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Archive for junho \29\UTC 2010

Comecei a sentir uma grande simpatia pela mocinha depois de vê-la por umas três semanas distribuindo seu produto no sinal das avenidas Barreto Mota e Inconfidência. Aqueles sinais demorados, de um minuto.

Tinha uns dezenove, vinte anos. Sempre de calças jeans muito justas, de cintura curta, deixando aparecer uns dez centímetros de barriga. A blusa leve delineava os pequeninos seios, revelando a ausência de sutiã, mas ela, apesar do esforço, não era mesmo sexy. Seu sorriso, por exemplo, era luz pura, radiosa, benfazeja, definitivamente espiritual. Ela me parecia incompetente para vender as “supergatas do Club for Men”.

Mas lá estava, um anjo em meio à corrupção: alguns homens, na verdade umas bestas, com expressões de abutres, abriam os vidros para receber o cartão com o endereço do clube e depois insultá-la com grosserias; ela respondia com aquele sorriso de converter gentios.

Tinha a idade da minha filha mais nova, Clara, e eu comecei a especular sobre o que a havia feito cair naquela esquina espúria da cidade, ser obrigada a se fingir de prostituta e suportar as velhacarias dos canalhas e infelizes a caminho dos seus desconcertos.

Imaginei-a cumprindo o expediente de transgressões para depois se apresentar na escola noturna de um subúrbio distante, viajando horas nos ônibus lotados, mas iluminando a tudo e todos com a expressão divinal do seu rosto de criança.

‘Não deve ter um pai’, pensei, ‘e precisa cuidar dos irmãos mais novos; a mãe lava o chão de alguma firma, ela sonha em cursar Direito (não sei por que pensei em Direito) e aí aceitou distribuir esse lixo na rua’.

Houve um dia de trânsito congestionado em que pude observá-la um pouco mais. Passou próximo à minha janela, mas, com certeza, devo ter cara de quem jamais frequentaria um clube de sacanagem. Talvez pelos meus cabelos brancos. Não sei.

Abri o vidro e cheguei a chamá-la, “venha cá, querida”, e logo me arrependi: os bárbaros que a assediam poderiam chamá-la assim. Ela apressou o passo, evitou o carro imediatamente atrás do meu e foi entregar seu cartãozinho para um rapaz da idade dela, alguém que não teria dinheiro para frequentar um bordel mais ou menos luxuoso.

Cheguei a delirar um pouco. Estacionar numa esquina próxima e vir até ela, puxar uma conversa e acabar oferecendo-lhe ajuda: um emprego, um empréstimo, alguns conselhos, sei lá. Qual a diferença entre os sonhos românticos daquela moça e os sonhos da minha filha Clara? Choraria no cinema durante um final feliz? Ou a violência da cidade já a convencera de que não se vive sem vilanias e perversões? Pior: teria noção de que existe ética em alguma parte do mundo? Mas, se fosse assim, se ela já tivesse perdido a esperança, de onde, de que fundo de alma tiraria aquele sorriso canonizado?

Lembrei-me, um dia, de um velho amigo, Sinval, que possuía um grande estúdio fotográfico.

“Está interessado em sorrisos bonitos?”, fui perguntando, ao telefone.

“Gostaria de sorrisos fotogênicos”, ele respondeu, deixando clara a diferença.

Aí contei sobre a menina.

“Olha que você, como eu, está entrando na idade do lobo”, ele brincou, e eu quase não consegui disfarçar minha irritação.

“Se você conseguir trazê-la aqui…”, ele completou, como se fosse uma missão impossível.

No dia seguinte saí de roupa esporte, levando o terno numa sacola. Não ficaria bem, um grisalho engravatado abordando a menina do sinal. Estacionei numa rua paralela e me dirigi à pequena multidão de flanelinhas, vendedores de panos de prato, mendigos em geral e ela, no meio deles, iluminando-os.

Aproximei-me sorridente, quando o sinal abriu e ela parou um pouco sobre uma das pobres árvores do passeio, quase morta de intoxicação pelo dióxido de carbono. “Ei!”, disse, a três metros dela. “Quero falar com você!”

Ao contrário do que imaginei, ela veio quase correndo, com seus cartões na mão direita, e o rosto em êxtase.

“Quer um cartão, meu?”, ela perguntou, forçando uma certa maldade no olhar.

“Não, não, quero conversar com você.”

Ela ficou séria.

“Por que? Não vou ficar com você.”

“Eu sei. Queria falar de um emprego.”

Pela primeira vez vi que seu sorriso poderia não ter luz nem cor.

“Pra cima de mim, ó babaca? Sabe quantas vezes me oferecem emprego por dia? Vai pra puta que o pariu!”

O farol abriu e ela logo se movimentou para trabalhar. Eu baixei a cabeça e voltei pelo passeio, ouvindo buzinas e roncos de motores. Não me senti agredido. Não estava infeliz. No fundo, meu medo era de que ela, ao se deparar comigo, passasse a língua sobre os lábios ou já me desse seu preço.

Foi melhor assim. Eu certamente encontraria uma outra forma de abordá-la, quem sabe, lhe escrevendo uma carta, muito direta, muito sincera. Iria pensar com carinho no assunto.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Não acreditei quando vi o apartamento. Um por andar, quatrocentos metros quadrados e de frente pro mar. Aquele mar com que eu sempre sonhara, desde criança, mar das piscinas naturais, o local mais valorizado da praia inteira, onde os muito ricos haviam construído suas casas suntuosas. Um mar de sonho, numa avenida de sonho.

Aquele ponto, centro do trecho das piscinas naturais, a gente só conhecia de passar de ônibus, isso desde criança. De repente, chega um homem de paletó e gravata, que se diz advogado do espólio do meu falecido marido, e conta que herdamos, eu e meus filhos, um apartamento naquele paraíso.

“Mas… mas como?” – eu, atônita.

Mário Lúcio, o falecido, era um batalhador, não se podia dizer que fosse pobre, que fôssemos pobres, mas de que jeito ele comprara um apartamento na Avenida da Beira?

O advogado pigarreou, desconversou, mas acabou deixando claro que Mário Lúcio, que me largara havia muito tempo, possuía uma segunda mulher (ainda bem que não era uma segunda família) a quem ele oferecera o apartamento na praia, mas não lhe passara no papel. Ou seja: era nosso, meu e dos meus três.

Naquela época, eu morava com Josias, o meu querido, o meu caçula. Cleide e Ribamar, mais velhos, já se haviam casado e até saíram da cidade, de uma forma estranha, como se fugissem da mãe e do irmão. Ciúmes, apenas ciúmes.

Ninguém vai me dizer que não há preferências entre pais e filhos. Ninguém. Talvez eu tenha exagerado na minha preferência, que assumo, mas não sou a única. Que posso fazer? Sempre amei e me sacrifiquei por Cleide e Ribamar. Quando eles eram pequenos, vivemos os nossos piores anos, um tempo em que acordávamos sem saber se havíamos melhorado de situação ou se estávamos condenados a pedir esmolas. Ser um pequeno empresário industrial, numa confecção, não é nada fácil. Eu é que sei.

Mas, quando Josias nasceu, a situação era muito diferente. Éramos pressionados, até, a comprar o sobrado do lado para ampliar a fabriqueta. Já trabalhávamos com força total, vinte e quatro horas por dia, mas isso são coisas do Brasil. Um dia, fracasso; dia seguinte, esplendor.

Depois é que fui entender: Mário Lúcio se sentira tão rico que, após deixar a casa (ou antes, sei lá), arrumara uma putinha e se instalara com ela no apartamento da Avenida da Beira. Bem, devia gostar muito dela, pois não se dá um espaço daqueles a quem não se tem paixão. É o mais caro metro quadrado da cidade.

De qualquer forma, tudo passou: Mário Lúcio é apenas uma lembrança. Quando ele nos deixou, deve ter aberto um outro negócio, pois entregou a fabriqueta, que nos sustentava, a um testa-de-ferro, que só fez bobagens na empresa. E nós vivíamos daquela confecção. Eu me sentia mais só do que nunca, com uma fábrica falindo e três filhos mais ou menos criados.

Vou falar a verdade: investi no Josias, que tinha apenas quatorze anos. Cleide e Ribamar já haviam decidido suas vidas: queriam simplesmente casar e viver bem. Nada de diploma. Preferiam afastar o idiota do gerente e tocar, eles sozinho, a fabriqueta. Como se encontravam com o pai, de vez em quando, acabaram por convencê-lo de que tinham competência.

A mim me sobrou o caçula, o meu querido, que até me perguntou, quando entrou para o segundo colegial: “Que mãezinha acha que eu devo fazer?”

“Administração de empresas”, eu respondi sem pestanejar, porque foi isso que seu pai sempre fez, sem ter qualquer conhecimento. Se você souber fazer, com o respaldo da universidade, vai se dar muito melhor do que ele.”

“Faz sentido, mãezinha. Vou pensar nisso.”

Era tão tímido, o meu menino. Uma vez me disse que não sabia exatamente como se comportar num ato sexual.

“Meu filho: a televisão mostra isso até na seção da tarde. E você não viu?”

“Mais ou menos, mãezinha. Meus amigos também me dizem como é. Mas você tem experiência, como é que a gente fica, assim, em cima da mulher?”

Eu me deitei e deixei que ele ficasse por cima de mim. Sorri: “É só isso, meu filho, só isso. Aí, é claro, os dois vão estar pelados, né mesmo?”

“Tá certo, mãezinha. Entendi tudo.”

Josias passou na primeira chamada da Universidade. Centenas de candidatos para uma vaga. Ele chegou em casa com a página do jornal.

“Olha aqui, mãezinha, o nome do seu filho”.

Eu chorei e o abracei. Havia muito tempo não sentia emoção igual. Logo depois veio a notícia de que herdáramos o apartamento da Avenida da Beira.

Hoje passo as minhas manhãs a olhar para as piscinas naturais, de água quente. Não entro mais no mar, não gosto de vestir maiôs que sempre revelam a minha decadência física. Já fui uma mulher desejável, perseguida, até. Josias desce, todos os dias, por volta das dez da manhã, e entra nas piscinas. Gosta de ficar sozinho (jamais conheci suas namoradas), embalado pela água tépida, olhos fechados. De vez em quando, abana para mim, de tão longe, e eu logo retribuo, pois não tiro os olhos dele.

Eu já tive aquela piscina dentro de mim, um dia, enquanto esperava seu nascimento glorioso. Não consigo pensar em outra coisa. E ele também não, acredito. Assim, lá embaixo o que existe não é exatamente um mar de corais, com a água represada a sugerir maravilhas. Sou eu que estou ali, com meu infinito amor, a minha compreensão e a certeza de que, enquanto se embalar nas minhas águas quentes, Josias viverá o prazer e o encantamento, com toda a segurança.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Meti meio pão francês com manteiga na caneca cheia de café; deixei encharcar um pouco, até a manteiga vazar e manchar o líquido escuro, e aí fui puxando com os dentes pequenos nacos do pão, que ora chupava, ora deixava desfazer na boca. Não existe nada mais delicioso neste mundo do que isso.

Ando gostando muito de comer, fico até preocupado. Não posso me entregar a prazer algum, não vou amolecer, distrair-me. Daqui a pouco o herdeiro vai entrar pela porta principal do restaurante, com os dois seguranças. Tenho certeza de que vai escolher a mesa próxima do toalete, que é a mais protegida, apesar do cheiro de mijo que se espalha por uns três metros quadrados. Mas o herdeiro é gordo e glutão: quando come, não vê nem ouve nada, não sente cheiro de porra nenhuma. Por isso será fácil matá-lo. O problema são os seguranças. O gordo os troca a cada quinze dias.

Estou na campana há muito tempo, desde o final do ano passado. Sei tudo desse filho da puta obeso. Sei, inclusive, que a sua pior tara é a de só se excitar quando vê sofrimento. Por isso bate tanto nas mulheres. Há certas pessoas que não deveriam vir ao mundo, eu talvez seja até uma delas, mas esse gordo é pior do que eu. Eu, pelo menos, tenho a minha ética e jamais apaguei um pai de família ou alguém reconhecido pela comunidade como um benfeitor. Tive de encarar Brejo Preto, quando ele veio me contratar para queimar o juiz.

“Sabe quantas crianças estão vivas por causa daquele doutor, Brejo Preto?”, eu perguntei, porque até meu irmão Lourenço tinha mandado dois órfãos para a casa de caridade que o juiz mantinha.

“Tô cagando.”

“Tá não, Brejo Preto. O homem cuida de sessenta crianças, levanta dinheiro até do padre Júlio, que é a pessoa mais avara que já conheci. Se esse homem morre, quem vai tocar o orfanato?”

“Que se foda.”

Acabou de falar e os miolos foram parar no teto. Dizem que uns pedacinhos pretos estão lá até hoje, grudados. Os três capangas que vieram com ele nem esperaram pra carregar o corpo. Olharam pra mim com cara de bunda e saíram correndo. Não se faz mais capanga como antigamente. Eu mesmo me surpreendi com aquilo. Será que agi de reflexo? Acho que foi. Não suporto ver gente egoísta, porque o mundo é uma massa que só se move quando todos empurram. Quer dizer, um depende do outro e é o povo que dá a direção. Tem que ter gente nesta merda pra cuidar dos abandonados. O juiz mandou três amigos meus pra cadeia, mas é um homem decente.

Nossa! Agora, cheguei até a lamber a ponta dos dedos e passei a língua nos beiços. Que pão gostoso, caceta! Torradinho, saído do forno inda agora. E a manteiga… daquelas de Minas que só se vende em lata.

Péra aí: deve ter alguma coisa errada nesta história. Não conheço ninguém no restaurante. Das vezes em que estive aqui por perto, na campana do gordo, jamais entrei neste lugar. Ficava de longe, no máximo perto da porta, fingindo de motorista cansado que precisa esticar as pernas, ou observava de dentro do caminhão. Fiquei meses nisso. Sou um profissional. O sujeito que me atendeu deve ser o dono, anda de roupa comum, enquanto os garçons se vestem com um avental azul. Foi o dono que me serviu o pão e a manteiga de lata. Por quê?

Daqui a pouco o gordo vai atravessar a porta e eu não deveria me mexer daqui. Mas não gostei da descoberta: quem sou eu, um desconhecido, para merecer o melhor bocado da casa? A menos que…

Levantei-me com calma, olhando para todos os ângulos do grande salão, até para o que se passava às minhas costas, através do espelho redondo no ângulo da parede, e foi pelo espelho que vi o dono do restaurante empalidecer só pelo fato de eu me ter mexido. Voltei-me para ele, andei em sua direção, com passadas moles, mas olhando-o nos olhos. Ele ficou hipnotizado. Cheguei muito perto e disse, rindo, que queria falar com ele dentro do banheiro. Ele obedeceu, tremendo.

“Que foi, meu senhor?”

“Você vai me dizer. Serve manteiga de lata pra todo mundo aqui? E esse pão torradinho, de onde veio?”

“Meu senhor, eu sei quem o senhor é. Queria só agradar…”

“Você e mais quem?”

“Só eu, meu senhor. Não converso essas coisas com empregado.”

“Tire a roupa.”

“Mas, meu senhor…”

“Vamos trocar de personalidade. Temos o mesmo tamanho. Sente no lugar onde eu estava, com a minha roupa. Eu vou servir manteiguinha mineira pra você.”

“Os garçons vão notar.”

“Se notarem, vão entender que é melhor ficar quietos. Ou vão todos pro céu. Tenho bala aqui pra matar mais de cinquenta.”

Na hora em que saíamos do banheiro, o gordo chegava com os dois seguranças que, pelo menos, eram os mesmos da última vez que vi o desgraçado.

O dono do bar sentou-se no lugar onde eu estava e começou a brincar com a lata de azeite de soja em cima da mesa. Eu peguei a primeira bandeja que achei e, diante dos olhares assustados da mocinha da caixa, que não conseguiu compreender minha súbita presença com as roupas do patrão, peguei o pão e os potinhos de manteiga. Esta, com certeza, de quinta categoria. A bandeja encobria a pistola.

Fui pelas costas dos seguranças levar o couvert. Era uma excelente posição. O gordo na minha frente. Os seguranças de costas. A mulher do pai daquele puto, a segunda, me contratara para matar o enteado. O velho não viveria muito, com cirrose avançada, e não havia mais herdeiros, além do gordo.

“Mas a senhora tem direito à metade”, eu disse à mulher, que não me parecia má pessoa.

“Não é dinheiro, senhor. É medo. Ele está se preparando para me matar. Sinto no olhar dele.”

“Aí a senhora se antecipa…”

“Isso.”

“Vou aceitar o serviço porque aquele gordo não vale o que o gato cobre. Quase matou de pancada uma amiga minha.”

“Meu Deus! Por quê?”

“Só para vê-la sofrendo. Sentindo dor.”

Lembrei-me do diálogo no momento em que me aproximei da mesa do herdeiro. Os seguranças viram que era o homem do restaurante vindo e me deram as costas. O gordo já estava de cabeça baixa, arrasando um saco de batatas fritas.

Acertei à queima- roupa a cabeça de cada um. Eles caíram de um jeito que parecia de brincadeira: como quem dança capoeira, chutando as mesas e cadeiras de plástico. O gordo ainda levantou a cabeça, mas o corpo dele não se mexeu. Aí foi fácil: mais um tiro no meio dos olhos. Meu silenciador é tão eficiente que uma parte do pessoal, dentro do restaurante, não percebeu o que estava acontecendo.

O herdeiro caiu de costas, junto com a cadeira, e não largou o saco de batatas fritas. Eu passei por cima dele, carregando a bandeja, quando as pessoas começaram a gritar e a correr para longe do prédio, e me dirigi diretamente ao dono do bar, que usava minhas roupas.

“Obrigado, meu caro, pela manteiga de Minas e o pão torradinho. Sabe, eu lambi os beiços.”

O homem sorriu, cúmplice, enquanto as pessoas gritavam cada vez mais alto.

“Quando quiser essas coisas, venha comer aqui”, ele disse. “Lugar onde ninguém vê nada é o melhor do mundo.”

“Pode deixar que eu volto, amigão.”

Meu plano de fuga já estava pronto há muito tempo. Saí pela lateral, fui até o pequeno depósito de pneus e outras velharias, num puxado do restaurante, onde também guardavam caixas de cerveja; peguei a bicicleta e saí tranquilamente, como um capiau qualquer, sem pressa pra chegar em casa. Ainda ouvi umas sirenas de polícia, ou de ambulância, nunca sei ao certo, enquanto me aproximava da servidão onde guardei o carro. Com o lucro do serviço, poderia ficar três meses pescando no meu sítio em Goiás. Um dia ainda iria convidar o amigo lá do restaurante. Ele certamente não conhece a emoção de pegar um pacu e comer na hora, na brasa. Hum…

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007.

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Diorinda gritou de um jeito que o prédio inteiro deve ter ouvido:

“Corre aqui, Camurça, que seu Tinho teve outro troço!”

Camurça saiu da cozinha muito além do que os seus sessenta anos permitiriam, atravessou a sala aos saltos, para não desarrumar os tapetes persas, passou por cima do cocker spaniel azul ruão com pintas brancas, que disparou logo atrás, e chegou à porta do banheiro, enquanto a enfermeira se esgoelava:

“Acode logo, Camurça, seu Tinho tá com mais de cem quilos!”

Mas quem entrou no banheiro foi o cachorro, e pulou sobre o corpo inerte de seu Tinho, oitenta anos, desabado dentro do boxe, e começou a lamber, e a fazer festa, agitando nervosamente seu toco de rabo.

“Camurça, tira o Ubalu daqui, pelo amor de Deus! Chispa, cachorro chato! Ai meu Deus…”

Ubalu, como era chamado pelas duas mulheres, mas que ganhara, originalmente, o nome de “White Blue”, criação de seu Tinho, por sinal, pressentia quando a cozinheira ameaçava tirar o chinelo. Aí gania, como se tivesse sido realmente atingido, e fugia, sempre esbaforido, para se esconder no armário das vassouras e do aspirador.

“Me ajuda, Camurça!”, insistia a enfermeira, mas a cozinheira plantara-se imóvel, de costas, diante da porta aberta do banheiro.

“Diorinda…”

“Vem logo, mulher. Que é, mulher?”

“Ele tá nu?”

“Nu? Ora, Camurça, não está tão gagá a ponto de tomar banho de roupa. É claro que está nu! Vem cá, mulher!”

“Com as vergonhas de fora?”

“Camurça, pelo amor de Deus! Essas vergonhas já morreram faz tempo, mulher. Me ajuda se não eu quebro a coluna.”

“Morreram, não, Diorinda… Eu é que sei.”

A enfermeira, cujo peso não ficava atrás do de seu Tinho, sentou-se, extenuada, no chão mínimo do boxe ao lado do corpo do homem. Não se importou de molhar todo o uniforme branco.

“Ah, é? O velho bolinou você?”, ela perguntou, ofegante.

“Virgem Maria!”, reagiu Camurça, em voz alta. “Não tá nem louco de fazer isso. Mas… me ameaçou.”

A enfermeira olhou para o velhinho, mais largo do que alto, completamente calvo, corpo brancoso e aparentemente morto. Ela tentou se levantar, foi difícil, desabou de novo.

“Bem, Camurça, estamos aqui numa situação terrível. O homem caído, eu destruída, e você aí de costas na porta, negando-se a prestar socorro. Sabe que isso é crime? Omissão de socorro?”

“Eu acho que ele não tá desmaiado, não, Diorinda. Tá fingindo.”

“Para com isso, Camurça, este homem não consegue fazer mal a uma mosca.”

“A mim fez, com a história do Papa.”

“Mas que Papa, Camurça…”

“O Papa, ora, o velhinho lá do Vaticano. Seu Tinho veio me dizer que o Papa fazia cocô igual a nós… ‘Mas é homem santo, seu Tinho’, eu respondi. E ele ficou me azucrinando, me dizendo asneiras. Que o Papa fazia cocô e outras coisas.”

“Mas que loucura…”, disse a enfermeira com voz desistente. “E por onde é que o Papa vai pôr o que comeu, Camurça?”

“Sei lá. Seu Tinho também fez um inferno comigo com a história do encruamento.”

“Quem foi que encruou, mulher de Deus?”

“Eu. Segundo disse seu Tinho. Falou que eu tinha encruado porque sou virgem. Eu ainda passei vergonha no médico, que começou a rir.”

A enfermeira olhou para o corpo de seu Tinho com muita raiva. “Eu vivo aqui dentro desta casa e não sei de nada… O velho safado atazanando a pobre da Camurça…”, disse para si mesma, resmungando.

“Ele não faz essas coisas com você, não?” A cozinheira ensaiou uma olhada no boxe, mas logo voltou à posição inicial.

“Comigo? Dou-lhe uma porrada…”

“Se der mesmo, mata!”

Diorinda conseguiu se levantar, com muita dificuldade, empurrando a cabeça do velho do seu colo. Pegou uma toalha ali mesmo, enxugou os braços e saiu do banheiro empurrando a cozinheira.

“Que é isso, Diorinda?”

“Nunca vi coisa mais ridícula… Não atender ao pobre do homem por causa das vergonhas de fora. Vou ver se o zelador está por aí. Ele sobe e me ajuda.”

“Não é nada disso, não, Diorinda. É que seu Tinho quer brincar… Ele chega de repente, assim, me apertando aqui as bolotas do braço, dizendo ‘neném quer nanã…’ Seu Tinho tá louco.”

A enfermeira desapareceu no meio da sala, andando rápido, desarrumou os tapetes persas na passagem, mas foi obrigada a dar meia-volta por causa dos gritos desesperados que ecoaram, súbito, vindos do banheiro. Ainda chegou a tempo de ver seu Tinho, arrastando-se pelo chão, com um ar zombeteiro no rosto, a cravar as unhas na batata da perna esquerda da cozinheira.

“Agora te peguei, te peguei!”, gritava o velhinho, enquanto a outra, histérica, não conseguia se mexer. Só gritar.

O cocker spaniel, desta vez, hesitou um pouco antes de disparar, lá do fundo do apartamento, e saltar sobre o dono.

“Que frege, meu Deus, que frege…”

Diorinda achou que estava na hora de mudar de profissão, enquanto Ubalu, lambendo a cara de seu Tinho, parecia ensaiar uma espécie de culto de celebração da vida.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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A primeira vez que ameacei sair do corpo foi no restaurante da empresa. Minha amiga Ciranes estava comigo e não percebeu nada. Eu devo ter perdido a cor e expressado uma certa confusão; a fome, perdi completamente, e abandonei o prato cheio na mesa. Ciranes olhava para mim, rindo, dizendo as coisas bobas de sempre.

É uma sensação desagradabilíssima ir saindo do corpo. (É bom deixar claro que não saí completamente; foi, digamos, uma ameaça.) Você pensa até que está morrendo, e não entende por quê. Depois imagina que é vítima de alguma moléstia cerebral. Estranho: nada dói e, mesmo a ponto de pular fora do corpo, você pode se levantar da mesa e cumprimentar alguém.

Fui voltando aos poucos, respondendo sim, sim, para Ciranes, que continuava a me tratar como uma pessoa normal. Quando tomei o cafezinho, entendi que o problema era bastante complexo. Logo depois, a estranha sensação passaria, e era como se nada tivesse acontecido. Então me fiz a pergunta dramática: mas o que, realmente, ameaçava sair de mim? Alguma coisa era. O eu, o meu eu, a consciência, teria condição de escapar da massa física e manter-se raciocinando? Mesmo sem contar com os cinco sentidos? Aí me lembrei que estava tomando Sulphur 1000, um medicamento homeopático, e no dia seguinte invadi o consultório do meu médico, após brigar com a atendente, que queria me fazer esperar quase um mês pela consulta.

“Talvez seja um efeito do Sulphur”, disse o doutor Madureira, economizando palavras, “mas talvez você esteja pronto para voar”.
“Está brincando.”

“Muita gente começa na sua idade. Na sua meia-idade.” O homeopata não tinha dúvidas.

Saí de lá do jeito que entrei: perplexo. Por enquanto, o maldito sintoma não se havia repetido, mas, por via das dúvidas, suspendi o almoço no bandejão e passei a comer sanduíches naturais na mesa do escritório, o que provocou um certo constrangimento entre os meus colegas, todos partidários de uma hora e meia de folga para as refeições. Eu, com meu sanduíche, gastava quinze minutos. Não foi minha intenção, mas, no final de dois meses, ganhei, como prêmio, uma viagem de férias, por uma semana, a uma praia distante, e com acompanhante. Ninguém teve dúvidas de que o prêmio se referia ao tempo gasto com a refeição e ao fato de não sair mais da mesa de trabalho. Eu, na verdade, não ficava por ali exatamente trabalhando, mas navegando pela internet, à procura de literatura sobre Projeciologia – a ciência que estuda as viagens fora do corpo.

Já que era divorciado e sem filhos, perguntei a Ciranes, que trabalhava em uma outra empresa, no andar de baixo, se gostaria de me acompanhar na viagem. Ela, que tinha duas semanas de folgas acumuladas, vibrou muito. E veio me perguntar se o convite incluía sexo.

“Claro que não!”, reagi. “Só companhia.”

“Por que ‘claro que não’? Eu gosto.”

Pausa longa.

“Não sei se consigo.”

“Tenho sempre viagra na bolsa.”

“Meu Deus! Você é promíscua?”

“Não. Prevenida.”

Acreditei. A ausência total de atrativos não lhe permitiria sequer a promiscuidade.

“Ciranes, o problema não é físico. É que não sei se consigo transar com amigas.”

“Ué, mas pelo menos se esforce. Vai ter de tirar a prova.”

Durante a primeira tentativa, dentro de um apartamento magnífico de um hotel cinco estrelas de frente para o mar, quando estávamos prestes a consumar o ato, senti-me saindo do corpo de novo. Foi horrível. O meu corpo, em abandono, perdeu o ritmo, suspendeu as flexões e desabou para o lado. Ciranes iria me contar, tempos depois, que meus olhos ficaram vidrados – e arregalados.

Eu, ou quem fosse, estava longe. Pairava pelo quarto, de pé direito bastante alto. O pior: começava a gostar daquilo. Ameacei sair pela janela aberta, como se quisesse escapar do ar-condicionado polar, mas recuei. Iria direto ao maravilhoso mar verde e translúcido daquela região do país e provavelmente sumiria nele. Via Ciranes na cama, mordendo o lençol e chorando um choro agressivo. Ao lado dela um homem parecendo morto. Olhão aberto, largado. Nem me reconheci.

Num dado momento, resolvi dar uma olhada no cordão prateado que deveria me segurar, segundo a teoria da Projeciologia, à desprezível carcaça. Esse cordão, que se esticava ao infinito, era uma referência quase unânime nas histórias de viagens fora do corpo – mas não vi cordão, nem liame algum, nada.

‘Então… estou morto!’

O susto foi tão grande que voltei abruptamente ao corpo nu e envelhecido daquele homem ao lado de Ciranes. A reentrada deve ter deslocado o ar, pois minha amiga deu um gritinho e quase caiu da cama, como se tivesse sido empurrada de baixo para cima.

Estava muito confuso. Ciranes, claro, não desconfiou que participara de um fenômeno mais ou menos raro. Meu fracasso sexual se transformou em humilhação para ela. Levou um bom tempo para me olhar no rosto, apesar dos meus insistentes pedidos de desculpas.

“O que há com você, cara? Na hora H…”, disse, de costas para mim.

Resolvi lhe contar tudo. Ela sentiu-se mais humilhada ainda. Choramingou.

“De todos os caras que fracassaram comigo, você foi o que arranjou a desculpa mais criativa. Você é um gênio!”

Para falar a verdade, eu já descobrira que aquela aventura fora do corpo substituía, com imensas vantagens, os gozos terrenos. Entre namorar com Ciranes ou com uma bela mulher, não importava, e voar sem asas por um quarto de hotel, eu sinceramente preferiria a segunda hipótese. Porque não era só voar, mas sentir-se uno com a natureza; experimentar a não-dor que é o abandono da matéria; vivenciar uma beatitude inexprimível – um êxtase superior.

Tempos depois, quando saí do corpo pela terceira vez, já havia perdido qualquer sentimento de medo. Estava no velório de um pobre diabo, sem família e sem amigos. Eu, ali, voava e voava, não como um pássaro, ou como uma nuvem, mas voava energeticamente, direcionando-me através da força do meu próprio pensamento, haurindo cada visão, cada cheiro de flor – e tantas havia naquele lugar!

Dei uma olhada, de soslaio, na cara do morto velado: eu mesmo, mas muito velho, um trapo murcho. Aos poucos, fui compreendendo o porquê de ter permanecido tanto tempo dentro daquela casca inútil: ofereceram-me uma aula de resistência, de sobrevivência na dor, ou uma descida aos infernos, para que eu justamente aprendesse a voar.

Eu aprendi. Depois disso, não houve mais limites, fronteiras ou resistências.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Eugênio, o técnico de televisão, acordou às oito da manhã em ponto no seu apartamento à prova de tudo. Acordou com aquela sensação rara de que hoje as pessoas lhe seriam suportáveis. Sorriu, até sorriu. Escovou os dentes, mas não tomou café: correu ao grande cofre da sala, ficou ali durante quase meia hora, manipulando o complexo segredo. O cofre abriu-se, enfim, e Eugênio tirou de lá, com forte carinho, o seu tubo-voador. Olhou demoradamente (como sempre fazia) para o tubo, que ele mesmo havia construído, como se olhasse para o espelho. Falou com o tubo, ninou-o, chamou-o de “li-liu, li-liu”, beijou-o e foi ajeitá-lo nas costas, com os cuidados redobrados, na sala pressurizada.

Olhou medroso a saída do apartamento. Hoje (que sorte!] não havia ninguém, nem um fotógrafo ou um primo. Subiu devagar as escadas até o terraço do prédio. E lá estava o zelador, rindo só com as gengivas, os olhos fixos no tubo.

“Bom-dia, majestade!”, disse o zelador, sem fitá-lo, tentando entrar no tubo com os olhos.

“Tua mulher te trai”, respondeu furioso Eugênio, o técnico de televisão.

“Sim senhor, sim senhor.”

Eugênio se equilibrou nas bordas do terraço, perto de uma antena de tevê que, ele já havia descoberto, não provocava interferência no engenho. Ligou o pequeno, mas poderoso jato, tocando um botãozinho amarelo à altura do peito, e saiu voando imediatamente, com o zelador dando adeus de lenço branco. Viu, sorrindo, a cidade embaixo. Bonita, bonita. O sol perdido num céu azul de santinho. O mar longe, verde, as ilhas. O altímetro, preso à outra correia do tubo, indicava seiscentos metros. As pessoas já o haviam descoberto, pulavam em terra, apontando para ele. As crianças se excitavam. Era sempre assim, sempre assim. Deu uma revoada sobre o prédio do Banco do Mundo e um dos guardas da segurança, de prontidão no heliporto, o cumprimentou. Eugênio, o técnico de televisão, respondeu com uma banana. O guarda agradeceu. Procurava Antúlia! Procurava Antúlia! Era a mais bela, sexy, inteligente e rica adolescente da cidade. Procurava Antúlia! Como todas as mulheres, ela corria para entregar-se a ele, fazia-se também na multidão do fã clube em torno do prédio onde ele construíra o seu apartamento à prova de tudo. E Antúlia (linda, linda!), ao contrário das outras, não tinha absolutamente cheiro de nada. Procurava Antúlia!

Baixou a trezentos metros sobre a casa da bem amada, ‘oh!, eu te levarei nos meus braços!’ Antúlia, ao lado de toda a família, estava no terraço, olhando para ele no céu. Ela o queria, também, ‘oh, eu te levarei no meu colo!’

Reverteu o jato do tubo-voador, para um pouso tranquilo. Mas não desceu no meio das pessoas da família de Antúlia. Ficou afastado uns vinte metros, no fundo do quintal, e gritou, galante:

“Vem, Antúlia, vem!”

Ela correu de braços abertos, os olhos fixos no tubo-voador. Disse “meu amor, meu bem, meu sonho”, olhando para o tubo, mas agarrando-se ao técnico de televisão, que sentiu-se morrer. Também Antúlia não conseguia vê-lo?

“Queres voar? Voar?”

“Sim, sim, meu albatroz!”

Levou-a nos braços, sem dar atenção à família sorridente em terra, até o Bosque das Virgens Azuis. Lá, tirou o tubo-voador das costas, com aquele mesmo cuidado. E nesse momento – somente nesse momento – ele e Antúlia identificaram-se, amando juntos o tubo, sorrindo, deslumbrados.

Depois, ele tentou amá-la. Assim, fisicamente. Mas ela o abraçava olhando de lado, balbuciando “amor, bem, meu bichinho”, com os olhos pregados no tubo-voador. Eugênio, o técnico de televisão, não suportou. Frustrado, puxou Antúlia do chão de folhas azuis do bosque.

“Não dá! Vamos embora, vamos embora!”

Antúlia, que não percebeu sequer a interrupção do quase ato, fez a viagem de volta dizendo carinhos em francês. Só em francês. Ele retornou a todo jato, desceu à casa da família que, em transe, cercou a escolhida. A família, liderada por um punhado de tias gagas, quase ataca a moça:

“És vi-virgem? És vi-vi-virgem? Ele te-te fez? Te fe-fez?”

Mas um encanto esquisito baixara sobre Antúlia e ela nunca mais falou em português. Eugênio, o técnico de televisão, voltou ao seu apartamento solitário. Fugiu do zelador, chegou a ser displicente na sua correria pela escada (podia afetar o engenho, não podia?) e trancou-se lá, durante dois meses. Quando saiu, toda a cabeleira e a barba, que crescera muito, estavam brancas.

“Maria Antonieta!”, gritou o zelador, do portal.

“Tua mulher te trai”, disse Eugênio.

“Sim senhor.”

“Me chama de Ícaro, eu agora sou Ícaro”, disse Eugênio, o técnico de televisão, apresentando as grandes asas de cera que construíra naqueles meses.

“Ícaro!”, obedeceu o zelador.

Então, Ícaro subiu ao terraço do prédio, olhou o sol assassino e precipitou-se, batendo as asas. Voou durante horas em torno do sol (usava óculos ray-ban) e nada aconteceu. Voou cinco horas. Chorando, desesperado, voltou ao terraço, onde o zelador o esperava, com o mesmo deslumbramento, olhando fixamente as asas de cera.

“Minha mulher me trai!”, gritou feliz o zelador, antes que Ícaro pudesse abrir a boca.

Do livro “Leonora Premiada”, Editora Duas Cidades, São Paulo, 1974.

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As pessoas da família começaram a notar que havia algo de estranho com Eugênia no dia em que ela ganhou o segundo concurso de “Princesa do Rosa Conceição”, o maior clube da cidade. Eugênia tinha dezesseis anos, na época.

Não era o simples fato de haver ganho a competição novamente que estava errado. Afinal, Eugênia era linda, ou quase isso; sua beleza desafiava os jurados: eles não sabiam dizer se era o rosto, mais anguloso do que o das belezas normais; ou o corpo, menor e mais rechonchudo do que a moderna tendência anorética; ou ainda se eram as luzes que seu sorriso irradiava. Algo muito impressionante, aquele sorriso: no todo ou em parte, dependendo do ângulo que se escolhesse para apreciá-lo, era a melhor expressão da felicidade, ingenuidade, paz – poucas crianças sorriam como Eugênia.

Mas o que chamou a atenção da família foi o denodo com que a menina se entregou a esse segundo concurso. O clube permitia a reeleição de sua princesa, mas nenhuma das ganhadoras jamais havia tentado. Eugênia ganhara da primeira vez invertendo totalmente o que havia sido, até então, a tendência das competições: as candidatas, todas adolescentes, entravam com longos de baile onde apenas se permitiam os braços parcialmente nus e os decotes levemente sugeridos. Pois, na sua primeira vitória, Eugênia entrara vestida de princesa de contos de fadas. A roupa, que lhe cobria todo o corpo (até luvas usava), era um mix das encantadas figuras medievais dos livros infantis. Uma tiara de falsos diamantes e um traçado de sianinhas coloridas sobre um bustiê de tule de seda eram os pontos fortes da fantasia, que ela própria desenhara.

Estupefação na platéia e entre os jurados. Depois, maravilhamento. No final, aplausos delirantes e aclamação. Eugênia era uma página colorida da infância de cada um dos presentes naquela noite inesquecível.

Pois bem: um ano depois, lá estava ela, desenhando, costurando e bordando a sua segunda fantasia para um novo concurso. Fez lobby, conversando com as pessoas ligadas aos jurados, usando de uma persuasão que não combinava com seu caráter reservado. Quando entrou na passarela, era uma segunda página colorida da infância dos presentes, mas o tema se repetira e perdera metade do encanto. De qualquer forma, as concorrentes também se haviam copiado com os mesmos longos e cabelos armados de todos os anos. Eugênia, sob judiciosos aplausos, foi reeleita. Ela chorou, com certo estrépito, ao receber a notícia, alinhada com as outras candidatas que, derrotadas previamente, não conseguiam sequer sorrir.

Aí a família sentiu que alguma coisa não andava bem com a moça.

Já nos dias seguintes, pediu aos pais e ao irmão mais velho que não tocassem em certos assuntos durante as refeições: violência, corrupção, guerras, mortes.

“Ué…”, estranhou o rapaz, estudante de Direito, “a realidade te incomoda?”

“Não”, respondeu prontamente a Princesa do Rosa Conceição, “o mundo existe para ser belo e harmonioso. Nós o estragamos”.

Os pais preferiram calar, mas logo perceberam que havia uma mente desordenada dentro de casa: Eugênia deixou de visitar a avó paterna doente (“aquela úlcera na perna dela me deixa mal”); começou a faltar às aulas da terceira série (“não suporto mais ouvir os palavrões dos meninos”); e parou de ver televisão (“somente sexo e vulgaridade”).

A moça pareceu dar certa trégua à humanidade quando surgiu com um namorado, Sidney, um rapaz muito alto, com uma expressão irresoluta no rosto imberbe. Mas, quatro meses depois, Eugênia anunciou à mãe que dera um tempo ao romance.

“Por que, minha querida? Um rapaz de futuro, e tão apaixonado por você…”

“Não, mãe… E o hálito? Que horror…”

“Mau hálito?”

“Não, mãe. Nem bom nem mau. Hálito. A senhora não acha o hálito, em si, uma coisa horrível?”

“Bem…”

“Sabe, mãe, acho que não vou casar. Não existe homem que eu goste.”

“Filha, todos os homens têm hálito. As mulheres também.”

“Pra falar a verdade, mãe, eu jamais deixarei que um homem me beije, me agarre e me penetre, e ainda injete fluidos dentro de mim.”

“Então é grave, minha filha.”

“Eu sei.”

Durante os cinco anos seguintes, psicólogos e mães-de-santo foram consultados. Novenas feitas. Um padre da Igreja Brasileira, paranormal, que conseguira fazer com que gays revertessem, fracassou inteiramente nas suas mandingas e ainda levou uma bofetada da “princesinha” (como já era chamada), porque, segundo ela, a olhava com “olhos carnais”.

Seu Ernesto, o pai, funcionário público em final de carreira, encontrou uma solução:

“Filha, a vida num convento é muito dura, mas acho que se enquadra com o seu… temperamento.”

Seu Ernesto nem acabara a frase e já estava chorando. Soluçou, de balançar os ombros.

“Pai, você chora como se eu tivesse morrido.”

“Você morreu, minha filha. Quer dizer, com relação ao mundo. Eu faço parte do mundo.”

“Pai, o convento não daria certo pra mim. Lembro-me das freiras dos meus tempos de curso primário. Elas suavam com aqueles hábitos quentes. O odor era desagradável.”

“Ai, meu Deus!”, disse seu Ernesto. “Estamos perdidos!”

De qualquer forma, o choro do pai a impressionou.

Saiu pelas ruas, com suas roupas antigas, e procurou Sidney que, ainda perplexo, tanto tempo depois, remoia a paixão obstinada.

“Você ainda quer casar comigo?”

“Claro, meu amor.”

“Eu não sou seu amor, jamais serei amor de alguém. Eu aceito você segundo minhas regras.”

Ele aquiesceu, sem contestar. Então houve noites de horror, em que os gritos de Eugênia na casa obrigaram a vizinhança a chamar a polícia. Era a princesinha resistindo a Sidney, embora lhe houvesse permitido certas intimidades. Aceitou, por exemplo, a fertilização in vitro, apenas para dar um neto de presente a seu Ernesto.

Nasceu, de cesariana, uma linda menina, não muito grande, meio rechonchuda, e com um sorriso que arrebatava as multidões, onde quer que estivesse. Havia, no entanto, algo curioso com aquele sorriso: ele jamais mudava, era sempre o mesmo, lindo e imutável.

Eugênia se revelou uma boa mãe, e todos notaram o quanto ela caprichava nas vestimentas da menina, no organdi, nos trançados das sianinhas, sapatos de verniz e tiaras brilhantes.

Mas, quando se observava melhor a bela criança, a impressão geral era de que ela havia saído das páginas de um livro infantil ilustrado.

Havia outros sinais, inquietantes. Quem notou pela primeira vez foi a avó materna, dona Martha: a menina, que se chamava Consuelo, não tinha cheiro de nada! Estava com dois anos e seus cocôs não recendiam. Pareciam, apenas, pequenas esculturas verde-musgo. Dona Martha passou um deles pela maioria dos narizes do bairro e ninguém soube dizer, pelo não-cheiro, o que era aquilo.

Desconfiada, a avó passou a observar a menina: ela também não possuía hálito, e jamais se cortava ou ralava um joelho. Suas frases eram sempre diretas e sem emoção. Quero isto, quero aquilo. Chorar, também não chorava. Na escola, certa vez, foi apelidada de “estátua de plástico” por causa da mania de se sentar, imóvel, durante muito tempo, à espera do início das aulas.

Sidney procurava motivar a filha com brincadeiras e correrias, mas não tinha muito sucesso. Ela não saía da frente da televisão. E, quando sorria, só o fazia a fim de obter alguma coisa ou para agradecer a um elogio. Amava os elogios. Já a mãe não cabia em si de felicidade ao examinar seu rebento e, quando a menina completou cinco anos, vestiu-a com um belo conjunto e a levou aos estúdios de tevê de maior audiência.

“Consuelo precisa provar que é um bom investimento”, disse o produtor que a recebeu.

“O senhor decide o que fazer com ela”, disse Eugênia. “Pode fazer qualquer coisa. Qualquer.”

Naquele momento, ensaiava-se um programa dominical. A estranha criança correu para o palco, cheio de bailarinos, e o invadiu, dançando como poucos profissionais o fariam.

“Ela é uma princesinha”, definiu o produtor. “Será famosa e milionária.”

Eugênia estremeceu de prazer físico, algo correndo por sua coluna, de baixo para cima. Mas isso não era, exatamente, uma emoção. Apenas o sinal de que seus genes haviam sido perpetuados.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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