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Archive for abril \28\UTC 2010

Entrou no prédio da editora com a convicção de que, desta vez, aceitariam seu manuscrito. Ficava no quinto andar; a responsável pelo setor de literatura adulta era uma senhora chamada Havana.

‘Será que ela me põe para fora, sem nem me ouvir, na hora em que perceber que eu escrevi tudo a mão?’, ele se perguntou. E, como jamais dava respostas a si mesmo, deixou no ar mais esta inquietação.

Apesar dos computadores e modernidades afins, preferia mesmo escrever do jeito antigo, com uma caneta Parker 51 que herdara do pai. Todos os amigos – sem nenhuma exceção – tentavam fazê-lo abraçar o que chamavam de bom senso. Mas Augusto T. da S. era rijo de raciocínio. Uma das provas era o seu próprio nome, que insistia em escrever desse jeito.

O encontro com a editora fora acertado a partir de uma poderosa amizade de família, alguém extremamente ligado ao próprio governador. Fora uma velha tia de Augusto que, um pouco a contragosto, mas premida por um lobby familiar, acabara entrando em contato com aquela pessoa. Afinal, alguém precisava fazer alguma coisa pelo “maluquinho”, como era tratado por todos, com boa dose de carinho.

Como costumava fazer, Augusto viu o nome de Havana grudado na porta, numa placa dourada de mau gosto, e não deu satisfação para a jovem atendente, na mesinha em frente à sala. A menina deu um salto, tentando interceptar a passagem dele, mas impossível: Augusto ostentava um metro e noventa e, apesar de afeito às malhações, andava meio largado, ultimamente, e passara dos cento e dez quilos.

“Meu senhor, não pode entrar! Um momento!”

Ele, contrafeito, parou exatamente na porta, que estava entreaberta.

“Como não posso? Marquei às dez da manhã e estou até um pouco atrasado.”

“Mas, meu senhor”, insistiu a menina, quase desesperada, tentando puxá-lo pelo braço para longe da porta, “dona Havana ainda não falou pro senhor entrar…”

Augusto ficou imóvel, de repente, olhando fixo para a garota.

“Olhe, vamos esquecer tudo. O incidente, tudo. Diga-me, sem pensar, sem usar a razão, por que você me chama de ‘meu senhor’ e não simplesmente de ‘senhor’? Por que, hem? Responda imediatamente!”

A menina, muda.

“Ah, assim não é possível!”, ele falou alto, e o pessoal que esperava o elevador ficou olhando, assustado. “Você pensou, censurou, usou a maldita razão – e me deixou sem resposta! Deve haver algum motivo antropológico muito interessante para o ‘meu senhor’… qual seria?”

Esqueceu tudo de novo e passou a coçar o queixo, ali mesmo, com aquela pasta enorme debaixo do braço. Vestia uma calça de brim que já deveria ter sido aposentada, uma camisa que já fora azul-claro e tênis que pareciam saídos de uma pelada no barro. Tinha quarenta anos, mas se dissesse que já fizera sessenta, ninguém duvidaria.

“Esse ‘meu senhor’ talvez seja uma forma portuguesa de adulação servil, e não memória do escravagismo, como, imagino, o senhor (sem o meu) possa ponderar…”

A voz que vinha em socorro da garota era a de dona Havana, parada na porta.

“Oi, tudo bem?”, perguntou Augusto, meio distraído, dirigindo-se à mulher.  Mas logo voltou ao assunto: “Não pensei nada disso: queria saber por que essa mocinha me considera seu, de alguma forma…”

“Não é possível que o senhor tenha pensado nisso. É muito óbvio.”

“O maior problema dos intelectuais é que não levam o óbvio em conta.”

“Sobrou pra mim”, riu a mulher. “Bem, seu Augusto, o senhor pode entrar à vontade. E finalmente.”

Ele sorriu para a editora, com muita sinceridade: achou-a simpática. Com dois passos chegou à cadeira à frente da mesa atulhada de papéis. Ao lado, um computador.

“A senhora usa esta… coisa?”

“O tempo todo.”

“Então por que sua mesa tem tanto papel?”

Ela não respondeu, de pronto. Saiu-se pela tangente.

“Os papéis, pelo que vejo, incomodam o senhor.”

“Não, não, o que incomoda é a desfaçatez de certas respostas, como esta última sua.”

“Senhor Augusto” – a editora que, de fato, já passara dos sessenta anos, respirou fundo –, “é verdade que o senhor veio me oferecer um original e está tentando atrair minha simpatia?”

“Se a sua simpatia for tão explícita como sua ironia, é.”

De repente, ele começou a gargalhar. Gargalhou sem, antes, fazer estágio no riso. Foi mesmo de súbito, como um ator consagrado o faria para ganhar tempo. Dona Havana sentiu-me muito incomodada.

“É tudo brincadeira, La Habana”, ele conseguiu dizer, em meio a resíduos de gargalhadas. A partir daí, a mulher não mudou a expressão desordenada do rosto. Ouviu toda a história dele: que escrevia desde criança, que se sentia um experimentalista (“fiz um capítulo inteiro sem parágrafos, vírgulas e letras maiúsculas”, exemplificou) e que gostava fundamentalmente de chocar o leitor. Aí quase jogou a grande pasta de originais no colo da editora. Primeiro desculpou-se de tê-los escrito a mão.

“Este fato, dito no prefácio, causará uma grande sensação!”, ponderou Augusto.

A mulher conseguiu articular alguma coisa:

“O senhor pode imaginar o número de pessoas que deveríamos empregar para administrar sua obra?”

“Nenhuma.”

“Como, nenhuma?”

“Tsss, tsss, e sou eu que não entendo de informática… Há software para isso, La Habana. Ele lê a letra manuscrita e a transforma em letra virtual.”

“Ah, ouvi falar. Mas dizem que não é tão eficiente assim…”

“Se quiser arrumo, mas só de contrabando.”

A editora acabou usando sua saída estratégica no trato com escritores enlouquecidos, bêbados ou drogados, ou as três desgraças juntas. Disse-lhe: “o livro seguirá para um conselho de leitores; depois veremos como anda nossa programação e…” À medida que ia falando, a expressão do rosto de Augusto se transformava, tornava-se bem-aventurada, como se ele ouvisse uma oração.

“Estou impressionado”, disse ele, tão logo ela encerrou a ladainha. “Vocês, editores, usam o mesmo texto, falado ou escrito, para despachar a gente. Tudo o que a senhora me disse eu já li nas cartas dos editores. Acho que dá até um bom artigo para jornal.”

“Seu Augusto”, interrompeu ela, quase mordendo o lábio inferior. “O senhor não me falou no título da sua obra.”

“Rabebom.”

“Rabebom? O que é isso?”

“O que o som indica. Ou seja: ‘rabo é bom’.”

“O senhor se refere à região caudal dos irracionais, ou ao coito anal mesmo?”, ela perguntou, próxima de uma síncope.

“Ao coito anal. Sabe, é uma…”

A editora levantou-se e pareceu muito alta.

“O senhor não vai discorrer, agora, sobre coito anal, não é, seu Augusto?”

O escritor olhou para ela e se levantou devagar. Aproximou os braços imensos para apanhar os manuscritos e dona Havana, de reflexo, deu dois passos para trás. Na porta, a atendente olhava a cena com um rosto de dúvidas.

Ele parecia abalado por uma depressão repentina. Chegou até a porta, mas ainda se virou para a executiva, ali imóvel, de pé, jogando ódio sobre ele, usando seu olhar duro.

“Acho ‘Rabebom’, assim, tudo junto, um título genial. Melhor do que ‘Deus é má’, meu livro de reflexões sobre o universo gay. Por falar nisso, La Habana, a senhora me perdoe, mas acho que a senhora se transformou, ao longo do tempo, numa pessoa perturbadoramente fálica. É uma pena.”

Antes de entrar no elevador, de forma abrupta, jogou o manuscrito na lixeira ao lado. Mas a pasta não coube, acabou se abrindo e as folhas se espalharam por todo o andar. Como se fosse uma maldição.

Dona Havana conseguiu sair da rigidez muscular, veio até o pequeno saguão, abaixou-se e começou a recolher aquelas folhas. Virou-se para a atendente e comentou que, pensando bem, “Rabebom” poderia vir a ser, realmente, um grande título. De um best-seller, quem sabe?

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003

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No fim da vida, vou ser obrigado a confessar que devo todo o meu sucesso, prêmios internacionais e outras homenagens ao ditador Porfirio Luz. E, se o meu país realmente me considera um dos seus símbolos, possui, por conseqüência, uma certa dívida para com “O Sanguinário”.

Acabo de dizer isso e ouço, agora, esse “uuuuuu” surdo da platéia. Pensei que seria assim mesmo, que vocês se chocassem e que até imaginassem este meu ato como um delírio próprio da decrepitude. Mas tenho testemunhas do que vou lhes dizer e, se for o caso, eu as recrutarei. Acho que possuo alguma credibilidade.

Em nenhum momento, senhores, demonstrarei simpatia política pelo ditador. Pelo contrário. A memória dos “mortos queridos da resistência” pautou minha vida de ativista e formou meu caráter. Não esquecerei, jamais, também, os anos de exílio a que fui submetido.

A verdade sempre faz bem aos anciãos e realmente não posso conviver, neste meu fim de vida, com a culpa do meu encontro secreto com o “Papá Morte”.

Eu havia publicado, com dinheiro emprestado do meu padrinho, o meu primeiro livro de poemas, um livro modesto, fino, que eu mesmo distribuí pela universidade, vendendo-o a um dólar e meio. Um dos poemas, não exatamente o mais fraco deles, mas um dos mais discretos, chamava-se “Porfirio no Espaço”. Quando o escrevi, tinha em mente apenas um personagem de ficção, alguém que por acaso se chamava “Porfirio”. Não pensei, jamais, no “Monstro Engalanado”.

E era poesia, pós-lírica, ingênua e quase juvenil, aquele texto em que Porfirio, o personagem, vagava por entre galáxias, como um Pequeno Príncipe sul-americano, só que em busca de uma saudade que deixara de sentir. Vejam vocês que coisa boba, um produto do sentimentalismo antiquado do jovem romântico que eu era.

Dois meses após ter lançado a obra, ou seja, ter vendido o primeiro exemplar no diretório central dos estudantes, justamente a Maria Almeja, minha querida professora de Idiomas, um oficial à paisana bateu lá em casa. Era um homem cordial que só se assemelhava a um dos cães do ditador por causa do corte de cabelo à escovinha. Nesse tempo de terror, qualquer estranho que batesse à nossa porta, ainda mais um homem bem vestido e bem alimentado, não podia ser boa coisa. Minha mãe tremeu quando ele pronunciou meu nome, apesar de ele tê-lo dito com respeito, sem qualquer traço de agressividade.

“O rapaz deve voltar dentro de meia hora”, disse minha mãe. “Foi comprar pão e leite. É meu filho.”

O homem perguntou se poderia aguardar um pouco, minha mãe lhe ofereceu a cadeira de balanço do terraço e perguntou se aceitaria um copo de água, que ele recusou discretamente. Anos depois, esse homem, que se chamava Afonso Corados, viria a ser o todo-poderoso ministro do Interior, acusado de corrupção e exilado em Miami. Morreu há uns três anos, com mais de noventa.

Quando cheguei e vi Corados me esperando, senti-me dentro de uma masmorra, talvez pendurado numa das famosas máquinas de tortura. Minha mãe leu meus pensamentos e começou a chorar. O homem ficou constrangido. E foi direto:

“Se a senhora pensa que seu filho está preso, acalme-se. Eu vim até aqui convidá-lo a conhecer algumas pessoas no palácio, em função do seu último livro de poemas.”

Minha mãe agradeceu apoiando-se no braço de Corados, que ainda lhe disse “Não se preocupe”. E só aí ele se apresentou a mim, pegou o leite e o pão das minhas mãos e levou-os até a mesa da sala, sem que o tivéssemos convidado a entrar. Depois, enlaçou-me pelos ombros. Era um homem imenso, de quase dois metros de altura.

“Meu rapaz, você terá a honra de conhecer o nosso presidente”, ele disse. “Talvez o nosso presidente seja o seu maior fã.”

“Mas, senhor, eu tenho vinte e dois anos e escrevi apenas um livro na minha vida…”

“Sim, ‘Pássaros sem Paisagem’: é o livro de cabeceira do nosso presidente.”

Aí eu me lembrei de “Porfirio no Espaço”, imaginando que o poema tivesse acendido o ódio do “Sanguinário”. Mas, se fosse verdade, por que ele mandaria um assessor importante me convidar a visitá-lo? O pânico não fazia sentido.

Pedi licença para trocar de roupa, pus meu único terno e lá fui, junto com Corados, a pé mesmo, pois nossa casa ficava a uns três quarteirões do palácio e os assessores ainda andavam pela rua sem escolta. Depois é que a guerrilha começou a matá-los em qualquer lugar.

O ditador me recebeu pessoalmente à porta imensa do palácio. Era diferente da imagem dos jornais, talvez porque as fotos fossem em preto e branco e mal definidas. O que parecia cor morena nas fotos, por exemplo, era um bronzeado intenso, de quem passa as manhãs na praia. Nas fotos, ele jamais sorria, e ali, pessoalmente, ostentava uma dentadura alvacenta, de dentes pequeninos, que me pareceu artificial. Ninguém, naquele idade, e ele já teria uns setenta anos, possuiria dentes assim tão bem tratados. Havia, junto a ele, outros assessores, uns quatro, rapazes muito jovens, mais até do que eu, e lembrei-me de que a oposição costumava falar da predileção do “Papá Morte” por meninos. Foi uma outra preocupação que tive.

“Meu poeta!”, o general abriu os braços para me abraçar. Tinha a minha altura, mas estava muito além do peso. O abraço foi apertado e íntimo, e eu retribuí do jeito que pude. Senti um cheiro forte e agradável de raízes, ele não economizava perfumes.

“Venha, venha”, ele me puxou pelo braço, fez um gesto com a cabeça para que todos se afastassem e foi me levando pelo amplo saguão, de pé direito de oito metros, ou mais, onde se destacava um lustre art noveau com milhares de lamparinas acesas. Muito bonito. Havia ali, perdidas no meio do imenso espaço, duas poltronas e uma mesinha; foi para lá que me levou.

“Meu querido filho”, me disse, olhando-me diretamente nos olhos, “todos os dias eu choro mais de uma vez por causa de ‘Porfirio no Espaço’. Tenho certeza de que você não o fez para mim, mas o poema evoca a minha própria infância, que passei fora do nosso país, como você sabe, e os vôos de Porfirio, que você descreve com tanta maestria e sensibilidade, são, ou melhor, foram os meus próprios vôos na juventude”.

Por um momento, procurei recordar o poema, imaginando que ele se prestasse às fantasias de um jovem homossexual, mas o meu Porfirio era apenas um garoto sonhador, com o sexo no lugar certo.

“Você não vai me dizer nada? Nem uma palavra?”, o general sorriu.

“Estou muito surpreso”, lhe respondi com sinceridade, “jamais pude imaginar que um trabalho meu pudesse causar este efeito…”

“Os caminhos da arte são mágicos, meu rapaz. Acho que você merece uma editora de peso, uma boa distribuição e até versão para outras línguas.”

Fui replicar, mas ele delicadamente pôs a mão na minha boca.

“Nã, nã… Nada diga, meu rapaz. Sei que você se preocupa com seu futuro, em parecer um poeta oficial, protegido do ‘Papá Morte’… Eu sei quem sou e o que represento para o nosso país. Sei o que os estudantes pensam de mim. O que você pensa de mim. Não se preocupe. Venha, quero lhe mostrar uma coisa.”

O general pegou-me pelo braço, novamente, e me levou a um longo corredor, de portas cerradas a cada lado, até que encontramos a maior de todas as portas, feita em carvalho trabalhado. Entramos. Era um pequeno teatro de uns cem lugares que, pelo jeito, também servia de sala de projeção.

“Fique aqui, rapaz. Eu vou para o palco.”

Talvez tenham sido os minutos mais longos da minha vida. Eu, no escuro, sentado num teatro vazio à espera do “Sanguinário”. Mas as luzes se acenderam e lá estava ele, de jeans e camiseta, pronto para a performance. E começou a declamar “Porfírio no Espaço”, com talento próximo da genialidade.

Vou confessar a vocês: eu aplaudi. Não para bajulá-lo ou coisa parecida. Aplaudi pela sua sensibilidade e, por que não dizer, competência dramática.

Antes de me despedir, disse-lhe, com a gentileza que me foi possível, que fazia parte da oposição não exatamente ao seu governo, mas ao regime autoritário que representava. Que não concordava com as mortes de revolucionários e o absurdo aparelho de repressão de que fomos vítimas por tantos anos.

“Você não seria um jovem de vinte anos se não pensasse assim”, me respondeu. “Fico feliz que tenha dito isso, eu ando cercado de mentiras agradáveis, de falsidades e ganâncias.”

Beijou-me na testa ao se despedir de mim. Foi assim, de repente; eu não esperava aquele gesto. “Desculpe-me, não pude evitá-lo”, ele se desculpou.

Logo depois fui descoberto pela editora Lapax, que imaginava de oposição ao governo, pela obra destemida que, aparentemente, tentava publicar. Ganhei muitos prêmios, sempre ligado à oposição, fui traduzido para oito línguas antes de completar vinte e sete anos, e todos os críticos me idolatraram naquela época.

Nunca mais vi o “Papá Morte”. Sabem, até hoje não consigo responder a mim mesmo qual a extensão da sua influência sobre minha carreira. Eu precisava dizer tudo isso um dia, publicamente, e me livrar de alguns pesadelos pessoais que sempre me perseguiram. Agradeço muito a atenção de vocês. E fiquem à vontade para vaiar-me ou jogar ovos podres sobre mim.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Quando acomodou-se no banco traseiro do Mercedes sentiu que alguma coisa acontecia com suas nádegas.

Apalpou-se todo por trás: era a nádega direita que se desprendera do corpo, petrificando-se.

Saltou do carro com as duas mãos segurando firme a pesada (bronze? ferro? aço?) escultura de si mesmo.

Entrou em casa (casa o quê! Palácio…) e se tivesse forças correria ao laboratório particular para identificar cientificamente o material em que a nádega se transformara.

O videofone tocou, ele atendeu com dificuldade.

“Ah, Geodésio…”

“O senhor pediu para ligar.”

“Comprou Vale do Rio Doce?”

“Sim. E também Banco do Brasil.”

“Petrobras?”

“Hoje não foi possível.”

“Imbecil!”

“Sou, sim.”

Neste momento, o videofone caiu com seu braço direito junto, petrificado. Do mesmo material da nádega. Ele ficou inquieto com a possibilidade da linha também cair. Usou o braço esquerdo para apanhar o videofone. Quase não conseguiu.

“Geodésio!”

“Aqui, senhor!”

“Compre Petrobras. A qualquer preço. Eu mando!”

“O senhor manda.”

A nádega direita já arrastara as calças para o chão.

“Geodésio: não tenho muito tempo. Só uma coisa: vendeu Sul América?”

“Claro, senhor.”

“Ainda bem. Desligo.”

“Sim senhor. Câmbio…”

“Câmbio é brincadeira, Geodésio?”

“Apenas inconsequência.”

“Não entendo você.”

Desvencilhou-se finalmente das calças, deixou o braço no chão, arrastou-se para a escada que dá direto ao solário. No terceiro degrau, seu conjunto sexual, incluindo pelos, desabou por dentro das cuecas. Aí, decidiu:

“Tenho de chegar ao solário, à minha senhora…”

Não sei se precisamente: mas no sexto degrau o outro braço caiu (do mesmo material, tudo indicava, e que diabo: bronze? ferro? aço?). No oitavo degrau foram as duas pernas. Faltavam mais dois degraus e ele levou aproximadamente quarenta minutos para chegar à entrada do solário. Foi extenuante. A senhora estava lá, à beira da piscina, nua, cor de bronze (seria bronze, o material?).

“Amor de minha vida!”

“Benzinho! Você ficou interessante assim, fragmentado.”

“Esqueci! Esqueci!”

“O que o atormenta, Baby-Boy?”

“Preciso falar de novo, já, com Geodésio!”

“Eu faço a ligação, ternurinha.”

(Pururum – Pururum – Pururum – Pururum – Pururum – Pururum – Pururum)

“Geodésio, boa tarde. Meu esposo tem pressa.”

“Sim.”

Ele falou mais alto que de costume.

“Geodésio: esqueça aquelas ações. Dê máxima urgência ao Projeto dos Fundos para a Estátua!”

“Claro. Agora. O nosso escultor-executivo está como sempre de plantão. O senhor quer vê-lo?”

“Não. Quando ele chegar aqui a estátua estará pronta, só precisa armar. Geodésio: minha cabeça pesa, a qualquer momento cai.”

“Dez minutos e ele estará aí. Um ótimo escultor.”

“Você também é um ótimo secretário, Geodésio… Geodésio:  minha senhora conseguiu o bronzeado total no corpo!”

“Dou-lhe os parabéns.”

A mulher sorriu, lisonjeada. Voltou-se ao marido.

“Já posso desligar; tudo do meu tudo?”

“Claro, amor.”

“Então desligo. Ah… queridinho: quando sua cabeça desabar, quanto tempo teremos de diálogo?”

“Imagino que três minutos, no máximo.”

“Escute, paixão: tomei a liberdade de encomendar um dizer. Posso lhe segurar um pouco a cabeça para alongar o diálogo?”

“Pode. E faça o que quiser com o epitáfio, ou o dizer. Não tenho tempo para dar opiniões. Mas que material você vai usar para o dizer, se nem eu sei em que tipo de metal estou me transformando, queridíssima?”

“Sua cabeça já está solta e petrificando-se, vida da minha vida. É melhor deixá-la cair.”

“Deixa cair.”

“Caiu. Ploft: caiu.”

“Vidinha: tenho segundos de diálogo. Qual o material em que me transformei?”

“Aço. De boa liga.”

“Por que, paixão?”

“Coisas da vida, açúcar.”

“Meu bem: conseguimos vencer a morte convencional. Fomos feitos um para o outro, não? Nosso casamento foi mesmo um sucesso, não…”

Esgotado o tempo, não houve resposta. A mulher nua bronzeada discou o videofone.

“Geodésio, é a senhora.”

“Sim.”

“A estátua do meu esposo deve ser inaugurada na próxima quarta-feira. Não vai ficar no jardim de inverno, como pensávamos, mas na antessala dos computadores, já que se trata de aço puro. É mais condizente. Concorda, Geodésio? Os convites estão prontos? Quero a melhor sociedade do centro-sul e toda a imprensa para a inauguração.”

“Evidente, senhora. Câmbio…”

“Câmbio, dito assim no videofone, não lhe parece um tanto…”

“Apenas inconsequência, senhora. Seu bronzeado é uniforme.”

“Até na sola do pé, Geodésio! Olha! Olha aqui!”

“Sim. Lindo. Mas não consigo me fixar na sola do seu pé, senhora. Há um ponto mais interessante.”

“Ah, Geodésio… Assim você me faz ficar vermelhinha de vergonha…”

“Impossível, senhora. Seu bronzeado não o permitiria. Câmbio…”

Do livro “Querido Senhor Assassino” – Editora Símbolo, São Paulo, 1979.

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O que é que Mr. Thompson J.J. poderia fazer com toda a família assassinada à sua volta? A mulher de bruços – posição adequada à sua obesidade; o filho mais velho, um morto sentado no chão de boca aberta, como se estivesse bêbado, era uma posição familiar; o mais novo – Mr. Thompson sentiu certa raiva do mais novo – caído no chão com os olhos esbugalhados (olhos verdes, de  bola de gude) para o teto, mostrava que havia morrido em pânico. Era o mais covarde da família, alguém lhe dissera isso um dia, talvez Mr. Thompson mesmo, e o rapaz baixara a cabeça, chorando.

Os urros vinham do sótão e Mr. Thompson imediatamente antipatizou com eles. Seria O Búfalo? O Chimpanzé Dolicocéfalo? O Tartamudo Anônimo?

Mr. Thompson subiu correndo ao sótão. O Búfalo – era mesmo o Búfalo – estava lá, urrando. As patas cobrindo o focinho. Chorava? Arrependido?

“Ei.”

O Búfalo olhou para o homem, sem surpresa, apenas incomodado por sua presença. Ia voltar a cobrir o focinho, quando, quando…

“Ei, Ei!”, o pai da família insistia.

“Quero ficar sozinho…”, disse o Búfalo.

“Eu sou o pai da família assassinada”, esclareceu Mr. Thompson.

“Muito prazer”, disse O Búfalo.

“É todo meu.”

“O quê?” O Búfalo, surpreso.

“O prazer. É o prazer que é todo meu.”

O Búfalo, envergonhado, ainda olhou para o homem. ‘Quando ele dizia’ pensou, “o prazer é todo meu”, estaria ironizando’?

“Reconheço que não foi um bom trabalho…” O Búfalo balançou a cabeça, ameaçando chorar de novo.

“Isso eu notei!”, disse o pai de família. “Trabalho muito sujo. Sem sutileza. A casa encharcada de sangue. E os corpos espalhados no chão. Uma desordem.”

Mr. Thompson gritou, de repente:

“Você não é uma pessoa asseada, Búfalo! Não é não! Como foi o contrato com o Sindicato? Hem? Hem? Como, como?”

“Serviço completo”, suspirou O Búfalo. E depois recomeçou a chorar.

Mr. Thompson J.J. saiu do sótão, deixando os urros para trás, irritadíssimo. Passou aos saltos sobre os cadáveres (a expressão do filho caçula quase lhe causa arrepios de nojo) e entrou na biblioteca. Apanhou a cabeça de antílope que enfeitava a parede (uma enorme cabeça de poliéster que ele havia comprado na Zona Franca; baratíssimo) e a enfiou na própria cabeça, como uma máscara. Depois, com alguma dificuldade (a máscara pendia para um lado e outro, ameaçando cair) abriu a gaveta da escrivaninha, apanhou o revólver. Ia voltar ao sótão, mas alguém bateu na porta.

(Hesitação. Mr. Thompson em dúvida: abrir a porta antes ou depois de liquidar O Búfalo?)

“Quem é?”, perguntou o chefe da família, com o ouvido grudado na porta.

“O pão!”, disse uma voz alegre do outro lado.

“Estão todos mortos, vá embora!” Mr. Thompson estava com pressa. O Búfalo ainda urrava lá em cima.

“Então, o senhor conseguiu a Magna Permissão?” A voz do lado de fora ficou mais alegre. “Então, parabéns Mr. Thompson! Não anistiou ninguém? Ninguém mesmo? Nem unzinho?”

“Estão todos mortos, palhaço! Caia fora! Se quiser mais informações, diga a todo mundo que o número do edital da Magna Permissão é 187/73.”

Mr. Thompson J.J. não quis falar mais e subiu as escadas equilibrando a cabeça de antílope. Mr. Thompson poderia perdoar tudo neste mundo – até a família – menos um profissional desleixado, anti-higiênico.

Do livro “Leonora Premiada”, Editora Duas Cidades, São Paulo, 1974.

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Atendi Onofre Olavo. Hoje, atendo qualquer um que se imagine cantor e queira conversar comigo. Aprendi a lição depois que Ângela Schiavetto tentou me encontrar durante dois anos, e eu a esnobei; ela acabou nas mãos da gravadora concorrente e vendeu, até agora, dois milhões de cópias. Só não fui pra rua porque tenho um acordo tácito com Lea, minha secretária: ela fica calada enquanto eu lhe garanto o emprego para sempre.

Onofre Olavo me veio pelas mãos de Aderildo, um jornalista especializado em MPB, um cara meio sombrio, meio bicho grilo, que eu sempre encontro, um tanto bêbado, em coquetéis.

“Não deve ser uma merda tão grande”, disse a Lea sobre o novo pop star em potencial, “pois o Aderildo, teoricamente, tem bom gosto.”

“Já leu os artigos dele?”, perguntou minha eficiente secretária.

“Também é pedir demais, Lea.”

“Ele é louco. Confunde tudo. Ele acha, por exemplo, que esse tal de Onofre Olavo canta música country.”

“E não é isso?”

“Puro blues. Ouvi as fitas.”

“Presta?”

“É estranho. Uma voz metalizada.”

“Tinha efeito na fita?”

“Acho que não.”

Trabalhamos nesse mercado, Lea e eu, há vinte anos. Depois que a música brasileira se acabou, ficou fácil vender discos e produzir algum sucesso. Mas nós, para nós mesmos, gostamos de música de qualidade, ou seja, só ouvimos os antigos, especialmente bossa-nova, ou então música erudita, fazendo concessões a um ou outro new age e alguns pop estrangeiros. Mas viramos cínicos. A gravadora não quer investir e o público compra por outros impulsos. Temos até uma boa verba para empurrar o artista, mas ele precisa de alguma coisa marcante. Se não for a voz, ou a cara, tem de ser o comportamento. Estou simplificando, mas é mais ou menos assim. Ângela Schiavetto tinha cara e comportamento. A voz, merda viva. Está aí, passando dos dois milhões. Nunca fui tão burro na minha vida.

Então, que venha o tal da voz metálica. Que nome: Onofre Olavo. Por que não Olavo Onofre? Não, não vou gozá-lo. Disse à Lea que não gostaria de ouvir nada do cara; ele deveria vir com violão ou karaokê portátil. Trouxe o karaokê.

Gozado: não seria só a voz, metálica; ele está aqui, à minha frente, e parece todo feito de alumínio, o rosto muito branco e a pele lisa, o cabelo muito liso também, penteado à Carlos Gardel. Alto e magérrimo, meio encurvado. Calça e camisa azul-motorista, certamente compradas em camelô. Apertou minha mão, de um jeito distraído, e ficou procurando um lugar para pôr a engenhoca do karaokê. Já ia ligando, para cantar, mas o impedi.

“Prefere ir direto ao assunto? Uma conversadinha antes não seria melhor, ou, pelo menos, mais normal?”

(Lá estava eu, gozando de novo. Eu precisava me segurar com essas minhas tendências.)

“Pode ser”, ele ponderou. E foi sábio: “Eu estava tentando economizar seu tempo, se fosse o caso.”

“Não sou uma máquina de avaliação”, reagi, mas com um sorriso. “Sente-se, por favor, conte-me seu começo. É amigo do Aderildo, né mesmo?”

“Ele conhece o meu trabalho.”

“Tá bom: você não toca nada? Só canta?”

“Um pouco de teclado.”

“Ah! Estou vendo que você está ansioso pra cantar. Vamos lá. Comece.”

Ele ligou o karaokê e, com gestos grandiloqüentes, como se estivesse num palco, interpretou “Nós dois em Veneza”, uma versão debiloide de um lixo qualquer da também falecida música italiana contemporânea. No entanto, gostei da voz dele: estranhíssima! Nos agudos, era como se uma araponga fizesse corinho. Acabou a música, ele desligou o aparelho.

“Quer outra?”

“Não precisa. Em princípio, gostei muito. Sério.”

Ele sorriu pela primeira vez. Os dentes revelavam uma cor próxima à dos aparelhos corretivos. Mandei-o sentar e relaxar.

“Sabe, Onofre Olavo, eu gosto de saber um pouco mais dos meus meninos e meninas, meus artistas, então me fale um pouco de você, da sua infância…”

Silêncio completo, perturbador, até agressivo.

“Disse alguma coisa errada?”, perguntei, tentando me conter.

“Não. É que não gosto de mentir.”

“Então não minta, cara. Você admite que eu preciso saber alguma coisa de você, se quiser aproveitá-lo?”

“É claro. Não vou mentir, então. É que não sou deste planeta, a Terra.”

“Nem eu. Conheço outras pessoas na mesma situação.”

“Eu não nasci na Terra”, insistiu Onofre Olavo, e eu logo me surpreendi com a minha própria reação, imaginando como seria possível usar esse detalhe no marketing do primeiro cedê.

“Dá pra gente divulgar essa, digamos, experiência?”

“De forma alguma. Disse a você porque é importante que você saiba das minhas raízes.”

Voltou aquele silêncio pesado de antes.

“Não vamos ficar assim, meu caro”, ele continuou. “Eu já lhe provo o que estou dizendo e evitamos perplexidades.”

Acabou de falar e foi desabotoando a camisa. O peito magro de antiatleta tinha aquela cor quase macilenta. Não havia cabelos no seu pequenino tórax e, pelo jeito, em qualquer outro lugar. Aí ele começou a desapertar o cinto. Estava indo longe demais.

“Pera aí, ô Olavo, não vai ficar pelado aqui, né?”

“Não. É só para que você veja isto.”

O rapaz não tinha umbigo, simplesmente. Seu ventre, caso fosse possível chamar aquilo de ventre, mais parecia uma tábua aluminizada e, de onde eu o observava, a uma distância de metro e meio, não havia sinais de quaisquer objetos que provocassem aquele efeito, como uma cinta, por exemplo. ‘Será que ele sofreu um acidente? Será uma plástica?’, pensei comigo mesmo, mas logo depois relaxei e mandei-o sentar e abotoar a roupa. Ele o fez, de forma tranquila e mansa. Eu poderia estar diante do maior sucesso de todos os tempos e comecei a ficar muito excitado.

“Seguinte, Onofre Olavo, precisamos, nós dois, planejar com muito cuidado o seu lançamento, e fazer com que sua história de vida não se torne mais importante do que sua bela voz…”

“O senhor gostou mesmo do que cantei?”

“Mas é claro. Esse efeito ‘metal’ do seu timbre de voz levará você muito longe. Mas vamos pensar bem, sem afobações.”

Peguei o telefone para pedir a Lea que fosse preparando um contrato. O mais generoso possível.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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A mulher com um buraco na cabeça surgiu, pela primeira vez, em outubro do ano passado, e quem a viu foi a menina Dayuma Casares, filha do veterinário equatoriano.

Dayuma, após retirar a bicicleta do depósito, resolveu dar uma volta por toda a garagem subterrânea. A mulher com um buraco na cabeça andava à sua frente, e por isso Dayuma não pôde ver-lhe o rosto. Nem lhe dera atenção, na verdade, mas, ao passar rente a ela, viu o furo emergindo da cabeleira loura, na parte posterior do crânio, segundo descreveu. A menina teve uma reação retardada, achou estranho que uma pessoa com um ferimento exposto, de dez centímetros de diâmetro, mais ou menos, andasse pela garagem. Mas não olhou para trás e apenas comentou, distraidamente, com o pai, durante o jantar. Constantín, o veterinário, registrou o incidente como excesso de criatividade de uma criança.

No dia seguinte, foi a vez de seu Ernesto, o velho zelador do prédio, chamado “Maison des Lis”, dar de cara com a mulher com um buraco na cabeça. Ele a encontrou na portaria de serviço, às sete da manhã, e a viu de frente. Disse “bom dia, madame”, e ela não respondeu.

Seu Ernesto a descreveu de várias maneiras, confundindo todo mundo; mas, segundo os policiais que depois tomaram conta do caso, a primeira descrição inicial seria a mais precisa, por uma questão de estatística: testemunhas confusas costumam acertar mais na primeira. Assim, a mulher teria um metro e sessenta e oito a um metro e setenta e dois; uns quarenta e oito a cinquenta e dois anos; e possuía um número incrível de rugas ao redor dos olhos, tantas que chamou a atenção do zelador, homem muito distraído, até por causa da idade, e pouco afeito a esse tipo de observação. Os cabelos dela eram louros de raízes negras, ou seja, pintados, e havia em sua expressão alguma coisa indescritível, um ar de sofrimento, de expectativa, de zombaria até – seu Ernesto não soube precisar. Mas aquela visão produzia impacto. Confessou o zelador que “algo ruim” correu por sua espinha, e ele maldisse intimamente os condôminos por receberem hóspedes sem avisar à zeladoria. Seu Ernesto estava cansado disso, pois, se algum estranho aparecesse no prédio, ele seria cobrado, incontinenti.

A mulher fixara os olhos do velhinho e, sem dizer nada, virou-se para sair. “Ela não fez barulho quando andou”, lembrou-se, depois, o zelador, mas ninguém deu atenção a esse detalhe. De qualquer forma, ele se assustara ao ver um buraco na cabeça dela, um enorme orifício, como se uma bala de fuzil tivesse entrado ali.

“Mas havia manchas de sangue no cabelo, ou vestígios de sangue na roupa?”, perguntaram os policiais, com dificuldade de conter o riso.

“Não, não, só o buraco. Não tinha bordas. Era uma coisa preta no meio do cabelo, e pronto.”

“E por que o senhor não a chamou, já que ficou desconfiado dela?”, insistiram os tiras.

“Não fiquei desconfiado, fiquei irritado com os condôminos que não me avisaram da nova hóspede.”

“O senhor sentiu medo?”

“Não, quer dizer, só senti o arrepio de coisa ruim, mas acabei ficando preocupado com ela. Uma pessoa ferida não pode andar por aí assim.”

“Mas, por que ferida, se não havia sangue?”

“Olha, moço, um buraco na cabeça, mesmo sem sangue, não é um ferimento?”

Seu Ernesto e a menina Dayuma eram mesmo as únicas testemunhas do incidente. Sem qualquer dúvida. Porque, depois que a história se espalhou, vários outros moradores também viram a tal mulher, mas os policiais não acreditaram neles. Só de adolescentes foram oito, os visionários. Quando os tiras ameaçaram submeter suas histórias a um detector de mentiras, eles sumiram.

Foi o veterinário equatoriano que chamou a polícia. Sempre preocupado com possíveis ameaças a Dayuma, quer de “bandoleiros” ou “pervertidos”, Constantín associou a história do zelador às fantasias trágicas que criava sobre sua própria filha, e concluiu que alguma coisa andava errada por ali. Fora apenas um incidente, mas… Sua preocupação nada tinha a ver com o detalhe do furo na cabeça da falsa loura (afinal, seria uma ilusão de ótica), mas com a mulher em si, uma desconhecida, provavelmente uma ladra, a circular impunemente pelo condomínio.

Logo depois das andanças da polícia pelo prédio, alguns moradores começaram a se impacientar e exigiram uma assembleia extraordinária. Alegavam que a lenda da tal mulher com o buraco na cabeça era ridícula e que eles se sentiam constrangidos de encontrar, quase todos os dias, uma radiopatrulha em frente ao edifício, ou homens acintosamente armados, bisbilhotando pelas garagens e corredores. Um deles, disseram, teria beliscado a empregada do apartamento vinte e oito. Mas Constantín, o veterinário, com apoio da maioria, usou uma contra-argumentação definitiva (“crianças não mentem, nesses casos”) e, ao contrário dos outros, afirmava sentir-se protegido pela presença de policiais.

“Mas que tipo de mal uma mulher loura, com um furo na cabeça, pode fazer contra nós?”, perguntava, patético, o doutor Alcebíades, morador do cento e doze. Ninguém lhe respondeu, mas a maioria decidiu que a polícia teria carta-branca até que a situação fosse explicada.

Doutor Alcebíades ainda tentou uma outra saída: “Sabem, essa história pode acabar nos jornais, na tevê, e, se se espalhar pela cidade que nosso prédio é assombrado, os apartamentos valerão a metade do preço.”

A maioria, mais uma vez, estranhou a versão de que a mulher seria uma prosaica alma penada. A maior parte dos condôminos não acreditava nisso, mas sentia medo dos vivos, ou melhor, da viva, estranha figura vista várias vezes dentro do prédio, em atitudes suspeitas.

“Paco” Soares, o síndico, imediatamente propôs a instalação de circuito interno de tevê, com uma receita extra de cinquenta por cento do rateio do próximo mês. A quase unanimidade aceitou a proposta, apesar de correr à boca pequena que “Paco” angariava quinze por cento de toda e qualquer compra feita pelo prédio. Daí seu apelido de Quinzinho.

Logo depois dessas agitadas reuniões, surgiu o professor Rebouças, sociólogo, conhecido de alguns moradores, e que desenvolvia uma tese de mestrado: “A Sociologia do Mágico”. O professor pretendia entrevistar os moradores sobre a aparição da mulher com um furo na cabeça. Ele havia confidenciado aos amigos que estava convicto de que fenômenos desse tipo acontecem a partir das raízes interioranas do grupo em questão. Seria essa cultura caipira que poderia justificar o fato de que, em plena megalópole, vivendo numa caixa de concreto, a quilômetros e quilômetros do campo, e no começo do século vinte e um, as pessoas ainda vissem fantasmas.

Os moradores, mais uma vez, garantiram que não se tratava de um problema de magia, mas medo de roubo ou assalto. Ainda assim, o professor Rebouças insistiu e foi entrevistar todos os que tinham visto a mulher, os de fato, que eram apenas dois, e os criativos. Todos haviam nascido e sido criados em cidades grandes. O professor preferiu retirar-se.

Mas dona Ângela, do cento e cinquenta e oito, também conhecida no prédio como “O Cavalo”, por receber, mediunicamente, entidades afro-brasileiras, não tinha a menor dúvida de que a mulher com um buraco na cabeça pertencia ao mundo extracorpóreo. Ela, que promovia sessões em seu próprio apartamento, o qual lotava de amigos e simpatizantes toda sexta-feira à noite, decidiu investigar espiritualmente a questão.

E aí aconteceu: um espírito que jamais baixara antes, uma mulher falando como antigamente, inclusive palavrões arcaicos, que ria como uma rampeira e se identificou como “a devassa Cilene”, tomou posse do corpo da médium e se negou a abandoná-lo, apesar de todas as tentativas dos médiuns auxiliares.

Na impossibilidade de livrarem-se da entidade, os médiuns resolveram passar aquela noite no apartamento d’o “Cavalo”, para evitar qualquer contratempo. Mas dormiram, exaustos, e dona Ângela foi vista no elevador, pintada como uma meretriz, vestindo um robe escuro envelhecido. Encontrou-se lá com Eugênio Simões, do quarenta e cinco; logo ele, evangélico e tradicionalista.

“Boa-noite, dona Ângela”, cumprimentou-a Simões, que a via como um gentio carente de conversão. Ele confessaria, depois, que todo aquele batom o assustara um pouco.

No meio da viagem de elevador, dona Ângela, ou a “devassa Cilene”, abriu o robe e mostrou-se completamente nua. Como se não bastasse, gritou, ou quase isso, para o devoto:

“O que eu quero é rosetar!”

O homem, aterrorizado, deu murros na porta do elevador, como se pudesse detê-lo, e na primeira parada, que não era no seu andar, saiu destrambelhado, berrando “não entrem aí, ela está louca e tirou a roupa!”

Seu Ernesto, o zelador, confessou depois que jamais iria esquecer daquelas risadas da entidade cúpida/devassa. A história correu por todo o condomínio, naturalmente, e houve quem defendesse uma queixa na polícia por atentado ao pudor. Algumas senhoras católicas, pelo contrário, sugeriram que o evangélico praticara assédio sexual e inventara a história pra se safar. Mas ficou por isso. Doutor Osmar Guerra, o advogado do cinquenta e três, lembrava em voz alta que, a julgar pela veracidade do relato de Eugênio Simões, os invisíveis são também inimputáveis. “Como enquadrar uma puta fluídica?”, perguntava ele,  zombeteiro, deixando as pessoas constrangidas.

Por causa de todas essas loucuras, segundo justificou, o doutor Alcebíades, administrador de empresas do cento e doze, resolveu deixar o prédio e ir morar em local mais discreto. Mas alguns condôminos estavam certos de que ele temia, mesmo, a polícia. Talvez porque ninguém soubesse qual era exatamente a sua profissão, por sinal bastante lucrativa, a julgar pelos automóveis importados que ostentava: o dele, o da mulher e um terceiro, que havia dado à filha única. A hipótese mais provável dizia de um esquema de contabilidade paralela para um grupo de políticos ligados ao governo.

“Depois que a mulher com um buraco na cabeça apareceu, isso aqui virou de pernas pro  ar”, queixou-se o suspeito a uns poucos amigos, enquanto dava ordens ao pessoal da mudança. “Eu só lamento ter comprado essa unidade aqui; em pouco tempo não valerá mais nada.”

Mas a mulher misteriosa, loura e quarentona, seria vista, um mês depois, deixando o elevador na garagem, ao lado de um sujeito estranho, de fraque e cartola. Ambos haviam entrado num automóvel e saído a toda velocidade.

A testemunha era Crízio Jericó, o mais recente e o mais jovem empregado do condomínio e que, como os outros, havia sido alertado por “Paco” Soares, o síndico, sobre a misteriosa personagem. Crízio, ao ver a mulher loura, ali mesmo, no prédio, não teve dúvidas: ligou imediatamente para o telefone secreto que o síndico lhe dera, e alertou as autoridades.

Um automóvel, com uma loura e um homem de fraque dentro, foi capturado a algumas quadras dali, e os dois suspeitos levados imediatamente à delegacia. O homem de fraque, chorando, pedia que o soltassem porque iria perder a finalíssima de um concurso famoso na cidade, “Brilhos e Beldades”, onde um grupo criava uma situação fictícia e a interpretava com roupas alegóricas. O homem de fraque era seu Isoldo, morador do vinte e um, magro e feminino, que havia concebido um conjunto intitulado “Quem disse que Mandrake não tem namorada?” Ele fazia, é claro, o papel do mágico, e a moça, a loura estranha, era seu amigo Ortiz, vestido com notável criação drag queen. Nem o funcionário do condomínio dissera, nem a polícia perguntara: “e o buraco na cabeça?”

Não havia nada disso. Os dois amigos não chegaram a tempo e perderam o concurso, o que acabou sendo comentado por uma revista de tititi. Ortiz entrou na Justiça, exigindo do condomínio uma indenização por perdas e danos, e, dois anos depois, ganhou em primeira instância.

A partir daí estabeleceu-se de vez a confusão, com acusações de todos contra todos, além de brigas esporádicas, maledicências lançadas no ar e ironias que acabavam por virar inimizades. A guerra no prédio, que depois seria ampliada com a divisão em duas alas, os contra e os a favor dos animais de estimação, fez, realmente, o preço dos apartamentos cair quase pela metade, assim como o aluguel. O veterinário Constantín Casares e sua filha Dayuma voltaram para Quito; seu Ernesto, o velho zelador, sofreu um enfarte fulminante em plena garagem. Quando o encontraram, já estava morto havia algum tempo.

Ninguém, àquela altura do quiproquó, imaginou atribuir o ataque cardíaco a uma aparição da mulher loura com um buraco na cabeça, mas foi exatamente isso o que aconteceu. Seu Ernesto vinha, cabisbaixo, à procura da prancheta onde marcava todos os serviços do dia, já que não confiava muito na própria memória. Por isso mesmo, abandonava a prancheta em todo lugar.

Deu de cara com a loura. Era aquela mesma de meses atrás: quarentona, um metro e setenta, e uma penca de rugas que lhe circundavam os olhos borrados. O velho zelador sentiu que seu sangue havia sumido, estremeceu de frio e não conseguiu emitir nenhum som, nem um pedido de socorro. A mulher olhou bem para ele, sorriu um sorriso casual porém luciferino, e voltou-se devagar para que ele examinasse o buraco na cabeça.

Seu Ernesto despencou por ali mesmo. Morreu de olhos arregalados.

Do livro “O Homem dentro de um Cão” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007.

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ACORDO

Sulfite afinal respirou. Tudo pensado, pronto, administrado. A imagem futura dos companheiros presos ou mortos lhe passou pela cabeça, mas rápido. Fixava-se no futuro momento do flagra, quando ele fugiria, junto a outro qualquer que estivesse próximo à porta giratória. Chegou a ensaiar com os tiras a ação. Demóstenes, o chefe dos policiais, já dera provas de que cumpriria o acordo. Poderia tê-lo preso quando lhe invadiu a casa e pegou o croquis do plano de assalto. Mas preferiu conversar. “Se você for nosso”, propôs, “fica rico. Mas só quero você nessa operação. Minha equipe precisa de uma força, temos vacilado, ultimamente.” “Rico, quanto?” “Metade do que tiver lá. Mas temos de entrar e resolver. Se seus colegas revidarem, vão pro céu. Se não, cana. Você escapa. Depois, é por sua conta.” Demóstenes já havia feito outros acertos. Tinha fama de cumpridor. Sulfite pensou: três velhos companheiros condenados à morte. Nenhum deles valia nada. Qualquer um trairia o grupo em troca de qualquer garantia. Bucho, um escroto, entregou a mãe, traficante de crack;  Zé Quieto, doente, gostava de crianças; e o paranoico Mestre Zeca atirava sem perguntar.  Os três não fariam falta no mundo. Quando chegou o dia, invadiram a empresa, Sulfite logo procurou a porta giratória. Mas teve uma surpresa. “Quem vai ficar aí sou eu! Saí daí!”, gritou Zé Quieto. Por que ele queria aquela posição? Na confusão formada, o chefe Demóstenes mirou a cabeça de Sulfite, depois a dos outros. As paredes da empresa ficaram marcadas de pedacinhos de crânios esmigalhados. Os tiras estranharam: “Ê, chefe, não tinha um acordo?” “Tinha, mas todo mundo fechou com a gente, ficou difícil de escolher”, disse Demóstenes. O velho tira lamentou a morte de Sulfite, ladrão inteligente, começara desviando resmas de papel de uma repartição da prefeitura, e acabara juntando um milhão de dólares. Só que perdeu o rumo. Pena que tivesse morrido, tinha potencial para acabar com outras quadrilhas. Mas, paciência.

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