “Mas só vou se você for comigo, Manero.”

“Vou ressabiado, seu Julião. O senhor voltou de lá branco que só leite.”

“Você é homem ou não é, Manero? Porque eu não sou.”

“Vamos ver”, resmungou o mestre-de-obras.

Os dois largaram o bebum de pé, que ouvia extasiado a pregação da Virgem, e se dirigiram vagarosamente, em câmara lenta mesmo, aos fundos do botequim. Aquele pensamento recorrente, de vender o bar e comprar um pequeno açougue, voltou com toda a força à cabeça do comerciante. Ou haveria possibilidade do mundo do Além se intrometer com carnes cruas, como fazia com os alcoólicos?

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, 2007

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Não vou dizer que nunca conheci homem. Conheci, sim, o Geraldinho. Foi em 1967, nós éramos quase crianças, ele me enganou dizendo que gostaria apenas de um carinho, mas eu queria ser enganada, eu queria. Acho que aquela foi uma das três ou quatro vezes na vida em que perdi a razão. As outras duas foram de raiva mesmo, mas no geral sou muito calma.

O Geraldinho foi tão delicado comigo e com minha inexperiência, naquela única vez, que eu jamais havia imaginado quanto um homem pode ser violento – e quanto uma relação sexual pode magoar, despedaçar uma mulher frágil, sozinha no mundo.

Eu disse “um homem”, mas não sei se aquilo era – era não, é – exatamente um homem, ou se já fora homem, bem, eu estou confusa.

Faz quinze dias. De noite, quase nove horas, o último capítulo da novela das oito estava no fim, quando Amância revelou ao doutor Clésio que fora ela que matara Fidalga, a esposa dele, a doentinha. Meu Deus! O doutor Clésio tão apaixonado por Amância… Eu fiquei com lágrimas nos olhos, mas aí vi uma sombra perto da porta do banheiro, achei que era a lágrima atrapalhando a vista, enxuguei os olhos, olhei de novo – e lá estava ele.

Corpo escuro, mas não era negro. Um rosto sem expressão, um rosto sério, com cabelo, lábios, nariz, olhos, tudo da mesma cor, um marrom, uma cor esquisita – a cor dos demônios?

Aí ele veio se aproximando, eu paralisada, saltou em cima de mim, eu gritei “fui operada da vesícula!”, mas ele rasgou minhas roupas e as jogou longe, cada puxão e lá se ia uma peça, e aí sua violência me sufocou, e eu cedi, cedi, mesmo porque não tinha outra coisa a fazer. Não deu nem tempo de desligar a televisão.

Chorei no chão, aniquilada, mas ele se satisfez, levantou-se e sumiu – nem uma palavra, nem um gemido, nada.

Passei três dias sem ir à repartição. Só chorava pelos cantos do apartamento, imaginando que a qualquer momento ele apareceria com sua violência. O ataque fora na segunda-feira; na terça ele não veio, nem na quarta, mas na quinta, na mesma hora… brutalidade, dor, angústia!

Procurei Cleonides, que é professora, é casada, espiritualista, estudada, viajada, e ela me explicou tudo. “É um íncubo!”, ela disse.

“Um…?”

“Íncubo. Ín-cu-bo. É um espírito maligno masculino que ataca mulheres… como você. O contrário, o espírito feminino que faz a mesma coisa com os homens, chama-se súcubo. Sú-cu-bo.”

“Mas por que eu, Cleonides?”

Aí ela me olhou com uma cara de desdém que não gostei, como se dissesse “eu acho que motivo ele nem tem”, mas ela consertou, muito inteligente, e veio com uma história de carma, que eu devo ter feito alguma coisa horrível em outra encarnação, e agora estou pagando…

Sei lá. O homem… a coisa, ou o gênio – é um gênio, não é? – tem uma consistência de borracha, ou isopor, só que pesado, isso eu não pude deixar de sentir. Como não sentir? Veio quinta, na sexta me deixou em paz, voltou sábado e domingo… Nem uma palavra, nem um gesto: aparece de repente, salta sobre meu pobre corpo e…

Tenho chorado muito todos esses dias. Li na revista do dentista que a solidão afeta a mente das pessoas. Que elas chegam a ficar roucas de não falar. A solidão é a maior praga do mundo ocidental. É um vírus… E até ele, o fantasma, o gênio… ataca mulheres sozinhas, desamparadas. Sem ter outra coisa a fazer no mundo… Com toda sinceridade, acho que ele é uma pessoa muito só, também.

Do livro Allegro – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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