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Archive for setembro \29\UTC 2010

 

O menino gordo e sua mãe começaram a subir a ponte Duarte Coelho, debaixo de um sol assassino, ao meio-dia de domingo. Voltavam da última sessão da manhã, só de desenhos animados, no Cine São Luiz.

A mãe do menino gordo era magra e baixinha; já a criança puxara ao pai. Afrânio Júnior, o garoto, estava com dez anos; parecia bem mais velho. Usava calças curtas, exclusivas para as ocasiões sociais, como o cinema no centro da cidade, porque as coxas roçavam uma na outra e ele ficava todo assado.

Afrânio, ou Franinho, com preferiam chamá-lo em família, não podia ficar muito tempo sem pôr alguma coisa na boca. Sentia-se muito fraco e suava frio. Costumava beber um litro de refrigerante, de três ou quatro entornadas. O médico já o proibira disso e de outros exageros, mas dona Angelina, a mãe, tinha pena do garoto e fazia vista grossa. Costumava perguntar, a si mesma e aos outros: “Por que Deus o fez redondo?”

Deixá-lo devorar guloseimas e ingerir litros de refrigerante, quase sem controle, era uma forma, também, de compensá-lo pelo problema do pai. Afrânio, o adulto, obeso como o filho, era, além de gordo, alcoólatra. E o pior: só gostava de cerveja, deformando, ainda mais, o seu físico, fazendo-o idêntico a um barril.

Antes de chegar à metade da ponte, que era bastante inclinada, dona Angelina percebeu que o filho, em geral extremamente calorento, de encharcar a roupa como se estivesse molhado de chuva, começava a suar frio. Perguntou se ele estava sentindo alguma coisa, mas o moleque não respondeu. Seu passo diminuiu e a mão esquerda, que se agarrava à da mãe com um certo desespero, ficou mais pesada.

“Só mais um pouquinho que a gente já chega à sorveteria”, disse dona Angelina, procurando estimulá-lo, mas, quando olhou para ele pela segunda vez, viu que o garoto ficara branco de cera e revirava os olhos. Logo desabou, desacordado, arrastando a mãe até o chão.

Cinco populares, todos homens, dos poucos que enfrentavam o sol e o calor, àquela hora do dia, tentaram ajudá-la, primeiro puxando-a de baixo do corpanzil do filho; depois, tentando pôr o garoto sentado, para abanar-lhe o rosto, dar-lhe uns tapas nas bochechas, fazê-lo voltar a si. A mãe conseguiu se desvencilhar do peso do filho, suspensa pelos braços mais ou menos fortes de um dos homens, mas fazer o gorducho sentar-se foi bem mais difícil. Sem cor e inconsciente, o menino gordo parecia morto. Dona Angelina, com uma dor aguda no braço, que se machucara na queda, desesperou-se.

“O que é que eu faço de mim”, ela perguntou aos populares, “quando Afrânio souber que o menino morreu na rua, enquanto eu tomava conta dele?”

Cutucou agressivamente um dos rapazes, dando-lhe uns tapas nos ombros. “Hem? O que é que digo? Hem?”, ela inquiria.

Como o rapaz não reagisse, o tapa virou empurrão, e dona Angelina gritou, histérica: “Responde, rapaz, responde!” Ao que ele lhe perguntou, assustado: “Quem é Afrânio, dona?”

A pergunta a fez voltar à realidade, e dona Angelina, ainda chorando, respondeu a si mesma, em voz alta: “Se Afrânio soubesse quem é, de fato, a gente não estaria nesta situação… um menino doente, eu abandonada, ele à procura de uma identidade…”

Nesta hora, sem que ninguém pudesse explicar de onde havia surgido, um homem moreno, de cabelo curto, apareceu com uma cuia cheia de água que jogou incontinenti no rosto do menino gordo desabado no chão.

O garoto deu um suspiro de quem está se afogando, voltou a si, e, em pouco tempo, conseguiu sentar-se com a ajuda do pessoal.

“Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Você é tão bom, Senhor Deus, tão bom!”, gritou dona Angelina, acocorando-se para olhar o filho de perto. E, como se achasse um absurdo alguém chamar Deus de você, o pessoal saiu rápido dali. Só ficou o moreno com a cuia vazia na mão.

“Pode deixar, dona, que ele volta… Acho que é fome.”

“Não tenha dúvida. E sede também.”

O moreno se chamava Geodésio, era enfermeiro de profissão. Tinha uma força descomunal e conseguiu, além de levantar o menino gordo, segurá-lo para que não caísse novamente. Agora, lá iam os três andando, bem devagar, em direção ao final da ponte. Geodésio amparava o garoto pelos ombros, e dona Angelina, ao lado, massageava o próprio braço machucado.

“Vamos até a sorveteria”, ela disse, “o Franinho precisa comer alguma coisa.”

Ali começou o romance. O moreno a elogiou, no final da taça de sorvete: “A senhora tem uma pele tão branca que mais parece um lírio do campo”.

“Mas é tão branca assim? Então estou morta…”

Despediram-se, mas no dia seguinte ele ligou para ela em casa.

“Você é louco. Tenho marido.”

“Só queria saber do gordão.”

“Mais respeito. Do gordinho. Ele só tem dez anos.”

Um dia, ela saiu sozinha para comprar sianinhas, o moreno surgiu às suas costas, dizendo: “Se é branquinha assim, onde toma sol, imagine no lugar onde não toma”.

O estalo da bofetada foi ouvido a um quarteirão de distância (certamente pelo eco do beco estreito por onde ela passava) e o moreno se apaixonou de vez. “Uma mulher que se fazia respeitar, uma mulher séria”, ele lhe diria depois, sobre a imagem que construiu dela naquele dia do eco.

No encontro seguinte, naturalmente casual, quando o moreno apareceu de repente, Franinho estava junto, e ela, por algum motivo inconfessável, mostrava-se espiritualmente debilitada. Talvez, quem sabe, por causa de uma discussão que tivera com o obeso mais velho, pela manhã, quando ele estilhaçou uma compoteira, herança da família dela, contra a parede. Quando ocorriam essas brigas, que não eram raras, o menino gordo devorava o que via na sua frente.

Geodésio ficou impressionado com o aumento de peso do garoto, desde a última vez que o vira, um mês atrás. Franinho negou-se a cumprimentar o enfermeiro, e isso acendeu a desconfiança na mãe.

“Não me procure mais, homem”, disse Angelina, cochichando, ao apaixonado moreno. “Eu já não sou dona de mim mesma.”

No dia seguinte, ela acordou muito tarde, escovou os dentes e apareceu de robe na mesa de café. Os dois gordos, pai e filho, sentaram-se à mesa, também, mas já haviam devorado frutas, pães, bolos e carás, além de dois litros de café e leite. Afrânio, o adulto, parecia estranhamente sóbrio.

“Queremos falar com você, Angelina.”

“Como, queremos?”, ela respondeu, distraída, mordendo sem prazer uma torrada de glúten. “Vocês agora falam comigo em grupo?”

“Nós não queremos mais você, mãe”, disse o menino gordo, muito sério.

“Você nos traiu com um homem chamado Geodésio, um auxiliar de enfermagem, e ainda expôs o nosso Franinho nessa aventura louca”, completou Afrânio pai, sério como um abstêmio.

Angelina permaneceu imóvel, como uma imagem congelada, com um pedaço de torrada na boca, durante muito tempo. Ia gritar, “mas que loucura é essa de vocês?”, quando a inacreditável semelhança entre pai e filho, que os fazia parecer uma só matéria, harmônica, de carnes untuosas, lhe tirou todo o ânimo. Eles se mexiam, na mesa, como geleias marinhas, trêmulas e opalescentes. Eram, os dois, uma força inelutável, indestrutível. Impossível enfrentá-los, contestá-los, dissuadi-los. Ela se conscientizou de que não teria forças sequer para imaginar alguma saída.

Então se levantou, encaminhou-se até o quarto, pôs uma roupa de briga, de calças jeans e camiseta, e começou a arrumar as malas, sem pronunciar uma palavra. Na sua mente, formou-se uma esperança muito nítida, um resgate ou uma vingança: ela sairia daquela casa para uma nova vida, com ou sem Geodésio; aí voltaria a se casar, com quem fosse, e teria mais um filho, mais um, pelo menos, mas este teria de ser lépido e esguio. Nem precisava amá-la ou respeitá-la. Ela só o queria ver, contemplar, saciar aquela imensa fome estética.

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007

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A mulher bem-vestida, quase bonita, de cabelos tratados e sapatos altos, irrompeu na calçada, parecendo perdida, andando de um lado para outro e olhando para cima, de vez em quando, para um prédio antigo que já fora chique, como se esperasse que alguém surgisse numa das janelas, às três da manhã.

Tudo sempre foi muito elegante nesta Rua das Amoreiras, meus avós diziam. Eles próprios frequentavam o Clube dos Chorões, num velho casarão mais acima, à altura do número dez. O clube fora local de reuniões concorridas de um grupo de músicos amadores, amantes daquele gênero musical que parecia definir um passado menos tenso e sofrido.

Hoje, na Rua das Amoreiras, há somente prédios decadentes, onde uma classe média empobrecida prepara sua volta a outras bairros; um casarão antigo, muito parecido com o do Clube dos Chorões, fora tombado pelo Patrimônio Histórico, mas a preservação oficial do prédio do clube, por causa de uma reforma no começo do século, que de certa forma o descaracterizou, sofre oposição de alguns conselheiros culturais, que preferem vê-lo demolido ou transformado num reles estacionamento.

Eu amo minha cidade. Talvez seja meu único amor, de fato, já que minhas três namoradas me abandonaram quando eu imaginava eternos os nossos relacionamentos. Jamais entendi o que aconteceu comigo, conosco. Tenho emprego garantido, modesto mas garantido, sou um sujeito fiel, bebo pouco, não fumo. Meus defeitos são gostar de ler e não ter ambições de espécie alguma.

Mas lá estou eu, de novo, ruminando minhas esquisitices, enquanto uma mulher bem vestida passeia pela calçada da Rua das Amoreiras numa hora em que só os mal-intencionados, os viciosos e os solitários estão a postos, tramando suas ilusões. Eu, aqui no bar, penúltimo cliente, talvez seja o único que não planeje nada, apenas me preocupo com a segurança da moça.

Ela insiste em olhar para o prédio pretensioso, mas apressou o passo: vai e volta, de um lado para outro, está mais nervosa, agora. À medida que a madrugada avança, o eco dos seus saltos contra o chão vai se tornando mais perceptível, mais nostálgico.

Acho até que conheço alguém naquele prédio: sim, a Regina Eulália, com quem saí duas vezes, anos atrás; ela tinha um problema qualquer com o pai, só falava dele, e mais ainda depois do quinto chope. Foi uma das poucas companhias que abandonei. Não é possível namorar duas pessoas ao mesmo tempo, mesmo que uma se disfarce de memória, além de ser homem. Regina Eulália possuía uma boa condição e me falava bem do prédio, apartamentos amplos, pé-direito muito alto e um síndico general reformado que, se não me engano, fora secretário de Segurança no tempo da ditadura e impunha respeito a todo mundo.

Mas, voltando à solitária da rua: quem seria o sujeito que, provavelmente, expulsara de casa aquela moça tão jeitosa, tão quase bonita, e de bom gosto nas roupas? Talvez eu pudesse ir até lá e oferecer meu ombro. Convidá-la para me acompanhar aqui no bar não seria o caso: já está fechando e Josué, o dono, assusta as mulheres com seus palavrões, a camiseta regata e a barba sempre por fazer, é incrível! Nunca consegui vê-lo com um rosto normal.

Agora ela parou, olhando para cima. Quantos anos terá? Trinta e dois? Vinte e nove? Teria um filho, que ganhou aos dezesseis anos, de um amor adolescente? Já foi assaltada? Estuprada? Alguém já provocou o estalo de uma bofetada no seu rosto?

Fico pensando: a esta hora, um grupo de loucos pode passar de carro, parar, agarrá-la e levá-la junto. E eu, ou o bêbado que quer ganhar na loteria, aqui perto de mim, ou mesmo o Josué, lá no fundo do bar, cochilando, que poderemos fazer diante da violência? Nada. Assistir a mais um crime na cidade e depois fugir da polícia, para não virar testemunha e ficar marcado pelos marginais.

Assim, é melhor que eu vá até lá e avise a moça dos riscos que ela corre. Que pode acontecer? Nós… conversarmos? Bem, talvez ela chore, olhando para mim, sem dizer uma palavra, mas eu sei o que é a dor de um relacionamento interrompido. Sou mestre nisso. E eu lhe direi “querida, fique calma, não diga nada agora; se quiser, posso levá-la pra casa de táxi; você tem pra onde ir, não tem?; porque, se não tiver, eu me escondo aqui pertinho e posso compartilhar meu espaço com você. Aliás, este tem sido o meu sonho: compartilhar. Até agora não foi possível.”

Ou talvez ela não diga nada e me mande para algum lugar. Improvável. As roupas, o jeito… Espera aí: as luzes da portaria do ex-prédio chique se acenderam; ou o vigia acordou ou é alguém que vai trabalhar cedo, pegar um avião, talvez. A nossa amiga parou de se agitar, pela primeira vez, e ficou bem em frente ao portão. Vem alguém. É… é Regina Eulália! De robe vermelho, cabelos soltos. A outra aqui, do lado de fora, se agarra às grades. Regina Eulália vai-se chegando, estou ouvindo alguma coisa que vem de lá… sim, choro, choro de mulher. Regina Eulália abre o portão e as duas se abraçam, chorando alto, sem vergonha da rua, da gente aqui quase em frente, e se beijam com uma paixão que eu não vejo nem em vídeo, há muito tempo.

Pronto, está resolvido. A moça bonita já voltou para o apartamento da amiga e não corre mais riscos. De um tempo para cá achei que a beleza do amor supera todo e qualquer limite, embora eu não possa me imaginar compartilhando com um homem o meu tempo de espera nesta vida. Mas me preocupa um pouco aquela mania de Regina Eulália falar do pai. Será que foi por isso que elas brigaram? Um triângulo amoroso com uma ponta virtual é coisa difícil de administrar. Eu não consegui.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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O caminhão rodava enlouquecido pela estrada de terra. De um lado e de outro, somente cana, cana verde, cortada, queimada. Estranho que não se vissem boias-frias por ali.

João Feitosa, o motorista, pequeno, entroncado, de barba negra e crespa, tinha a sensação de que a máquina adquirira vida própria e chegaria sozinha a Barra do Santo Ofício, um lugar miserável, sessenta quilômetros adiante. O sol se recolhia muito cedo naquela região, e o homem já ouvia o piar agourento dos ferrabrases, que soava como se eles fossem pequeninos sinos de igreja. Negros e ágeis, os soturnos pássaros cruzavam com freqüência a frente do veículo – um jogo perigoso, quase suicida. Mas nenhum deles jamais se esborrachou no pára-brisa.

O homem lembrou-se de seu primo Misael, que teve os olhos comidos pelos ferrabrases, nem um ano fazia, ao desafiá-los na hora sagrada do crepúsculo: “Venham me pegar aqui, seus miseráveis, mas não fiquem tocando esse sino na minha cabeça!”.

Os pássaros atacaram em bando e fizeram do rosto de Misael uma placa de sangue. Misael urrava no chão, coberto de bicos e de penas negras, vivas, endemoniadas. (Quando lhe sararam as feridas, já de bengala, Misael dissera que seus gritos não tinham nada a ver com dor física; eram de desespero, de lembrar-se das paisagens que vira, das mulheres que desnudara com olhos de desejo, da ilusão provocada por certos caminhos na caatinga que pareciam findar em abismos celestes.)

João Feitosa tentava tirar da mente a cena monstruosa, que ele testemunhara junto a seu Pousada e a Margarida Matão, gente de Santo Ofício que andava por ali de visita.

“Castigo do Senhor”, disseram os vizinhos, os Andrades, uns dos poucos dali que não cultivavam a erva proibida.

O pai de João Feitosa, Zeca, também não caíra na tentação de plantar a erva. Isso só os pecadores faziam. Zeca Feitosa já advertira, inclusive ao filho, que os Anjos poderiam perseguir, com suas espadas brilhantes, todos aqueles que insistissem com as roças.

Mas ali não havia escolha: era a erva ou a miséria. Os Andrades, coitados, não pecavam, mas viviam de favores do governo e dos vizinhos, as meninas da família vendendo os corpos a partir dos doze anos, na beira das estradas.

“Nem sempre a lei do Senhor coincide com a lei dos homens”, sentenciava Zeca Feitosa, para quem havia sempre uma chance de o Senhor perdoar os maus, até os reincidentes. Até os plantadores da erva.

Mas um pecado puxava o outro. Quem plantava, acabava também por consumir. Misael começara mascando as pequeninas folhas verdes, que lhe tiravam a fome, e lhe provocavam um barulhinho na cabeça. Depois, tomou o chá grosso; mais adiante, comeu a pasta feita das folhas maceradas, a forma mais poderosa, e começou a sonhar antes de dormir. No começo, sonhava apenas com mulheres. Depois o mundo todo virou um sonho.

A partir daí surgiram as imagens sem dono, como São João do Carneirinho, no meio do curral, e os mortos da família, junto a outros mortos desconhecidos.

O mundo de Misael dobrou; se encheu de gente nova e de palavras que lhe saíam da boca sem que ele pensasse nelas. Até que aconteceu o episódio dos ferrabrases. João Feitosa viu os pássaros, o sangue, a cena inteira. Seu Pousada e Margarida Matão estavam lá, também, mas negaram o que João viu. É claro: desde que começara a beber o chá grosso, João Feitosa passou também a conhecer os outros mundos.

“Misael caiu no chão, doido, e furou os olhos com os dedos”, insistia seu Pousada.

“Nunca vi diabo pior do que aquele que tomou o corpo de Misael”, completava Margarida Matão. “Talvez porque Misael seja nome de Anjo de Deus”.

Essas cenas ficavam se repetindo na cabeça de João, enquanto o caminhão saltava, em alta velocidade, dirigido por um demônio qualquer, talvez ele mesmo, quem saberia dizer? Mas ele nem dirigia… não precisava tocar no volante. Podia fazer de tudo, ali sentado no lugar do motorista: deitar no banco inteiriço; abrir a porta e provocar os ferrabrases, que continuavam a voar sobre o veículo; ou gritar pelos boias-frias que se haviam escondido no meio da cana. Podia fazer de tudo: o caminhão continuaria voando na estradinha do canavial, animado por alguma força inumana.

“Eta mundo”, pensou João Feitosa, coçando a barba muito crespa, muito preta. “Quando aparece coisa boa, como essa plantinha bendita, aparece demais da conta. Ou não se goza nada na vida, só se passa fome, se pede esmola e se endoidece de dor, ou, pelo contrário, os sonhos bons exageram e tomam conta da gente… Não tem escolha.”

O caminhão entrou, sem reduzir a velocidade, na única curva que surgiu na estrada. Daquele jeito, João Feitosa iria chegar a Santo Ofício muito cedo, antes de escurecer. Ele já planejara sua noite de delícias: comeria as dez putas da zona, uma a uma, enfileiradas diante da sua cama. Depois, poderia até morrer, que não faria a menor diferença.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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“Pois é, Cristina, esta é a nossa proposta: você se casará com o deputado daqui a três meses. Receberá, no ato, um milhão de dólares, depositados na Europa, e uma promissória de duzentos mil, a cada ano de casamento, tudo isso sem contar o ordenado mensal, que é da ordem de trinta mil dólares, com aumento de dez por cento ao ano, mais inflação. O deputado acredita que você poderia suportar a situação, sem dor, durante uns sete anos. Ele também gostaria que, na impossibilidade do casal ter filhos (por causa de um problema seu, é claro), no terceiro ano de contrato vocês poderiam adotar uma criança da favela, de preferência negra. Depois de sete anos, no entanto, você estaria livre, com uma pensão milionária de no mínimo trezentos mil dólares anuais…”

“Eu já fiz um aborto, Adroaldo.”

“E daí? Diga quem é o médico, eu dou um jeito.”

“Você compra todo mundo, é?”

“Tenho o dom de convencer pessoas.”

“Não é você que transa com o deputado? Ou é o outro assessor, o Goulart?”

“É o Goulart. Essa não é minha praia. Gosto de mulher. Se não fosse pela circunstância, dava em cima de você. Você é maravilhosa, nunca deu bandeira, bem posicionada na sociedade, vive na mídia, é modelo, já foi lembrada para dirigir programa de tevê, é simpática e humana.”

“Apesar de tudo isso, não mereço um casamento decente.”

“Certas palavras a gente não usa, Cristina. Decente é uma delas.”

“Tem razão. Mas eu estou chocada com a riqueza do deputado. Você sabe, eu não vou negociar sozinha. Tenho advogado.”

“Tudo bem. Mas eu só trato com ele sob sigilo.”

“Se alguém pisar na bola, vocês matam mesmo, não? Preocupo-me pelo advogado, não por mim, eu sempre fui discreta.”

“Não. Ninguém mata ninguém. Outra expressão que não se deve usar. Tem coisa pior que a morte, Cristina. Você já pensou se uma daquelas revistas de tevê revelasse toda a sua vida? O tempo da faculdade? As festinhas na zona sul? Em nenhum momento o deputado se preocupou com a possibilidade de você vir a escrever um livro sobre ‘Um amor de mentira’, digamos assim. Bom título este, não?”

“Eu me mataria se falassem de mim.”

“Está vendo? Ninguém precisa matar ninguém. Seguinte, Cristina: não vou poder esperar muito tempo. O deputado já está com trinta e cinco anos, se passar solteiro dessa marca vai amarrar uma fama de viado, logo, logo.”

“Como é que ele consegue disfarçar tão bem, Adroaldo? Ele é um macho perfeito. Peito peludo, atlético, comendo todo mundo segundo as revistas.”

“Essa imagem custa muito dinheiro. Em compensação, ele é sempre o mais votado do seu estado.”

“O Brasil não conta mesmo, não é?”

“Cristina, você tem umas coisas tão antigas… Olha, não vou falar mal do Brasil, mas o que é que o Brasil tem a ver com isso? Você sabe quantas vidas duplas existem em Brasília? Quantas autoridades, algumas pelas quais você poria sua mãozinha no fogo, têm contas correntes bem gordinhas em paraísos fiscais? A maioria delas fala em corrupção, e defende o Brasil com unhas e dentes. Você vive nesse mundo da badalação. Deveria estar cansada de saber disso. Então eu não estou entendendo você.”

“Só ouço boatos.”

“Os boatos não chegam nem aos pés da realidade.”

“É gente de todo tipo mesmo? Jornalistas também?”

“Jornalistas são uns babacas. Ninguém precisa se incomodar com eles.”

“Mas quando eles pegam…”

“Só pegam quem não fica esperto. Lembra aquele presidente? O pessoal da quadrilha dele só faltou se denunciar. Amadorismo. Irresponsabilidade. Impulso de autodestruição. Aí os jornalistas pegaram.”

“Não vai acontecer comigo, vai?”

“Claro que não. Aos poucos, quando você for conhecendo melhor os colegas do deputado, e os amigos, e os apoiadores, você saberá quem vive situações parecidas com a sua. E você jamais comentará o fato com ninguém. Quando você aprender que a verdade só pode acontecer dentro de nós mesmos, você enganará até seu espelho. Conheço gente que se convenceu de que é, realmente, o personagem que encarna.”

“Triste, não?”

“É a life. Mas você está com umas recaídas esquisitas. Olha que eu tiro a proposta.”

“Poderia ter, eu também, uma vida secreta?”

“Se eu disser que não, seria um idiota. Ninguém aguenta. Mas você será tão discreta que chamará até seu amante pelo nome do deputado.”

“Você me dá quanto tempo para tomar uma decisão?”

“Primeiro quero conhecer seu advogado. Depois de aprová-lo, se aprovar, você terá uma semana. Faça suas contas. Pense. Sua alternativa é trabalhar feito uma mula, dar pra todo mundo, até conseguir uma fortunazinha de merda. Provavelmente na tevê. Você é linda, mas não tem talento. Então, se não vier o ibope, tchau. Pra modelo mesmo, da moda, você não tem mais idade. Pense bem. Aqui no Brasil, nenhum executivo de multinacional, mesmo com o que possa levar por fora, ganha isso que você vai ganhar. E você só precisa ser discreta. A discrição é o seu dote.”

“Preciso pensar. Tenho uma mãe doente. Preciso cuidar dela.”

“Tá bom. Simpática, sua mãe. Ela sim, vivia num outro mundo, inocente, crédulo, santinho.”

“É o que você pensa: traiu o meu pai durante vinte anos.”

“Então você tem a quem puxar. É atávico.”

“O que é atávico?”

“Nada. É como aids. A mãe passa de um pra outro.”

“Credo, Adroaldo. Fala assim, não! Meu pai bebia, batia na gente. Minha mãe precisava de um ombro, de um amigo.”

“Tá bom. Não falo mais. Mas se você aceitar a proposta, vai precisar ter muito cuidado com esse ombro. Não é qualquer um que terá o direito de chifrar a bichona. Terá de ser um cara discreto, discretíssimo, confiável. Como eu.”

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007

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Seu Beato gostava de ver aquele sorriso de simetria perfeita, dentes enormes, sob o bigode negro e grosso. O sorriso vinha de um homem muito jovem, chegando pelo lado oposto, sem pressa.

“Muito bem, Zé Tião”, disse seu Beato, carregando a bíblia na mão direita e protegendo-a contra o peito. “Com um sorriso desse tamanho, parece que hoje vai ter muita alegria pra tu!”

Os dois se moviam no cenário estropiado da Favela do Luque, uma das maiores da cidade. Cruzavam-se num beco imundo, onde mal cabiam os dois.

“A alegria”, disse o homem sorridente dos bigodes grossos, “é só porque eu gosto de provocar os cachorros”.

“Não…”, disse seu Beato, muito sério de repente, estacando, “tu não vai fazer o que eu tô pensando”…

“Vou sim, seu Beato!”. O sorriso perdeu um pouco o brilho, mas não se apagou. “Queria garantir pro senhor que é só desapropriação. Não vai ter violência. Reze pro trabalho dar certo, seu Zé!”

Seu Beato, que já passara dos sessenta, parou o rapaz, segurando-o pelo braço, e assumiu um ar paternal.

“Meu filho, como pode garantir que não vai haver violência num assalto à mão armada? A danação pode vir de todo lado, pode ser da polícia contra você, ou, se a vítima estiver armada, pode estourar tua cabeça. Depois, toda fuga é perigosa, você pode se matar sozinho, até jogando o carro contra um poste. Eu já fui bandido, Zé Tião, eu sei!”

O sorriso do homem mais jovem foi-se apagando. Retirou com delicadeza a mão de seu Beato, que apertava seu braço com força, e segurou-o pelos ombros, com um carinho de filho.

“Sei que o senhor só quer o meu bem, seu Beato, mas meu parceiro na empreitada é o Rafa. Ele é artista, seu Beato. Tá estudando o caso há mais de um mês.”

“Deus seja louvado, Zé Tião! Rafa é um demônio aqui na Terra! Já disse que ele vai ser sua perdição, meu filho”…

“Não, não, seu Beato, Rafa é meu amigo e eu seguro a ruindade dele. O senhor não precisa se preocupar.”

O velho se desvencilhou do rapaz e seguiu em frente, andando mais rápido, a testa franzida, como quem não quer saber mais de conversa. Zé Tião correu atrás.

“Me entende, seu Beato, me entende: não posso fazer esse serviço junto de um parceiro sem experiência!”

“A vida é tua, Zé, e quem resolve é tu. Eu já cansei de lhe dar conselhos.”

Seu Beato apressou ainda mais o passo, além das possibilidades da sua idade e reumatismo, e Zé Tião desistiu. Aí começou a procurar o que lhe trouxera até aquele pedaço de favela, de becos tortos e estreitos: cadelas no cio.

Ele sempre levava, para os assaltos, em geral a sítios e mansões, uns paninhos encharcados de sangue das cadelas. Aprendera, ao longo de dez anos de crimes, que isso anulava os cães de guarda. Extasiados com o odor paradisíaco, os bichos sequer latiam. A coisa só complicava um pouco quando os cães de guarda eram, justamente, cadelas. Mas isso era raro.

Uma hora antes do encontro marcado com Rafa, na entrada de uma das BRs mais movimentadas do Estado, Zé Tião preparou-se para roubar um automóvel. Procurava algum estacionado, sem ninguém por perto. Não gostava de assaltar. Escolhia uma marca popular, um carro discreto, para não chamar a atenção das rondas da polícia militar.

Encontrou um, de cara, numa rua deserta. Procurou o alarme: não tinha. Abriu-o com extrema facilidade: bastou araminho com um gancho na ponta, entrando por um vão do vidro da porta; puxou a trava. Foi tão fácil que teve de fazer hora, tomando café num bar ali perto. Também não gostava de permanecer muito tempo com carro roubado, apesar da certeza de que o dono daquele ali dormia tranquilo em casa. Mas, se alguém desse o sinal… Aí resolveu efetuar uma segunda operação, afinal tinha tempo de sobra: furtou uma placa, de um outro veículo, e trocou-a pela do primeiro. Melhor assim.

Sentiu-se mais seguro e saiu devagar para o encontro marcado, dirigindo cuidadoso como se o carro fosse seu. Rafa não se acertava com furto de carros, não tinha nervos para isso. Era melhor de campana, exímio observador das vítimas e seus costumes. Dessa vez, escolhera um sítio próspero, onde vivia um avô com a neta adolescente. De guarda, somente um pastor alemão e um vira-lata. A casa, certamente, guardava dólares e joias, e o automóvel do velho, um modelo importado muito caro, renderia um bom dinheiro no desmanche de Evandro Roxo.

Zé Tião chegou e não gostou do jeito do Rafa, que ria muito e pra si mesmo.

“Amigo”, perguntou Zé Tião, ensaiando seu sorriso largo, “você andou se turbinando”?

“Que é que você acha, Zé?”

“Que se turbinou.”

“Então tá: me turbinei.”

Zé Tião suspirou fundo.

“Olha, amigo, eu vou lhe dizer uma coisa muito séria: você não vai atirar em ninguém, não vai barbarizar, nem cheirar, nem fumar.”

“Se não, acontece o quê?”

“Eu apago você.”

“Nunca te vi assim, Zé Tião. O que é isso?”

“Promessa. Que eu me fiz a um amigo. E não vou falar mais nada.”

Rafa parou de rir e os dois seguiram para o sítio. Rodaram horas na BR. Chegaram por volta das três da manhã. Zé Tião desceu do carro com os panos do cio na mão.

“O Pastor Alemão, você me disse, é macho. O vira-lata também é?”, perguntou Zé Tião.

“Isso não sei. Não me lembro de ter visto tetas no bicho. Deve ser.”

Zé Tião agitou os panos, tentando impregnar o ar com o odor. Os cachorros não latiram. Os dois homens, duas sombras, foram se aproximando sorrateiramente. Só se ouviam os sapos. O portão principal do terreno, de madeira grossa de lei, tinha mais de dois metros de altura. Dentro, luzes em profusão, spots imensos por todo lado. Haveria segurança eletrônica, com certeza.

Zé Tião também era um especialista em arrombamento sutil. Com seus fios elétricos e algumas ferramentas mínimas, conseguiu abrir a tranca do grande portão. Tão novo que a madeira emanava um cheiro bom. Os cães continuaram mudos. Os panos, que haviam sido apenas agitados contra o ar, funcionavam mesmo.

Zé Tião abriu apenas uns centímetros de portão e viu os dois cães a poucos metros, olhando para os lados, mas tranquilos. O Pastor Alemão pendia a língua, ofegante. A luz forte mostrava sua exuberância: todo cinza, com uma capa negra sobre o dorso. Lindo. O outro, provavelmente filho bastardo do Pastor, era amarelado e desprezível.

Zé Tião atirou os panos para um lado do terreno, a uns vinte metros da entrada, e os cães seguiram, vagarosamente, em direção à isca. O caminho estava aberto.

“Zé”, disse baixinho o Rafa, voltando a rir, “quando você vir a neta do velho, vai esquecer daquela história de me matar por causa de merda. Eu deixo você comer primeiro.”

Bem que seu Beato tentou evitar o homem do sorriso grande. Viu que era ele, aí virou o rosto e apressou o passo. Já estava uns metros adiante quando Zé Tião, dessa vez usando certa força, segurou-o firme pelos ombros, imobilizando-o. Quase um abraço.

“Não quero falar com você…”, resmungou seu Beato.

“Acho que vai querer, sim. Não fala mais com quem segue seus conselhos?”

Zé Tião relaxou o abraço e seu Beato se desvencilhou, mas não conseguiu, uma vez mais, resistir ao sorriso do rapaz, hoje mais luminoso do que nunca.

“Que é que tu fez, Zé?”

“Resolvi pra sempre o problema do Rafa.”

“Tu?”

“Isso.”

“E o revertério? O pai dele, aqueles irmãos bandidos, os amigos…”

“Todo mundo está dando graças a Deus que ele se foi. Nem eu consegui segurar a ruindade dele…”

Seu Beato fez uma oração silenciosa pela alma danada do bandido, mesmo certo de que o inferno seria pouco para ele. E começou a se preparar, mentalmente, para convencer o amigo a mudar de ramo. Com aquela inteligência e simpatia, e aquela proteção tão forte, bem que Zé Tião poderia se transformar num estelionatário competente, desses que nem chegam perto de armas de fogo. O mercado de carteiras de identidade, cartões de crédito, passaportes, holerites, atestados de residência, todos falsos, crescia cada vez mais no Brasil. Com sua habilidade, Zé Tião, quem sabe, poderia até imprimir dólares, que são fáceis de repassar.

O pastor abandonara aquele mundo informal, mas o conhecia como poucos. Zé Tião era um caso especialíssimo que seria assistido – seu Beato não tinha a menor dúvida – pelo próprio Jesus.
Do livro “Memórias Embriagadas” – Editora Noovha América, São Paulo, 2008.

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