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Archive for 25 de junho de 2010

Não acreditei quando vi o apartamento. Um por andar, quatrocentos metros quadrados e de frente pro mar. Aquele mar com que eu sempre sonhara, desde criança, mar das piscinas naturais, o local mais valorizado da praia inteira, onde os muito ricos haviam construído suas casas suntuosas. Um mar de sonho, numa avenida de sonho.

Aquele ponto, centro do trecho das piscinas naturais, a gente só conhecia de passar de ônibus, isso desde criança. De repente, chega um homem de paletó e gravata, que se diz advogado do espólio do meu falecido marido, e conta que herdamos, eu e meus filhos, um apartamento naquele paraíso.

“Mas… mas como?” – eu, atônita.

Mário Lúcio, o falecido, era um batalhador, não se podia dizer que fosse pobre, que fôssemos pobres, mas de que jeito ele comprara um apartamento na Avenida da Beira?

O advogado pigarreou, desconversou, mas acabou deixando claro que Mário Lúcio, que me largara havia muito tempo, possuía uma segunda mulher (ainda bem que não era uma segunda família) a quem ele oferecera o apartamento na praia, mas não lhe passara no papel. Ou seja: era nosso, meu e dos meus três.

Naquela época, eu morava com Josias, o meu querido, o meu caçula. Cleide e Ribamar, mais velhos, já se haviam casado e até saíram da cidade, de uma forma estranha, como se fugissem da mãe e do irmão. Ciúmes, apenas ciúmes.

Ninguém vai me dizer que não há preferências entre pais e filhos. Ninguém. Talvez eu tenha exagerado na minha preferência, que assumo, mas não sou a única. Que posso fazer? Sempre amei e me sacrifiquei por Cleide e Ribamar. Quando eles eram pequenos, vivemos os nossos piores anos, um tempo em que acordávamos sem saber se havíamos melhorado de situação ou se estávamos condenados a pedir esmolas. Ser um pequeno empresário industrial, numa confecção, não é nada fácil. Eu é que sei.

Mas, quando Josias nasceu, a situação era muito diferente. Éramos pressionados, até, a comprar o sobrado do lado para ampliar a fabriqueta. Já trabalhávamos com força total, vinte e quatro horas por dia, mas isso são coisas do Brasil. Um dia, fracasso; dia seguinte, esplendor.

Depois é que fui entender: Mário Lúcio se sentira tão rico que, após deixar a casa (ou antes, sei lá), arrumara uma putinha e se instalara com ela no apartamento da Avenida da Beira. Bem, devia gostar muito dela, pois não se dá um espaço daqueles a quem não se tem paixão. É o mais caro metro quadrado da cidade.

De qualquer forma, tudo passou: Mário Lúcio é apenas uma lembrança. Quando ele nos deixou, deve ter aberto um outro negócio, pois entregou a fabriqueta, que nos sustentava, a um testa-de-ferro, que só fez bobagens na empresa. E nós vivíamos daquela confecção. Eu me sentia mais só do que nunca, com uma fábrica falindo e três filhos mais ou menos criados.

Vou falar a verdade: investi no Josias, que tinha apenas quatorze anos. Cleide e Ribamar já haviam decidido suas vidas: queriam simplesmente casar e viver bem. Nada de diploma. Preferiam afastar o idiota do gerente e tocar, eles sozinho, a fabriqueta. Como se encontravam com o pai, de vez em quando, acabaram por convencê-lo de que tinham competência.

A mim me sobrou o caçula, o meu querido, que até me perguntou, quando entrou para o segundo colegial: “Que mãezinha acha que eu devo fazer?”

“Administração de empresas”, eu respondi sem pestanejar, porque foi isso que seu pai sempre fez, sem ter qualquer conhecimento. Se você souber fazer, com o respaldo da universidade, vai se dar muito melhor do que ele.”

“Faz sentido, mãezinha. Vou pensar nisso.”

Era tão tímido, o meu menino. Uma vez me disse que não sabia exatamente como se comportar num ato sexual.

“Meu filho: a televisão mostra isso até na seção da tarde. E você não viu?”

“Mais ou menos, mãezinha. Meus amigos também me dizem como é. Mas você tem experiência, como é que a gente fica, assim, em cima da mulher?”

Eu me deitei e deixei que ele ficasse por cima de mim. Sorri: “É só isso, meu filho, só isso. Aí, é claro, os dois vão estar pelados, né mesmo?”

“Tá certo, mãezinha. Entendi tudo.”

Josias passou na primeira chamada da Universidade. Centenas de candidatos para uma vaga. Ele chegou em casa com a página do jornal.

“Olha aqui, mãezinha, o nome do seu filho”.

Eu chorei e o abracei. Havia muito tempo não sentia emoção igual. Logo depois veio a notícia de que herdáramos o apartamento da Avenida da Beira.

Hoje passo as minhas manhãs a olhar para as piscinas naturais, de água quente. Não entro mais no mar, não gosto de vestir maiôs que sempre revelam a minha decadência física. Já fui uma mulher desejável, perseguida, até. Josias desce, todos os dias, por volta das dez da manhã, e entra nas piscinas. Gosta de ficar sozinho (jamais conheci suas namoradas), embalado pela água tépida, olhos fechados. De vez em quando, abana para mim, de tão longe, e eu logo retribuo, pois não tiro os olhos dele.

Eu já tive aquela piscina dentro de mim, um dia, enquanto esperava seu nascimento glorioso. Não consigo pensar em outra coisa. E ele também não, acredito. Assim, lá embaixo o que existe não é exatamente um mar de corais, com a água represada a sugerir maravilhas. Sou eu que estou ali, com meu infinito amor, a minha compreensão e a certeza de que, enquanto se embalar nas minhas águas quentes, Josias viverá o prazer e o encantamento, com toda a segurança.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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