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Archive for 7 de março de 2010

E Joana, que até agora não veio?

Talvez sejam os meus próprios fantasmas que estejam fechando o cerco sobre mim. Não são poucos. Agora, que tenho o dia inteiro pra pensar, descobri que todos eles vêm da infância. E é engraçado: quanto mais erros encontro nos meus saudosos pais, mais os perdôo e os amo.

Minha filha Joana, assim como seus irmãos, Maristela e José, ainda refletirão muito sobre os erros dos seus próprios pais, ou seja, sobre os meus erros, sobretudo os meus, porque Florbela foi uma santa em todos os sentidos.

Sinto muito medo. Sempre senti. E aí, nos mergulhos mais fundos da alma, deitado aqui nesta preguiçosa, a televisão desligada, que não a suporto mais, fui pesquisando a origem desse medo, e lamentando as estratégias que usei, durante toda a vida, para negá-lo. Poderia ter vivido a minha própria vida, mas acabei vivendo (e estendendo aos outros, inclusive aos meus filhos) a negação de mim mesmo.

Para não reconhecer esse pavor dentro de mim, gritei, bati, ameacei, abandonei, traí. Fui, em resumo, um grande filho da puta.

Esse medo volta agora, denso, indócil. Velho como estou, e em tudo dependendo de Joana, sou a vítima preferencial do meu próprio pavor. E a única. O meu medo já não me usa para fazer os outros sofrerem. Nem Joana, coitadinha, a única que me restou e que é a cópia exata de Florbela. Tão doce. Tão carinhosa. Não consigo entender por que está solteira ainda.

Onde está ela?

São onze da noite. Ela nunca demorou tanto assim. E também não me avisou. A última aula acaba às nove e trinta. Ela poderia ficar conversando com alguma amiga, ou até namorando, mas ela prefere voltar correndo para casa e ver como anda seu velho pai. Disse-me que ia comprar um telefone celular somente para conversar comigo enquanto estiver fora. Minha santinha.

Na semana passada, nosso bairro atingiu o recorde histórico de vinte e sete crimes em uma semana. Deu no rádio. Estamos longe de ser o ponto mais perigoso, mas, com esses números, chegamos também ao quinto lugar no ranking de violência da cidade. Que tristeza!

Eu tinha uns sessenta anos, na época, portanto não faz tanto tempo assim: a gente descia lá no ponto final da linha de ônibus, a dois quarteirões, e vinha a pé até a casa para caminhar um pouco, mexer-se. A qualquer hora do dia ou da noite. Quantas vezes, às duas, duas e meia da manhã, saí do escritório (ou de algum bar), desci no ponto, vim caminhando tranqüilo, curtindo minha cervejinha, um cigarro no canto da boca. Alguns cachorros latiam, um ou outro bêbado tentava puxar conversa. Seu Joveci, aqui da esquina, ainda estava vivo e sofria de insônia. Quantas vezes não me convidou para uma saideira!

Hoje, as ruas ficam desertas por volta das oito da noite. Dizem que são as novelas de tevê, mas eu tenho certeza de que é o medo. A perua cobra um pouco mais caro, mas acaba deixando Joana na porta de casa, porque nem ela nem ninguém se arrisca a andar dois quarteirões à noite.

Os crimes também acontecem de dia. Busilis, o filho de dona Ninha, morreu praticamente na minha frente, atingido por dois tiros que um cara gordo, de camisa aberta na barriga, disparou. Busilis era traficante, todo mundo dizia, e o cara gordo seria um agente policial. Acerto de contas lá entre eles. Meu coração bateu muito forte quando vi o menino caído, imóvel, a poça de sangue se formando debaixo dele.

Preciso conversar com alguém sobre Joana. Mas estou adiando esta conversa porque minha outra filha, a Maristela, não gosta que eu ligue para ela tarde da noite. Na verdade, acho eu, sente ciúmes. “Só liga pra mim pra falar de Joana”, ela reclama. “Nunca quis saber nem de seus netos…”

Não é bem isso. Um velho se sente muito frágil, pode desmaiar, pode cair, fraturar o fêmur. Quem cuida de mim? Joana.

“Maristela, me desculpe, aqui é seu pai.”

“Boa noite… quase bom dia, pai. Que foi?”

“Filha, estou preocupado…”

“Já sei: Joana não chegou.”

“Filha, me desculpe, sei que é tarde e seu marido não gosta, mas Joana não costuma se atrasar.”

“Pai, Joana é normal, é mulher, o senhor entende?”

“Antes de mulher, ela é filha.”

“Sabe de uma coisa, pai?”

“Não… Eu tenho medo de que alguma coisa tenha acontecido com ela, Maristela. É quase… meia-noite!”

“Sabe de uma coisa? Joana precisa se soltar no mundo, arrumar um namorado, tomar um chope, chegar em casa de pileque.”

“Não diga isso, Maristela, eu estou sofrendo.”

“Sofrimento? Eu conheço, pai. Por que Joana não liga pro senhor? Ela não é rica? Não vai comprar celular?”

“Está bem, Maristela. Boa noite.”

Não queria, não queria depender de ninguém. Nem de Joana. Mas tenho aqueles remédios para tomar antes de dormir, e preciso de um pouco de ajuda para sair da cadeira de rodas para a cama. Da cadeira para a privada, até que me acerto bem. Não sei o que vai acontecer. Talvez ela volte mais tarde mesmo, de pilequinho. Aposto que vai pedir desculpas, quase chorando, de ter-me deixado aqui, nessa agonia. E eu vou dizer assim: “o que é isso, filha? Você também tem o direito de conhecer o mundo…”

Do livro Allegro – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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