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Archive for março \29\UTC 2010

Não foi uma coincidência muito feliz aquela história do monstro aparecer na praia de Punta del Chifre.

Todas as piadas já haviam sido feitas com o lugar, até porque Punta del Chifre se tornara famosa pelo grande número de automóveis com namorados dentro, fazendo amor alegremente, muito longe de barulhos e indiscrições, a qualquer hora do dia ou da noite.

O monstro apareceu pela primeira vez na noite de oito de outubro, lua cheia. Foi visto pelo casal Ananias e Josefina, ele solteiro, ela casada, com dois filhos. Ela ficou tão apavorada que esqueceu todo decoro, reputação, família, e saiu correndo nua pela praia, pedindo socorro aos gritos. Ananias desmaiou. Saiu tudo nos jornais. E Punta del Chifre confirmou sua fama de reduto de traições.

O monstro, segundo depoimento da pobre senhora infiel, era um humanoide deformado, de dois metros de altura no mínimo, de braços e pernas um pouco mais longos do que os de um homem normal; e o que seria a pele era uma cobertura de algas marinhas, de odor ofensivo, que provocavam náuseas e vômitos. A cabeçorra e os traços do rosto não se divisavam bem, certamente pelo excesso de algas que lhe pendiam do alto da testa, como se cabelos fossem. Mas o pior era o grito pungente e dolorido que a criatura soltava ao sair do mar e se aproximar, com certa agilidade, das suas vítimas. Nenhum dos ouvintes soubera precisar se aquilo era brado de dor ou de fúria. Mas todos se arrepiavam.

A primeira notícia apareceu num jornal popular que a tratou com o deboche que o caracterizava: “Monstro ataca cornos em Punta”. Foi o sinal para que até programas de televisão nacionalmente famosos, além de pesquisadores europeus e americanos, transformassem a desprezível Punta del Chifre numa praia da moda. Desfiles de coleção verão de shorts e biquínis foram feitos por lá. Os donos das duas barracas de coco do lugar, que viviam cochilando, enquanto os infiéis faziam amor dentro dos carros, chegaram a quadruplicar seus lucros e houve até denúncias de periódicos de esquerda de que toda aquela agitação não passava de especulação imobiliária.

Como que respondendo diretamente a esta acusação, o monstro amassou as nádegas de Querênio Acosta, diretor de um semanário comunista, no dia em que ele e um grupo de amigos resolveram tomar banho de mar no território da entidade demoníaca. Era meio-dia, ou quase, e de repente Querênio começou a gritar, dentro d’água, e a tentar afastar alguma coisa que o estaria perturbando na parte posterior do próprio corpo. Numa dessas tentativas, sua mão direita se encheu de algas viscosas de um odor tão forte que não se despregou do seu olfato por semanas.

“É ele! É ele!”, gritava o jornalista, enquanto seus amigos riam do que imaginavam ser uma performance.

Dia seguinte, as calças abaixadas e as nádegas arroxeadas de Querênio foram estampadas nas primeiras páginas de milhares de gazetas do mundo, além de aparecerem na televisão, apesar dos protestos da vítima. O pior é que ninguém vira o monstro, dessa vez apenas uma sombra dentro da água, que em Punta del Chifre é um pouco turva, diferente das outras praias da cidade. Com essa quase aparição, somavam cinco as vezes em que o monstro fizera algum estrago. Na maioria delas, surgira repentinamente da água e se aproximara dos carros ou das barracas de coco. As pessoas saíam correndo, gritando, e pronto: o monstro desaparecia. A polícia, por sua vez, sempre se atrasava, de quinze a trinta minutos. Os moradores das casas mais próximas à praia apenas ouviam os gritos do monstro, inesquecíveis, segundo eles, verdadeiramente terrificantes. Mas, de alguma maneira, a aparição já havia virado rotina e o povo começou a se perguntar que diabo pretendia o estranho ser, aparecendo somente por ali.

Manfredo Ornellas, o único especialista em artes divinatórias, paraciência e esquisitices de um modo geral que se conhecia na cidade, acabou sendo contratado por uma marca de xampu e uma emissora de tevê para tentar explicar o fenômeno.

Na primeira noite, sempre com uma câmara a persegui-lo, Manfredo andou pela praia de Punta del Chifre, a essa altura absolutamente deserta, e perguntou ao mar e ao vento: “De onde você vem, monstro marinho?” O ambiente foi se condensando de tal forma que um dos câmaras da tevê patrocinadora, um rapaz extremamente sensível, sentiu-se enforcar por uma mão invisível, e acabou sendo retirado às pressas do local, com uma crise de ansiedade. Mas o guru, firme, passou a noite a conversar com o nada.

No dia seguinte, quando imaginavam que ele faria uma outra coisa, um pouco mais palpitante, Manfredo olhou para a luzinha vermelha da filmadora, com a experiência de quem já dera milhares de entrevistas, e anunciou:

“Já sei o que acontece.”

Correram para chamar a repórter e o especialista foi devidamente entrevistado. Descartou, de cara, uma conspiração imobiliária, ou de terroristas que tentariam insuflar o povo contra autoridades, impotentes diante do caso. Com uma simplicidade chocante, olhou para o alto, cofiou as longas barbas grisalhas e disse:

“Trata-se de uma egrégora criada pelos cornos.”

Teve de explicar que egrégora é uma força aglutinada a partir do pensamento de um grupo.

“Os cornos, vocês sabem, sofrem, consciente ou inconscientemente, a humilhação, que é muito pior do que a traição em si. Eles convivem, o tempo inteiro, com a mentira personificada por aquela (ou aquele) que o trai.”

Fez uma pequena pausa para explicar que corno não tem sexo.

“O desespero dos cornos, cujos traidores estiveram nesta praia, forjou no mundo astral esta pobre criatura que, apesar de monstruosa, apenas sofre e se lamenta da dor profunda, inenarrável, da perfídia. É um pobre coitado, o monstro. Não fará mal a ninguém…”

Manfredo Ornellas ainda foi obrigado a explicar um conceito meio complicado: o verdadeiro corno, segundo ele, não é a vítima, mas o traidor, porque só este tem consciência do crime e experimenta a culpa. Daí o monstro aparecer diante dos algozes e não das vítimas.

Todos se olharam, incrédulos; o fabricante de xampu ameaçou exigir do paracientista a devolução do dinheiro do investimento, mas, diante daquela revelação pública, o monstro não voltou a aparecer.

“Os aleivosos”, concluiu o médium, dias depois, “estão curtindo suas malfeitorias, alguns se arrependeram das torpezas praticadas, e bastou isso para desfazer a egrégora.”

A sensibilidade do mestre e o seu conhecimento profundo da lamentável condição humana lhe garantiram, no entanto, que o fenômeno certamente retornaria à cidade por meio de um novo símbolo.

“O corno”, ele admitiu, “é uma instituição secular da nossa cidade e quem sou eu para acabar com ela?”

A nova egrégora poderia repetir-se, formando um novo monstro do mar ou outra plasmação qualquer, talvez uma grande ave gasosa que atravessasse as matérias terrenas soltando grasnidos apavorantes. Seriam claras advertências àqueles que comem os parceiros dos outros:  pérfidos, pois não há dor maior do que chifres a nascer de testas inocentes!

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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1

Culpado sempre se aponta, e Leonides Trifas, do 7º. step, foi o acusado.

As testemunhas do caso ficaram conhecidas por sua grande covardia e omissão, mas elas confidenciaram a amigos íntimos que, naquele dia de horror, Leonides aproveitou-se de uma rápida saída de dona Fitinha, a iniciadora de História, quando ela correu a atender ao telefone. Era o seu mais recente namorado, esse um pouco mais magro que os outros, comentavam as meninas da outra ala da Nossa Iniciação, separada da ala masculina por um muro de quatro metros e cães pastores treinados, além da guarda de segurança. As meninas comentavam e riam, e riam muito, que o novo namorado de dona Fitinha ostentava um enorme saco, a julgar pelas calças muito frouxas, calças de despiste, mas que não conseguiam esconder totalmente suas desproporções.

Naquele dia, Leonides Trifas teria escondido na bolsa um tijolo e, na ausência da iniciadora, mirado o rosto pio da Madonna, no vitral de traços acadêmicos, só que acabou acertando-lhe o halo indicador de santidade.

Ouviu-se, então, não um ruído de vidros estilhaçados, mas um grito de volúpia, ou dor carnal, consentida.

O grito, que ao mesmo tempo era excitante e aterrador, acabou num eco que o confirmava, eco sem-motivo, porque a sala do 7º. step da ala masculina fica muito distante da concha acústica, para as apresentações dos corais Verbo Divino (meninos) e Maria Mártir (meninas). Depois, o eco tomou conta de cada sala, corredor, banheiro, desvão, e isso nas duas alas da escola, passando por cães e guardas e muro alto, como se, em cada canto, estivesse um Leonides Trifas jogando pedras nos vitrais, basculantes, vidros de mesa, óculos, até o cinzeiro de cristal de dona Clara John, a iniciadora-maior. Tudo foi ruindo, foi cedendo, foi caindo não se sabe de onde. Alguns meninos e meninas chegaram a comentar depois, em suas respectivas alas, naturalmente, a visão de Aparecida Medina, 14 anos e um busto de mais de 20: o cinzeiro em forma de bola de cristal da iniciadora-maior, onde a cinza, quando depositada com razoável concentração mental, sugeria formas humanas e animais, interpretadas pela mística senhora como a antevisão dos seus próximos dias, ao espatifar-se no chão soltara uma densa fumaça avermelhada de onde surgiu a figura de um gigante completamente nu, numa escala aproximada de 1:50. E não era um gigante qualquer mas a figura de Ionesco da Silva, o iniciador-proprietário da Nossa Iniciação. Suas mãos agarravam-se à própria cabeça, e o rosto de óculos quebrados era uma careta só, de uma dor insuportável: no lugar do sexo, uma enorme borbulha de sangue, de onde também escapavam esguichos, e foi um desses esguichos que desenhou o sinal da cruz no rosto contraído de Aparecida Medina. A garota não soubera explicar como transpusera o muro, a guarda, os cães, e fora aparecer ali, na ala masculina, num step masculino, onde dona Clara John pusera seu cinzeiro inseparável. Naquela hora, Aparecida desmaiou, gritando antes:

“Amém, Dr. Ionesco, amém, amém!”

Mas não foi somente Aparecida quem transpôs a muralha entre as duas alas. Durante a queda e quebra de todos os vidros ocorreu uma confusão inexplicável. Ninguém ficara no seu lugar. Houve pânico, um pânico muito parecido com o que acontece dentro de aviões caindo, conforme lembrou um iniciado, o Josués, que estivera naquele famoso Boeing que explodiu na Ilha dos Adventos, sendo um dos três sobreviventes. Pois se o primeiro vitral quebrado do 7º. step masculino lembrava certo clamor de úteros, o que se seguiu de ruídos, durante muito tempo, era o áudio completo, em volume de discothèque, dos últimos instantes de Sodoma e Gomorra. Gemidos, gargalhadas, sem exceção, pois todos se despiram, total ou parcialmente, iniciadas, guardas de segurança, funcionários, iniciadores, todos se atracaram, sem preocupação alguma de separar sexo, idade ou grau de intimidade. Pelo contrário: a não ser os iniciadores, que lecionavam nas duas alas, e também alguns funcionários mais velhos que tinham licença especial de se encontrarem após o término das iniciações, meninos e meninas só vieram a se conhecer nesse dia, ensaio de fim de mundo.

Foi coisa de poucos minutos, apesar da impressão de um dia inteiro.

Quando se fez o silêncio, todos arfavam, esgotados, o coração saltando por dentro. Dona Heliomara, por exemplo, a iniciadora de Fundamentos da Filosofia (e logo ela, que sempre guardava metro e meio de distância ao se dirigir a qualquer homem ou menino), dava de mamar a um dos pastores-alemães da equipe de segurança, cachorro de nome Pitt, que se destacava dos demais pela eterna voracidade, sempre à procura de restos de lanche nos pátios. Dona Heliomara gritou e Pitt fugiu levando um negro mamilo entre as presas.

Todos tentavam se refazer, sem se encarar, abotoando calças e baixando vestidos. O iniciador- proprietário, Ionesco da Silva, era o único que esbarrava nas pessoas (míope, quase cego), à procura do serviço de som para anunciar que todos estavam dispensados, que, por favor compreendessem a situação caótica provocada pela quebra dos vidros, que telefonassem aos seus pais ou responsáveis para virem buscá-los o mais rápido possível, pois até as peruas da Nossa Iniciação, estacionadas nos pátios, tinham seus vidros quebrados, que todos entendessem…

Dr. Ionesco não pôde falar mais, chorava. O microfone lhe foi tomado por Rudolf Berna, o assessor de Política Interna da Nossa Iniciação, homem de óbvia formação militar e sangue frio proverbial, que nem se incomodava de estar só de cuecas, longas cuecas de algodão, manchadas de sangue e esperma. Berna acompanhava a retirada dos iniciados com explicações em voz pausada e grave, estranha à situação geral:

“Atenção, iniciados e iniciadas, podem ir saindo, mas, enquanto saem, ouçam a voz da razão, por favor. Não fiquem confusos, todos vocês sabem, alguns até já estudaram o assunto, que ruídos acima de determinados decibéis podem afetar o cérebro, impondo fantasias e ilusões aos suscetíveis. E todos nós somos sensíveis a isso! Faz parte da condição humana e … animal. Não se deixem levar pelo alvoroço dos sentidos, pois nossa mente foi simplesmente bombardeada de ruídos de quebra de vidros, algo muito lógico, tão lógico (vejam vocês…) o que aconteceu.”

Limpou a voz com um pigarro viril:

“Iniciados e iniciadas: o irreal não pode ser levado em conta, o parapsicológico está devidamente repelido pela boa ciência, portanto não devem vocês dar proporções de realidade a alucinações de decibéis acima do suportável… E mais, queridos iniciados e iniciadas: Deus mais uma vez foi bom e justo para com todos nós, pois ninguém, absolutamente ninguém, a não ser o caso de uma iniciadora mordida por um cão assustado, ninguém sequer se arranhou com todos os vidros que caíram… Verdadeiro milagre… E nós tentaremos, queridos iniciados e iniciadas, nos inspirar na Justiça Divina e abrir um inquérito rigorosíssimo a fim de punir o responsável pelo…quebra-quebra. Rigor e hombridade são características centenárias da Nossa Iniciação, desde 1864 zelando por vossa educação e pureza de espírito. O último dos estabelecimentos de iniciação a cultivar a Moral e os Bons Costumes num país arrasado pela anarquia liberalizante!”

Alguém o lembrou que ele estava de cuecas, e cuecas comprometedoras, mas ele não ouviu, inflamado:

“Aguardem, todos podem aguardar que os responsáveis serão punidos! E a chamada para o reinicio das iniciações será feita através dos jor…”

Dr. Ionesco da Silva empurrou-o, tomou-lhe o microfone (já havia encontrado seus segundos óculos, de acrílico, e constatara que nada de acrílico fora afetado nos prédios), desligou o serviço de som e, com o rosto muito vermelho, gritou ao assessor político Rudolf Berna:

“Se você, imbecil, tocar na palavra jornais, será apontado como o causador dessa… dessa… tragédia!”

O assessor ajoelhou-se e beijou-lhe as mãos trêmulas, dizendo, comovido, que dos humildes é o reino dos céus.

2

Dr. Ionesco tinha motivos para temer os jornais. Quando vistoriava os prédios, ao lado de funcionários mais velhos, caiu numa depressão funda, que sequer tentou disfarçar. No meio do vidro picado contavam-se dezenas de peças de baixo, denunciando que, para grande parte das meninas, a virgindade se fora, sanguinolenta.

“Mas em tão pouco tempo…!”, tentava raciocinar, e quase não era possível raciocinar, porque o rosto apavorado de Aparecida Medina (que seios, meu Deus, que seios!) não lhe saía da cabeça, ela olhando para ele e gritando “amém!”, mas deixando-se sodomizar, oferecendo-se, escancarando-se, ajustando-o, pois ele não era assim tão jovem para aquela expedição, e ela depois desmaiada entre urros de prazer, enquanto ele gritava palavrões, uns que já havia esquecido, em francês, aprendidos nas suas iniciações em Paris, na década de 30.

“Está tudo perdido”, disse o Dr. Ionesco aos funcionários. “Comecem a atender aos telefonemas dos pais revoltados, fechem as portas, pois até pressinto que teremos vingança por aqui e… bem, vamos esperar…”

Ele próprio esperou, ao lado do PABX, e apenas recebeu telefonemas comerciais, ou um outro pedido de dispensa de iniciados através das vozes sempre benevolentes de pais e mães. À noite, ele próprio tinha dúvidas do que ocorrera além da quebra dos vidros, dos seus momentos absurdos e másculos com Aparecida Medina, e certa frustração toldou seu pensamento. Mais dentro da noite, pois não conseguia dormir, o Dr. Ionesco imaginou que suas próprias dúvidas seriam as de todos, sim, é claro!, a dose de loucura fora tão forte que não seria possível acreditar nela… e … absorvê-la psicologicamente. Mas havia a questão somática. “Como essas meninas vão explicar o defloramento?”, perguntava a si mesmo, até que a manhã trouxe os jornais da cidade e em nenhum deles leu-se qualquer menção ao acontecido. Nem ao acidente com os vidros, muito menos às consequências.

E foi a partir desse imenso alívio que o Dr. Ionesco da Silva resolveu criar a figura de “O Culpado”. Dezenas de alcaguetes vieram contar-lhe que fora  Leonides Trifas, do 7º. step, a causa primeira do quebra-quebra. Mas o Dr. Ionesco resolveu que Leonides ficaria para depois, se surgisse alguma oportunidade.

3

As reformas levaram apenas uma semana. Os vidros foram substituídos pelo inquebrável acrílico, cada família sendo avisada que surgiram problemas com algumas janelas e que as iniciações perdidas seriam repostas, assim como os óculos de alguns iniciados que se quebraram naquele dia, por causa de alguns sustos etc.

Mas, se o Dr. Ionesco da Silva estava quase certo de que o assessor político tinha razão, que o ruído desnorteara a todos, criando ilusões, foi tomado de certeza contrária no dia da volta às iniciações. Cabisbaixos, falando pouco, desconfiados, confidentes, iniciados e iniciadas tomaram seus lugares. O recreio deixou de ser a balbúrdia de sempre, nas duas alas, e aqueles grupinhos reunidos aqui e ali certamente comentavam os acontecimentos da semana passada.

“O Culpado” era a melhor novidade da Nossa Iniciação para, ao menos, desviar um pouco a atenção dos iniciados daquele assunto desagradável.

(Dr. Ionesco da Silva continuava perplexo consigo mesmo, pois, na hora da visita à ala feminina, por mais que tentasse escapar, deparou-se com o sorriso maravilhoso e puro de Aparecida Medina. Disse-lhe “bom-dia” gaguejando e não entendeu a resposta: “Eu estou muito feliz do senhor não estar ferido”. “Muito obrigado”, respondeu, de reflexo).

O iniciador-proprietário fez questão de ir de step em step, apresentando o grande boneco de isopor, coberto de lona grossa, revestido ainda de material absorvente, um papel vermelho esponjoso, removível e renovável:

“Meus iniciados (ou minhas iniciadas): seguindo as teorias do iniciador lusitano Ramos d’ Almeida, que em toda a sua vida pesquisou causas e efeitos da agressividade, especialmente a juvenil, resolvemos adotar no nosso estabelecimento, na Nossa Iniciação, está figura libertadora da agressividade…”

Apontou o boneco, que balançava levemente, suspenso dez centímetros do chão, preso no teto por linhas de náilon que lhe foram amarradas por baixo dos braços. O boneco era apenas cabeça, tronco e membros, sem maiores semelhanças a um homem comum. Teria um metro e 80, se tanto.

“Todos vocês estão vivendo uma idade perigosa, de uma agressividade às vezes incontida. Pois bem: este boneco, que podemos chamar de “O Culpado”, servirá de catarse, de alívio dessa agressividade. Façam isto: quando estiverem com raiva, ou com impulsos, digamos, incontroláveis, com ódio mesmo de alguma coisa, batam, chutem, cuspam (com perdão da palavra) no “Culpado”. Ele, sim,  sim, compreenderá… Alguma pergunta?”

“Por que está pintando de vermelho?”

“Digamos que “O Culpado” seja um porco marxista…” (Risos gerais)

“Dr. Ionesco: por que ele só tem forma de gente? Porque não tem nariz, orelha, dedos das mãos…”

“O que falta ao boneco, meu caro iniciado, sobra na sua imaginação… E atenção! ‘O Culpado’ poderá ser espancado na hora do recreio, mas se alguém sentir uma necessidade real de desafogar seus impulsos, é só pedir licença ao iniciador ou iniciadora que estiver dirigindo o step… Eles compreenderão…”

“Dr. Ionesco da Silva, com sua licença e sua bondade: onde está nossa querida iniciadora Heliomara Nunes? Sentimos tanto sua falta…”

O iniciador-proprietário olhou feio para Leonides Trifas. Teve vontade de dizer: “Você, maldito, é que deveria estar no lugar do “Culpado”. Mas acabou sorrindo para iniciado-problema, que não conseguia esconder sua expressão satânica.

“Meu caro Leonides: dona Heliomara Anunciata Nunes goza, atualmente, de licença prêmio, que ela muito merecia…”

Alguém falou baixinho por trás de Leonides Trifas: “Mas dona Heliomara não goza…” e isso bastou para que o step inteiro caísse numa risadaria agressiva.

Dr. Ionesco fingiu que não ouviu, o iniciador de Biologia, ali ao lado, também fingiu, mas o iniciador proprietário exigiu que um dos mais atacados de riso viesse até ele.

“Agora que vocês riram não sei de quê, vamos fazer um teste.”

Olhou para o rapaz, excitadíssimo, mal podendo fechar a boca.

“É claro, meu iniciado, que esse seu riso fora de hora e de propósito significa a frustração de algum instinto. Você está reprimido, meu caro. Então vá: dê um murro no “Culpado”, no culpado pelo seu descontrole nervoso…”

O garoto socou o boneco à altura do que seriam os testículos; Leonides Trifas gritou “Uuuuuu”, e um novo ataque de riso, esse bem mais escandaloso, tomou conta do 7º. step, mesmo quando o iniciador-proprietário berrou, na iminência de um mal súbito:

“Todos fora, todos fora, três dias de suspensão e zero nas cadernetas de todos vocês! Todos fora! Anarquistas! Subversivos!”

Dr. Ionesco saiu quase correndo do 7º. step e, nem soube por que, foi parar ao lado do seu carro no estacionamento nobre do pátio. Entrou, saiu cantando pneus, algo que jamais fizera, em direção ao consultório do seu psicanalista.

4

Dona Heliomara Nunes estava voltando do psicanalista.

Abalada, a gente via pelas olheiras, e bem mais magra após a intervenção que sofrera para a implantação de um mamilo de silicone. O pior era o choque, o choque de todos os dias ao acordar gritando que havia um cachorro comendo-lhe o outro seio, ou o nariz, o sedem (ela nunca usou e nem mesmo pensou na palavra “bunda”). Recebera todos os cuidados da Nossa Iniciação, toda a compreensão dos colegas iniciadores e, ali mesmo, o braço amigo de Miss Mary Pereira, a ampará-la. Miss Mary era sua vizinha de apartamento no Doce Lar Vicentino, comunidade de senhoras solteiras (viúvas não eram aceitas) e respeitáveis, além de bem postas financeiramente.

Miss Mary convencera a combalida de que seria bom passear pelo Shopping Center, por que não, minha caríssima? E pelo fato de a temperatura estar baixa, dona Heliomara não teria o desprazer de se ver próxima dos decotes das perdidas, ou de homens de camisa aberta ao peito, ostentando pelos. As duas estavam olhando umas luvas quando dona Heliomara virou-se bruscamente, pois, para ela, o terror sempre fora intuitivo.

“Mary, miss Mary, ele está ali! Olha o caule dele, o caule!”

Miss Mary procurou (caule?) uma loja de flores próxima e nada descobriu, enquanto dona Heliomara arregalava os olhos de pavor, e fincava os dedos nos braços da outra, porque ali, a quase um metro e meio, Pitt, o pastor-alemão, apresentava-se de língua salivante, olhos cúpidos e ao mesmo tempo eufóricos de quem enxerga também em cores, e o pênis vermelho vivo que crescera descontrolado e, como um chicote (léput!léput!), zigue-zagueava no chão, molhando o ladrilho, enrolava-se sobre seu próprio corpo peludo, jogava-se na direção da pobre senhora, como uma serpente, o caule, a língua da serpente, “tem alguma coisa viscosa respingando na minha perna, miss Mary, miss Mary!”

NOTA IMPORTANTE:

Naquele mesmo dia, na sala do 7º. step, o Dr. Ionesco da Silva foi encontrado empalado por um rodo marca “Brunni”. Agonizava e – incrível! –  parecia feliz, sem contrações no rosto. Nenhum suspeito. Na sala, apenas “O Culpado”, em que algum irresponsável pintou uma boca risonha. Como o Dr. Ionesco estava vestido de um velho hábito de monge, a conclusão das autoridades não evoluiu do “suicídio, porém estranho”. Dr. Ionesco chegou morto ao Hospital Geral, mas antes pronunciou, com ar irreverente e boca torcida, a palavra “bonhéco”, “bonhéco”.

Do livro “Querido Senhor Assassino” – Editora Símbolo, São Paulo, 1979.

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E como se não bastasse o horror de sermos xifópagas, o Porco-Mor resolveu fundir-se a nós durante a Grande Bacanal de Setembro.

Grunhindo meio de lado (tão irônico, o Porco-Mor) ele foi-se chegando, de costas, e nós dormindo sob o totem florido, ele foi-se chegando, primeiro roçando aquele rabinho torcido, obsceno, na nossa barriga. Maria, ainda dormindo, deu umas risadinhas de cócegas; e eu, que acordei imediatamente, não sei por que não tive vontade de reagir. Um dia, tenho certeza, todos poderão me acusar de ter planejado aquela intromissão. O doutor não sabe, mas Deus sim, que isso não é verdade.

Mas, como ia dizendo, Maria só foi acordar com a dor, o sangue escorrendo por nossas pernas, eu quase desmaiada, e o Porco-Mor grunhindo alto, enfiando o focinho na terra ensanguentada por nosso corpo comum. Estava louco de prazer, o Porco-Mor.

Benfazeja, a nossa babá, quando descobriu o desastre já era tarde. Chorando alto, gritando “pobres princesas!”, ela ainda tentou apartar de nós o corpo nojento do Porco-Mor. Mas o senhor sabe, doutor, e Deus quis, já não havia jeito.

E a nossa difícil vida em comum, eu e Maria, teve de ser repartida com um animal repulsivo, mas inteligente. Maria não concordaria com isso, nunca, mas eu insisto na extraordinária inteligência do Porco-Mor. Unido a nós, ele iria sugando aos poucos as nossas qualidades racionais, as nossas almas. Benfazeja, a babá, escondeu tudo até de nossos pais, mas Deus e o doutor sabem, numa pequena aldeia como a nossa, o segredo é impossível. E, certo dia, um pastor de formigas nos surpreendeu a brincar debaixo do totem florido. O homem se assustou porque, a essa altura, o Porco-Mor já balbuciava algumas palavras: “dá-dá”, “neném”, “beja-beja”, esta última com certeza referindo-se ao nome da nossa babá que, coitada, era obrigada a conviver com aquele tríplice horror.

Pouco tempo depois, Maria e eu começamos a sentir que nossa pele se cobria de duros pelos (mas só do lado dela, não do meu) e que os olhos do Porco-Mor mudavam de tom, passando para o azul, cor dos nossos olhos.

Infelizmente, ou felizmente para mim, doutor, que sou uma egoísta, foi Maria quem começou a grunhir igual ao Porco-Mor, enquanto ele já se dirigia a mim com palavras claras: “Boneca”; “Perdição”; “Pedaço de mau caminho”; “Meu anjo”. Isso dito com aquele risinho de lado, que agora era um esgar humano, aquela velha ironia. Ele simpatizava comigo, estava claro, e não sei por que mecanismo biológico, sugava tudo, mas só de Maria, que já demonstrava sinais de irracionalidade, além do aspecto cada vez mais suíno, mais grotesco.

Ela já não podia reagir. Mais algum tempo e era ela quem chafurdava na terra, com o focinho que lhe crescera, debaixo do totem florido, jogando areia por cima de nós.

Não sei se fui má, na ocasião, mas comecei a tratar o meu novo lado inteligente de “Demetrius”, um nome que sempre me soou bem. Por causa disso, de eu não me mostrar ferida com o grande mal que ele fez à metade do meu corpo antigo, Demetrius tentou de todas as formas me envolver, me seduzir. Seus argumentos eram, de certo modo, aceitáveis. Eu não seria, na verdade, sua meia-irmã. E ele, apenas um estranho que simplesmente havia herdado de Maria as faculdades mentais e o aspecto humano. Eu resisti como pude. O senhor, doutor, não vai entender. Mas Deus sabe.

Um dia, Demetrius me beijou.

Não tenho palavras para descrever aquela sensação, doutor. Mas era como se uma onda de elétrons girasse por nossos corpos unidos, ora acumulando-se no lado dele, ora no meu, enfim, um pouco da felicidade que eu jamais sonhei acontecer.

Benfazeja, escondida atrás do segundo totem florido, viu tudo. E – ainda não havíamos separado os nossos lábios – ela correu sobre nós com um tacape, a cara de louca. À nossa frente, hesitou. Mas bateu. Bateu muito. Ela amava Demetrius, mesmo quando ele ainda era o Porco-Mor. Ciúme doido. Não sei por que ela não o matou. Correu chorando, respingada de sangue, com o tacape à mão. Agora o senhor entende, doutor? Entende por que eu lhe peço que nos salve, a Demetrius e a mim, pelo amor de Deus?

Eu amo tanto Demetrius, doutor.

Do livro “Leonora Premiada”, Editora Duas Cidades, São Paulo, 1974.

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A menina era magra, tinha uns dez anos, sardas e cabelos ruivos. Vestia uma jardineira meio suja de barro. Corria sob um sol manso de primavera, acompanhada de dois cães pastores, pelo jardim próximo da casa; na verdade, a área inteira era um imenso jardim, onde todos os tipos de plantas de uma floresta de chuva brotavam, exuberantes; eram árvores antigas aninhando trepadeiras jovens, frutas de vários tamanhos e cores a pender dos galhos folhados, um revoar constante de pássaros tenores e borboletas com asas de desenhos fractais.

O jardim, então, era um jardim dentro do jardim maior, e se constituía de um espaço próximo à casa, um pouco mais organizado do que no restante do sítio. Não era uma propriedade imensa: seu dono levantara alguns galpões de madeira, de telhas aluminizadas, onde cultivava alguns tipos de verduras pelo sistema de hidroponia.

A menina ia de uma flor a outra, de um canteiro a outro, andava e corria alternadamente, tão leve e graciosa que se confundia com o todo do jardim; movia-se ao sabor de um vento quase frio que começava a soprar mais forte.

“Madressilva”, dizia ela à flor, “dê um pouco da sua força à minha mãe.”

“Girassol”, insistia mais adiante, “a minha mãe está precisando de você; passe um pouco da sua energia, que é tão forte, tão bonita, à minha mãe, que está lá dentro, e está muito, muito mal.”

“Borboletas”, ia dizendo a menina a correr atrás das pequenas aquarelas voláteis, “se vocês quisessem poderiam, somente vocês, salvar minha mãe, com toda esse vigor em excesso que vocês têm.”

De repente, ela pareceu se lembrar de alguma coisa, e correu para o lado oposto da casa, onde havia um lago natural alimentado por um riacho de águas limpas mas escuras, refletindo o fundo lodoso. Os cães foram atrás dela.

“Ah”, ela falou em voz alta, “os peixes!”

Lá estavam eles, no riacho, preparando-se para cair nas águas mais tranquilas do lago e depois continuar a trajetória, passando para outro terreno, e para outro e outro ainda, até desaguar num rio sujo, próximo à cidade grande. Ali, procuravam uma outra saída em busca de vida, de oxigênio. Lá estavam: eram pobres tilápias e bagres, mas havia também os valorizados e agressivos black bass, que divertiam os pescadores de fim de semana, e que se confundiam com a água marrom.

“Garotos, garotos”, disse a menina, de cócoras à margem do riacho, “vocês estão cheios de vitalidade, agora, podem respirar bem, comer bastante… Deem um pouco dessa força à minha mãe, ela está morrendo lá na casa…”

Alguns peixes começaram a saltar, pouco antes da entrada no lago, como se sinalizassem um OK à menina, e ela sorriu. Os cães latiram, com todo aquele movimento. Ela então se virou para o maior deles, um macho de kuvasz suntuoso, de pelo branco brilhante:

“Você tem muita energia, também, Aghar. Por que não oferece um pouco à sua dona, de quem você gosta tanto? E por que não convence o Thame a doar também? Ele ainda é filhote, mas é muito forte, alguma força há de ter…”

Os cães foram se retirando, devagar. Venceram o aclive que levava ao riacho, atravessaram todo o jardim, quase colados, sem-ligar para as borboletas, os pássaros e as flores. Agora, um vento súbito, de chuva prometida, empurrou os girassóis. Os pastores entraram na casa, subiram as escadas e estacionaram à porta do quarto de sua dona. Ela estava recostada na cama, em dois travesseiros, o olhar fixo em nada. Ao seu lado, a médica e o marido não escondiam a inquietação.

“Não se preocupem, eu não vou ainda”, disse a mulher com voz titubeante. Era ruiva e sardenta como a menina. “Meu coração suporta mais um tempo”, continuou. “Quando chego aqui é como se tomasse todos aqueles remédios antigos, que me davam ânimo e agora não funcionam mais.”

“A gente pode morar aqui, em definitivo”, disse o marido, ajeitando, com carinho, os cabelos dela. “É o motivo que me falta para jogar tudo para o alto e passar a viver de plantar verduras…”

“Se ela se sente melhor aqui, acho que é uma boa decisão”, disse a médica.

“Só lamento uma coisa, e por favor não digam que estou louca”, disse a mulher. “Sobreviver não é tão bom assim. É adiar meu encontro com minha filha…”

Não conseguiu segurar o choro. O marido deu-lhe um lenço de papel que apanhou no criado-mudo.

“Não sei se a emoção, neste momento, vai lhe fazer bem. Não fale nela, pelo menos agora”, disse ele.

“Está certo”, disse a mulher. “Vou tentar.”

Aí ela viu os dois kuvasz parados à porta, olhando-a, compassivos.

“Venha, Aghar; venha, Thame.”

Eles quase pularam sobre a cama, balançando os corpos, chorando baixinho de felicidade.

A mulher mergulhou a mão direita no pelo profundo de Aghar.

Lá fora, o vento aumentou de velocidade, alguns galhos secos despencaram das árvores, e um sibilar estranho, que às vezes dava a impressão de um riso infantil, chamou a atenção de todos. Mas não era nada, somente a energia do campo.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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As noites têm sido frias, mas prefiro essa temperatura. A gente não transpira, não se sente desconfortável e, sobretudo, não é obrigada a suportar a irritação de todo mundo. É incrível como os humores mudam quando faz calor. Pelo menos no meio da rua, mesmo que esses homens tenham saído de casa para se divertir.

Os clientes têm achado graça da minha cadernetinha cor-de-rosa e da caneta da mesma cor que a acompanha, presa na lombada. Dizem as bobagens de sempre, que só gente como eu é que usa isso. Às vezes, essas coisas são ditas num tom agressivo, duro. Mas eu me acostumei tanto à minha função, que já não ouço nada. Assim como também nada sinto, fiquei anestesiada de vez depois do incidente no ano passado: corte na garganta, quatro pontos na cabeça, muito sangue. E foi o próprio cara que pagou o hospital, a plástica e a indenização de dois meses parada. Como as pessoas são estranhas: o monstro que me agrediu com tanta fúria é o mesmo que ainda me liga toda semana, que me manda flores, inclusive.

É por causa dele que fiquei indiferente a tudo, até ao carinho verdadeiro. Sabe, os boyzinhos são meigos, inseguros, fazem nanã, dão beijinhos. Um deles me disse uma vez: “Queria tanto que você fosse a Heleninha”. Que graça! Eu lhe disse: “Querido, a Heleninha vai acabar dando bola pra você, hoje em dia é tão difícil o amor, alguém que goste de alguém… Se você gosta dela, tanto assim, ela não deixará de perceber.”

Essa insensibilidade não é nada boa, não. Eu sou gente, e gente possui sentimentos… Como é difícil mentir o tempo todo! Dia desses, fui obrigada a pedir desculpas ao carinha, ele reclamou que eu estava fria. Ele disse: “Sei que faz parte, não vou querer que você goste de mim, mas você tem de fingir legal. Tem de ser atriz. Jogar o jogo”. Eu disse: “Cara, você tem razão, vou me esforçar…”

Acho que ele saiu feliz daquela noite. Por outro lado, essa frieza, essa indiferença têm lá suas vantagens. Às vezes é difícil ser tão profissional. Mas gosto mesmo é quando aparece um contador de histórias… Não quero largá-lo! Cada uma… As coisas engraçadas que as pessoas fazem, meu Deus, sobretudo nas cidades do interior… Um causo melhor do que o outro! Eu me ligo mais nas histórias de assombração, o eco dos passos dos fantasmas dentro dos casarões, os mortos-vivos que saíam dos cemitérios para dar uma volta, as noivas brancas que matavam as pessoas de susto dentro das velhas igrejas. Melhor que novela de televisão!

Agora, não tenho mais tempo de ouvir lorotas. Fico com o cliente uma hora, e pronto. Está dando certo. Hoje é dia vinte e um e já faturei mais do que em qualquer mês que me lembre. Aí os caras perguntam: “O que você está escrevendo na cadernetinha?” Eu respondo que não é nada, são umas coisas que lembrei de fazer em casa, quando voltar. Mas eu quero mesmo é ter o prazer de contar cada tostão que ganho, para sentir que estou cada vez mais perto de arrancar aqueles troços e virar mulher de uma vez.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Encontrei J.G. Pearson num bairro longínquo da cidade, usando o nome falso de John Smith e conhecido na região como “o gringo”. Estava acompanhado da porta-bandeira da Escola de Samba Boca Vermelha, a sensacional Govinda. Não sei o que é mais incrível: se a incompetência da polícia de descobrir fugitivos, ou a ousadia do americano que, além de estar sendo caçado em todo o território nacional, é um dos primeiros da lista de inimigos públicos da Interpol. Que coisa: o cara ali, a menos de dois quilômetros de uma delegacia de bairro, passeando com um mulheraço famoso na cidade, e ninguém fica sabendo.

Eu mesmo o vi por acaso, apesar de fazer parte do grupo que o caça há tanto tempo. Estava voltando da casa de uma das minhas namoradas, a Séza, que mora por ali, quando me chamou a atenção o Mercedes do ano e a mulata ao volante. Govinda é um fenômeno, gostosíssima. Ela e o americano trocavam olhares de paixão.

O cabelo do cara é branco, de tão louro, e pensei comigo: ‘caralho, os gringos só são racistas na terra deles.’ Mas meu raciocínio é lento, reconheço. Levei muito tempo para me dar conta de que conhecia aquelas duas figuras. Só que aí não havia como alcançá-los. Mesmo assim, dei meia-volta e saí tesourando o trânsito das seis da tarde, com sirene e tudo, gritando palavrões para os babacas na minha frente, mas ninguém mais respeita nem polícia na hora dos congestionamentos. Até entendo: esta cidade está muito sofrida.

De qualquer maneira, seria fácil chegar a Govinda. Algum tempo depois, consegui o endereço. Fui lá direto. Era uma rua só de casas, calçada de paralelepípedos e cheia de árvores antigas. Crianças brincando, carrões entrando e saindo de garagens amplas. Lugar muito agradável. Minha paquera, que é do mesmo bairro, ou melhor, dos fundos do bairro, mora numa rua de merda, de asfalto carcomido e um buraco de esgoto sempre aberto, porque alguém rouba as tampas.

A casa de Govinda, dois andares, escada em S, estilo modernoso, estava fechada. Cheguei a cochilar na campana, poderia até ter sido assaltado: afinal, uso um carro de chapa fria. Mas está caindo aos pedaços, não serve nem pra desmanche.

A mulata voltou três horas depois, sozinha no Mercedes. Por mais que trepasse bem e posasse nua, jamais arrumaria dinheiro para comprar aquela máquina. Ali tinha grana pesada de J.G., como a gente o chama na polícia.

Porra, e agora? Poderia invadir a casa, dar um aperto na gostosa, mas J.G. não é burro: aquele não era seu real endereço. Fiquei rodando feito um peru pela rua, dei uma parada na padaria da esquina, lugar de viado, com um cafezinho três vezes mais caro do que o da rua da Séza. O cara do café, um tal de Riche, uniformizado, com bonezinho, todo falante, me entregou o ouro: Govinda comprava bebida light quase todo dia; chegava sacolejando os peitos, num decote criminoso, e aí o tempo parava, ouviam-se as moscas tentando pousar nos pães doces. Clientes embevecidos. Ela, de vez em quando, vinha acompanhada do gringo.

“Acho que sei quem é; acho até que já vi esse cara na televisão. Parece americano. Será que é artista?”, arrisquei.

“Nada, é trambiqueiro”, respondeu prontamente Riche. Sabe, tipo largadão, tatuagem no braço. Como é que ele iria comprar um Mercedes?”

“É mesmo. Que trambique seria?”

“Para com isso, cara. Tudo: pó, armas, essas coisas. O gringo é polivalente.”

Pedi licença, dei uma volta nos quarteirões vizinhos. Voltei à rua, não havia ninguém, subi na ponta dos pés e observei a casa. Só vi o rabo do Mercedes na garagem e um jardinzinho com cheiro de jasmim.

Voltei para mais um café; o Riche continuava excitado.

“Que você faz?”, ele me perguntou.

“Fiscal da Defesa do Consumidor. Estou procurando padarias que explorem os clientes com cafezinhos de ouro… Você acha mesmo que esta porra de café vale tudo isso?”

“O nosso é mistura: brasileiro e colombiano importado. Vale.”

“Vai-te à merda. Isso é café de supermercado, só que muito forte.”

Ainda estava reclamando quando uma visão do paraíso surgiu à minha frente. Não sabia que Govinda era mais alta do que eu. Porra! Também com aqueles tamancões que mais pareciam palanques de comício… Observei-a cientificamente, como ensinam na academia. Deu até pra medir, assim no olho, o diâmetro dos mamilos, colados à blusa branca. Usava uma calça comprida, também branca, de tecido muito leve, colada mas nem tanto, com a calcinha mínima a marcá-la. Eu, se fosse bandido rico, também investiria naquele produto.

“Quero falar com o senhor, meu senhor.”

Ela veio de dedo pra cima de mim, apesar do “senhor”.

“Eu? Nem me conheces, ó monumento!”

“Deixa meu homem em paz…”, ela pediu, baixando um pouco a voz.

Olhei para o Riche. Traíra, filho da mãe. Avisara à mulata. Bati no revólver debaixo da camisa.

“Sabe por que traíra não tem filho?”, perguntei ao puto.

“Não, não sei”. Ele estava sério, agora.

“Porque não vive pra isso. Traíra morre mais ou menos com a sua idade.

“Tá me ameaçando?”

“Claro que tô, imbecil! Depois a gente conversa.”

“Deixa o Riche em paz, o negócio é comigo”, interrompeu a esplendorosa.

“Cadê o J.G.?” Fui chegando perto dela com a mão na cintura. Ela deu dois passos para trás, os peitinhos tremeluziram como estrelas meninas no céu de Minas Gerais.

“O nome dele é John, ô tira. Deixa a gente em paz! A gente se ama. John não agüenta mais polícia atrás dele.”

“Por que? Quantos vieram aqui?”

“Você é o quarto.”

“Os outros pegaram bola?” Fui chegando mais perto.

“Que é que você acha?”

“Que pegaram.”

Disse isso e agarrei o braço da mulata. A pele era feita de chocolate meio amargo, importado. Senti o gosto. Riche, quando viu que eu não estava brincando, desapareceu dali.

“Não sou corrupto, poderosa. Não porque seja honesto. É que tenho vergonha de aparecer na televisão, no jornal das oito, tentando esconder a cara.”

“Que é que você quer de mim?”

“Faz isso comigo não, nega… Olha que eu digo! Mas uma das coisas que quero de você é dica. Informação.”

“Não vou trair meu amor.” Disse isso baixinho, já saindo, olhando por cima do meu ombro pra ver se tinha alguém por perto. Eu fui atrás.

“Você tem uma carreira pela frente”, falei no ouvido dela, sorrindo, embevecido, sentindo a flagrância do seu perfume floral. “A cidade vai cair aos seus pés, lindona. Acho que esse seu amor é um homem morto. Se a gente não o pegar, a Máfia italiana vai metê-lo numa mó de moinho. Até as digitais desaparecem. Sabe, ele está muito encrencado.”

“Ai, meu Deus!” O timbre da voz de Govinda já era de viúva.

“Vamos lá, conversar na sua casa. Pode deixar que eu dou um jeito dele passar o Mercedes pro teu nome.”

E lá fomos. De vez em quando eu espiava às minhas costas. Riche poderia ter uns amigos metidos. Ainda perguntei à gostosa de onde tinha tirado “Govinda”, já que deveria se chamar Lucineide ou coisa assim. Ela disse que achou o nome numa loja de produtos naturais. Estava calminha. Já se conformara. Conheço quando alguém está prestes a abrir o bico.

“Vou lhe dizer uma coisa, majestosa: você tem os seios mais lindos que já vi na minha vida. São irmãos gêmeos, idênticos, mas têm vida própria, cada um deles. Não pode haver poesia e nem música sem os seus seios por perto. Deus exagerou quando fez você…”

Depois me arrependi um pouco do que disse. A gente não deve tomar liberdades com informantes.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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E Joana, que até agora não veio?

Talvez sejam os meus próprios fantasmas que estejam fechando o cerco sobre mim. Não são poucos. Agora, que tenho o dia inteiro pra pensar, descobri que todos eles vêm da infância. E é engraçado: quanto mais erros encontro nos meus saudosos pais, mais os perdôo e os amo.

Minha filha Joana, assim como seus irmãos, Maristela e José, ainda refletirão muito sobre os erros dos seus próprios pais, ou seja, sobre os meus erros, sobretudo os meus, porque Florbela foi uma santa em todos os sentidos.

Sinto muito medo. Sempre senti. E aí, nos mergulhos mais fundos da alma, deitado aqui nesta preguiçosa, a televisão desligada, que não a suporto mais, fui pesquisando a origem desse medo, e lamentando as estratégias que usei, durante toda a vida, para negá-lo. Poderia ter vivido a minha própria vida, mas acabei vivendo (e estendendo aos outros, inclusive aos meus filhos) a negação de mim mesmo.

Para não reconhecer esse pavor dentro de mim, gritei, bati, ameacei, abandonei, traí. Fui, em resumo, um grande filho da puta.

Esse medo volta agora, denso, indócil. Velho como estou, e em tudo dependendo de Joana, sou a vítima preferencial do meu próprio pavor. E a única. O meu medo já não me usa para fazer os outros sofrerem. Nem Joana, coitadinha, a única que me restou e que é a cópia exata de Florbela. Tão doce. Tão carinhosa. Não consigo entender por que está solteira ainda.

Onde está ela?

São onze da noite. Ela nunca demorou tanto assim. E também não me avisou. A última aula acaba às nove e trinta. Ela poderia ficar conversando com alguma amiga, ou até namorando, mas ela prefere voltar correndo para casa e ver como anda seu velho pai. Disse-me que ia comprar um telefone celular somente para conversar comigo enquanto estiver fora. Minha santinha.

Na semana passada, nosso bairro atingiu o recorde histórico de vinte e sete crimes em uma semana. Deu no rádio. Estamos longe de ser o ponto mais perigoso, mas, com esses números, chegamos também ao quinto lugar no ranking de violência da cidade. Que tristeza!

Eu tinha uns sessenta anos, na época, portanto não faz tanto tempo assim: a gente descia lá no ponto final da linha de ônibus, a dois quarteirões, e vinha a pé até a casa para caminhar um pouco, mexer-se. A qualquer hora do dia ou da noite. Quantas vezes, às duas, duas e meia da manhã, saí do escritório (ou de algum bar), desci no ponto, vim caminhando tranqüilo, curtindo minha cervejinha, um cigarro no canto da boca. Alguns cachorros latiam, um ou outro bêbado tentava puxar conversa. Seu Joveci, aqui da esquina, ainda estava vivo e sofria de insônia. Quantas vezes não me convidou para uma saideira!

Hoje, as ruas ficam desertas por volta das oito da noite. Dizem que são as novelas de tevê, mas eu tenho certeza de que é o medo. A perua cobra um pouco mais caro, mas acaba deixando Joana na porta de casa, porque nem ela nem ninguém se arrisca a andar dois quarteirões à noite.

Os crimes também acontecem de dia. Busilis, o filho de dona Ninha, morreu praticamente na minha frente, atingido por dois tiros que um cara gordo, de camisa aberta na barriga, disparou. Busilis era traficante, todo mundo dizia, e o cara gordo seria um agente policial. Acerto de contas lá entre eles. Meu coração bateu muito forte quando vi o menino caído, imóvel, a poça de sangue se formando debaixo dele.

Preciso conversar com alguém sobre Joana. Mas estou adiando esta conversa porque minha outra filha, a Maristela, não gosta que eu ligue para ela tarde da noite. Na verdade, acho eu, sente ciúmes. “Só liga pra mim pra falar de Joana”, ela reclama. “Nunca quis saber nem de seus netos…”

Não é bem isso. Um velho se sente muito frágil, pode desmaiar, pode cair, fraturar o fêmur. Quem cuida de mim? Joana.

“Maristela, me desculpe, aqui é seu pai.”

“Boa noite… quase bom dia, pai. Que foi?”

“Filha, estou preocupado…”

“Já sei: Joana não chegou.”

“Filha, me desculpe, sei que é tarde e seu marido não gosta, mas Joana não costuma se atrasar.”

“Pai, Joana é normal, é mulher, o senhor entende?”

“Antes de mulher, ela é filha.”

“Sabe de uma coisa, pai?”

“Não… Eu tenho medo de que alguma coisa tenha acontecido com ela, Maristela. É quase… meia-noite!”

“Sabe de uma coisa? Joana precisa se soltar no mundo, arrumar um namorado, tomar um chope, chegar em casa de pileque.”

“Não diga isso, Maristela, eu estou sofrendo.”

“Sofrimento? Eu conheço, pai. Por que Joana não liga pro senhor? Ela não é rica? Não vai comprar celular?”

“Está bem, Maristela. Boa noite.”

Não queria, não queria depender de ninguém. Nem de Joana. Mas tenho aqueles remédios para tomar antes de dormir, e preciso de um pouco de ajuda para sair da cadeira de rodas para a cama. Da cadeira para a privada, até que me acerto bem. Não sei o que vai acontecer. Talvez ela volte mais tarde mesmo, de pilequinho. Aposto que vai pedir desculpas, quase chorando, de ter-me deixado aqui, nessa agonia. E eu vou dizer assim: “o que é isso, filha? Você também tem o direito de conhecer o mundo…”

Do livro Allegro – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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