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Archive for 19 de julho de 2010

“Mesmo que essa história tivesse alguma lógica, um menino e uma menina não poderiam ser tão amigos assim”, ouvi meu pai dizer à minha mãe.

Meus pais sempre me pareceram muito ingênuos. Imaginavam que eu não entendesse as ideias, os olhares, as expressões dos rostos deles. Mas a prova maior da babaquice deles era esta: estavam certos de que eu dormia, a partir das dez da noite e, assim, falavam o que queriam depois daquela hora. Já ouvi coisas de arrepiar.

Ultimamente, o assunto era Maria Tereza, minha amiga, minha irmã e namorada, única razão de ser da minha vida. Eu me encontrara com ela no primeiro ano primário. Nos olhamos, sorrimos, e nunca mais largamos um do outro, onde quer que estivéssemos. Agora, aos onze anos, nossa amizade era contestada. De certa maneira, eu estava muito tranquilo, muito mesmo, porque guardava, no meu íntimo, a certeza de que nada neste mundo, muito menos pai e mãe, conseguiria nos afastar.

E, se nos amávamos em definitivo, havia, dentro de nós, um outro amor, extraordinário, profundo, inefável: o amor pelo mar.

Sim: o mar!

No começo, quando ainda éramos muito crianças, colecionávamos conchas. Os pais de Maria Tereza possuíam uma casa ampla na praia, quase à beira d’água, e ela tinha facilidade de juntar búzios, estrelas-do-mar e outras recordações. Havia um búzio imenso que ela dividia comigo: ouvíamos, durante horas, todo o movimento dos oceanos do mundo. Aquilo era maravilhoso, melhor do que uma sessão de cinema.

Além daquela casa, os pais de Maria Tereza possuíam uma outra, na cidade, de dois andares. Na garagem, três carros do ano. Minha amiga se vestia bem, viajava – ocasiões em que ela e eu sofríamos as piores saudades. Mas nunca senti inveja. Meus pais andavam de ônibus, nossa casa era um sobrado modesto. Nada disso influía na nossa paixão.

O último segredo que contei à minha mãe foi justamente sobre o búzio que Maria Tereza havia arrumado. Ela fez uma cara de susto, depois começou a chorar.

“Olha, Queixinho, nunca mais me fale nessa Maria Tereza, está ouvindo? Eu não aguento mais!”

Aí fui eu que fiz cara de susto e quase chorei também. Como ousava minha mãe interferir numa amizade-amor? Por que, ao contrário, não ficava feliz pelo fato de seu filho único ser capaz de sentimentos profundos e doces?

No dia seguinte, depois que ela e o meu pai conversaram um monte de bobagens a meu respeito, o velho me procurou para saber um pouco mais da minha intimidade com Maria Tereza.

“Queixinho, você já tem onze anos, seu corpo vai começar a se modificar, vêm aí uns hormônios infernais, e eu gostaria que você me desse detalhes sobre essa menina.”

“Não somos nada do que o senhor está pensando, pai. Esse assunto é pra daqui a três anos.”

“Nossa, que precisão, Queixinho! Mas, vocês não… assim, você não pensa nela de um outro jeito, como namorado?”

Aí eu fui obrigado a lhe contar nossa última aventura, na semana passada. Maria Tereza e eu, tontos de saudades do mar, planejamos pegar um ônibus até a casa de praia dos pais dela, onde trocaríamos de roupa e passaríamos algumas horas mergulhando na nossa paixão. Mas, para isso, tínhamos de inventar que haveria aula à tarde no colégio, torcendo para que nossos pais não tivessem a ideia de ligar para a diretoria; roubaríamos algum dinheiro para pagar o ônibus e realizaríamos nosso desejo. Deu tudo certo. Maria Tereza conseguiu tirar uns trocados da carteira da mãe dela, que andava sempre cheia. Dona Lina era distraída: nem percebia quando faltava algum dinheiro.

Nesse dia, eu revelei a Maria Tereza certa expectativa minha, com relação ao sol das quatro da tarde.

“Que é que tem, Queixinho?”

“Li, num livro de meu pai, que este sol é especial e que, se a gente ficar debaixo dele, e se se concentrar nele, pode realizar alguns sonhos.”

“Que sonhos você tem, Queixinho?”

“Os seus. Vivermos juntos na frente do mar.”

“E não tem importância que você seja médico e eu professora”, ela concluiu, sorrindo.

“Não, não importa. Mas eu não vou arrumar trabalho algum que me faça viajar. A não ser que possa ir com você.”

“Para conhecer outros mares.”

“Seria muito bom.”

Não sei se o motorista e o cobrador acharam estranho que duas crianças fossem juntas fazer uma viagem mais ou menos longa, mas que importava isso? Já havíamos entrado de cabeça na aventura. Tudo o mais seria lucro. A visão da água azul, pela janela do ônibus, nos fez estremecer e Maria Tereza apertou minha mão. Até hoje não vivi momento mais prazeroso do que esse. Houve uma mudança no meu corpo, sim. Acho que aquela de que meu pai falou.

Chegamos à casa de praia e encontramos seu João, que tomava conta do lugar, com a família. Havia duas meninas pouco mais velhas do que nós. Elas riam muito e cochichavam, enquanto olhavam pra gente.

“Doutor Paiva deixou que você viesse aqui se trocar?”, ainda perguntou seu João, desconfiado.

“Se quiser ligar pro meu pai, ligue, seu João. Mas eu fico muito triste de o senhor duvidar de mim…”

Maria Tereza tinha certos dotes de atriz. Seu João pediu desculpas, nos fez entrar em dois cômodos, trocamos de roupa e corremos para a praia.

“Querem que eu vá junto?”, seu João ainda perguntou, desconfiado.

“Não precisa”, disse Maria Tereza, “nós dois nadamos melhor do que o senhor”.

E lá fomos nós, pegar o sol das quatro da tarde. Entramos na água, mergulhamos, saímos, pegamos jacaré, caçamos tatuíras, e descobrimos que aquele sol é mais calmo e aconchegante. Há nele algo como uma névoa, que o filtra, certamente para que os raios especiais cheguem íntegros até nós. Pensamos nos nossos desejos, rimos muito um do outro (uma onda me pôs de ponta-cabeça e eu engoli muita água), e, quando esfriou de vez, voltamos para a casa de praia, trocamos de roupa e chegamos aqui sem que ninguém desconfiasse de nada.

(Aconteceu uma outra coisa, inacreditável, mas essa foi um segredo só nosso.)

Meu pai ouviu tudo muito sério, disse-me que não iria tomar qualquer atitude porque, afinal, eu havia sido honesto. Mas cheguei a ter pena dele, nesta noite, quando o assunto em casa voltou a ser, de novo, o meu ‘estranho comportamento’. Eles falaram sobre nós até quase meia-noite.

“Acho que devemos ter outro filho”, foi uma das coisas que meu pai disse. “Talvez tudo isso seja a falta de um irmão.”

Minha mãe, sempre muito dramática, quase não conseguia falar, de tanto choro.

“Meu filho, um pirado!”, ela repetia. “Que é que a gente faz? É claro que eles não pesquisaram o sol nem nada. Onde será que estiveram a tarde inteira? Onde foram? Que fizeram? O que está acontecendo?”

“Ele é só muito criativo, relaxa. Vamos deixá-lo em paz.”

Eu tive de me abafar no travesseiro para não rir alto. Coitados, duvidando de nós e das belezas que nosso amor criava.

Há certas coisas que duas pessoas muito próximas, muito íntimas, não precisam comentar com ninguém. No meio daquela névoa que o sol feiticeiro provocava, vimos alguns seres marítimos, que não se pareciam nem com gente, nem com peixes, muito menos com sereias. Não eram humanos, eram… pensamentos. Eles desfilavam quase como flashes aos nossos olhos, queriam ser apreciados, imagino, mas não a ponto de que pudéssemos tocá-los ou falar com eles. No fundo do mar, pareciam menos etéreos e se mostravam por algumas frações de segundo a mais. Houve um momento em que Maria Tereza passou muito tempo debaixo d’água e tive de mergulhar para puxá-la pelo braço. Eu nadava melhor do que ela. Voltou sorrindo, deslumbrada, e nem pareceu que perdera o fôlego.

“Aquela história do sol dessa hora… É verdade mesmo, Queixinho! Não sabia que o mundo poderia ser assim, mais bonito do que a gente imaginava…”

Houve um momento, no nosso banho de mar, que vimos, lá longe, um homem na praia. Parecia que se preparava para mergulhar, mas voltou. Era seu João, tive certeza. Ainda com medo de nós, ou da descompostura que poderia levar dos pais de Maria Tereza.

Não entendo muito nossos pais, nem os empregados deles. Na verdade, está difícil saber o que todas as pessoas querem; por que, por exemplo, os professores nos pedem certas coisas a que não damos importância? Pelo menos, Maria Tereza e eu. Preferimos os seres feitos de outra matéria além da carne e do osso, e que habitam lugares fantásticos como o mar, e ainda mais o fundo do mar – quando surge o sol das quatro da tarde.

Do livro Memórias Embriagadas – Editora Noovha América, São Paulo, 2008.

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