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Archive for 8 de fevereiro de 2010

Não vou dizer que nunca conheci homem. Conheci, sim, o Geraldinho. Foi em 1967, nós éramos quase crianças, ele me enganou dizendo que gostaria apenas de um carinho, mas eu queria ser enganada, eu queria. Acho que aquela foi uma das três ou quatro vezes na vida em que perdi a razão. As outras duas foram de raiva mesmo, mas no geral sou muito calma.

O Geraldinho foi tão delicado comigo e com minha inexperiência, naquela única vez, que eu jamais havia imaginado quanto um homem pode ser violento – e quanto uma relação sexual pode magoar, despedaçar uma mulher frágil, sozinha no mundo.

Eu disse “um homem”, mas não sei se aquilo era – era não, é – exatamente um homem, ou se já fora homem, bem, eu estou confusa.

Faz quinze dias. De noite, quase nove horas, o último capítulo da novela das oito estava no fim, quando Amância revelou ao doutor Clésio que fora ela que matara Fidalga, a esposa dele, a doentinha. Meu Deus! O doutor Clésio tão apaixonado por Amância… Eu fiquei com lágrimas nos olhos, mas aí vi uma sombra perto da porta do banheiro, achei que era a lágrima atrapalhando a vista, enxuguei os olhos, olhei de novo – e lá estava ele.

Corpo escuro, mas não era negro. Um rosto sem expressão, um rosto sério, com cabelo, lábios, nariz, olhos, tudo da mesma cor, um marrom, uma cor esquisita – a cor dos demônios?

Aí ele veio se aproximando, eu paralisada, saltou em cima de mim, eu gritei “fui operada da vesícula!”, mas ele rasgou minhas roupas e as jogou longe, cada puxão e lá se ia uma peça, e aí sua violência me sufocou, e eu cedi, cedi, mesmo porque não tinha outra coisa a fazer. Não deu nem tempo de desligar a televisão.

Chorei no chão, aniquilada, mas ele se satisfez, levantou-se e sumiu – nem uma palavra, nem um gemido, nada.

Passei três dias sem ir à repartição. Só chorava pelos cantos do apartamento, imaginando que a qualquer momento ele apareceria com sua violência. O ataque fora na segunda-feira; na terça ele não veio, nem na quarta, mas na quinta, na mesma hora… brutalidade, dor, angústia!

Procurei Cleonides, que é professora, é casada, espiritualista, estudada, viajada, e ela me explicou tudo. “É um íncubo!”, ela disse.

“Um…?”

“Íncubo. Ín-cu-bo. É um espírito maligno masculino que ataca mulheres… como você. O contrário, o espírito feminino que faz a mesma coisa com os homens, chama-se súcubo. Sú-cu-bo.”

“Mas por que eu, Cleonides?”

Aí ela me olhou com uma cara de desdém que não gostei, como se dissesse “eu acho que motivo ele nem tem”, mas ela consertou, muito inteligente, e veio com uma história de carma, que eu devo ter feito alguma coisa horrível em outra encarnação, e agora estou pagando…

Sei lá. O homem… a coisa, ou o gênio – é um gênio, não é? – tem uma consistência de borracha, ou isopor, só que pesado, isso eu não pude deixar de sentir. Como não sentir? Veio quinta, na sexta me deixou em paz, voltou sábado e domingo… Nem uma palavra, nem um gesto: aparece de repente, salta sobre meu pobre corpo e…

Tenho chorado muito todos esses dias. Li na revista do dentista que a solidão afeta a mente das pessoas. Que elas chegam a ficar roucas de não falar. A solidão é a maior praga do mundo ocidental. É um vírus… E até ele, o fantasma, o gênio… ataca mulheres sozinhas, desamparadas. Sem ter outra coisa a fazer no mundo… Com toda sinceridade, acho que ele é uma pessoa muito só, também.

Do livro Allegro – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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