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Archive for maio \30\UTC 2010

Um dos tiros atingiu o gancho do quadro do Coração de Jesus, pregado na parede da sala do barraco há mais de trinta anos. O quatro desabou e o vidro partiu. A imagem, impressa, perdeu carisma e status, solta no chão: ficou parecendo uma folha de calendário, em meio aos cacos de vidro e pedaços do reboco da parede. Bode Gil achou que aquilo era um mau presságio.

“Por favor, Crise, pega uma pistola e atira pra fora, de qualquer jeito, não precisa olhar nem mirar, é só pra dar um pouco de cobertura, fazer barulho.”

“Tenho medo, Gil.”

“Mas há chance de escapar, Crise. Com você atirando, também, essa chance aumenta.”

Bode Gil e sua namorada Crise estavam encurralados no velho barraco, que pertencera aos pais dele, e para onde ele sempre fugia, quando se complicava. Era o mais alto do morro, o mais protegido. De lá, Bode Gil via a cidade e o resto do mundo.

Os tiros continuavam, esporádicos: pistola, revólver, escopeta. Por algum motivo, os atacantes não usavam metralhadoras. Bode Gil achava isso muito estranho: todos os seus inimigos possíveis prefeririam atirar de metralhadora. O pessoal do tráfico já nem sabia usar outra arma. Ele mesmo tinha uma, israelense, importada, mas por azar não conseguira pentes de bala no último fim de semana, como lhe haviam prometido. Seu fornecedor, o Azulão, fora apanhado pela polícia e já ocupava uma gaveta gelada do Instituto Médico Legal.

“Me ajuda, Crise. Não sei quantos são. Daqui a pouco, um deles, ou um grupo, pode invadir os fundos do barraco, eu não consigo estar em todos os pontos ao mesmo tempo.”

“Estou morrendo de medo de morrer, Gil.”

“Você sabia que viver comigo é um puta risco.”

“Mas eu não tinha visto isso, antes, Gil. Tô apavorada. Minhas mãos tremem.”

Sem saída, o rapaz, de pouco mais de vinte anos, corria de um lado para outro, atirando. Através de uma fresta na porta da frente, ou nas janelas laterais entreabertas. Agora, uma bala arrombara a gaiola do curió, e ele fugira na sequência, ileso.

“Puta que o pariu!”, gritou o rapaz. “O curió do meu pai… Estava há mais de dez anos aqui em casa. Por que será que essa gente só atira na parte de cima da casa?”

“Quem é que quer nos matar, Gil?”

“Sei lá… Bufão, Noves Fora, Cajamar… um deles.”

“Mas você não tinha feito acordo com todo mundo?”

“Fiz. Tudo selado. Territórios demarcados. Você sabe.”

“E então?” A moça quase chorava.

“Acordo é pra ser desfeito… Não é a primeira vez, não vai ser a última.”

“Você sempre me disse que o tráfico é ético. Palavra empenhada é sagrada.”

“Sempre foi.”

Uma bala passou zunindo muito próxima à cabeça do rapaz, que se distraíra em frente à porta principal. Ele entendeu que o inimigo se aproximava cada vez mais e jogou-se no chão. A namorada gritou, imaginando que o tivessem atingido.

“Meu amor! Mataram você?”

“Ainda não, Crise. Fique calma.”

“Não quero morrer com vinte e um anos, Gil”, disse a moça, lágrimas lavando o rosto. “Quero um filho teu.”

A última frase pegou o rapaz desprevenido. Ele titubeou. Deu ainda uns dois tiros, na porta e na janela direita, antes de falar.

“Quer se salvar mesmo, Crise?”

“Claro que quero, Gil. A gente não merece morrer.”

“Mas vai ter de sumir daqui. Tenho um trato com o Formigão…”

“O delegado?”

“Ele. Me passa o celular.”

A moça jogou-lhe o telefone, ele ligou, a voz do outro lado perguntou se ele afinal se decidira a passar o serviço.

“Onde está o helicóptero, Formigão?”

“Bem perto de mim… Estou ouvindo o barulho.”

“Dá pra mandar à casa do meu pai? Sabe onde é, né? Estou encurralado. Em quanto tempo chega?”

“Um minuto. Dois. Falei que iriam te trair. Mas quero saber do meu serviço.”

“Pode vir que eu espero aqui.”

O barulho das hélices foi precedido de muitos gritos no morro. Era uma coisa infernal: o barulho da máquina, a ventania que provocava, e os estampidos secos das balas que vinham lá de cima. Durou menos de cinco minutos e tudo silenciou.

“Agora, Crise, os tiras vão chegar e eu vou passar o serviço. Eles vão dar um jeito de nos mandar pra longe. Depois eu negocio as identidades novas. Mas vamos correr riscos.”

A moça se abraçou com o rapaz, beijaram-se e esperaram meia hora por Formigão e sua turma. Bode Gil não teve coragem de abrir a porta, e ainda permaneceu em guarda, com a pistola engatilhada.

“Que vergonha, Bode Gil!”. Era o vozeirão do delegado, do lado de fora. Você estava encurralado por dois meninos, pelo jeito são irmãos, um é a cara do outro.

‘Os gêmeos’, pensou Crise, na hora. ‘Por isso que eles atiravam pra cima; pra não me atingir.’

A moça empalideceu, mas o namorado jamais perceberia. O delegado entrou, com mais três homens, arfando pelo esforço de subir o morro.

“Te salvei a vida, hem, cara? Dois moleques…”

“Parecia um exército, chefe. Tiro pra todo lado… O senhor conhece eles?”

“Nem eu nem ninguém. Esquisito.”

O delegado encarou a moça.

“Minha gata, a Crise”, adiantou-se Bode Gil, apresentando-a.

“Hum…”, fez o policial. “Minha filha, venha cá…”

“Que foi?”, reagiu o bandido.

“Nada, Bode Gil, quero um particular com a moça.”

O delegado pôs os braços imensos sobre os ombros dela e a levou até os cadáveres dos gêmeos.

“Sei que você os conhece. Que coisa romântica, menina. Eles vieram resgatá-la do bode velho. Qual deles era a sua paquera? O de camisa vermelha ou o de camisa azul?”

“Melhor o senhor não tocar nisso, doutor, eu gosto do meu homem.”

“Tá bom, criança. Mas estou impressionado. Achei que o romantismo tinha acabado.”

A moça voltou, chorando discretamente. Bode Gil quis saber da conversa, ela lhe disse que o delegado queria ter certeza de que não conhecia os agressores.

“Mas ele nem me chamou pra ver os corpos…”, disse o rapaz. “Por que logo você?”

“Acho que ele vai te chamar. Sei lá por que fui primeiro.”

Naquele dia, as principais quadrilhas foram apanhadas nos seus redutos. Um casalzinho bem vestido, ele de óculos escuros e cabeça raspada, ela transformada em loura, viajou para um estado do Nordeste. A moça levaria muito tempo para esquecer o incidente. Chorava de vez em quando. Sentia uma tristeza diferente, misturada ao orgulho que passou a nutrir por um certo cadáver de camisa vermelha.

Do livro “O Homem dentro de um Cão” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007.

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Estávamos em um daqueles ônibus antigos que, após o desembarque do avião, nos levam da pista até o aeroporto. Eu ia justamente pensando no eterno atraso em que vivemos com relação a outros lugares. Devemos ser um dos poucos países que ainda usam esse tipo de transporte, bastante complicado porque atrasa a operação em pelo menos meia hora, o que é incompatível com as necessidades contemporâneas de otimização do tempo. Só temos desembarque civilizado em uma ou outra grande cidade.

Eu sou um defensor assumido da globalização da economia e da modernidade dos costumes. Não podemos viver num mundo de parasitas, de viciados em previdência, de doentes e idosos.

Bem. Pessoas como eu não são a maioria dos contribuintes. Ainda. E assim me vejo obrigado, sempre, a conviver com as baldas do Terceiro Mundo. Tenho pensado seriamente em pedir transferência para uma das nossas filiais nos Estados Unidos ou no Canadá.

E lá vinha meio perdido nesses pensamentos, porque não há nada a fazer num ônibus de embarque e desembarque, quando o sujeito ao meu lado, terno impecável, cabelo à escovinha, gravata gloriosa, começou a berrar para ninguém:

“Não vou fazer isso! Quero que você se dane! Chamo de você, sim, seu incompetente!”

Gravei todas as suas palavras, pois foram ditas, além do volume altíssimo, com firmeza e convicção. Só que, após os gritos, o homem, que não tinha mais de trinta e cinco anos, transformou-se completamente. De furioso virou um cordeiro, pálido, balbuciando “me desculpem, me desculpem”, para mim e outros próximos, e aceitou o lugar que alguém lhe ofereceu em um daqueles banquinhos laterais.

Cabisbaixo, envergonhadíssimo, fez todo o percurso com o olhar fixo em nada e foi o primeiro a descer, quando o ônibus parou. Chegou a empurrar uma senhora à sua frente, que protestou: “ah, que mal-educado…”

O fato não me passou despercebido. Pelo contrário. Tudo bem, já disse que sou favorável à economia globalizada e à competitividade na sua expressão máxima, ou do contrário nos transformaremos nos mendigos do Planeta, a exemplo de alguns países africanos e asiáticos, de economias engessadas e difusas, sem produtividade e eficiência. Ou, por outro lado, sofreremos do mesmo jeito, se mergulharmos em modelos nacionalistas ultrapassados. Não, precisamos reagir. Mas sou obrigado a reconhecer que esse estilo de desempenho econômico nos tem levado a alguns exageros mais ou menos ridículos.

Os workalholics, por exemplo. Carentes, com problemas de auto-estima, os viciados em trabalho têm sido os palhaços da globalização, e só têm servido, na verdade, aos inimigos declarados dos novos tempos, que não são poucos. O rapaz do ônibus era, sem dúvida, um workalholic.

Quando o vi, no dia seguinte, numa foto de jornal dizendo que se jogara de um viaduto, fiquei chocado, é claro, mas achei o fato imensamente lógico. Ora, um cara que, sem mais nem menos, começa a gritar dentro de um ônibus, dirigindo-se a um chefe imaginário, chamando-o de incompetente, sem levar em conta o cenário social em que se inseria, sinceramente… está louco ou quase louco. Nada a estranhar se se jogou de um viaduto. Li, distraidamente, que ele trabalhava para a South World and Co, uma company da Nova Economia, bastante conhecida pela sua ousadia nos negócios e seus métodos pouco ortodoxos, como acusações de suborno a altos funcionários do governo em troca de favorecimento em concorrências públicas.

Mas, uma semana depois, aconteceu algo parecido com “Sammy” Oliveira, um outro executivo meu amigo e que, por coincidência, trabalhava na South World.

Modéstia à parte, sou muito bom naquilo que faço. Como auditor de alto nível, sou capaz de seguir uma pista, desmascarar um cúmplice, desfazer tramas diabólicas. O meu sininho interno soou firme, dizendo que havia alguma coisa errada na South World. E, afinal, os filhos de “Sammy” Oliveira costumavam jogar boliche com os meus. E sua viúva, Carminha, era amiga da minha mulher. Eu ficara muito desconfiado. “Sammy” ainda não completara quarenta anos.

Puxei pela internet as ocorrências policiais nos grandes jornais, mas descobri que os crimes só merecem a mídia quando acompanhados de evento: um assalto, uma vingança, uma atitude passional. A morte de pessoas por doenças comuns, como infartos, mesmo que sejam executivos destacados, dificilmente é noticiada. Fui obrigado e procurar a Secretaria de Segurança para aprofundar minhas pesquisas e, pasmo, acabei descobrindo que, nos últimos quatro meses, mais de vinte executivos haviam morrido muito jovens, de acidentes ou doenças súbitas, a maior parte deles ligada à South World.

Naturalmente, fazia tudo isso fora do meu horário de trabalho, durante o almoço, ou mesmo à noite, que não sou de engabelar as empresas para quem presto serviços profissionais. Pois estava eu, posto em sossego, quando bateram à porta da minha sala, delicadamente. Ninguém faz isso. Ou me avisam pelo interfone que gostariam de falar comigo ou enviam um delicado e-mail solicitando uma audiência.

Só uma pessoa faria isso: Anthony, the Boss. Pois era ele mesmo, em pessoa. Não pude conter a emoção. Eu me entrevistara com Anthony, the Boss, uma única vez, havia dois anos, quando assinei o contrato com a empresa. Não conhecia ninguém que houvesse conversado com ele, além do gerente executivo, que o via três vezes por ano.

“Dá licença, querido Gerson…”, ele foi dizendo em inglês. “Por favor, não se emocione, eu sei que minha presença é uma raridade.”

Pediu-me que me sentasse, e eu obedeci. Ele puxou o cachimbo, acendeu.

“Soube que está muito interessado nos acidentes envolvendo executivos da South e – não sei se já descobriu – houve também alguns acidentes envolvendo funcionários nossos, e de outras empresas internacionais. Não é só a South…”

“Bem, não foi minha intenção…”

“Não, não, não. Não se justifique, nem peça desculpas. O senhor é um homem inteligente. Vi na sua biografia eletrônica.”

“Muito obrigado, senhor.”

“Não, não, também não agradeça. Sabe, aquelas pessoas, aqueles executivos, não existiam.”

“Como assim?”

“Bem, um dos nossos gerentes, Mister Mondley, resolveu pesquisar alguns desses incidentes, muito antes do senhor. O senhor deve ter percebido que, antes de sucumbirem, vítimas de acidentes graves ou males súbitos, esses executivos de alguma forma se notabilizaram, negativa ou positivamente. Uma briga doméstica com intervenção policial, ou gritos dentro de um ônibus no aeroporto… o senhor sabe do que estou falando, não?”

“Claro.”

“Pois bem: Mister Mondley, que é… que era um fabuloso hipnotizador, acercou-se dessas pessoas e, com muita habilidade, conseguiu levá-las ao transe hipnótico.”

“Sim, mas qual era a teoria?”

“Ah, Mister Mondley acreditava que os incidentes ocorriam como uma manifestação de autopunição. Eram elas, as pessoas, que provocavam os incidentes, que chamavam a atenção do público, de alguma forma.”

“E aí, hipnotizando-as, o tal do Mister Mondley chegaria ao cerne da motivação auto-punitiva”, comentei, ainda chocado.

“Sim, o senhor já entendeu tudo… Mas sabe o que o nosso hipnotizador descobriu? Que aquelas eram pessoas sem memória. De carne e osso, com certeza, com identidade e passaporte, mas que viviam unicamente o minuto presente, como se fossem replicantes programados a distância. Não se recordavam nem da família, da esposa, dos filhos, dos próprios pais, da infância… Eram máquinas… equivocadas. Cascas. Unicamente cascas.”

“Mas… essas cascas não seriam substitutas das verdadeiras personalidades? Seriam cascas alienígenas? Invasores?”

“Não saberemos jamais. Algo apagara suas memórias. O quê… ainda hoje me pergunto. Mas você sabe, meu querido Gerson: nós, executivos internacionais, estamos reunidos em uma grande associação particular destinada à nossa própria defesa. Não poderíamos permitir que algum inimigo desconhecido minasse nossas bases profissionais.”

“Aí, eliminaram os desmemoriados!”

“Oh, meu querido Gerson, não seja tão pouco sutil. Estou aqui em nome da associação para lhe pedir, encarecidamente, que dê um basta às suas pesquisas. No mundo em que vivemos, as grandes questões não valem a pena ser pesquisadas tão a fundo. Você não acha?”

“O senhor, por acaso, não pensa que eu sou uma casca, pois não?”

“Oh boy: você não estaria mais aqui se eu pensasse isso. Imagina se você iria esquecer aquele momento magnífico em que nós dois estivemos em Bonito, a pescar pacus…”

“Nós dois? Em Bonito?”

“Brincadeira, meu caro! Não se assuste. Estou aprendendo com vocês, brasileiros, a brincar assim. Tão divertidos, tão bem-humorados…”

Claro. Sem dúvida alguma. Somos uns palhaços. Mas o que poderia eu fazer diante daquela ameaçadora entrevista? Pensei nos meus filhos, em Priscilla, minha mulher, e quase chorei, imaginando que seria morto na próxima esquina, como uma queima de arquivo. Pensei em “Sammy” Oliveira. Será que ele era uma casca mesmo? É verdade que só falava bobagens, mas tantos são assim…

Durante meses, andei em pânico. Só que nada aconteceu e, ao contrário, passei a ser um dos homens de confiança de Anthony, the Boss.

Ligava-me, diretamente, pedindo informações sobre pessoas e processos. Aos poucos, fui desconfiando que uma boa parte não só do mundo executivo, dos pilares da economia, mas da própria humanidade, não passava de cascas vazias, carnes sem memórias. Alguns desses tiveram de ser destruídos pela associação. Mas, pensando bem, não sei se eles nos fariam mal. Talvez fossem inofensivos.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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A moça de vinte e quatro anos chegou à porta do restaurante. Vestia jeans e uma blusinha azul-bebê, com uns bordados na gola e nas extremidades das mangas curtas. Carregava, presos à cintura, a pochete, de um lado; e um celular fora de moda, imenso, do outro. Ficou na ponta dos pés, porque não era muito alta, para observar o movimento. Lá no fundo, sozinho numa mesa de quatro lugares, estava quem ela queria.

A moça, morena, bonita de rosto e talvez um pouco magra de corpo, pediu licença e foi-se chegando à mesa do homem mais velho, uns sessenta e poucos, comendo com prazer sua massa de todos os dias.

“Ah, você…”, ele disse, a boca lambuzada, e demorou um pouco para ameaçar levantar-se. A moça de vinte e quatro anos desobrigou-o. Ele agradeceu com um sorriso sem jeito.

“Servida?”, ele continuou, como se houvesse alguma coisa a oferecer. Toda a massa, com a carne picada, já havia migrado da travessa para o prato.

“Obrigado, doutor Mário. Já almocei.”

“Sim, mas um vinho… um cálice”, ele insistiu.

Ela ficou quieta, o que ele interpretou como uma aceitação. A moça puxou uma cadeira e se acomodou.

“Ei, Marrom!”, ele gritou para o garçom. A moça constatou que o garçom era mesmo marrom. “Traz mais uma taça de tinto!”, ele pediu de longe, incomodando os rapazes da mesa ao lado. Um deles virou-se e encarou o homem mais velho, que nem percebeu.

“Doutor Mário”, a moça continuou, “eu vim resolver a nossa questão.”

“Mas que questão, Lili? Não temos questão nenhuma. Somos amigos.” O homem diminuíra o ritmo com que sorvia os fios de macarrão. Começou a usar a faca.

“Somos amantes, doutor Mário.”

“O quê? Amantes? Que é que é isso, Lili?” O homem, que era branquelo, pintava os cabelos da cor do garçom, usava suspensório e parecia acima do peso, olhou de lado com medo de que o ouvissem. Baixou a voz. “Nós só transamos uma vez”, ele disse, mostrando o dedo indicador virado para cima. “Uma vezinha.”

“Você queria mais.”

“Bem…”

“E eu também, doutor Mário. Só que eu fingi que não, para não reconhecer que estava apaixonada pelo senhor.”

“Por mim, Lili? Um… agonizante? Um animal pré-histórico que passa o dia sonhando apenas com a hora das refeições, que já não aguenta trabalhar, que morreu e não sabe…”

“O senhor está exagerando, doutor Mário…”

“Não, Lili, eu sou pior do que isso que já falei. Eu estou tão destruído que a única mulher que me dá atenção me chama de doutor.”

“É verdade, me perdoe. Mas na cama eu chamei de você.”

“Você me chamou de Má.”

“Má de Mário. E não Má de malvada.”

“Eu sei que foi Má de Mário! Só faltava você achar que eu sou viado. Aí completaria o meu perfil de cocô velho do cavalo do bandido.”

“Pensei em você esses dias todos, Mário…” Ela sorriu. “Está vendo? Não chamei de doutor.”

“Obrigado, Lili. Olha, o Marrom está atrás de você, querendo passar pra lhe servir o vinho.”

A moça de vinte e quatro anos ajeitou a cadeira, o garçom passou, e neste momento tilintou o enorme celular dela. O garçom encheu o cálice.

“Lili falando”, disse ela, secamente, ao fone. Ouviu uns segundos e cortou. “Estou ocupada agora, depois ligo pra você.” Guardou o celular, suspirando.

“O namoradão?”, perguntou o homem mais velho.

“Minha irmã. Me chamando pra trabalhar.”

“Ah, é, você me disse: as duas fazem bolos pra fora.”

“Somos economia informal.”

“A salvação do País.”

“Cê acha? Às vezes, a gente preferia ter um emprego, férias, décimo terceiro…”

“Ilusões. Bobagem. Melhor ser dono da própria força de trabalho.”

“Posso voltar ao assunto, Mário?”

“Que assunto?”

“Eu vim aqui para resolvermos o nosso caso”, ela disse, pausadamente, bebendo seu primeiro gole de vinho. Ele cruzou, educado, os talheres no prato, limpou a boca avermelhada, bebeu mais um pouco.

“O que você acha, Lili, que devemos fazer?”

“Amor.”

Silêncio. Ele sorriu pela primeira vez e ela ficou feliz.

“O.k., tudo bem, eu topo”, ele disse. “Mas, com isso, não vamos resolver a questão, vamos?”

“Não. Também não sei como a questão se resolveria. Eu não vim aqui para propor casamento a você.”

O homem mais velho pousou a mão no braço dela, que se arrepiou inteira. Ele nem deu atenção aos comentários naquela mesa dos rapazes.

“Isso, pra mim, é um milagre, Lili. Uma moça tão jovem, tão bonita, séria, trabalhadora, querendo fazer amor com um pré-defunto como eu.”

“Se falar assim eu vou ficar com raiva.”

“Não é a sério. Estou tirando sarro de mim mesmo. É meu jeito. Mas, sabe, a gente não espera ser amado por mulheres mais jovens, quando chega a esta idade.”

“Você é a pessoa mais carinhosa que eu já conheci, doutor, desculpe, Mário.”

“Nem tanto. É que tenho vontade de fazer carinho em você. Mas se prepare, Lili: eu sou um velhinho; coisas desagradáveis podem acontecer numa relação comigo. Eu posso fracassar. Eu posso me sentir mal. E, no extremo, posso cair fulminado por um enfarte no miocárdio, exatamente na hora…”

“Tenho certeza de que você seria gentil e viraria de lado pra morrer.”

O homem mais velho tirou a mão do braço da moça de vinte e quatro anos e sorriu gostosamente, como não fazia desde muito tempo.

“Eu gosto muito de você, Lili”, ele disse com um pouco mais de luz na expressão. “Perdoe-me essas bobagens que eu falo.”

“Eu amo você, Mário”, ela retribuiu. “Mas eu queria perguntar uma coisa a você, uma coisa íntima, queria que você fosse sincero comigo.”

“Fale logo o que é”, disse ele, com certo sobressalto.

“Eu tenho cheiro de açúcar?”

“De quê?”

“De açúcar. A gente faz tanto bolo que, às vezes, eu tenho a impressão de que as formigas andam atrás de mim.”

“Não, de jeito nenhum…”, ele disse, atônito com a pergunta. “Mas você é doce.”

“Essa foi de doer, Mário.”

“Hum… é verdade. Você me perdoa? De novo?”

Do livro “O Homem dentro de um Cão”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007.

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O Serviço Secreto de Manfredo, o Sacrossanto, fez plantão desde as duas da manhã para esperar o tarado da praia. Mas o tarado chegou ao meio-dia, como um homem normal, de sandálias, maiô, camisa de meia, toalhinha no pescoço. E óculos escuros, naturalmente.

“Parece até um homem respeitável”, disse o Alferes-Um.

“Mas é ele, é ele! Olhe as fotos aqui, olhe aqui!”, disse o Alferes-Dois, nervoso, mostrando um saco de fotografias tiradas pelo Serviço, um trabalho perfeito que durou cerca de oito meses.

Ao ver as fotos, o Alferes-Um torceu a boca, enojado. Não se conteve:

“Crápula! Escândalo das criancinhas!”

“Calem-se, os dois!”, disse o Alferes-Chefe, atrás deles. “Vamos esperar o primeiro movimento suspeito. Aí o pegaremos em flagrante.”

“Há quanto tempo o sexo em público (pronunciou essas últimas palavras rapidamente, e gago) foi proibido?”, perguntou o Alferes-Um ao Alferes-Chefe.

“Você não se lembra, imbecil? Dez anos! Dez anos!”

“Sim senhor.”

O tarado sentou-se na areia. Não usava barraca. Puxou a camiseta pelo pescoço, sem o cuidado de tirar os óculos e os óculos caíram na areia. Ele apanhou os óculos e ao mesmo tempo uma senhora ao lado virou-se subitamente para ele, como se tivesse levado um beliscão, e comentou alguma coisa com a mocinha junto. As crianças, com baldinhos de areia e muita gritaria, corriam de um lado para outro.

“Transgrediu a primeira lei”, rosnou o Alferes-Chefe. Os outros dois ficaram olhando para ele, sem entender, e ele rosnou de novo:

“Não notaram, rapazes? Quando os óculos caíram, o bandido deve ter usado de pornofonia ilegal, o que assustou a senhora ali ao lado. Deve ter dito…

“Saco…”,  completou, alegre, o Alferes-Um.

“Vou anotar vinte chibatadas na minha carteirinha!” O Alferes-Chefe quase gritou, fazendo eco no esgoto onde os três se escondiam.

O Alferes-Um fez cara de choro, o Alferes-Dois pôs as mãos na cabeça, lamentando o companheiro.

“Eu me esqueci…”, disse, já chorando, o Alferes-Um.

“Vinte chibatadas, sem apelação!”, irritou-se de vez o Alferes-Chefe.

Lá longe, na praia, o tarado levantou-se, limpou a areia do maiô e seguiu para o mar. As pessoas, à sua frente, numa atitude estranha, olhavam fixamente para ele.

“O diabo é que ele está de costas! De costas!” O AIferes-Chefe quase gritou de novo. “Por que aquelas pessoas estão olhando tanto para ele? Ele já deve ter começado a agir e nós sem podermos fazer nada!”

“Desculpe-me, senhor”, disse o Alferes-Dois, que parecia o mais equilibrado ali. “Desculpe-me, mas não deveríamos ter trazido um outro companheiro para vigiar o homem de dentro do mar, num angulo oposto ao nosso?”

O Alferes-Chefe ia pedir ao rapaz para se calar. Mas só abriu a boca.

“…então, senhor, o nosso outro companheiro, no caso, já teria feito o flagrante. Nós só teremos chance na hora em que ele se virar de frente para nós, em se tratando de um exibicionista… O senhor…”

“Acho que você tem razão”, disse o Alferes-Chefe, mordendo os lábios (seu jeito de procurar soluções). “Vocês querem saber de uma coisa? Vou lá, vou lá!”

E sem dizer mais nada, saiu do esgoto e correu para a praia, com seu disfarce de salva-vidas.

Quando ele estava bem longe, o Alferes-Um virou-se para o Alferes-Dois.

“Genial, Dodô! Oh, Dodô, por que você é tão assim? Hem, Dodô?”

“Meu bem”, disse o Alferes-Dois, respirando forte e passando as mãos trêmulas sobre os cabelos (louros, sedosos) do outro. “Eu faço qualquer coisa para ficar sozinho com você…”

“Dodô”, suspirou o Alferes-Um, “você vai me dizer muito palavrão no ouvido, vai? Vai, vai?”

“Quantos você quiser, querido”, sussurrou o Alferes-Dois, procurando os lábios do rapaz e com o olho esquerdo atento à praia.

A praia depois do meio-dia, onde as crianças se multiplicavam, gritavam, sorriam, pulavam, corriam umas atrás das outras e, no meio delas, havia um cachorrinho Pequinês ma-ra-vi-lho-so.

Do livro “Leonora Premiada”, Editora Duas Cidades, São Paulo, 1974.

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UM

“Em nome do Pai do Filho e do Espirito Santo.”

(O som é ótimo).

“Há quanto tempo você não se confessa, menina?”

“Faz uma semana.”

“Então, vá: conte seus pecados.”

(Ele derrama as frases, engraçado; que pieguice).

“São pecados veniais e pecados mortais. O senhor quer que comece pelos veniais ou pelos mortais?”

“Diga os mortais, menina.”

(Às vezes, a voz da menina fica longe. Deve ser o microfone que está mais perto do padre, não é?).

“Eu pequei contra a castidade.”

“Ah… mas foi sozinha? Ou acompanhada?”

“Tenho de dizer o nome?”

“Não… não é preciso. Quero saber se você estava sozinha, se foi um pecado solitário ou se você estava com um amigo, ou uma amiguinha, ou um bichinho…”

(Que é que é isso, sô?)

“Acompanhada. Com o Geraldo, um amigo do meu irmão…”

“Menina: se não me engano não é a primeira vez.”

“É a quinta.”

“Que foi, minha filha?”

“Que foi o quê?”

(Burra, ou se faz de burra).

“Que foi que você fez com ele?”

“Nada.”

“Minha filha, você disse que pecou contra a castidade com o rapaz. E agora diz que não fez nada? Explique melhor.”

“Não fiz nada… dessa vez. Nós juramos, sabe? Eu não tocava nele, nem ele tocava em mim… Fizemos até promessa…”

“Vocês dois cumpriram o juramento?”

“Mais ou menos…”

(Ela é demais! Pô, conta logo!)

“Menina, não seja boba: eu estou aqui para perdoar os seus pecados. Agora, o que eu não posso é perder tempo. Há pessoas na fila da confissão. Você não deve ter medo de contar suas faltas; de qualquer forma será absolvida. Para isso você veio aqui…”

“Eu conto tudo: eu e o Geraldo ficamos nus um na frente do outro no quarto da empregada. Mas a gente só se viu…”

(Ah…)

“E ele não quis tocar em você?”

“Querer quis.”

“Então…”

“Eu não deixei… não quis… não, eu quis…”

“Deixou?”

(Puxa, que masturbação!)

“Só um pouquinho…”

“Onde? Fale.”

“Foi só um poquinho…”

“Menina, você está vendo? Se eu não tivesse perguntado, insistido tanto, você cairia num pecado mortal de omissão, mil vezes pior. E amanhã iria comungar em estado de pecado mortal. É sacrilégio, você sabe. O diabo tomaria conta do seu corpo. Mas não… também não precisa chorar… Que é isso? Não se chora na confissão.”

“O Geraldo me tocou nos seios, nos dois; e depois ficou me agradando…”

“Psssss… fale mais baixo, menina!”

“E depois a gente ouviu barulho de gente e o Geraldo ficou debaixo da  cama e eu vesti a roupa por trás do guarda-roupa…”

“Mais algum outro pecado mortal?”

“Não senhor, só venial. Eu menti para…”

(Volta, por favor, esse finalzinho da fita, só esse finalzinho…)

“… raldo me tocou nos seios, nos dois; e depois ficou me agradando…”

DOIS

Sentados na cama do hotel, os dois homens se olham de maneira diferente: o vendedor de livros, o mais velho, gorducho, fumando um cigarro sem filtro, tem um olhar superior; e os olhos do rapaz, o fazendeiro, brilham como o esmalte dos seus dentes jovens e as gotinhas de suor na testa – ele está excitadíssimo. Entre os dois, o gravador.

“Livraria, esse negócio é melhor do que aqueles livrinhos de sacanagem, com aqueles desenhos… você sabe.”

O outro, coçando o nariz:

“Tem coisa melhor ainda. Sabe o velho Juca? Se você tivesse ouvido a confissão dele não iria estranhar quando o padre falou dos bichinhos…”

O fazendeiro cruza a descruza as pernas, os olhos acompanham o movimento dos lábios do vendedor, suplicando mais segredos, mais depressa. O outro percebe, e explora:

“Tem mais tarados do que você imagina, mulher casada com histórias sensacionais e tem uns caras que não são tão machos como parecem.”

Um segundo de pânico no rosto do rapaz também não escapa ao vendedor:

“Mas de uma coisa você fique certo: da sua família e da família do capitão Cipriano não há confissões.”

Outro susto no fazendeiro. Ele agora está imóvel.

“Livraria, você não gravou ninguém da família do capitão? Por quê?”

O vendedor segura o cigarro nos lábios e penteia os cabelos com a mão direita, da frente para trás.

“São as duas famílias que disputam a prefeitura, não? A sua e a do capitão.”

“Barrabás! Você pensou em vender isso para o capitão? Você teria coragem de pôr isso nas mãos daquele bandido? Você sabe que o que ele faria com isso?”

O homem continua a pentear os cabelos com a mão.

“É mais um motivo para você aceitar meu preço.”

O rapaz se levanta da cama, ela range; examina a bandeja com a xícara, o pão intocado, os restos de mamão do café da manhã.

“Você pediu demais. Trinta é demais.”

O vendedor inclina-se para o chão, apaga o cigarro com o pé. A cama range de novo.

“Tenho a impressão que o capitão pagaria quarenta. Todos dizem que ele tem mais dinheiro que vocês.”

O vendedor se levanta, a cama dá um rangido mais longo; ele faz um ar sincero, de pai:

“Mas sou honesto. Eu poderia ter mostrado as fitas primeiro ao capitão. Mas sei que sua família usará esses segredos com cuidado, como gente fina, política. Sei que o capitão é um filho da mãe.”

O rapaz volta-se para a janela e fica olhando os telhados vermelhos da cidade, por uma fresta da cortina. O vendedor sorri, caminha preguiçosamente para o banheiro, desabotoando a braguilha.

TRÊS

“Em nome do Pai e do Filho e do Espirito Santo. Há quanto tempo não se confessa?”

“Faz dois dias que nós conversamos.”

“Ah, é você.”

“Quer saber os meus pecados? Acabei de vender a fita para os Almeida Brito. Não deu muito trabalho convencer aquele rapazinho, o fazendeiro.”

O padre segura as duas extremidades da estola, que lhe dá a volta ao pescoço, e a movimenta para cima e para baixo.

“Por quanto fez negócio?”

“Dez.”

“Mas você não ia pedir trinta? Não era trinta?”

Dentro da igreja, o eco de pequenos ruídos: estalos dos bancos de madeira, um missal caindo no chão, passos.

“Ficou por dez.”

“Santíssima! Bom vendedor você é. Nem os livros, que você finge vender, você vende direito.”

O movimento da estola vai aumentando.

“Vou embora, seu padre. Já marquei passagem no expresso. Deixo o seu cheque dobrado aí de lado, aí no chão. É melhor descontar na capital. Vou embora. Não gosto de ficar ajoelhado.”

“De quanto é o cheque?”

“Ué, o que nós combinamos. Meio a meio. Cinco.”

Ele pára com a estola. Os vitrais da igreja filtram luzes vermelhas, laranja, azul, verde, roxa: elas caem no corredor central, a nave, iluminam os bancos, refletem nos sapatos de lona do padre.

“Com cinco milhões não posso nem começar a construir o Asilo Paroquial…”

“Não se queixe, seu padre. Não é dinheiro de Deus, é do diabo.”

“Confesso ao senhor que nunca tive nem um terço desse dinheiro na vida. Essa paróquia, essa cidade é uma falência! O óbulo paroquial é uma miséria. Eu só tenho duas batinas velhas, de algodão. Vou contar um segredo para o senhor: estou precisando até de cuecas ouviu, de cuecas! Só tenho três e estão  em frangalhos…”

O vendedor muda o apoio para o joelho esquerdo.

“Ah, cala a boca! Não chora, seu padre…”

Duas mulheres, camponesas, de véu branco, formam fila para a confissão. A da frente usa tranças, amarradas nas pontas com elástico. No confessionário, o padre passa as mãos no rosto, nervoso.

“O senhor acha que os Almeida Brito vão usar aquelas fitas para o mal?”

“Ah, seu padre, que pergunta! Vão usar para o bem deles. Mas desculpe a ignorância, seu padre, o senhor quer dar uma de bom… está me chateando. Eu vou dizer: estou até com raiva do senhor. O senhor não podia se meter com um vigarista como eu. Nem participar de uma sujeira dessas. O senhor é padre.”

O movimento da estola de novo, para cima e para baixo.

“Você não me engana, vendedor. Você vive disso. Você vai a toda cidadezinha fazendo esse mesmo jogo. Convence as pessoas de boa fé, como eu…”

“Agora sim! O senhor foi o primeiro padre de ‘boa fé’. Só escolho padre velho, meio cego, que não vê o microfone grudado com durex. Quando eu cheguei aqui e vi que o senhor era moço, quis voltar. Mas arrisquei. E pensei até que seria preso, quando o senhor descobriu. Preso nada. O senhor é mais canalha do que eu.”

“Não fala assim!”

“Falo, falo o que quiser. E vou embora de uma vez. Preciso correr. Agora com esse modernismo de confissão coletiva, todo mundo absolvido de uma vez e fazendo penitência em casa, isso vai acabar com os confessionários…”

Perto da pia de água benta, duas meninas cochicham, riem. Pela primeira vez o padre encara a tela de palha do confessionário, nota os olhos do vendedor atrás dela.

“Excomungado!”

“Sou mesmo, seu padre. Deixo aí o cheque, aí de lado.”

O homem se levanta, estalando as juntas. O padre cisca o chão com as mãos, procurando o cheque. A mulher de branco, primeira da fila de duas, adianta-se. O cheque é só um pedaço de cartolina, sem nada escrito. Alguma dor contrai o rosto do padre, ele fica arranhando com as unhas a tela de palha sem perceber o espanto da mulher, ali ajoelhada. Depois, levanta-se da cadeira fazendo barulho, olha por cima do confessionário, vê a outra mulher que sobrou na fila. Bate com força na madeira.

“O próximo!”

E a de tranças, perto dele:

“Tô eu já aqui, seu padre.”

“E por que não avisou? Em nome do Pai e do Filho e do Espirito Santo.”

O vendedor ficou parado no meio da nave, esperando a reação que não veio, nem um olhar em sua direção. Ele se dirige para a porta de saída, gorducho, com seu andar arrastado. As luzes coloridas dos vitrais iluminam sua figura: entre um passo e outro, ele fica vermelho, laranja, azul, verde e roxo.

Do livro “Querido Senhor Assassino” – Editora Símbolo, São Paulo, 1979.

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Comecei a vê-los hoje. No começo, apenas um, parado em frente ao portão da empresa, olhando os passantes, que são milhares, àquela hora da tarde. Não me assustei, nem me sobressaltei, pelo contrário: à visão dele, que vestia roupas lisas e claras, e no rosto imberbe transmitia doçura e paz, senti-me realizado. Ver, enxergar outras realidades: isso, sim, era o maior dos privilégios. Será que atingira, finalmente, a sonhada transição? Perdera a conta dos anos em que me lamentei por não conseguir atravessar os portais da mente, de ser obrigado a conviver apenas com a matéria óbvia. Estava cansado de vislumbrar outros mundos através de sonhos confusos.

Sorri, então, olhando-o de perfil: no rosto moreno havia traços orientais, como se ele fosse um mestiço de japonês e brasileiro. Não se parecia com uma pintura renascentista. Era apenas um homem/mulher que se encantara.

Sim, porque era assexuado. Sua face de rapaz-moça-mestiço-jovem lembrava-me adolescentes indefinidos, de cabelos curtos, que tantas vezes observara em vários lugares do mundo.

Eu já sabia da existência deles, por intuição, porque sentia sua presença nos lugares mais estranhos. Cheguei até a ver um deles, certa vez, mas não na forma basicamente humana que, pelo jeito, costumam usar quando nos visitam. Aquele tomou o corpo de uma gata.

Foi quando Beatriz morreu. Era a minha amiga mais íntima, desde os nove anos de idade, no curso primário. No primeiro dia de aula nos encontramos e conversamos durante todo o recreio. Como se fôssemos irmãos.

Seguimos nossas vidas, a família dela era rica, tudo era fácil, tudo acontecia para Beatriz. Casamos mais ou menos na mesma época, o marido da minha amiga era bonito e influente, mas apaixonado por todas as mulheres, além dela. Beatriz foi obrigada a conviver durante décadas com o problema. Teve um único filho; o marido morreu cedo, intoxicado de tanta farra. Quando o filho cresceu e, por sua vez, casou, Beatriz lhe passou toda a fortuna.

A partir daí, empobreceu. Não lhe davam tratamento médico, nem mesmo alimentação suficiente. Eu, que a visitava de vez em quando, desconfiava até que a espancavam. Nos últimos anos, sua única companhia, seu único prazer era uma gata branca, sem raça.

Quando Beatriz morreu, cheia de manchas roxas pelo corpo, e eu, em prantos, cheguei ao velório com mais alguns amigos comuns, vi exatamente uma gata branca deitada numa cadeira próxima ao caixão. Percebi, espantado, que não era a gata de Beatriz, que nem mesmo se tratava de um animal real, mas a forma que um daqueles resolveu usar.

A gata olhou para mim e trocamos uma breve comunicação. Todos a viram e estranharam o fato: como uma gata, tão parecida com o bicho de estimação da falecida, que com certeza permanecera no apartamento, poderia entrar num velório e acomodar-se daquele jeito?

‘Será’, pensei comigo, ‘que eles, os algozes, estão percebendo a sutileza dessa mensagem?’

Tenho minhas dúvidas. Mas, de verdade, a gata foi o primeiro deles que vi. Agora vejo este outro, na porta da empresa. Não olhou para mim, estava muito preocupado com os pedestres, como se orasse por cada um deles, enfrentando essa loucura que é viver na Terra, sobretudo em uma grande cidade.

Minha surpresa maior aconteceu no estacionamento ao lado, quando fui pegar o carro. Havia dois, um negro e um branco, tão iluminados como seu colega ali perto. Observavam, também, as pessoas a pagar, nos dois caixas, e os manobristas a correr de um lado para o outro, recolhendo os carros. O negro chegou a trocar um olhar comigo, e não foi preciso dizer nada – eles transmitem toda a beleza do seu próprio mundo, de que temos tanta necessidade, mas que permanece tão distante, sempre, por nossa culpa.

No caminho de casa, vi outros, atravessando as ruas, sempre com as roupas leves, cabelos longos ou curtos, todos de sexo indefinido, quase lânguidos, como eu sempre imaginei que fossem. Talvez se materializassem daquela forma para atender às minhas expectativas.

‘Meu Deus’, pensei comigo, ‘o que fiz de bom para merecer isto?’

Foi estranho o trajeto do trabalho para casa; quase não o senti, distraído com as lembranças daquelas visões. De repente, “acordei”, andando pela minha própria rua, em direção ao prédio. Já não havia humanos por ali, somente eles. Em grupos de dois, três, ou andando sozinhos, cruzando comigo na calçada, sentados diante dos edifícios, ou ainda olhando o movimento através das sacadas das janelas.

Comecei a chorar, de pura felicidade, acho que pela primeira vez na vida. Na entrada do prédio, no lugar do porteiro, encontrei uma mulher de rosto jovial, sorrindo para mim. Era a única que não fazia parte da multidão angelical que tomara completamente o bairro. Era Beatriz, quarenta anos mais jovem.

“Quantas saudades, meu querido!”, ela me disse somente com o olhar, sem pronunciar uma palavra.

E foi aí que eu entendi tudo.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Atravessara a cidade, subira umas dez ladeiras, engatando primeira-segunda, primeira-segunda, embrenhando-se naquela Vila Péricles de sobradinhos iguais; superara até o medo de ser assaltado só para fazer a cachorra cruzar. “Realmente sou uma besta”, confidenciou à linda pastor belga ao seu lado. Com seu olhar piedoso, ela pareceu concordar. E ele, falando sozinho, alto: “É aqui, número oito… mas que prédio esquisito… três andares…”

Desceu da picape do ano, enorme, importada. “Ainda vão me pegar aqui”, pensou, dando uns tapinhas na cabeça de Gini, “mas você me defende, não é, minha paixão?” Gini mais uma vez olhou para ele com piedade e mexeu o corpo para descer do carro. Não havia ninguém na rua. Também, num domingo à tarde…

“Ô de casa!”, ele gritou, com uma voz máscula, meio agressiva, até. Um recado para o provável assaltante.

“Ê, ê!”, respondeu uma voz de mulher, mais agressiva ainda. “Ê, meu senhor! Tô aqui!”

Olhou pra cima e só viu uma cabeça grisalha despontando da varanda do último andar. Rosto redondo. Quem seria? Onde estaria o sujeito que marcou com ele, o dono do reprodutor?

“O senhor veio é cruzar, né mesmo?”, perguntou a cabeça lá em cima, esforçando-se para aparecer mais. Desconcertado, ele olhou para Gini, ao seu lado, e achou melhor não responder “e o que é que a senhora acha?” Nada de ironias. Segundo o pessoal do Kennel, naquele lugar horroroso vivia o mais belo pastor belga gronendael da cidade. Bonito e prolífero: com ele, as cadelas pariam dez, doze filhotes.

“O Hermano não está?”, perguntou à cabeça longínqua. “Marquei com ele aqui…”

“Meu filho é um irresponsável, viajou”, disse a mulher, sem hesitação. “Olhe, dez minutos atrás eu já sabia que o senhor estava chegando. O louco ficou todo alvoroçado, andando de um lado para outro… assim, resfolegando, nervoso… é um louco…”

‘Louco? Será que ela se referia mesmo ao reprodutor?’

“Mas é melhor o senhor subir, não é, meu senhor? Senão, não acontece nada… É só empurrar o portão…”

Ele foi subindo, puxando Gini pela coleira. Degrau que não acabava mais. Perdeu o fôlego. “Preciso aumentar o tempo do personal training”, ia pensando, até que um vulto negro, imenso, deu um salto à sua frente, rosnando como a Besta do Apocalipse. O coração, que já saltava de cansaço, agora disparou.

“Minha senhora, segure esse bicho!”, implorou, enquanto tentava deter Gini, que disparara escada abaixo. Perdeu o equilíbrio, agarrou-se na mureta, quase rolou pela escada. Levou um tempo para se refazer.

“Calma, meu senhor, é que esse louco é maníaco, também. Olhou pra sua menina e já ficou empolgado… Sai pra lá, tarado! Cisca daqui, doidão!”

O cachorro, belíssimo, obedeceu com o rabo entre as pernas. Aí ele examinou melhor a mulher. Baixinha, uns sessenta e poucos anos, avental, sandálias, jeito de mamma italiana. Havia nela uma energia poderosa, autoritária, mas legítima.

“Pode entrar, meu senhor, pode sentar. Não leva muito tempo…” Olhou fixamente para a tímida Gini. “É a primeira vez dela?” Ele fez que sim com a cabeça. “Mas como esse louco tem sorte!”, brandiu, olhando para o acuado pastor belga e depois para o homem. “Sabe, meu senhor, a maioria das meninas que vêm aqui é virgem! Mas pode deixar os dois aí soltos, na sala mesmo, sem problema nenhum… Primeiro é aquela cachorrada, quer não quer, morde não morde, depois o louco vai lá, e crau!”

Ficou por ali, tentando encontrar alguma coisa para olhar, enquanto a mamma observava com ar de reprovação o pega amoroso que já começara. Gini, sempre muito sensível, parecia sofrer com a iniciação brutal. Seus olhos diziam isso.

“Sabe”, disse a mamma, “eu fico olhando assim o senhor, todo riquinho, cheiroso, cabelinho com gumex, cafetinando cachorra num domingo de tarde. Credo! Mas tem doido pra tudo e gosto não se discute… Vamos lá, tarado, acaba logo com isso!”

O homem teve a nítida impressão de que alguma coisa muito profunda estava errada com sua própria vida. Sentiu-se, mesmo, um miserável.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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