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Archive for julho \29\UTC 2010

Era simpático, o… velhinho, eu escrevi velhinho, mas doutor Fausto não poderia ser chamado assim. Ele não tinha idade, quer dizer, não se pensava nisso ao conversar com ele. São poucos os idosos desse grupo.

“Dema”, meu pai dizia, quando eu ainda era adolescente, “os seres não têm idade; você precisa assimilar, neles, a energia, o astral. Você já percebeu que os grandes poetas não envelhecem? Eles podem ter oitenta, noventa anos, mas nós os vemos como uma energia comunicativa e não como pessoas físicas normais”.

Pai dizia isso e me dava exemplos vivos, de gente nas quais não enxergávamos a aparência, apenas a expressão poético-espiritual.

“Mas eu lhe estou apontando, Dema, gente famosa”, pai continuava. “É fácil de ver, neles, a energia. Quero que você aprenda a sentir isso nas pessoas comuns. Há jovens extremamente alquebrados, porque renunciaram à vida, espiritualmente falando. Há aqueles que se entregaram às drogas – estes são zumbis. Você precisa reconhecer os especiais. Só que, para isso, sua própria energia precisa vibrar em harmonia com a deles.”

Todos os dias eu descobria uma lição nova do meu pai. Doutor Fausto foi uma delas. Ele comprou o sítio ao lado do nosso, e sua primeira providência foi nos visitar.

(Este sítio vizinho já havia feito história. Na verdade me pertencera, anos atrás, quando vim para a região, após o fracasso de um casamento. Este meu sítio atual fora comprado por um sujeito engraçado chamado Amadeo, que se incomodava com presenças espirituais no terreno e me propôs uma troca. Aceitei, lógico, o dele era bem maior e mais bonito que o meu…)

“Muito prazer”, disse o novo vizinho, com um largo sorriso. “Meu caseiro me disse que o senhor e sua esposa são pessoas maravilhosas. Jovens cultos que decidiram viver trabalhando a terra. Este foi um sonho meu que jamais realizei, por covardia pura. Preferi trabalhar em multinacionais. Quase arrasei a minha saúde e o dinheiro que ganhei só me comprou problemas, mas aqui estou eu de volta ao sonho.”

Era simpático sim, e deveria sentir, em mim, a tal energia benéfica, para se abrir desse jeito.

“Neste lugar”, eu lhe disse, devolvendo a confiança, “o senhor terá muito tempo para encontrar as razões que o levaram a trilhar um outro caminho. Minha mulher e eu poderíamos estar nas mesmas multinacionais, mas decidimos aprimorar nossos espíritos. Assim, cuidamos de algumas vacas, de galinhas e gansos… É o suficiente para nos manter.”

“E comprar muitos livros…”

“Comprar alguns livros, ligar o computador permanentemente à internet, porque jamais vamos fugir do mundo…”

“Que coisa admirável…”, ele concluiu, apesar dos meus protestos.

“Não nos elogie, doutor Fausto, somos gente comum.”

Chamei Ana Maria e a apresentei ao novo vizinho, que logo elogiou sua beleza, em especial a pele fresca, de maçãs rosadas no rosto, como figuras de quadros renascentistas. O campo transformara Ana Maria numa deusa.

“Infelizmente sou viúvo”, lamentou-se o doutor Fausto. “Não tenho uma companheira para lhes apresentar. E não tenho planos de me casar de novo”.

Mostrei todo o nosso sítio ao ex-executivo, que se entusiasmou com as soluções simples para as criações e com a saúde dos bichos. Ele demorou muito a tocar no assunto:

“Dema. Posso lhe chamar de Dema, não posso? Eu estou aqui há menos de uma semana. Mas há alguma coisa estranha neste lugar, não? Alguma coisa não humana?”

“Doutor Fausto, os lugares não são apenas humanos. Nenhum…”

“Não, Dema, me ajuda. Seja mais objetivo. Eu ouço ruídos à noite e não são os meus cachorros que, em geral, dormem perto de mim; só fica um do lado de fora que ressona o tempo inteiro. Não são bichos, pássaros, os ruídos… não são provocados por coisas físicas. Ademais, o som, o som desses ruídos é percebido de uma forma diferente, como se uma outra concepção de som os produzisse. É claro que você me entende…”

“Claro”.

“Então, meu filho, o que acontece?”

“O senhor quer mesmo saber?”

“Sim, sim. Estou lhe perguntando…”

“Da última semana pra cá, o que o senhor está sentindo é uma grande agitação entre as ondinas… o senhor sabe o que são ondinas, não?

“Acho que sim. Elementais. Como fadas.”

“Que vivem na água ou perto dela. Como há muita água por aqui, elas gostam do lugar. No começo a gente as vê como fachos de luz. Depois, com o tempo e a confiança, elas ampliam suas formas…”

“Meu Deus, vejo fachos de luz por todos os lugares lá do sítio!”

“Mas essa agitação”, eu lhe disse, “tem uma outra causa. Não quero que fique preocupado, mas há um outro elemental, de uma natureza que não conheço, rondando os nossos terrenos. As ondinas e as ninfas, assim como as fadas, são seres muito delicados, não assustam. Mas esse elemental tem quase o nosso tamanho, e se forma não exatamente da água, mas da umidade…”

“Como… como ele é? Pode ser perigoso?”

“Correr perigo é inato à nossa condição, doutor Fausto”, disse sorrindo, e depois me arrependi, porque não se deve dar certas lições, assim diretamente, a homens quarenta anos mais velhos do que a gente. “Precisamos descobrir quem ele é e o que quer de nós.”

“Mas o que é que ele faz?”

“Barulhos, agitações. Atrai lufadas de vento gelado. Assusta um pouco os animais. Quer se comunicar.”

“E não haveria um jeito… místico de atraí-lo para uma conversa?”

“Não gostamos de magia ritual. Vamos seguir o curso do tempo.”

Doutor Fausto agradeceu muito e se retirou. Horas depois enviou flores para Ana Maria.

“Ele é gentil e de bom coração”, ela comentou.

“Só precisamos saber o que o gordo tem a ver com ele.”

Chamávamos o estranho elemental de “o gordo” pela sua largura incomum. Ana Maria o via melhor, sobretudo à noite, e conseguia descrevê-lo com alguma precisão. Eu tentava afastar o sentimento de uma certa inveja dela porque fui eu que lhe ensinei a se concentrar para ver além da forma física.

“Ele não é propriamente gordo. Parece… desproporcional.”

“Sumiu, não foi, Ana?”

“Sumiu. Nos últimos dias.”

“Você percebeu o que acontece?”

“Sobre ‘o gordo’? Não, querido, o quê?”

“Há um envolvimento do ‘gordo’ com o doutor Fausto. O ‘gordo’ o precedeu e agora ficará por lá, no vizinho. Estamos livres dele…”

“Mas ele não faz nada, coitadinho.”

“Interfere demais no plano físico e isso não é bom. Muita inquietação, muita tensão.”

Nessa noite, após enchermos a lareira de lenha, comecei a sentir as primeiras lufadas de vento gelado.

“Você está enganado”, disse Ana. “Ele não nos abandonou, vem aí.”

Os ruídos não tardaram a aparecer. Os animais se agitaram. Luka, nosso pastor alemão, chegou a uivar. A temperatura caiu abruptamente.

Fizemos nossa meditação antes de sair para o terreno. Eu estava mais assustado do que Ana.

Levamos uma tocha, Luka nos acompanhou. Estava tão frio que não tive dúvidas: amanhã vai gear e nossa horta pode ir pro brejo. Pensei em cobri-la com plástico grosso.

Não houve tempo. Tomamos um susto aos vê-los no meio do lago.

Ana Maria enxerga melhor do que eu, mas eu nunca havia divisado uma forma espiritual com tanta nitidez como a do doutor Fausto, ao lado do “gordo”. Dançavam, os dois, e imaginamos que fosse um tango. A forma do “gordo” eu não via bem. Mas a forma ovalada, que era o doutor Fausto, mais ou menos parecida com a do velho executivo, transmitia toda uma energia afável e simpática. Era impossível não gostar dela. Já o “gordo” era neutro para mim.

Ali estavam eles, poeiras concentradas, cinesias etéreas a rodar e rodar, entrelaçando-se, mesclando-se, para depois se separarem quase que completamente, presas apenas por duas pontas finas, como se fossem mãos, daquela quase matéria, ou quase fumaça – até que, num movimento súbito, corriam um para o outro e se uniam novamente… para, mais uma vez, rodar, e rodar…

“Sabe o que me ocorreu agora, Dema?”

“Sei. Li seu pensamento. São duas formas masculinas apaixonadas.”

“Mas o doutor Fausto disse que era viúvo…”

“Qual é o problema? Talvez ele nem saiba que é homossexual…”

Ana Maria ia replicar, mas uma ideia mais forte a impediu.

“Faz sentido, Dema. Se for assim, então, o novo companheiro do doutor Fausto deverá chegar ao sítio nos próximos dias. E aí o “gordo” deixará de nos incomodar com esse gelo todo…”

“A gente não tinha mesmo pensado nisso, Ana, é um reencontro!”, eu me alegrei.

Nos próximos dias, ficamos, minha mulher e eu, excitadíssimos com a chegada iminente do amigo do doutor Fausto. Imaginávamos que ele fosse um homem grande e gordo, ou um gigante musculoso, alguém assim, fora dos parâmetros.

Havíamos aprendido um pouco mais sobre nós mesmos, humanos. E nossas possibilidades infinitas de vivenciar as afeições. Aí conversamos mais profundamente entre nós e resolvemos parar com aquela ansiedade e não especular mais nada. Para nós, que já havíamos adiantado um pouco a nossa evolução, ficou definitivamente claro que o amor é simplesmente um fenômeno que se compraz a si mesmo.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Era um canário belga estabanado. Sempre saía do ninho num voo rasante, passando em alta velocidade entre as roseiras, e eu temia por Nancy. Fadas possuem um coração muito frágil, assustadiço, mas Nancy exagerava. A qualquer prenúncio de trovão, ou latido de cachorro, mesmo longínquo, o pequeno ser gritava um “uiii” dolorido, como se uma abelha a picasse, e aí desfalecia. Se fosse um ser terráqueo, gritaria “ai, meus sais”, como as damas antigas ao desmaiar.  No fundo, Nancy era mesmo uma fresca.

Mas, em se tratando de uma pequena fada, que possui asas e voa, a vertigem pode levar a uma situação mais perigosa: não que Nancy corresse o risco de se esborrachar no chão, ela nem tinha peso para isso, mas mesmo caindo suavemente, até com uma graça de bailarina, os cães seriam atraídos pelo cheiro de flor que as fadas exalam, e algum entre eles poderia abocanhá-la.

Claro, fadas não morrem, mas os cães, assim como quaisquer outros animais, não devem se traumatizar com manifestações esporádicas do Mundo Superior. E como se sentiria um cão, ao abocanhar uma coisa que parece uma flor, se essa coisa lhe some da boca? As leis naturais exigem respeito, e os seres do Mundo Superior, por definição, jamais devem interferir na faixa de onda em que vivemos. Fadas, como outros seres do Mundo Superior, possuem um desenvolvidíssimo “sistema imunológico”, autopreservação automática, que as fazem pular de uma dimensão a outra ao menor sinal de incongruência. Não é natural um cachorro mastigar uma fada.

É por tudo isso, aliás, que a nossa comunicação com o outro lado é tão complicada.

Eu não conhecia nada disso, e muito menos os via, os do outro lado, ou me comunicava com eles, até que ganhei um vizinho novo: Amadeo.

O antigo dono da chácara ao lado da minha, um bondoso executivo francês aposentado, havia morrido um mês antes. No dia da sua morte, senti a minha primeira desconfiança de que algo estranho acontecia no pedaço de terra ali ao lado.

Seu Galdino, o caseiro, veio me contar da morte do patrão. Chorava, coitado, e pediu-me para ir até a casa e telefonar para alguma autoridade, um médico, ou a polícia. Galdino era um homem muito simples e não sabia como tratar a morte dos superiores.

Eu estava por ali havia apenas três meses, tentando me refazer de um casamento frustrado, e mal conhecia o francês. Mas fui atrás do caseiro. Já no portão, senti uma sensação de bem-estar que jamais experimentara na vida; ao atravessar a longa trilha até a pequena casa de madeira (estranhamente, o francês dera a casa grande para o caseiro, que tinha família, ao contrário dele), foi como se ouvisse, não com ouvidos físicos, mas dentro da mente, um concerto erudito de deslavado romantismo, lembrando Schubert.

“Você está ouvindo, Galdino?”

“O senhor nem me pergunte o que eu ouço aqui…”, respondeu o homem, misterioso.

Ao olhar o corpo de Henri no leito de morte, não acreditei que estivesse morto: não há mortos corados, parecendo mais jovens do que quando vivos, mas acreditei no caseiro e telefonei para o hospital, dizendo que havia uma pessoa “que parecia morta”, na chácara tal, etc. O pequeno quarto de monge, com toras de madeira em vez de paredes, estava coberto com uma luminosidade estranha, feita de pequenas partículas de luz, e a melhor definição talvez fosse mesmo um título de música antiga, “Poeira de estrelas”.

Então o cadáver saudável de Monsieur Henri foi enterrado, na própria chácara, e dois meses depois apareceu Amadeo. Era o oposto do francês: gordo, mal-educado, direto. Não me visitou. Mandou Galdino me convocar.

“Melhor o senhor ir, o homem não é flor…”

Galdino contou-me que havia sido expulso da casa grande e que agora morava com mulher e três filhos no cubículo monástico do francês.

“Pois fala pro teu patrão, Galdino”, eu disse irritado, “que eu quero mais que ele se foda!”

“Digo isso não, doutor…”

“Então não diga, mas eu não vou.”

No dia seguinte, a figura bateu lá em casa.

“Eh, vizinho, chamei você lá pra lhe mostrar umas coisas…”

“Entre, sente-se, tome um café e vamos nos apresentar”, eu propus, gentil mas nem tanto.

O sujeito usava botas de cavalgar, embora não tivesse cavalos; e um chapelão quase mexicano, apesar do tempo nublado naquele dia. Era empresário do setor de transportes. Tinha frotas de ônibus.

“Conhece meu sítio aí?”, perguntou, após dizermos quem éramos.

“Estive lá uma vez, quando Monsieur Henri morreu.”

“Sabe que é o dobro do seu?”

“Sei.”

“Que possui uma casa maior, que tem reserva de mata atlântica?”

“Sei, sei. Mas está perguntando por quê?”

“Quero saber se quer trocar.”

“O quê? Um sítio pelo outro? Posso até pensar no assunto. Mas quero antes saber o motivo real desse seu desejo.”

Amadeo tirou o chapéu, coçou a cabeça, serviu-se de um pouco mais de café e cruzou as pernas, anunciando que não sairia tão cedo.

“Estava aqui pensando numa boa mentira pra lhe dizer, mas vê-se que você é gente fina e isso poderia até estragar nosso negócio. Dane-se se você vai acreditar ou não, mas o meu sítio é assombrado…”

Sorri. Ele não gostou. Aí me deu vontade de rir. O vizinho ficou uma fera:

“Não é que seja assombrado de gente morta, pô, não!”, ele esclareceu. “É… é morada de elementais. E quando eles escolhem um canto, babau. Não saem de lá nunca mais.”

Eu sabia o que eram elementais, ou espíritos da Natureza, mas não acreditava nisso e muito menos que um sujeito grosso como Amadeo os levasse a sério. E ainda usasse isso para promover um negócio absolutamente desvantajoso… para ele.

Tem mutreta aí, pensei. Mas já estava muito curioso para cortar o assunto.

“Então vamos lá, seu Amadeo”, propus. “Vamos ver as fadas e os duendes da sua chácara.”

“Por enquanto não há duendes, só fadas e ondinas”, ele disse, sério. “Mas onde há fadas em geral há salamandras, só que estas eu não vi.”

Na entrada da chácara não senti o mesmo que no dia em que Monsieur Henri morrera. Mas que o clima se tornava espiritual, leve, harmonioso, em que até a temperatura parecia mais baixa, disso não havia dúvida.

Os dias seguintes foram os mais fantásticos que vivi em toda a minha vida. Amadeo, uma figura grosseira, inconveniente, quase repulsiva, passou a me dar aulas práticas de mundo espiritual – ou de encantamento.

“Eu vejo essas coisas desde menino”, ele explicou. “E vejo outras também, mas estas eu prefiro não lhe dizer…”

“Nem quero saber!”, eu reforcei, e fui atrás de Amadeo para perto do lago, abastecido por uma pequena cascata natural.

“Olha ali no meio da queda, na curva da água”, ele me apontou. “Fixa, não tira o olho!”

Não vi nada, o que deixou meu vizinho meio irritado. Mas ele se conteve. No dia seguinte, como combinado, tentei de novo, e nada. Uma semana depois descobri que um pedaço da água vertendo não era água, mas uma outra forma.

“Fala, fala como é a forma, caceta!”, gritou Amadeo.

“É… difícil. É como… uma mulherzinha. Uns dois palmos de altura…”

“Puta que o pariu! Você está vendo, cara! Está vendo! No começo é assim, só a silhueta. Depois, a forma completa, e com um pouco mais de tempo você conversará com ela!”

Sessão encerrada, Amadeo abriu algumas bebidas, que recusei, e comecei realmente a entender o motivo da proposta da troca da chácara. Amadeo não conseguiu dar o terceiro gole no seu uísque. Passou mal.

“Veja você”, ele disse. “Em terreno de elemental a gente não pode nem beber, fazer sacanagem, nada.”

“Agora entendi. Lá em casa pode, né?”

“Não tem um puto de um elemental na sua chácara. É tudo limpo. Quer dizer, tudo propício.”

Eu refleti um pouco sobre a complexidade das dádivas celestiais: um desclassificado como Amadeo conhecia o mundo espiritual na intimidade; e uma pessoa de bom senso como eu só conseguia ver silhuetas. Mas Deus sabe o que faz e as minhas aulas continuaram. Foi a condição de aceitar a troca de terrenos. Tive mais sorte: ganhei seu Galdino de presente.

Em três meses, travei o meu primeiro diálogo com uma fada (elas me pareciam mais acessíveis que as ondinas): foi a Nancy. Sua voz fininha e lamurienta entrou pela minha audição mental aos poucos, mas em dois dias eu descobri que até entre os duendes e afins há quem fale pelos cotovelos.

Vivi uma história longa com Nancy (ainda vivo), que conto depois. Havia esquecido de lhes dizer: sou artista plástico. Pinto a óleo quadros imensos. E, de um certo tempo pra cá, minha obra tornou-se mágica, mística, encantada. Passei a vender toda a minha produção simplesmente retratando o que meus novos olhos viam. Tenho grande procura. Estou ficando caro e importante no mercado.

Mas não pude resolver o problema de Amadeo. Após a troca dos terrenos, ele viveu alguns meses feliz, promovendo bacanais e todo tipo de farra no meu ex-sítio. Até construiu uma piscina cara, com pérgula e tudo.

Primeiro foram as salamandras: após uma das bebedeiras, quando os amigos farristas de Amadeo se recolheram à casa grande e acenderam a lareira, as salamandras começaram a jogar brasas sobre eles. Foi uma correria, um agito. Que acabou em briga, com direito à polícia e satisfações na delegacia, porque um pensou que fosse brincadeira de mau gosto do outro.

Mais tarde, as ondinas passaram a sussurrar orações na audição mental das mulheres peladas que enchiam a piscina, o que as deixou constrangidas e até emocionadas. Uma delas chorou, ruidosamente, e jurou que jamais voltaria a ser garota de programa.

Amadeo me procurou.

“Você estimulou tanto os elementais a viver no seu pedaço que eles agora estão invadindo o meu”, choramingou a figura.

“Você deveria estar feliz”, eu respondi. “O Bem o persegue. Não querem que você pratique qualquer pecado. Não é à toa que você nasceu com o dom.”

“As fadas estão contra mim”, ele choramingou, ainda. Mas percebi que já não recendia a álcool, como nos últimos tempos.

Do livro Allegro – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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“Mesmo que essa história tivesse alguma lógica, um menino e uma menina não poderiam ser tão amigos assim”, ouvi meu pai dizer à minha mãe.

Meus pais sempre me pareceram muito ingênuos. Imaginavam que eu não entendesse as ideias, os olhares, as expressões dos rostos deles. Mas a prova maior da babaquice deles era esta: estavam certos de que eu dormia, a partir das dez da noite e, assim, falavam o que queriam depois daquela hora. Já ouvi coisas de arrepiar.

Ultimamente, o assunto era Maria Tereza, minha amiga, minha irmã e namorada, única razão de ser da minha vida. Eu me encontrara com ela no primeiro ano primário. Nos olhamos, sorrimos, e nunca mais largamos um do outro, onde quer que estivéssemos. Agora, aos onze anos, nossa amizade era contestada. De certa maneira, eu estava muito tranquilo, muito mesmo, porque guardava, no meu íntimo, a certeza de que nada neste mundo, muito menos pai e mãe, conseguiria nos afastar.

E, se nos amávamos em definitivo, havia, dentro de nós, um outro amor, extraordinário, profundo, inefável: o amor pelo mar.

Sim: o mar!

No começo, quando ainda éramos muito crianças, colecionávamos conchas. Os pais de Maria Tereza possuíam uma casa ampla na praia, quase à beira d’água, e ela tinha facilidade de juntar búzios, estrelas-do-mar e outras recordações. Havia um búzio imenso que ela dividia comigo: ouvíamos, durante horas, todo o movimento dos oceanos do mundo. Aquilo era maravilhoso, melhor do que uma sessão de cinema.

Além daquela casa, os pais de Maria Tereza possuíam uma outra, na cidade, de dois andares. Na garagem, três carros do ano. Minha amiga se vestia bem, viajava – ocasiões em que ela e eu sofríamos as piores saudades. Mas nunca senti inveja. Meus pais andavam de ônibus, nossa casa era um sobrado modesto. Nada disso influía na nossa paixão.

O último segredo que contei à minha mãe foi justamente sobre o búzio que Maria Tereza havia arrumado. Ela fez uma cara de susto, depois começou a chorar.

“Olha, Queixinho, nunca mais me fale nessa Maria Tereza, está ouvindo? Eu não aguento mais!”

Aí fui eu que fiz cara de susto e quase chorei também. Como ousava minha mãe interferir numa amizade-amor? Por que, ao contrário, não ficava feliz pelo fato de seu filho único ser capaz de sentimentos profundos e doces?

No dia seguinte, depois que ela e o meu pai conversaram um monte de bobagens a meu respeito, o velho me procurou para saber um pouco mais da minha intimidade com Maria Tereza.

“Queixinho, você já tem onze anos, seu corpo vai começar a se modificar, vêm aí uns hormônios infernais, e eu gostaria que você me desse detalhes sobre essa menina.”

“Não somos nada do que o senhor está pensando, pai. Esse assunto é pra daqui a três anos.”

“Nossa, que precisão, Queixinho! Mas, vocês não… assim, você não pensa nela de um outro jeito, como namorado?”

Aí eu fui obrigado a lhe contar nossa última aventura, na semana passada. Maria Tereza e eu, tontos de saudades do mar, planejamos pegar um ônibus até a casa de praia dos pais dela, onde trocaríamos de roupa e passaríamos algumas horas mergulhando na nossa paixão. Mas, para isso, tínhamos de inventar que haveria aula à tarde no colégio, torcendo para que nossos pais não tivessem a ideia de ligar para a diretoria; roubaríamos algum dinheiro para pagar o ônibus e realizaríamos nosso desejo. Deu tudo certo. Maria Tereza conseguiu tirar uns trocados da carteira da mãe dela, que andava sempre cheia. Dona Lina era distraída: nem percebia quando faltava algum dinheiro.

Nesse dia, eu revelei a Maria Tereza certa expectativa minha, com relação ao sol das quatro da tarde.

“Que é que tem, Queixinho?”

“Li, num livro de meu pai, que este sol é especial e que, se a gente ficar debaixo dele, e se se concentrar nele, pode realizar alguns sonhos.”

“Que sonhos você tem, Queixinho?”

“Os seus. Vivermos juntos na frente do mar.”

“E não tem importância que você seja médico e eu professora”, ela concluiu, sorrindo.

“Não, não importa. Mas eu não vou arrumar trabalho algum que me faça viajar. A não ser que possa ir com você.”

“Para conhecer outros mares.”

“Seria muito bom.”

Não sei se o motorista e o cobrador acharam estranho que duas crianças fossem juntas fazer uma viagem mais ou menos longa, mas que importava isso? Já havíamos entrado de cabeça na aventura. Tudo o mais seria lucro. A visão da água azul, pela janela do ônibus, nos fez estremecer e Maria Tereza apertou minha mão. Até hoje não vivi momento mais prazeroso do que esse. Houve uma mudança no meu corpo, sim. Acho que aquela de que meu pai falou.

Chegamos à casa de praia e encontramos seu João, que tomava conta do lugar, com a família. Havia duas meninas pouco mais velhas do que nós. Elas riam muito e cochichavam, enquanto olhavam pra gente.

“Doutor Paiva deixou que você viesse aqui se trocar?”, ainda perguntou seu João, desconfiado.

“Se quiser ligar pro meu pai, ligue, seu João. Mas eu fico muito triste de o senhor duvidar de mim…”

Maria Tereza tinha certos dotes de atriz. Seu João pediu desculpas, nos fez entrar em dois cômodos, trocamos de roupa e corremos para a praia.

“Querem que eu vá junto?”, seu João ainda perguntou, desconfiado.

“Não precisa”, disse Maria Tereza, “nós dois nadamos melhor do que o senhor”.

E lá fomos nós, pegar o sol das quatro da tarde. Entramos na água, mergulhamos, saímos, pegamos jacaré, caçamos tatuíras, e descobrimos que aquele sol é mais calmo e aconchegante. Há nele algo como uma névoa, que o filtra, certamente para que os raios especiais cheguem íntegros até nós. Pensamos nos nossos desejos, rimos muito um do outro (uma onda me pôs de ponta-cabeça e eu engoli muita água), e, quando esfriou de vez, voltamos para a casa de praia, trocamos de roupa e chegamos aqui sem que ninguém desconfiasse de nada.

(Aconteceu uma outra coisa, inacreditável, mas essa foi um segredo só nosso.)

Meu pai ouviu tudo muito sério, disse-me que não iria tomar qualquer atitude porque, afinal, eu havia sido honesto. Mas cheguei a ter pena dele, nesta noite, quando o assunto em casa voltou a ser, de novo, o meu ‘estranho comportamento’. Eles falaram sobre nós até quase meia-noite.

“Acho que devemos ter outro filho”, foi uma das coisas que meu pai disse. “Talvez tudo isso seja a falta de um irmão.”

Minha mãe, sempre muito dramática, quase não conseguia falar, de tanto choro.

“Meu filho, um pirado!”, ela repetia. “Que é que a gente faz? É claro que eles não pesquisaram o sol nem nada. Onde será que estiveram a tarde inteira? Onde foram? Que fizeram? O que está acontecendo?”

“Ele é só muito criativo, relaxa. Vamos deixá-lo em paz.”

Eu tive de me abafar no travesseiro para não rir alto. Coitados, duvidando de nós e das belezas que nosso amor criava.

Há certas coisas que duas pessoas muito próximas, muito íntimas, não precisam comentar com ninguém. No meio daquela névoa que o sol feiticeiro provocava, vimos alguns seres marítimos, que não se pareciam nem com gente, nem com peixes, muito menos com sereias. Não eram humanos, eram… pensamentos. Eles desfilavam quase como flashes aos nossos olhos, queriam ser apreciados, imagino, mas não a ponto de que pudéssemos tocá-los ou falar com eles. No fundo do mar, pareciam menos etéreos e se mostravam por algumas frações de segundo a mais. Houve um momento em que Maria Tereza passou muito tempo debaixo d’água e tive de mergulhar para puxá-la pelo braço. Eu nadava melhor do que ela. Voltou sorrindo, deslumbrada, e nem pareceu que perdera o fôlego.

“Aquela história do sol dessa hora… É verdade mesmo, Queixinho! Não sabia que o mundo poderia ser assim, mais bonito do que a gente imaginava…”

Houve um momento, no nosso banho de mar, que vimos, lá longe, um homem na praia. Parecia que se preparava para mergulhar, mas voltou. Era seu João, tive certeza. Ainda com medo de nós, ou da descompostura que poderia levar dos pais de Maria Tereza.

Não entendo muito nossos pais, nem os empregados deles. Na verdade, está difícil saber o que todas as pessoas querem; por que, por exemplo, os professores nos pedem certas coisas a que não damos importância? Pelo menos, Maria Tereza e eu. Preferimos os seres feitos de outra matéria além da carne e do osso, e que habitam lugares fantásticos como o mar, e ainda mais o fundo do mar – quando surge o sol das quatro da tarde.

Do livro Memórias Embriagadas – Editora Noovha América, São Paulo, 2008.

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Seu Louzeiro chegou, sorridente, amparado pelo filho. Zé Izidro, o cabeleireiro, exultou. Os clientes andavam rareando e aqueles dois representariam um bom faturamento.  O filho viera um dia antes para negociar o corte do cabelo do pai. Agora, lá estavam, muito adiantados no horário. Zé Izidro pediu desculpas pela inevitável espera.

“Por mim, não há problemas”, disse o velho, que já passara dos oitenta. “Os mortos não têm compromissos”.

O cliente que cortava o cabelo naquele momento, seu Onofre, já passara dos sessenta, não gostou nada da pequena manifestação de humor negro. “Cada figura que você arruma, não, Zé?”, ele resmungou.

E seu Louzeiro acabaria sendo responsável por um outro momento interessante, naquela tarde, ao folhear uma das revistas de mulheres nuas que Zé Izidro deixava distraidamente ao alcance dos seus fregueses, todos homens.

“Júnior!”, gritou o velhinho para o filho, que examinava um jornal do dia, do outro lado da sala, “esta revista aqui está cheia de mulher com a xoxota de fora!”.

“Vai em frente, pai”, disse Júnior, mais interessado em uma reportagem sobre fundos de investimentos. “Na revista inteira tem mulher assim…”

“Muito cara, esta revista, Júnior?”

“Baratinha. Se o senhor quiser…”

“Não, não. Agradeço.”

‘Velhinho do interior visitando a capital’, concluiu o cabeleireiro que, de vez em quando, dava uma olhada para examinar, divertido, o afã com que seu Louzeiro passava e repassava aquelas páginas coloridas. Até que chegou a vez dele.

Era um velho cabeludo e meticuloso. Gastou um bom tempo para dar as instruções de como queria o corte. Só no capítulo das costeletas (“curtas, muito curtas”) repetiu várias vezes que não conseguia mantê-las do mesmo tamanho, por mais que tentasse apará-las com o barbeador.

Quando iniciou o corte propriamente dito, o barbeiro fez a pergunta clássica:

“O senhor é daqui mesmo, do Estado?”

“Da França.”

“Ah, o senhor é francês? Mas está aqui há muito tempo, não? Não tem sotaque nenhum…”, foi dizendo Zé Izidro, convencido de que havia algo estranho com o velhinho que, com a mão esquerda, segurou-o pelo avental branco e puxou-o para si, fazendo sinal de silêncio com o dedo indicador direito:

“Sabe”, sussurrou, “meu filho não gosta que eu conte a minha vida a estranhos. Medo de sequestro. Mas o senhor, ora, o senhor é confiável. Tem cara de homem honesto. Eu voltei ontem da França. Da minha terra. Estou até meio tonto por causa do fuso horário. Mas, meu caro, vamos falar nós dois aqui, bem baixinho.”

“Tá bom, tá bom”, disse o cabeleireiro, baixando o tom. E emendou:

“Puxa, o senhor deve levar uma vida bastante cansativa…”

“Ah, não me goze… Como é o seu nome mesmo?”

“Zé Izidro.”

“Você tem nome de vinho popular português. José Izidro. Acho que existe um vinho verde com este nome. Mas, meu jovem, um homem na minha idade não tem vida cansativa. Não vai à Europa todo mês, como antigamente.”

“Ah, sim, desculpe, não foi minha intenção…”

“Foi, sim. Você me confundiu como um mentiroso qualquer. Pensou: tá aí o velho, piradão, querendo me impressionar…”

“Não, seu Louzeiro, eu…”

“Esperto, você, não? Seu… seu vinho verde!”

“Não foi minha intenção duvidar do senhor. Eu acredito, sim, que o senhor voltou da França ontem.”

“Da Bourgogne, precisamente. Andei atrás de uns grand cru. Sabe, vinhos especiais… Mas não nasci na Bourgogne, quem me dera, mon Dieu, que uvas! Que técnica! Sou de Paris mesmo…”

“Ah. O senhor entende muito de vinho, não? Eu não posso tomar. Dá dor de cabeça.”

“Me perdoe, meu rapaz, mas só se você tem bebido coisas muito ruins. Nacionais. Ou esses italianos fajutos.”

O corte seguia e Zé Izidro estava muito impressionado. Ficou em dúvida: um mitomaníaco? Teve vontade de perguntar ao Júnior, ainda grudado nos artigos de economia, se ele também estava muito cansado da viagem… Mas aí poderia perder um cliente. Tem gente que não gosta de ironias, ou de conversar sobre intimidades. O velhinho seria um grande mentiroso ou não?

“Você, pelo jeito, nunca esteve na França, não é? Nem na Europa?”

“Quem sou eu, seu Louzeiro…”

Ia dizer que só havia viajado, na vida, para Salvador, por ocasião da lua de mel, além de um fim de semana no Rio. Mas resolveu arriscar uma mentirinha.

“… pois é, seu Louzeiro, quem sou eu para ir até a França. Já em Portugal estive. Acho até que andei tomando aquele vinho verde que tem o meu nome…”

“Oh, oh”, fez o velhinho, com sotaque de Papai Noel. “Bebeu-se a si mesmo. És gostoso? Oh, oh…”

“Levemente ácido”.

“Os levemente ácidos podem ter grande personalidade. Mas os ácidos, mesmo, eu não gosto. Na verdade, você me perdoe, você é um José Izidro, mas eu não vejo muita utilidade num vinho verde. Um bacalhau, por exemplo, é melhor acompanhado por um tinto não muito encorpado.”

“Gostei muito da Mouraria, em Lisboa”, disse o cabeleireiro, lembrando-se de uma reportagem que havia visto na televisão.

“Sim… da velha rua da Palma.”

Seu Louzeiro mais uma vez puxou-o pelo avental, até que sua boca chegasse muito próxima ao ouvido direito do cabeleireiro.

“Frequentei muito a boêmia da Mouraria, com meus amigos franceses. Cheguei a fazer a corte sabe a quem?”

“Nem imagino”, disse o outro, desvencilhando-se com alguma dificuldade. Bem forte, o velhinho.

“Catarina Dumond”.

“Ah, conheci muito, da última vez que ela esteve no Brasil”, retrucou Zé Izidro, que jamais ouvira aquele nome antes.

A partir daí, silêncio. O cabeleireiro achou que havia ido longe demais. Seu Louzeiro ainda assobiou uma canção antiga, disse “pardon”, enquanto pediu, com um gesto, uma outra revista de peladonas. Devorou-a, como a uma guloseima. Depois exclamou “d’acord, d’acord”, quando Zé Izidro perguntou, ao pai e ao filho, se haviam gostado do corte. Júnior fez um gesto de positivo com o indicador, de longe, e pagou em dinheiro, com uma boa gorjeta.

O velhinho teve alguma dificuldade para descer da cadeira: a perna direita ficara dormente. Ele não havia ultrapassado a porta do salão, quando comentou com o filho, em voz mais ou menos alta:

“Você se lembra, Júnior, da Catarina Dumond?”

“Não, pai, não tenho a menor ideia”, respondeu o filho, sempre paciente. “Algum problema com ela?”

“Não confie nas mulheres, Júnior. A Catarina esteve no Brasil e não me disse nada.”

O filho, carinhoso, ainda pediu que ele não se envolvesse tanto com “essas histórias todas que o senhor mesmo inventa”. Seu Louzeiro reagiu, irritado, dizendo que a ele soava como uma ignomínia o pai ser chamado de mentiroso pelo próprio filho. Júnior pediu desculpas.

“Eu não quis dizer ‘inventa’, pai, mas ‘recorda’.”

“Ah, bom”, resmungou o velho, voltando a assobiar “Cuore Ingrato”, uma canção italiana antiga.

Do livro Allegro – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003

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Não preciso viver muitas vidas, ou participar de múltiplas experiências, para criar personagens ricas.

Não preciso sentir o que outros sentem para, somente a partir daí, ter acesso às suas almas, torná-los pusilânimes, canalhas ou santos.

Personagens já vêm assim, já o são. Guardo na mente as mesmas figuras que me aporrinhavam ou acalentavam desde quando tinha sete anos, ou até menos, e não acreditava mais naquelas histórias de pecado. Não acreditava porque elas, as personagens, viviam me esclarecendo sobre minha real natureza. Especialmente o velhinho.

Me lembro de Joanides (pronuncia-se Roanides, é “J” castelhano), no primeiro dia em que me surgiu, o da minha primeira comunhão. Ele me dizia, bondosamente, que eu não deveria entrar em pânico por causa dos meus pensamentos tortos. Que eu não era um pecador compulsivo, como imaginava. Meu problema limitava-se a um certo desequilíbrio na produção de testosterona.

Jamais me esquecerei dele, com suas barbas brancas, sua magreza romântica, a voz pausada e doce, quase feminina. “Calma, calma, meu rapaz, não precisa se confessar de novo.”

Naquela época, quando comentava sobre as coisas que Joanides me dizia, os adultos faziam cara de susto. “Onde esta criança leu isto? O que está acontecendo?”

Eu explicava: “Joanides me contou”. (Ou Márcia Salamandra, Quinzinho Belo, Giloca…)

“Mas onde você viu essa gente, onde?”

E eu detalhava: “Joanides gosta de aparecer quando estou em apuros. Em certas provas do colégio, por exemplo, e em outros que não quero falar. Fica do meu lado direito, às vezes se abaixa tanto para conversar comigo (ele é muito alto) que chego a sentir um certo hálito amargo, sei lá, como se ele não comesse nada há tempo. Sinto o mesmo, às vezes, no hálito da minha mãe.”

“Mas , você o vê como a uma pessoa normal?”

Eu suspirava de apreensão ou um certo enjoo com a infantilidade dos adultos. Como, pessoa normal? Personagens são criações da mente, e a visão deles é uma outra criação da mente, eu repetia e repetia, extenuado.

“Mas, menino, onde foi que você leu a palavra testosterona?”

“Que coisa, meu Deus. Não li nada. Foi Joanides que me contou.”

Papai me levou ao primeiro psiquiatra antes que eu completasse oito anos. Era um homem gordo, de pele lisa e fria. Os braços não tinham pelos. Olhos de sátiro. Madre Josefina, ao meu lado, profetizou: “Ele vai tentar violentar a filha da empregada, mas não conseguirá. Gordo nojento.”

Contei a mamãe e ao meu irmão Lucas o que o gordo iria aprontar, mas eles acharam que eu queria mesmo me livrar dos remédios que me dopavam o dia inteiro; certa vez, cheguei a dormir sobre a carteira do colégio.

“Papai, mamãe, eu não estou doente. O médico está me matando.”

“Você está ficando perigoso, moleque”, dizia meu pai, ainda irritado com a história da tentativa de estupro. “Você vai se complicar, um dia, com essa sua imaginação louca.”

Mas, pouco tempo depois, ele mudou de opinião a meu respeito. Entrou na sala, lívido, com o jornal na mão e mostrou-o à mamãe. O gordo havia sido preso por abuso sexual contra uma menina de oito anos, filha de sua empregada.

“Estou com medo deste guri”, papai confessou à mamãe e eu ouvi tudo através de leitura labial, uma técnica que Jota Perito me ensinou.

“Não se preocupe comigo, pai. Não vou fazer mal a ninguém. Eu amo vocês.”

“Pô, e agora ele adivinha…”, meu pai começou a se irritar novamente.

A verdade é que me deram um pouco mais de liberdade, a partir daquele episódio; mas se afastaram de mim. Como se tivessem medo, mesmo. Papai tinha muitos problemas com sua produção de autopeças: as multinacionais começavam a comprar todas as fábricas, médias e pequenas, e ele não conseguia preço dos fornecedores para competir. Sem recursos, a casa foi ficando mais triste a cada dia e eu tive de mudar para uma escola pública. Joanides, sempre a meu lado, ajudava como podia. Ele só veio a falecer, digo, como personagem, em mil novecentos e oitenta e seis, quando escrevi “Areia grossa, areia fina”. Joanides pontificou até o capítulo dezoito, morrendo de causas naturais.

Por isso insisto com vocês que posso escrever à vontade sobre a ala feminina desta clínica sem precisar ter sido internado nela ou vivenciar seu dia a dia, até porque sou homem. Sabem, não me levem a mal, mas eu sei exatamente o que uma mulher sente durante um ato sexual imaginário, que é a coisa mais comum naquela ala. Klotilde (é com “K” mesmo, frescura de quem escolheu o nome) me contou tudo, com detalhes. Quem é Klotilde? Ora, doutores, é a principal personagem do meu livro, a elitista que foi jogada aqui dentro por vingança dos parentes. Devo, inclusive, adverti-los de que terão problemas, em breve, com Maria Eulália e Cacilda, porque elas estão se envolvendo emocionalmente cada vez mais. Ninguém suporta, por muito tempo, atos sexuais imaginários.

Se eu vejo fantasmas? Meu Deus, desde criança eu insisto que personagens são criaturas de ficção e que só existem em função de mentes treinadas à onisciência, como é o meu caso. Eles são meus queridos amigos. Mesmo aqueles que experimentaram vidas miseráveis nas minhas histórias. Se vocês usassem suas mentes saberiam um pouco mais de medicina, saberiam até, através de sinais orgânicos, o momento exato de suas próprias mortes. Aliás, um de vocês está muito perto disso, acontecerá por esses dias. Madre Josefina jamais falhou em suas previsões.

Do livro Allegro – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Era ele! Ali, a uns dez metros do alcance do meu rifle. Estava muito escuro, eu tinha medo de abrir um pouco mais a janela, só que não tive dúvidas: pum! Acabei levando um coice da coronha da arma, coisa com que não contara, uma dor aguda tomou-me todo o ombro direito e correu espinha abaixo, até o cóccix. Liana Maria já chegou gritando “o que foi, Grotão?”, e o bebê começou a berrar no berço.

Fiquei fora de mim por algum tempo, acho, mas, quando abri os olhos, Liana Maria já havia acendido todas as luzes da casa, e o pior, os spots do terreno em volta. Doía muito, o ombro, mas me levantei, cambaleando. Liana Maria, que apanhara o rifle do chão, corria em direção a um vulto caído perto da caixa d’água. O menino, no berço, dobrava o choro, agora.

“Pera aí, Liana, pera aí! Tem cuidado que o monstro pode estar só ferido… Mas que eu acertei, acertei!”

Quando cheguei perto da minha mulher e do vulto no chão, fiquei gelado. Ali estava uma ovelha, que se desgarrara, não sei como, do curral. Dura e morta. O focinho branco, branco, de um jeito que nunca vira antes. Não restara uma gota de sangue na pobrezinha. Nem com as primeiras vítimas, as galinhas, um mês atrás, acontecera desse jeito. Assustador. E o bicho não levara nenhum tiro.

Liana Maria estava uma fera. Logo comigo. Jogou o rifle no chão e veio de dedo pra cima de mim.

“Seu merdinha, como é que me dá um susto desses no meio da noite?”

“Pera aí, Liana, eu estava tentando matar o chupa-cabras!”

“Pois antes que você o matasse, bobão, o bicho traçou essa aqui, ó. Mais um prejuízo e, além disso, um baita susto… Você tem é de pegar quem está fazendo isso, ô cara! Que chupa-cabras coisa nenhuma…”

“Liana, o menino está se esgoelando.”

“E você acha que eu sou surda, Grotão? Você é que deveria ir até lá, dar o peito pra ele…”

Ela saiu, feito um tufão, e eu ali com a ovelha exangue aos meus pés. O frio da madrugada piorando a dor no ombro. Que temperamento, o da minha mulher… Quando casei com ela, há um ano, não imaginava que fosse tão nervosa, tão estourada. Gostava dela, gosto dela, mas não posso deixar de sentir uma certa raiva, ou aversão, e até do menino, que chora demais, o tempo inteiro. Também não me agrada essa história de ela ficar me chamando pelo apelido antigo. Grotão… é a mãe!

O chupa-cabras, além de escapar mais uma vez, deixara um cadáver grande para enterrar. Aquilo já passava dos limites. Da primeira vez que atacou, quando entrei na casa carregando as duas galinhas mortas e sem sangue, Liana Maria armou um escândalo.

“Você não está vendo que isso aí é coisa de maníaco, Grotão? Algum pirado que invadiu a propriedade?”

“Mas, Liana, seu Felipe teria visto alguém… e os cachorros…”

“Não sei quem é mais covarde: se seu Felipe, que está com catarata avançada, ou esses seus cachorros bundões! Aliás, o seu Felipe, com todo respeito pela idade dele, é o primeiro suspeito.”

“Você acha que ele iria chupar todo o sangue das galinhas?”

“Sei lá. Pirou com a idade. É estranho, mas tem louco pra tudo neste mundo.”

Muito, muito esquisito: depois das galinhas, os gansos morreram chupados. E aí veio seu Felipe dizendo que viu um vulto perto da casinha deles. Um vulto de homem.

“Acho que o chupa-cabras é igualzinho a um homem, seu Grotão…”, disse o velho caseiro.

“Meu nome é Plácido.”

“Seu Plácido.”

“E que jeito tem esse homem?”

“Sei não. Vi de longe. Da altura do senhor, assim…”

“Por que não atirou? Cadê sua espingarda?”

“Descalibrada.”

Beber sangue. O gosto não deve ser ruim. Sempre comi, cozido, sangue de galinha. Galinha, aliás, é um bicho que só serve mesmo na panela. Minha mãe não deixava faltar o sangue no guisado, ela achava graça porque eu catava os pedacinhos pretos. Por algum motivo, não lamentei muito aquela ovelha. Não gosto delas, fazem um barulho chato, prefiro vê-las mortas.

Voltei devagar para casa, o menino já havia parado de chorar. Com certeza se empanturrava no peito da mãe. Nunca vi bebê tão esganado.

A mim me restava assumir o papel de homem da casa e acabar com o bicho estranho que atacava os nossos. Pela lógica, a próxima vítima seria o cavalo, ou uma das dez vacas, algo grande – ou até uma pessoa, por que não? O chupa-cabras começara com as galinhas e, hoje, deixara uma ovelha sem uma gota de sangue.

Aí uns pensamentos loucos me passaram pela cabeça (de vez em quando sou atacado por eles): e se, em vez daquele leite amarelo, que o menino, guloso, engole até se engasgar, Liana Maria vertesse sangue – bem vermelho – pelo peito?

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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