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Archive for 8 de junho de 2010

As pessoas da família começaram a notar que havia algo de estranho com Eugênia no dia em que ela ganhou o segundo concurso de “Princesa do Rosa Conceição”, o maior clube da cidade. Eugênia tinha dezesseis anos, na época.

Não era o simples fato de haver ganho a competição novamente que estava errado. Afinal, Eugênia era linda, ou quase isso; sua beleza desafiava os jurados: eles não sabiam dizer se era o rosto, mais anguloso do que o das belezas normais; ou o corpo, menor e mais rechonchudo do que a moderna tendência anorética; ou ainda se eram as luzes que seu sorriso irradiava. Algo muito impressionante, aquele sorriso: no todo ou em parte, dependendo do ângulo que se escolhesse para apreciá-lo, era a melhor expressão da felicidade, ingenuidade, paz – poucas crianças sorriam como Eugênia.

Mas o que chamou a atenção da família foi o denodo com que a menina se entregou a esse segundo concurso. O clube permitia a reeleição de sua princesa, mas nenhuma das ganhadoras jamais havia tentado. Eugênia ganhara da primeira vez invertendo totalmente o que havia sido, até então, a tendência das competições: as candidatas, todas adolescentes, entravam com longos de baile onde apenas se permitiam os braços parcialmente nus e os decotes levemente sugeridos. Pois, na sua primeira vitória, Eugênia entrara vestida de princesa de contos de fadas. A roupa, que lhe cobria todo o corpo (até luvas usava), era um mix das encantadas figuras medievais dos livros infantis. Uma tiara de falsos diamantes e um traçado de sianinhas coloridas sobre um bustiê de tule de seda eram os pontos fortes da fantasia, que ela própria desenhara.

Estupefação na platéia e entre os jurados. Depois, maravilhamento. No final, aplausos delirantes e aclamação. Eugênia era uma página colorida da infância de cada um dos presentes naquela noite inesquecível.

Pois bem: um ano depois, lá estava ela, desenhando, costurando e bordando a sua segunda fantasia para um novo concurso. Fez lobby, conversando com as pessoas ligadas aos jurados, usando de uma persuasão que não combinava com seu caráter reservado. Quando entrou na passarela, era uma segunda página colorida da infância dos presentes, mas o tema se repetira e perdera metade do encanto. De qualquer forma, as concorrentes também se haviam copiado com os mesmos longos e cabelos armados de todos os anos. Eugênia, sob judiciosos aplausos, foi reeleita. Ela chorou, com certo estrépito, ao receber a notícia, alinhada com as outras candidatas que, derrotadas previamente, não conseguiam sequer sorrir.

Aí a família sentiu que alguma coisa não andava bem com a moça.

Já nos dias seguintes, pediu aos pais e ao irmão mais velho que não tocassem em certos assuntos durante as refeições: violência, corrupção, guerras, mortes.

“Ué…”, estranhou o rapaz, estudante de Direito, “a realidade te incomoda?”

“Não”, respondeu prontamente a Princesa do Rosa Conceição, “o mundo existe para ser belo e harmonioso. Nós o estragamos”.

Os pais preferiram calar, mas logo perceberam que havia uma mente desordenada dentro de casa: Eugênia deixou de visitar a avó paterna doente (“aquela úlcera na perna dela me deixa mal”); começou a faltar às aulas da terceira série (“não suporto mais ouvir os palavrões dos meninos”); e parou de ver televisão (“somente sexo e vulgaridade”).

A moça pareceu dar certa trégua à humanidade quando surgiu com um namorado, Sidney, um rapaz muito alto, com uma expressão irresoluta no rosto imberbe. Mas, quatro meses depois, Eugênia anunciou à mãe que dera um tempo ao romance.

“Por que, minha querida? Um rapaz de futuro, e tão apaixonado por você…”

“Não, mãe… E o hálito? Que horror…”

“Mau hálito?”

“Não, mãe. Nem bom nem mau. Hálito. A senhora não acha o hálito, em si, uma coisa horrível?”

“Bem…”

“Sabe, mãe, acho que não vou casar. Não existe homem que eu goste.”

“Filha, todos os homens têm hálito. As mulheres também.”

“Pra falar a verdade, mãe, eu jamais deixarei que um homem me beije, me agarre e me penetre, e ainda injete fluidos dentro de mim.”

“Então é grave, minha filha.”

“Eu sei.”

Durante os cinco anos seguintes, psicólogos e mães-de-santo foram consultados. Novenas feitas. Um padre da Igreja Brasileira, paranormal, que conseguira fazer com que gays revertessem, fracassou inteiramente nas suas mandingas e ainda levou uma bofetada da “princesinha” (como já era chamada), porque, segundo ela, a olhava com “olhos carnais”.

Seu Ernesto, o pai, funcionário público em final de carreira, encontrou uma solução:

“Filha, a vida num convento é muito dura, mas acho que se enquadra com o seu… temperamento.”

Seu Ernesto nem acabara a frase e já estava chorando. Soluçou, de balançar os ombros.

“Pai, você chora como se eu tivesse morrido.”

“Você morreu, minha filha. Quer dizer, com relação ao mundo. Eu faço parte do mundo.”

“Pai, o convento não daria certo pra mim. Lembro-me das freiras dos meus tempos de curso primário. Elas suavam com aqueles hábitos quentes. O odor era desagradável.”

“Ai, meu Deus!”, disse seu Ernesto. “Estamos perdidos!”

De qualquer forma, o choro do pai a impressionou.

Saiu pelas ruas, com suas roupas antigas, e procurou Sidney que, ainda perplexo, tanto tempo depois, remoia a paixão obstinada.

“Você ainda quer casar comigo?”

“Claro, meu amor.”

“Eu não sou seu amor, jamais serei amor de alguém. Eu aceito você segundo minhas regras.”

Ele aquiesceu, sem contestar. Então houve noites de horror, em que os gritos de Eugênia na casa obrigaram a vizinhança a chamar a polícia. Era a princesinha resistindo a Sidney, embora lhe houvesse permitido certas intimidades. Aceitou, por exemplo, a fertilização in vitro, apenas para dar um neto de presente a seu Ernesto.

Nasceu, de cesariana, uma linda menina, não muito grande, meio rechonchuda, e com um sorriso que arrebatava as multidões, onde quer que estivesse. Havia, no entanto, algo curioso com aquele sorriso: ele jamais mudava, era sempre o mesmo, lindo e imutável.

Eugênia se revelou uma boa mãe, e todos notaram o quanto ela caprichava nas vestimentas da menina, no organdi, nos trançados das sianinhas, sapatos de verniz e tiaras brilhantes.

Mas, quando se observava melhor a bela criança, a impressão geral era de que ela havia saído das páginas de um livro infantil ilustrado.

Havia outros sinais, inquietantes. Quem notou pela primeira vez foi a avó materna, dona Martha: a menina, que se chamava Consuelo, não tinha cheiro de nada! Estava com dois anos e seus cocôs não recendiam. Pareciam, apenas, pequenas esculturas verde-musgo. Dona Martha passou um deles pela maioria dos narizes do bairro e ninguém soube dizer, pelo não-cheiro, o que era aquilo.

Desconfiada, a avó passou a observar a menina: ela também não possuía hálito, e jamais se cortava ou ralava um joelho. Suas frases eram sempre diretas e sem emoção. Quero isto, quero aquilo. Chorar, também não chorava. Na escola, certa vez, foi apelidada de “estátua de plástico” por causa da mania de se sentar, imóvel, durante muito tempo, à espera do início das aulas.

Sidney procurava motivar a filha com brincadeiras e correrias, mas não tinha muito sucesso. Ela não saía da frente da televisão. E, quando sorria, só o fazia a fim de obter alguma coisa ou para agradecer a um elogio. Amava os elogios. Já a mãe não cabia em si de felicidade ao examinar seu rebento e, quando a menina completou cinco anos, vestiu-a com um belo conjunto e a levou aos estúdios de tevê de maior audiência.

“Consuelo precisa provar que é um bom investimento”, disse o produtor que a recebeu.

“O senhor decide o que fazer com ela”, disse Eugênia. “Pode fazer qualquer coisa. Qualquer.”

Naquele momento, ensaiava-se um programa dominical. A estranha criança correu para o palco, cheio de bailarinos, e o invadiu, dançando como poucos profissionais o fariam.

“Ela é uma princesinha”, definiu o produtor. “Será famosa e milionária.”

Eugênia estremeceu de prazer físico, algo correndo por sua coluna, de baixo para cima. Mas isso não era, exatamente, uma emoção. Apenas o sinal de que seus genes haviam sido perpetuados.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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