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Archive for agosto \30\UTC 2010

Não preciso viver muitas vidas, ou participar de múltiplas experiências, para criar personagens ricas.

Não preciso sentir o que outros sentem para, somente a partir daí, ter acesso às suas almas, torná-los pusilânimes, canalhas ou santos.

Personagens já vêm assim, já o são. Guardo na mente as mesmas figuras que me aporrinhavam ou acalentavam desde quando tinha sete anos, ou até menos, e não acreditava mais naquelas histórias de pecado. Não acreditava porque elas, as personagens, viviam me esclarecendo sobre minha real natureza. Especialmente o velhinho.

Me lembro de Joanides (pronuncia-se Roanides, é “J” castelhano), no primeiro dia em que me surgiu, o da minha primeira comunhão. Ele me dizia, bondosamente, que eu não deveria entrar em pânico por causa dos meus pensamentos tortos. Que eu não era um pecador compulsivo, como imaginava. Meu problema limitava-se a um certo desequilíbrio na produção de testosterona.

Jamais me esquecerei dele, com suas barbas brancas, sua magreza romântica, a voz pausada e doce, quase feminina. “Calma, calma, meu rapaz, não precisa se confessar de novo.”

Naquela época, quando comentava sobre as coisas que Joanides me dizia, os adultos faziam cara de susto. “Onde esta criança leu isto? O que está acontecendo?”

Eu explicava: “Joanides me contou”. (Ou Márcia Salamandra, Quinzinho Belo, Giloca…)

“Mas onde você viu essa gente, onde?”

E eu detalhava: “Joanides gosta de aparecer quando estou em apuros. Em certas provas do colégio, por exemplo, e em outros que não quero falar. Fica do meu lado direito, às vezes se abaixa tanto para conversar comigo (ele é muito alto) que chego a sentir um certo hálito amargo, sei lá, como se ele não comesse nada há tempo. Sinto o mesmo, às vezes, no hálito da minha mãe.”

“Mas , você o vê como a uma pessoa normal?”

Eu suspirava de apreensão ou um certo enjoo com a infantilidade dos adultos. Como, pessoa normal? Personagens são criações da mente, e a visão deles é uma outra criação da mente, eu repetia e repetia, extenuado.

“Mas, menino, onde foi que você leu a palavra testosterona?”

“Que coisa, meu Deus. Não li nada. Foi Joanides que me contou.”

Papai me levou ao primeiro psiquiatra antes que eu completasse oito anos. Era um homem gordo, de pele lisa e fria. Os braços não tinham pelos. Olhos de sátiro. Madre Josefina, ao meu lado, profetizou: “Ele vai tentar violentar a filha da empregada, mas não conseguirá. Gordo nojento.”

Contei a mamãe e ao meu irmão Lucas o que o gordo iria aprontar, mas eles acharam que eu queria mesmo me livrar dos remédios que me dopavam o dia inteiro; certa vez, cheguei a dormir sobre a carteira do colégio.

“Papai, mamãe, eu não estou doente. O médico está me matando.”

“Você está ficando perigoso, moleque”, dizia meu pai, ainda irritado com a história da tentativa de estupro. “Você vai se complicar, um dia, com essa sua imaginação louca.”

Mas, pouco tempo depois, ele mudou de opinião a meu respeito. Entrou na sala, lívido, com o jornal na mão e mostrou-o à mamãe. O gordo havia sido preso por abuso sexual contra uma menina de oito anos, filha de sua empregada.

“Estou com medo deste guri”, papai confessou à mamãe e eu ouvi tudo através de leitura labial, uma técnica que Jota Perito me ensinou.

“Não se preocupe comigo, pai. Não vou fazer mal a ninguém. Eu amo vocês.”

“Pô, e agora ele adivinha…”, meu pai começou a se irritar novamente.

A verdade é que me deram um pouco mais de liberdade, a partir daquele episódio; mas se afastaram de mim. Como se tivessem medo, mesmo. Papai tinha muitos problemas com sua produção de autopeças: as multinacionais começavam a comprar todas as fábricas, médias e pequenas, e ele não conseguia preço dos fornecedores para competir. Sem recursos, a casa foi ficando mais triste a cada dia e eu tive de mudar para uma escola pública. Joanides, sempre a meu lado, ajudava como podia. Ele só veio a falecer, digo, como personagem, em mil novecentos e oitenta e seis, quando escrevi “Areia grossa, areia fina”. Joanides pontificou até o capítulo dezoito, morrendo de causas naturais.

Por isso insisto com vocês que posso escrever à vontade sobre a ala feminina desta clínica sem precisar ter sido internado nela ou vivenciar seu dia a dia, até porque sou homem. Sabem, não me levem a mal, mas eu sei exatamente o que uma mulher sente durante um ato sexual imaginário, que é a coisa mais comum naquela ala. Klotilde (é com “K” mesmo, frescura de quem escolheu o nome) me contou tudo, com detalhes. Quem é Klotilde? Ora, doutores, é a principal personagem do meu livro, a elitista que foi jogada aqui dentro por vingança dos parentes. Devo, inclusive, adverti-los de que terão problemas, em breve, com Maria Eulália e Cacilda, porque elas estão se envolvendo emocionalmente cada vez mais. Ninguém suporta, por muito tempo, atos sexuais imaginários.

Se eu vejo fantasmas? Meu Deus, desde criança eu insisto que personagens são criaturas de ficção e que só existem em função de mentes treinadas à onisciência, como é o meu caso. Eles são meus queridos amigos. Mesmo aqueles que experimentaram vidas miseráveis nas minhas histórias. Se vocês usassem suas mentes saberiam um pouco mais de medicina, saberiam até, através de sinais orgânicos, o momento exato de suas próprias mortes. Aliás, um de vocês está muito perto disso, acontecerá por esses dias. Madre Josefina jamais falhou em suas previsões.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Não acredito em terapia. Já fiz umas quatro vezes. E olha como estou, cada vez mais pirado. Pelo menos é isso o que os terapeutas dizem. Comecei com o tal do psicodrama, nos anos setenta, eu ainda era muito menino. Vinte e poucos anos, queria comer o mundo, e o comia, em parte.

O terapeuta era um personagem da moda (sabe, aquela mistura de faturamento conservador e estilão comunista, porém simpático à proposta hippy, só para papar as clientes.) O cara, no fundo, era um nojo. Um fascistoide.

Achei legal o psicodrama. Todo mundo falava e eu, moita. Me divertindo. Tinha umas mulheres louquíssimas. Bonitas, sabe, casadas, mas invariavelmente ninfomaníacas. A vontade de homem saltava junto com os seus peitinhos fofos, sem sutiã. O psiquiatra comia a mais alta, Morgana, eu sacava tudo, não nasci ontem. E havia também as loucas inúteis, quer dizer, loucas só de cabeça. Era o caso de Maria das Graças, a portuguesa. Feia de provocar alergias. Magra como uma vara. E o pior: olhava para mim com ódio, demonstrando, na verdade, grande interesse.

Naquele grupo insensato só havia dois homens. Também, sessão às três da tarde era coisa pra milionário ou vagabundo. Eu não era milionário, mas filho de. E o outro, vagabundo mesmo, funcionário do Poder Judiciário. O puto enchia a boca pra falar “Poder Judiciário.” Teve um dia em que o mandei enfiar o Poder Judiciário no cu. Ele engasgou, mas o psiquiatra me defendeu; ali no psicodrama cada um falava o que queria. O malandro do terapeuta começou, por sua vez, a comentar sobre a minha agressividade. Disse um monte de merda.

Mas a tal portuguesa, que eu chamava de Maria Desgraça, imitando o sotaque luso, foi chamada para representar sua própria família no palco. Vocês conhecem psicodrama, não? O palco é um tablado, e a gente, os pacientes, oito pessoas sentadas no chão; o malandrão ficava no centro, numa cadeira mais alta, junto com a ego-auxiliar, uma espécie de ajudante-de-ordens dele. Eu simpatizava com a ego-auxiliar. Um rosto meio gasto, mas umas pernocas lindas, que a minissaia realçava. Graziela. Naquela época, as mulheres haviam cismado de jogar fora o sutiã, mas a Graziela, esperta, comprou uns decotados, rendados, e usava blusas mais ou menos transparentes. Quanto mais eu olhava para os peitos dela, sugeridos, mas ela gostava de mim.

Então Maria Desgraça foi chamada. O mau humor da mulher ganharia uma guerra. Era tão descompensada que não dava pra saber que idade tinha. Fisicamente, uns trinta; na expressão, cinquenta e poucos. A filha da puta subiu no tablado, olhou para mim com aquele ódio mortal e chamou-me ao “palco.”

“Este é o meu pai!”, ela disse, como se me insultasse.

Vocês podem imaginar a minha cara, tirando sarro da situação. Aí ela se virou para Morgana, a gostosa (acho que a portuguesa sentia ciúmes dela com o terapeuta, ou então uma puta inveja, também pudera), e falou, com ódio ainda maior: “Esta é a minha mãe!”

Morgana subiu, trocou um olhar divertido comigo (eu deveria ter investido mais nela), enquanto o psiquiatra olhava meio sonado e a ego-auxiliar escrevia sem parar. Sempre desconfiei que o vigarista do terapeuta viajava durante certos momentos das sessões, talvez pensando de que forma gastaria o dinheiro pesado que a gente deixava lá. Mas a portuguesa virou-se para o cara do Poder Judiciário e acho que ele tremeu na hora, diante de tanto ódio estancado na expressão da louca.

“Este é o meu sexo”, ela vociferou, com o dedo em riste apontando para o cara, como quem manda um condenado para o inferno.

Agora, vocês precisam entender a situação: todo mundo naquele tempo tinha jeito de Che Guevara; o cara, então, ostentava uma barbicha rala, era meio bochechudinho, o que lhe dava um certo ar de perplexidade e expectativa ao mesmo tempo. Aí eu não suportei: quando ele subiu no tablado, perguntei de surpresa:

“Posso lhe chamar de boceta?”

Foi uma revolução. A ego-auxiliar soltou uma gargalhada tão escandalosa que o psiquiatra não disfarçou um olhar de reprovação, mas ele próprio se cagou de rir, reprimindo-se com a mão na boca. As meninas se estouraram. O vagabundo do Poder Judiciário continuou perplexo, cada vez mais parecido com uma boceta deprê. E Maria Desgraça chorou com uma voz rouca, de soluços hostis. A palhaçada durou tanto tempo que o terapeuta resolveu encerrar a sessão por falta de condições mínimas, e aí eu vi, também, que não dava pra mim. Pedi as contas, ou melhor, deixei de pagar aquela merda que não estava me adiantando de nada, na verdade só garantia a minha saída mais cedo da empresa do meu pai, que, naquele tempo, faturava horrores. Meu pai era amigo de uns generais; ele próprio não ficou nem mais nem menos rico com aqueles negócios de alta tecnologia, mas os generais… meu Deus, como roubaram o Brasil naquela época!

Logo depois da tal experiência frustrada do psicodrama, eu me casei. Vou-lhes dizer: cheguei a flertar em plena igreja, enquanto esperava a noiva, com a irmã de uma das madrinhas, que eu já conhecia de umas férias na praia, e a quem tinha encoxado legal no réveillon de mil novecentos e sessenta e sete.

Claro, foi um fracasso, o meu casamento. Para ela também, a Belica, como chamavam a minha esposa, uma bonequinha da elite, tão anta que não conseguiu passar nos vestibulares dos cursos mais bundas das faculdades particulares, as quais, ainda por cima, pertenciam a amigos da família dela. Me lembro do Doutor Camacho, coitado, um daqueles empresários de educação, picareta humilde, tentando explicar ao meu sogro que não havia conseguido uma “brecha técnica” para fazer Belica passar num curso, nem me lembro de que, acho que de Relações Públicas.

“Que porra de brecha técnica é essa, Camacho?”, exasperava-se o meu sogro, grande bandido, pecuarista, comprador de ministros, um crápula.

“É que a prova da menina não foi muito feliz, sabe, tem uns professores que exigem, assim, um mínimo…”

“Tá chamando a Belica de burra, Camacho?”

“Que é isso, doutor? Não se confunda com o que eu disse.”

Vou contar pra vocês: o meu casamento só durou dois anos, na verdade, porque eu tinha medo de que o sogro me mandasse matar. Então, vejam que situação angustiante: eu torcia para que Belica me pusesse um imenso chifre, mas grande mesmo, e sobretudo público. Precisava de um pretexto. Acabou acontecendo com um contrabandista italiano, e eu cheguei junto ao pilantra, com cara de choro fingida, pra dizer que não seria possível continuar com a “farsa do meu casamento.”

“Que é isso, menino?”, ele ponderou. “Somos tutti cornuti, sabe? Tutti. A gente faz o que quer e não tem mulher que nos aguente.”

Eu o convenci de que eu era exceção, mas por conta dos problemas conjugais já estava metido numa outra terapia. Esta, fantástica! Na verdade, trançava minhas pernas com as da psicóloga, a Rosa Eugênia, papando-a em pleno divã, enquanto ela se lamentava por estar-se destruindo profissionalmente.

“Sai, sai, eu não posso fazer isso, é antiético…”, ela choramingava, bicha falsa.

Foi durante essa fase doida que estourei o carro, bêbado, debaixo de um viaduto e mandei um mendigo pro céu. Nunca tive dúvidas de que os mendigos vão para o céu. Puta merda: foi um parto aquela história. Contrata advogado de um lado, compra policial do outro, meu pai chegou a molhar a mão de gente mais graúda, que ele não me revelou. Mas escapei. Só que havia perdido muitas sessões de terapia e, quando voltei, Rosa Eugênia me recebeu na recepção, com a secretária por perto.

“Vamos conversar um pouco, Rosa, lá dentro.”

“Não fico com você sozinha de jeito nenhum. Estou recuperando a credibilidade que perdi para mim mesma. Você tem muitas opções de tratamento.”

Não tinha. Ou não achei. Não sei bem o que acontecia comigo. Queria champagne, por exemplo, e bebia até cair. E sempre puto, sempre infeliz. Queria mulher. Pô: vocês não imaginam quem eu já comi. E nada de felicidade, bem-estar. Muita gargalhada, muito balanço, e depois um puta vazio, uma ansiedade, vontade de morrer, sei lá o quê. Só não transei droga, com medo de me desgraçar de vez. Mas dei umas experimentadas. Maconha… eu me sentia índio quando fumava maconha. Cocaína não faz minha cabeça: muita taquicardia pra pouco retorno. Mas ópio, tive de parar na primeira cachimbada. Ou ia me estoporar todo.

A minha última terapia foi a Benê, minha atual namorada, que conseguiu me arrumar. Quer dizer, mais ou menos. Já não carrego a putaria de antes, acho até que ando responsável, tentando administrar o que restou do dinheiro do velho. Sabe, até brocha tenho andado, ultimamente, mas a Benê não liga muito. Ela é natureba. E me arrumou uma guru, uma austríaca, esquisita, de olho baixo, que fica tomada e me dá uns passes, impondo as mãos sobre mim, sem me tocar. Dá vontade de fazer cócegas nela. Mas tenho me controlado. Ontem, numa das sessões, senti um sono danado. Abri a boca feito um puto. Benê, de vez em quando, dava uma espiada pela porta entreaberta. A guru lá me obriga a tomar uns chás e põe uns incensos que me lembram um restaurante indiano que frequentei nos anos oitenta.

Não vai adiantar nada disso. Eu vou continuar louco, porque eu preciso me sentir bem, e não consigo. E é aí que o meu comportamento se torna, como dizem, antissocial.

“Benê, acho melhor você desistir de mim, sabe, eu não vou ter jeito. Essa gringa está me assustando com as mandingas dela. Sem contar que ela me mata de sono.”

“Mas eu gosto de você, cara. E só quero te ajudar.”

“Mas não vai, Benê. E eu vou acabar te sacaneando. Não faço outra coisa na vida a não ser sacanear quem gosta de mim.”

Então é assim: eu vou continuar indo atrás de terapia. Alguém que me ajude. Mas não acredito que vá dar certo. Eu às vezes penso que caí neste mundo por engano. Sou um forasteiro por aqui.

Do livro “O Homem dentro de um Cão” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007.

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José da Assumpção acabara de completar doze anos quando uma linda, angelical figura de mulher (em tamanho natural, mas de forma estranha, levemente transparente, tanto que os raios do sol a transpassavam, vestindo um manto azul sobre um outro manto branco, cabelos longos aureolados por uma luz colorida, imprecisa, que, quando em vez, tomava forma de guirlanda de flores do campo) surgiu para ele, sobre um outeiro repleto de coroas-de-frade. O primeiro pensamento de José da Assumpção foi de cuidado para com a ilustre dama: que ela não machucasse os pés nos espinhos da planta.

“Se avexe não”, disse a figura, adivinhando os pensamentos do menino, “as coisas da terra não podem me ferir”.

“Você é quem eu estou pensando?”, perguntou o garoto, muito famoso na região por sua esperteza.

“É claro, Zé”, disse a aparição, com a voz bondosa de santa mesmo. “Vamos ter de trabalhar”.

“Em quê?”

“Curando o povo doente desses confins.”

“Que é que eu tenho de fazer?”

“Tu me vens com a doença e eu passo o remédio…”

“Quanto eu ganho com isso?”

“Que menino interesseiro… Tu não ganhas nada! Esse vai ser um trabalho nosso: fazer o bem para o povo…”

José da Assumpção pensou um pouco, coçou o queixo, olhou de lado. Não havia ninguém ali, por enquanto, muito menos àquela hora em que o sol escaldava.

“Posso perguntar uma coisa, dona?” Ele estava meio sem jeito.

“Depende. Nem tudo posso falar.”

“Por que eu? Por que a senhora me escolheu? Não sou bom menino não, andei pecando hoje mesmo o tal do ‘pecado solitário’ que o padre me disse…”

“Eu sei. Você precisa parar com isso ou vai ficar magro feito uma vara e todo cansado, sem vontade de ir pra escola.”

“Mas, por que eu?”

“Ah, você é o mais esperto daqui…”

“Por isso mesmo não quero. Me tira dessa, dona santa. Se eu contar ao povo a verdade, que vi uma senhora de azul, do jeito que a senhora é, vão dizer que eu tô é doido. Fizeram isso com Chico Jurema, coitado. Foi até preso porque andou vendo uma senhora parecida com a senhora… Não foi a senhora mesma, não?”

“Pior é que foi, menino. Mas Chico Jurema aprontou comigo. Tentou me usar. E mentiu pro povo, disse que eu andava rodeada de Anjos. Cê tá vendo algum Anjo por aqui, tá?”

“Eu é que não.”

“Pois é. Eu apareço sozinha.”

“Mas a senhora poderia tentar uma outra pessoa maior do que eu. Zé do Coco, por exemplo. Se ele disser que viu a senhora, todo mundo vai acreditar. Ele já viu saci, lobisomem e a Mãe de Fogo…”

“Mentira. Viu nada. E você pensa que eu não tentei? Apareci pro Zé há uns três meses, assim, de noitinha, lá na casa dele.”

“E aí? Ele não gostou?”

“Gostar? Ficou verde de medo, deu um grito que se ouviu lá na serra e ainda cagou-se todo.”

“Sabia não que ele era frouxo assim.”

“Até coelho tem mais coragem. Já apareci, também, para outras pessoas, sabe, mas todo mundo medrou, me confundiu, não é fácil encontrar alguém que me entenda. E eu só quero ajudar.”

“Bem. Que é esquisito aparecer assim, é. Mas acho que conheço uma pessoa que pode quebrar nosso galho.”

“A velha Firmina? Nem pensar.”

“Nossa! Você adivinha mesmo. Por que não ela?”

“Não adivinhei nada. Você só poderia ter pensado nela porque é a maior beata do lugar. Se eu surgir para ela, como estou agora, ela vai endoidar de vez. Aí vai chorar, tentar se agarrar no meu manto e rezar uns cinco terços por dia, fora os três que ela já reza. Quem reza tanto não tem tempo de ajudar. Mas quem ajuda está rezando o tempo todo… Não, com a velha Firmina não há condição. Escuta: por que não você? Jamais consegui manter uma conversa assim, durante tanto tempo…”

Neste momento, o pai do garoto, seu Malaquias, vinha voltando com os animais no meio dos umbuzeiros e juremas que, naquela época do ano, por causa de chuvas generosas, exibiam tons de verde repletos de um brilho feliz. O melhor da vida voltara a se instalar na caatinga de inverno.

A figura angelical ainda disse, apressada, “té mais ver, Zé, depois eu volto” e sumiu na transparência de si mesma, como se fosse um pó brilhante que tivesse brotado das coroas-de-frade.

“Meu filho, vi você aí, falando sozinho. Zé, tu não tás doido, não, tás?”, perguntou seu Malaquias, que era baixo e entroncado, chamado pelo povo de “tronquinho de amarrar onça”. Mas era homem bom e temente a Deus.

“Tô não, pai. Impressão.”

“Hum…”

O garoto, na volta a casa, cinco quilômetros além da serra, pensou muito se contaria a alguém sobre a aparição. Ao padre, não seria possível. Além de não acreditar, ele não perderia a chance de falar do “pecado solitário”. Como gostava desse assunto! Aos pais, impossível. Eles correriam para contar ao padre. Não sobrava muita gente.

Pensou muito e acabou escolhendo o único interlocutor que lhe pareceu viável: Zé do Coco. Primeiro que era doido, mesmo. Depois que já havia visto a senhora.

O menino o procurou, no dia seguinte, no casebre afastado, onde morava sozinho com Tigrão, um cachorro velho, de orelhas comidas pelas moscas. Zé, como dizia o nome, vendia uns cocos murchos que os caminhoneiros traziam do litoral. Zé falava sozinho, exorcizava demônios, curava bebedeiras com umas misturas que, segundo o povo, tinha até chá de rato como ingrediente.

Mas a estranha figura gostava daquele menino de olho vivo. Ouviu toda a história, com ar preocupado, coçando a carapinha e, ao contrário do que o garoto esperava, não pareceu abalado:

“Se preocupe, não, Zé da Assumpção. Isso é um zombeteiro que anda por aqui desde mil novecentos e vinte. Se veste como a santa e fica procurando quem lhe dê trela. Muita gente já caiu. Você, que é menino esperto, ainda bem que veio me contar… Sentiu cheiro de enxofre, quando ele apareceu?

“Não era ele, Zé do Coco, era ela.”

“Zombeteiro aparece de todo jeito. Às vezes é homem, às vezes é mulher. Pode ser bicho, saci, lobisomem…”

“Quer dizer que todo esse povo que diz ter visto a Virgem pode ter sido enganado pelo zombeteiro?”

“É isso mesmo, oxente. Por que é que a santa iria aparecer logo aqui? Menino, se fosse a santa mesmo baixava lá na capital, pra gente conceituada.”

O garoto agradeceu, mas não se convenceu; decidiu, caso a aparição retornasse, submetê-la a um teste. Escolheria, para cobaia, a dona Justa, a melhor lavadeira da região, que gostava muito de beber. Dona Justa sofria do fígado. Seu pai lhe dissera que todo bêbado sofre desse mal. Dona Justa ingeria uma garrafa de cachaça diariamente. Se a santa fosse santa mesmo, curaria a coitada. Já se fosse o zombeteiro… bem, nem zombeteiro conseguiria piorar a situação da lavadeira. “De amanhã dona Justa não passa”, todo mundo dizia, há muito tempo.

Zé do Coco observou, com tristeza, o garoto a se afastar. Lamentou muito que, além dele próprio, estivesse surgindo um outro maluco, bastante precoce, na região. E parecia ser um menino tão esperto, ponderado, com um pai trabalhador e uma mãe cuidadosa.

Mas podia ser, também, refletia Zé do Coco, que o garoto estivesse falando a verdade, e aí a situação era mais complicada: aquele zombeteiro que quase lhe matara de susto, um dia, resolvera azucrinar outras pessoas. E escolhera, agora, o pobre do menino.

Zé do Coco fez o pelo-sinal. Um frio súbito lhe subiu pela espinha e ele se arrepiou todo. Tigrão levantou o que lhe restava de orelhas, meteu o rabo entre as pernas e foi saindo de mansinho.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Doralice achou que me enganaria. Pode até acontecer, mas é difícil. Ela possuía lábios grossos, a pele murcha, era baixa e ancuda: o oposto de sua autodescrição. Chegou ofegante, com um tesão de anos. Eu fiz como sempre: toquei-a com a ponta dos dedos, primeiro o cabelo, depois orelhas, o nariz, a boca e demorei-me bastante no pescoço, manuseando cada centímetro quadrado da sua carne velha. Ela estava com pressa e logo se insinuou, tocando-me intimamente, mas, com gentileza, afastei-me dos seus dedos nodosos e da acidez demasiado elevada do seu hálito.

Após o que, dei-lhe as costas e voltei à poltrona. Ela deve ter estranhado a minha agilidade. É engraçado: sem que a pessoa diga uma palavra, emita um pequeno som, um resmungo que seja, eu sei exatamente a cara que faz. Ela fez uma expressão de espanto. Como, um cego tão lépido?

“Ora, Doralice”, disse-lhe algum tempo depois, “eu conheço o meu quarto de cor. Não lhe parece lógico que eu me mexa nele com toda essa desenvoltura?”

“Não falei nada…”

“Mas pensou.”

Uma pausa.

“É verdade, pensei. Você, além de cego, é adivinho?”

Ela estava decepcionada. Não ganhou nem um beijinho. Suspirou, chegou-se bem junto a mim, sentando-se no braço da poltrona. Tomava coragem para tocar no assunto. Levou um pouco mais de tempo; até me ofereceu café e eu aceitei. Nisso era um fracasso, também: fraco e com pó no fundo.

“Sou tão carinhosa…”, ela foi dizendo, “mas você me afastou na hora em que me cheguei.”

“Doralice, vou ser sincero. Sei que é uma bosta ser sincero. A gente afasta as pessoas. Mas é o seguinte: ando brocha.”

Mais uma pausa. Vi com meus olhos mentais que moscas voavam pelo quarto. Devia haver alguma comida ou frutas fora da geladeira. Quando se vive sozinho e se é cego, alguns detalhes escapam. Poucos, no meu caso. Mas não consegui “ver” a expressão de Doralice. Arrisquei, para mim mesmo: vai insistir, vai dizer que é capaz de me deixar excitado. Errei.

“Você não está brocha, Leomar. Você não gostou de mim. Não me achou bonita. Você me leu com as mãos. Pensa que não percebi? Depois…”

A voz dela passou a revelar emoções fortes. Estava quase chorando.

“… você comeu a Clarisse anteontem.”

“Doralice, não apele! A Clarisse é casada e me ajuda. Ela lê pra mim uns romances, umas histórias. Ela faz caridade…”

“O catso! Todo mundo sabe. Ela entra aqui dizendo que vai trepar. Acho que até o marido sabe.”

“Seu João pode me matar, Doralice, se essa calúnia se espalhar por aí. Pare com isso. Se você acha que é assim, guarde pra você.”

“Ela é uma puta. Pensa que dá só pra você? Pior cego é o cego mesmo, sabia?”

“Nunca toquei num fio de cabelo de dona Clarisse, Doralice. Sou um pobre cego, um merda, um homem inútil na vida…”

“Agora faz papel de coitadinho. Se você quer saber, Leomar, você virou artista de teatro. Olha, a Clarisse esteve aqui uma vez, para trepar com você, e trouxe quatro amigas. Elas se apertaram aí no seu quarto e viram tudo. Clarisse cobrou delas, sabia? Dizem que foi um negócio do outro mundo. Não sei se houve outras vezes.”

Fiquei gelado, e uma palidez total deve ter me tomado o rosto. Doralice chegou a me oferecer um copo d’água. Não aceitei. O pior é que me lembrei muito bem daquele dia fatídico: primeiro Clarisse queria transar de janela aberta, certamente para acomodar melhor a plateia, e eu não deixei; sempre fui recatado na minha vida sexual; depois, senti alguns ruídos dentro de casa, e aí ela me falou de uma ventania, de uns objetos que haviam caído no chão, mas na verdade eram as amigas-plateia se mexendo dentro dos meus aposentos. Mas o meu tesão por Clarisse era muito maior do que essas estranhezas. E foi assim que me transformei num ator de teatro pornô, ao vivo. Que vergonha, meu Deus!

Doralice sentiu o meu abatimento e procurou consertar o estrago. Talvez gostasse, realmente, de mim.

“Não fique se culpando, Leomar. Você é cego. As pessoas podem lhe enganar facilmente. Antes de você conseguir a pensão do governo, quando você pedia esmola, aquele seu guia, o Geraldinho, você lembra?, roubava muito você.”

“Eu desconfiava…”, disse, arrasado.

“Mas, Leomar, você não está só no mundo, não. Eu, pelo menos, gosto de você. E não sou casada nem filha da puta.”

Pronto. Ela havia chegado onde queria. Primeiro me destruía, depois se oferecia como solução. Mulheres. Pensei na escrota da Clarisse. Veio se oferecer para me ajudar. Eu deixei que ela me lesse romances. Mês depois, já vinha com uma história cheia de lances eróticos. “Eu não me incomodo de ler”, disse a falsa. Mais algum tempo, ela lia as sacanagens me fazendo carícias. Daí pra cama foi um pulo. Mas cobrar das amigas para me ver transando era demais! E o marido? De repente, seria morto sem desconfiar, sequer, de onde vinha o tiro. Na minha vida de cego, muitas mulheres se haviam aproveitado da minha condição, mas eu também tivera as minhas alegrias. Uma troca. Agora, com aquela ali, era outra coisa.

“Diga-me, Doralice”, eu falei, “como posso ter certeza de que você é sincera comigo, de que não vai cobrar entrada se por acaso, um dia, eu fizer amor com você? ”

“Porque eu amo você, bobão.”

‘Quem amaria um cego?’, pensei. ‘Uma mulher feia, talvez’. E aí passei minha mão direita no rosto de Doralice, demorando-me um pouco sobre seus lábios carnudos. Talvez não fosse tão horrenda assim.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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A Harley-Davidson imponente, brilhante, impecável, parou na frente do bar que não ficava exatamente na praia, mas numa rua transversal à Avenida Beira Mar. De lá, no entanto, ouvia-se o marulho e sentia-se o odor forte de sargaços, indicando tempo de chuva.

Dois homens, de roupa esporte, desceram da imensa motocicleta. Tiraram os capacetes: o mais alto era bem mais velho, meio gordinho, tinha uma expressão jovial no rosto; o mais baixo, com metade da idade, magro e pálido, parecia sombrio e deprimido.

Entraram no bar bem arrumado, pequeno e íntimo, com o mais velho fazendo festa para o dono e alguns fregueses que o cumprimentaram com sincera alegria.

“Jorjão”, disse o mais velho ao proprietário do bar, “não é que eu tenha virado a mão, não, mas hoje estou acompanhado de homem…”

“Um dia iria acontecer com você, também”, disse Jorjão, revelando sua definitiva feminilidade. “Um belo rapaz, seu acompanhante”, ele completou.

“Jorjão, hoje vamos ficar bêbados, e se não der para dirigir de volta você guarda a menina lá no fundo, tá certo?”

O outro fez que sim com a cabeça e foi buscar o litro de uísque que o mais velho mantinha no bar, de reserva.

“Eu ia até fazer uma brincadeira, mas seu amigo não está de cara boa…”, brincou Jorjão, servindo gelo e copos.

O homem mais velho passou a mão na cabeça do rapaz, carinhoso.

“Cai fora, Jorjão, a gente aqui vai ter um papo…”

O outro saiu, discreto, e o rapaz falou pela primeira vez:

“Jamais imaginei que o maior publicitário da cidade pudesse convidar um redator iniciante pra beber com ele.”

“Vai à merda, cara. Não estamos aqui por causa da profissão. Quero tirar essa mulher da sua cabeça. Aliás, quero, não. Vou tirar. O que está acontecendo com você é a história da humanidade.”

“Todo mundo é corno, na humanidade?”

O outro pensou um pouco, aproveitou para beber a primeira dose.

“É. Potencialmente é. Eu já fui, potencial e realmente.”

“Não posso falar mal de Virgínia, aqui.”

“Pode falar, sim. Diga, diga que ela é uma filha da puta e que lhe pôs uns chifres, que não tem sentimentos nem coração.”

“Para!”, disse o rapaz, num tom mais alto. “Você agora quer me gozar”.

“Olha aqui, moleque. Sempre gostei de você. Pelo lado da profissão, porque você é talentoso e competente, mas sobretudo pelo lado humano. Você é um cara solidário, e isso é raro nesse formigueiro de egos em que estamos metidos. Você sofre porque os outros passam fome, por exemplo. Eu já acho que ninguém mais passa fome, e que a falta de respeito é mais dramática do que a falta de comida.”

“Sei o que você pensa.”

“Pois bem. Às vezes, você é o cara ideal: você é honesto, discreto, politicamente correto, e não serve para uma mulher como a Virgínia, que, apesar da imensa beleza, é arrogante, preconceituosa e mau-caráter.”

O rapaz olhou meio desconfiado para o mais velho, e pela primeira vez provou o uísque, sem alterar o ar circunspecto.

“Olha aqui, você está exagerando com relação à Virgínia.”

“O que eu quero lhe dizer, moleque, é o seguinte: ela não tem qualidade humana para reconhecer em você um parceiro viável. Falo do fundo do coração. Você é muito melhor do que ela.”

“Mas, cara, eu estou apaixonado. É ridículo, isso, mas eu não posso deixar de pensar na Virgínia, todo o tempo, de manhã à noite, e virei um babaca, até música de quinta me faz chorar, e eu estou distraído no trabalho.”

“Tudo falso, tudo mentira. Seu rendimento continua ótimo, você pensa que ela o obsidia, mas foi uma forma que você encontrou para se autopunir.”

“É verdade o que estou lhe dizendo, porra. Ela me perturba!”

“Porra é você, seu puto! E você pensa que eu não já passei por isso? Hoje eu não troco minha motocicleta por mulher nenhuma. Sou separado há dez anos, você sabe, e nada me dá mais tesão do que andar naquilo dominando o acelerador.”

“Você virou uma máquina, como a maioria.”

“Virei o caralho! Um dia talvez aconteça de eu voltar a me apaixonar. Por enquanto, nem ameaça. Sabe qual foi um problema? Você e Virgínia trabalharem juntos. E ela, na função de contato, levando cantada de todo tipo de homem. Isso endoideceu você.”

“Ela é que endoidou. Me traiu.”

“E por que você não a trai? Arrume alguém melhor do que ela. Está cheio de mulher por aí.”

O mais velho olhou demoradamente para o companheiro. Percebeu que já desfranzira a testa: um bom sinal. Na segunda dose de uísque, dera um mísero sorriso. Mas era o primeiro, em semanas. Lamentou, para si mesmo, que o mundo só funcionasse debaixo de mentiras. Lembrou do tempo em que tinha aquela idade, e de como ficou arrasado no dia em que Carmem, a ruiva, lhe dissera que estava tudo acabado. Pálido, perguntou o porquê e ela não teve dúvidas: “O meu amor por você só me permite trocar cartas de amigos”. Foi a morte: deixou a casa dos pais e se meteu numa aventura radical dentro da Amazônia. Pegou malária, escapou de um ataque de índios e voltou vinte quilos mais magro. Porém curado. Não queria que seu jovem amigo, ali, radicalizasse daquele jeito. Nem que se enterrasse numa depressão da moda, talvez mais perigosa do que a floresta.

Uma hora depois, ofereceu carona ao rapaz, que já denunciava o efeito do uísque, para levá-lo em casa. Ele não quis. “Fico aqui no bar, depois pego um táxi.”

Despediu-se de Jorjão (“deixa que eu tomo conta do boneco”, efeminou-se de vez o dono do bar), dos poucos fregueses que ainda restavam por ali, encheu os pulmões com o cheiro de mar e ligou a poderosa Harley-Davidson. Mas antes de acelerar pela avenida, a mais de cento e trinta por hora, discou um número no celular:

“Porra, Virgínia. Acabei de evitar que seu ex-namorado se suicidasse. Da próxima vez, seja mais discreta ao acabar com seus relacionamentos.”

“Papai, não acredito que você foi pajear o…”

“Tem nada a ver, filha. É um cara que trabalha com a gente, está fudido, me contaram que até pensou em se matar.”

“Quem disse?”

“Não interessa. Colegas. E sabe de uma coisa? Estou pensando em despedi-lo amanhã. Eu mesmo lhe arranjo emprego numa outra agência.”

“Por que você foi conversar com o cara, pai?”

“Quer saber mesmo? Porque ninguém fez isso comigo quando eu precisei. Mas foi a última vez. Estou aqui exausto de tanto mentir.”

Depois, acelerou a Harley-Davidson no limite entre o prazer e o risco de vida. Quando sentia raiva de si mesmo, tinha impulsos de acelerar mais e mais.

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Sabíamos que não seria exatamente um paraíso, a nossa lua de mel, até porque já tínhamos feito o que havia por fazer, em matéria de sexo, muito antes do casamento. Chegamos até a consultar uma edição muito antiga do Kama Sutra, que meu avô guardava numa das caixas de despejo da garagem, dentro de um estojo de madeira, como se joia fosse. Em seis meses, havíamos realizado todos aqueles exercícios.

Taciana sofria de furores e queimações, e até de visão dupla, distúrbios que só se aliviavam quando ela praticava sexo, uma, duas, três vezes consecutivas. E eu, que fora desde criança iniciado com competência pelas meninas que o meu avô empregava, sabe-se lá pra quê, vivia em estado de perene excitação. Quando nos encontramos, foi como se tivéssemos entrado em um curto-circuito. Da primeira vez que a invadi, estávamos dentro do mar, e Taciana soltou um grito tão potente e melodioso que algumas pessoas, ali perto, imaginaram que se tratava de um soprano de férias. Vieram nos perguntar isso, depois, sem imaginar sequer o que fazíamos abraçados dentro d’água. Ufa!

Assim, seria fatal que nos casássemos muito cedo, pois o pai de Taciana, certamente consciente das inclinações da filha, pressionou o quanto pôde para que a cerimônia acontecesse rapidamente. Apesar dos nossos dezenove anos.

Meu pai nos cedeu uma casinha de periferia, a contragosto, é verdade, três ônibus longe do centro; era uma casa mais ou menos inútil, que lhe rendia uns trocados. Explicou que não dava peixe, ensinava a pescar, mas que, no nosso caso, dois pobres estudantes, ele seria um tanto quanto paternalista. Quando foi nos levar até a casa, meu pai chegou a se perder nas ruas caóticas da vila longínqua; quando localizou a rua, negou-se a adentrá-la com seu importado de pneus largos, por causa dos desníveis provocados pela erosão. Subimos uma ladeira sem fim, com as malas na mão, e chegamos tão exaustos à casinha que nem sexo fizemos naquele final de tarde.

A casinha: um ninho, verdadeiramente, mas para pequenos pássaros. Uma sala, um quarto, uma cozinha e um pobre banheiro onde não cabiam dois. Para compensar, um quintal amplo, com mangueiras, abacateiros e até um pé de carambola.

Ainda estávamos nos refazendo da subida, eu já havia bebido dois copos de água, quando bateram palmas no portão. Assustado, fui atender.

“Boa-tarde”, disse uma das cinco senhoras sorridentes, de bochechas rosadas de quem toma muito sol, “então são vocês os pombinhos?”

“Pombinhos? Sim, acho que sim”, eu gaguejei. E neste momento Taciana chegou e se postou às minhas costas, para o encantamento das mulheres.

“Olha, Georgina, que lindinha”, derreteu-se uma delas, chamando a atenção de outra.

“Que parzinho maravilhoso”, disse a outra. “Você é uma cinderela, menina…”

Vieram depois com bolos, tortas e frutas de quintal. Agradecemos, constrangidos, sorrisos amarelos. Em pouco tempo, havia crianças batendo palmas no portão só para nos ver de soslaio. Quando atendíamos, saíam correndo. As mulheres passavam, e riam. Um senhor muito alto e sério nos procurou e se apresentou como o doutor Ximenes, clínico geral. À nossa disposição, inclusive para testes de gravidez.

O assédio nos tirou um pouco da motivação e passamos a fazer sexo apenas três vezes por noite. Já às sete e meia da manhã, era dona Durvalina que trazia chás para quaisquer distúrbios, inclusive emocionais; Cleonides (“eu sou a primeira moradora da rua”) vinha, duas vezes por dia, repassar à Taciana seus conhecimentos de corte e costura, imprescindíveis a uma jovem esposa. Ardruíno, o aposentado, pediu desculpas pela intromissão e veio me perguntar por que eu não trabalhava. “Estou de férias, sou estudante ainda”, respondi, chateado. “E quem lhe sustenta, moleque?” “Meu pai…” “Seu pai? Humm…”

Mas a gota d’água foi dona Irvina com um pacotinho para presente, em tons rosa e azul.

“Sei que ainda é cedo, mas é melhor prevenir do que remediar”, disse, rindo gostosamente, balançando o ventre imenso.

Taciana abriu o pacote, trêmula, e encontrou sapatinhos de recém-nascido. Dois pares. Um azul e um rosa.

“Agora chega, Taci!”, eu me rebelei. “Precisamos afastar esses encostos…”

Passamos a noite a bolar um plano perfeito e, por isso, só fizemos sexo uma vez. Chegamos a desenhá-lo num papel, imaginando ações e reações. Medimos, inclusive, as consequências. E decidimos ir até o fim.

Dia seguinte, saí de casa debaixo de dezenas de olhares obsequiosos, e voltei uma hora depois, trazendo escondido dois dos objetos fundamentais à nossa ação criminosa: uma galinha viva e um longo facão de cozinha. Matamos a galinha com cuidado, extraindo todo o sangue que imediatamente misturamos ao vinagre, para não coagular. Taciana pôs seu único vestido branco, de inverno, com mangas longas. Mas logo o tirou: ficou tão linda que não foi possível postergar nossos desejos. Aí fizemos amor ali mesmo, de pé e com alguma pressa, porque acertamos o meio-dia como a hora ideal da ação. Não haveria homem algum na rua, apenas as alcoviteiras e as crianças. Até o aposentado Ardruíno teria se recolhido para a sesta.

Joguei o sangue sobre a minha mulher. Escorrendo pelo rosto, no cabelo, à altura dos seios. Ela tentava conter o riso, que vinha natural, despregado.

“Pelo amor de Deus, Taciana, você tem de fazer cara de pavor…”

“É difícil, estou feliz.”

“Imagina qualquer coisa ruim. Que um trem passou por cima de mim.”

“Cruz credo, João Sérgio, que desgraça!”

“Assim está ótimo, esta cara está ótima!”

Ao meio-dia e dez minutos a noiva branca, se esvaindo em sangue, apareceu na frente da casa aos gritos. Eu atrás, com o facão ensanguentado.

“Você vai morrer, sua puta!”

“Aiiiiii… aiiiiii, me socorram, aiiiii!!!”

Cambaleante, agonizante, ela ainda se dirigiu à lateral direita da casa. Na rua, as mulheres passaram a gritar como carpideiras, procurando esconder a cena horrível das crianças. Elas corriam de um lado para outro, sem rumo. Adolescentes passavam mal e vomitavam. Dona Georgina estacionou no meio da rua, começou a dar saltos e a arrancar os cabelos, berrando:

“A noiva se esvai em sangue! A noiva se esvai!”

De repente, alguém gritou mais alto: “polícia! polícia!”

Foi a senha para que nos recolhêssemos às pressas. Taciana entrou no banheiro para livrar-se de toda a sujeira enquanto eu jogava a roupa, o facão e os restos da galinha num grande buraco no quintal, aberto cuidadosamente de madrugada.

Dali a pouco chegaria a polícia, abriria a porta a pontapés e nos surpreenderia juntos, abraçados (e, depois, indignados), como dois jovens inocentes que tiveram sua lua-de-mel criminosamente interrompida pela calúnia de um bando de mulheres sádicas e suburbanas.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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