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Archive for 29 de junho de 2010

Comecei a sentir uma grande simpatia pela mocinha depois de vê-la por umas três semanas distribuindo seu produto no sinal das avenidas Barreto Mota e Inconfidência. Aqueles sinais demorados, de um minuto.

Tinha uns dezenove, vinte anos. Sempre de calças jeans muito justas, de cintura curta, deixando aparecer uns dez centímetros de barriga. A blusa leve delineava os pequeninos seios, revelando a ausência de sutiã, mas ela, apesar do esforço, não era mesmo sexy. Seu sorriso, por exemplo, era luz pura, radiosa, benfazeja, definitivamente espiritual. Ela me parecia incompetente para vender as “supergatas do Club for Men”.

Mas lá estava, um anjo em meio à corrupção: alguns homens, na verdade umas bestas, com expressões de abutres, abriam os vidros para receber o cartão com o endereço do clube e depois insultá-la com grosserias; ela respondia com aquele sorriso de converter gentios.

Tinha a idade da minha filha mais nova, Clara, e eu comecei a especular sobre o que a havia feito cair naquela esquina espúria da cidade, ser obrigada a se fingir de prostituta e suportar as velhacarias dos canalhas e infelizes a caminho dos seus desconcertos.

Imaginei-a cumprindo o expediente de transgressões para depois se apresentar na escola noturna de um subúrbio distante, viajando horas nos ônibus lotados, mas iluminando a tudo e todos com a expressão divinal do seu rosto de criança.

‘Não deve ter um pai’, pensei, ‘e precisa cuidar dos irmãos mais novos; a mãe lava o chão de alguma firma, ela sonha em cursar Direito (não sei por que pensei em Direito) e aí aceitou distribuir esse lixo na rua’.

Houve um dia de trânsito congestionado em que pude observá-la um pouco mais. Passou próximo à minha janela, mas, com certeza, devo ter cara de quem jamais frequentaria um clube de sacanagem. Talvez pelos meus cabelos brancos. Não sei.

Abri o vidro e cheguei a chamá-la, “venha cá, querida”, e logo me arrependi: os bárbaros que a assediam poderiam chamá-la assim. Ela apressou o passo, evitou o carro imediatamente atrás do meu e foi entregar seu cartãozinho para um rapaz da idade dela, alguém que não teria dinheiro para frequentar um bordel mais ou menos luxuoso.

Cheguei a delirar um pouco. Estacionar numa esquina próxima e vir até ela, puxar uma conversa e acabar oferecendo-lhe ajuda: um emprego, um empréstimo, alguns conselhos, sei lá. Qual a diferença entre os sonhos românticos daquela moça e os sonhos da minha filha Clara? Choraria no cinema durante um final feliz? Ou a violência da cidade já a convencera de que não se vive sem vilanias e perversões? Pior: teria noção de que existe ética em alguma parte do mundo? Mas, se fosse assim, se ela já tivesse perdido a esperança, de onde, de que fundo de alma tiraria aquele sorriso canonizado?

Lembrei-me, um dia, de um velho amigo, Sinval, que possuía um grande estúdio fotográfico.

“Está interessado em sorrisos bonitos?”, fui perguntando, ao telefone.

“Gostaria de sorrisos fotogênicos”, ele respondeu, deixando clara a diferença.

Aí contei sobre a menina.

“Olha que você, como eu, está entrando na idade do lobo”, ele brincou, e eu quase não consegui disfarçar minha irritação.

“Se você conseguir trazê-la aqui…”, ele completou, como se fosse uma missão impossível.

No dia seguinte saí de roupa esporte, levando o terno numa sacola. Não ficaria bem, um grisalho engravatado abordando a menina do sinal. Estacionei numa rua paralela e me dirigi à pequena multidão de flanelinhas, vendedores de panos de prato, mendigos em geral e ela, no meio deles, iluminando-os.

Aproximei-me sorridente, quando o sinal abriu e ela parou um pouco sobre uma das pobres árvores do passeio, quase morta de intoxicação pelo dióxido de carbono. “Ei!”, disse, a três metros dela. “Quero falar com você!”

Ao contrário do que imaginei, ela veio quase correndo, com seus cartões na mão direita, e o rosto em êxtase.

“Quer um cartão, meu?”, ela perguntou, forçando uma certa maldade no olhar.

“Não, não, quero conversar com você.”

Ela ficou séria.

“Por que? Não vou ficar com você.”

“Eu sei. Queria falar de um emprego.”

Pela primeira vez vi que seu sorriso poderia não ter luz nem cor.

“Pra cima de mim, ó babaca? Sabe quantas vezes me oferecem emprego por dia? Vai pra puta que o pariu!”

O farol abriu e ela logo se movimentou para trabalhar. Eu baixei a cabeça e voltei pelo passeio, ouvindo buzinas e roncos de motores. Não me senti agredido. Não estava infeliz. No fundo, meu medo era de que ela, ao se deparar comigo, passasse a língua sobre os lábios ou já me desse seu preço.

Foi melhor assim. Eu certamente encontraria uma outra forma de abordá-la, quem sabe, lhe escrevendo uma carta, muito direta, muito sincera. Iria pensar com carinho no assunto.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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