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Archive for outubro \31\UTC 2010

Aos trinta anos, João engordou muito e Rosmarinho efeminou-se ainda mais. Sabe, Rosmarinho é daqueles caras que parecem bonecas, mas não são. Talvez ele seja assim porque conviveu somente com mulheres, a vida inteira, mãe e irmãs.

Eu, bem, eu, segundo dizem, continuo com “o mesmo jeitinho”, e isto significa que tenho cara de guri, mas de barba, e o sorriso aberto, franco, de quando era criança. Não posso negar: eu me amo. Muito.

A nossa amizade sempre foi um fenômeno. Nós três jamais nos largamos. Desde o Jardim da Infância, na escola de dona Gertrudes, que chegou a ser processada por colaboracionismo com os nazistas, no final dos anos quarenta, sempre andamos juntos, tivemos os mesmos problemas escolares, e progredimos lado a lado. Por coincidência, perdemos o vestibular no ano em que concluímos o segundo grau, mas passamos, os três, no ano seguinte, nos cursos que escolhemos.

Aí fizemos o pacto, já no início da faculdade, quando estávamos muito confusos nos relacionamentos com as mulheres. Cada um de nós tinha a sua namorada, mas não conseguíamos ser discretos: contávamos, um para o outro, os detalhes das nossas vivências, mesmo as mais íntimas, e ríamos muito de certas situações tragicômicas de alcova. Cada um de nós vivenciava o amor e as manias do outro, sem o menor constrangimento. Achávamos muito natural, e até estimulante.

A “coisa” começou com João. Ele, um dia, chorou no nosso ombro, literalmente, alegando que não podia acreditar na sinceridade de Tânia, sua namorada. Chegou a molhar minha camisa de cambraia de linho, que eu mesmo passava a ferro, por falta de confiança na empregada lá de casa. Perdoem-me, sou um dândi.

No dia seguinte, Rosmarinho, com aquele jeito feminil de acentuar os esses, disse que compreendia perfeitamente o João, pois havia descoberto que sua própria namorada, Glô, vivia uma vida dupla: diante dele, revelava interesse pela cultura e as artes (grande paixão de Rosmarinho), mas, às costas, preferia os desfiles fashion e as conversas mundanas.

Aí eu pensei: Annie, minha namorada francesa, apenas me usava, fisicamente, para satisfazê-la, inclusive na necessidade estética, pois tenho um corpo perfeito, enquanto jogava charme pra cima dos velhotes da agência de publicidade em que trabalhava.

“Sabe?”, disse João um dia, “odeio mulheres: se não tivessem buceta, eu nem cumprimentava!”

“Mas nós precisamos delas, fisiologicamente”, ponderou Rosmarinho, muito sério, e até másculo. Todos nós concordamos. O prazer sexual regular nos era imperioso, e nenhum de nós, apesar dos trejeitos de Rosmarinho, revelava qualquer dubiedade.

“Tem as putas”, disse João, “mas eu não tenho coragem. Nem de camisinha”.

Estabelecemos, então, o pacto: a partir daquele momento, esqueceríamos os sentimentos e passaríamos a tratar o assunto com uma lógica empresarial, ou seja, cada um de nós iria procurar um “baú”. E daríamos uma festa, aliás, três, quando o objetivo fosse alcançado.

“Alguns baús estão aí à disposição”, ponderou Rosmarinho, “mas eu não conseguiria comê-los por muito tempo. Lembra daquela herdeira, a Silveira Peçanha? Tem cabelo até no bico do peito. Uns cabelões pretos, torcidos, esquisitos. Já comi, mas não dá pra casar”.

“Quantos milhões? Ou já chegou a um bilhão?”

“Perdão, bilhões. O pai tem ligações com o governo.”

“Então, quantos bilhões?”

“Dois e meio. Segundo o mercado.”

“E não dá para encarar uns pentelhinhos deslocados?”

“Meninos: vocês precisam imaginar o longo prazo”, respondeu Rosmarinho, ainda sério. “Quanto tempo eu vou ter de comparecer àquela horta?”

“Se eu me candidatasse você ficaria chateado?”, perguntei.

“Nem um pouco”, disse o meu amigo. “Pelo contrário, eu daria a maior força.”

Três dias depois, lá estava eu, numa festinha bem jovem, lançando olhares sedutores à Silveira Peçanha, que se chamava Maria, simplesmente. Tive a impressão de que ela gostou de mim.

“Não posso me aproximar muito de você”, disse-lhe, após uma primeira conversa mais solta, “eu sou amigo íntimo do Rosmarinho”.

“E desde quando Rosmarinho é um empecilho para a nossa amizade?”, Maria perguntou. “Ficamos, mas somos amigos, também. E mais nada.”

“Oh, querida, que bom que você disse isto!”

Os olhos de Maria eram apenas grandes e negros, mas burocráticos. Gordinha, ela parecia muito mais velha do que os seus vinte e um anos, e eu já vislumbrava um buço sobre seus lábios finos. A leve penugem negra que lhe cobria os braços, com o passar do tempo transformar-se-ia num óbice sexual. Mas fui em frente, de acordo com meu objetivo, conversando muito sobre ecologia, o principal interesse dela.

“E se eu achasse que você está só interessado no dinheiro do meu pai?”, ela me perguntou subitamente, um dia.

“Aí eu proporia casamento a você com separação de bens”, respondi, jogando todas as fichas.

“Meu amorzinho desprendido”, ela falou, e eu fiquei em dúvida se a ironia era apenas uma máscara.

Não sei no que vai dar. Tenho dito a João e a Rosmarinho que, a qualquer momento, proporei uma festinha só nossa; basta que eu acerte a data das minhas bodas com Maria Cerdosa. E brindaremos com champanhe francês.

“E como fica o longo prazo?”, me pergunta agora Rosmarinho, não sem uma lasquinha de inveja.

“O longo prazo a Deus pertence”, digo, e pela primeira vez penso que estou usando o nome de Deus em vão, ou de uma forma espúria, tão diferente da minha família honesta, simplória e previsível. Mas Deus, para mim, é apenas uma referência. Eu prefiro adorar a mim mesmo.

Serei obrigado a manter minha palavra sobre a separação de bens, mas acredito que ela acabará me pedindo que aceite um “casamento normal”. Após grande resistência, cederei. Maria, na verdade, se apaixonou por mim. Eu tenho feito o que posso, apesar do pesadelo recorrente: após fazer amor com ela, sem ejaculação, acordo com a boca tomada de cerdas de javali.

Umas fantasias me têm assaltado, ultimamente, e, numa delas, vejo-me no futuro, dez anos depois, recebendo meu amigo Rosmarinho no escritório da mansão onde vivo. Estou mais bonito do que nunca, com uns fios brancos nas têmporas, mas Rosmarinho envelheceu. E até sua meiguice, digamos assim, parece confusa e fora de moda. Seu olhar súplice de homem pobre me constrange brutalmente, e viro a cabeça, aviltado. Quando me volto novamente para ele, talvez para inventar alguma coisa e cair fora, defronto-me com um espelho tridimensional, mavioso: sou eu mesmo, meu próprio clone, tão belo, charman, provocante. A ereção (minha e dele-eu) é imediata e aí nos despimos com a bestialidade possível, e, logo depois, o longo beijo a dentadas me faz urrar de gozo pré-coito e, mal me penetro, inicia-se um orgasmo de trinta minutos longos, como se eu fosse um suíno, saudável e patusco. Somos. Meu clone suga-me o ouvido por dentro e me murmura a ideia de envenenar minha esposa para que ele e eu possamos viver juntos a aventura essencial. A minha própria voz me excita: sôfrego e voluptuoso, convenço-me de vez que enlouqueci. Mas, que mal há nisso?

Do livro “Memórias Embriagadas” – Editora Noovha América, São Paulo, 2008.

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“São energias sutis”, disse o Mestre, “as que você vai experimentar em Portal das Canoas. Elas podem ser fenomenais ou não. Mas o que acontecer sairá de dentro de você, e será ditado pelo seu Eu Superior.”

Não tenho por que duvidar do Mestre. Já o fiz uma vez, e quase encerrei minha experiência no planeta. “Acautele-se com relacionamentos apenas brilhantes”, ele me advertira, e eu fingi não entender que Sidnéia era um relacionamento assim.

Mas como deveria interpretar o “apenas brilhante”? Tá bom, Sidnéia não chegava a ser um gênio, mas sua exuberância carnal e seu desempenho na cama fariam qualquer um esquecer esses preconceitos. O que me importaria se ela não soubesse discutir comigo sobre os últimos avanços da filosofia clínica ou as origens do politeísmo dos druidas? Ela falava a língua contemporânea do rock pesado ou da música tecno, das malhações e dos shoppings, uma atleta sexual incansável, insaciável, quantitativa. Eu e ela, recriando nossa própria Sodoma, com muito gelo no uísque, ao som do Guns N’Roses, uma fixação dela.

Aí tocaram a campainha. Fui atender enrolado numa toalha, ainda ofegante das flexões da minha amada. Relaxado, nem perguntei quem era, antes de abrir a porta, e, quando o fiz, a Delegacia de Entorpecentes em peso passou por cima de mim, como um tufão. “Está presa! Presa! Sissi do Pó, finalmente!”, eles exultaram, os brutamontes, mandando a moça se cobrir rápido, mas sem deixar de admirar suas formas. A mim, só me olharam com desprezo, gritando: “Se vista, panaca!”

Meu advogado precisou valer-se de um amigo importante para evitar que eu dormisse na cadeia, naquela noite, e fosse enrabado pelos marginais. Cobrou-me uma fortuna por isso.

Como eu poderia saber que estava envolvido com uma traficante? Juro, nunca cheirou na minha frente! Quando se trancava no banheiro, era apenas pra satisfazer necessidades fisiológicas, mesmo. Nem se preocupava em fechar a porta. Jamais ouvi batidinhas de gilete no vidro, ou fungadas, ou vestígios naturais que os cocainômanos deixam. “Claro”, esclareceu-me o doutor Massa, meu rico advogado, “ela é apenas traficante, e competente; os competentes não cheiram.”

Agradeci o esclarecimento, paguei com cheques pré-datados e fui correndo procurar o Mestre. E aí ele me relembrou o precioso conselho que eu já esquecera: “fuja do que é apenas brilho.”

“Vou me dar um tempo”, respondi, amuado como uma criança. “Por muito pouco, Mestre, não perdi a invencibilidade. O senhor precisava ver a cara dos malandros na cela. Olhavam pra mim e babavam!”

“Culpa sua, meu caro.”

“Sabe, Mestre, é um problema sério, esse meu. Sou heterossexual exaltado. Olho pra mulher e saio do sério.”

“A maioria dos homens sábios que eu conheço tem vida sexual, mas normal.”

“E não é normal namorar com uma gostosa que me aparece?”

“Não a Sissi do Pó”.

“Juro que não sabia”.

“Precisa desenvolver seu terceiro olho. A intuição. Ela aponta o que é apenas brilho.”

Não iria adiantar muito continuar aquela conversa. Eu lhe disse que precisava respirar e deixar de ter pesadelos com prisões, delegados e o baterista do Guns N’Roses que me olhava, rindo, e ameaçava em inglês: “Vou te comer! vou te comer!” Aí o Mestre me sugeriu: Portal das Canoas.

São três horas pela BR Oeste, subindo a serra. No começo pensei em ir sozinho, depois resolvi levar o Golias, meu pinscher anão, de dois anos. Afinal, Golias é um cão de guarda, um protetor, um dobermann que encolheu. Senti que, de alguma maneira, ele me protegeria. Eu estava, como falam nas novelas, “fragilizado”.

Pelo telefone, o sujeito da pousada achou esquisito que eu viesse sozinho. Disse-lhe que levaria Golias, mas logo esclareci sobre a natureza do meu companheiro. Ele suspirou com alívio.

‘Deve ter mesmo muita bicha’, eu pensei, ‘viajando para esses retiros energéticos, cidades altas, muita montanha, árvores, céu estrelado, cachoeiras de águas geladas, um frio de rachar à noite’. ‘As bichas precisam entender melhor seu próprio carma’, foi o meu segundo pensamento a respeito do assunto, e logo me veio a figura do Mestre, e me arrependi com sinceridade, juro, da torpeza dos meus preconceitos.

Mas Portal das Canoas, como o próprio nome indicava, era mais conhecida também como um point de canoagem. Até um campeonato brasileiro já havia sido disputado lá, numa de suas corredeiras. O rafting é, para nós, buscadores espirituais, um esporte ecológico e de altíssimo astral. Isso também me animou a decidir pelo Portal naquela minha semaninha de folga. Não que eu quisesse competir, imagina, mas pelo menos observar o pessoal voando na água com seus caíques infláveis, que repicavam nas pedras e caíam das pequenas mas violentas cachoeiras. Uma farra.

Levei muito tempo subindo a encosta. Minha pobre picape gemia e soltava gases pelo esforço inaudito. Uma viagem interminável. Então, depois de rodar alguns quilômetros perdido, mal orientado pelos capiaus, a cidade apareceu-me de repente. Tão pequena que nem tinha periferia. Adentrei-a já na rua principal, com farmácia, cartório, delegacia, um bar – tudo estranhamente deserto. Avistei a pousada que reservara, lá do fim da rua. A cidade inteira era aquilo ali, aquele miolo, cinco, seis ruas, no máximo. Casas do começo do século, estilo colonial, piso de paralelepípedos, calçadas altas. Golias passou a latir desesperadamente, mas as únicas coisas estranhas eram a ausência de pessoas e uma névoa azulada que caíra de súbito. Lá fui eu, a picape saltando nas pedras, o cachorro latindo no meu ouvido, em direção à pousada.

Lá dentro, somente o tal rapaz que falara comigo ao telefone. Chamava-se Sergei. Estava apressado.

“Santinho”, disse ele, “seu quarto é o de número quatro, aí neste corredor.”

“Tudo bem. Que horas começa o jantar?”

“Hum… Às oito. Às sete e meia vai chegar uma senhora, dona Nicéia, mas o santinho não deve se assustar com ela: é surda, corcunda, um horror.”

“Vai chegar de vassoura?”

“Mais ou menos. Mas ela é a única que não sofre com a queima de velas.”

“Que diabo é isso?”

O rapaz pegou minha mochila imensa, colocou-a atrás do balcão, perguntou se eu queria um café. “Quero. Tem torradas?”, eu perguntei. Estava morrendo de fome.

“Umas bolachinhas eu consigo. Seguinte: vamos sentar ali, que eu lhe explico tudo.”

O café ralo, mas bem quente, e umas torradas deliciosas, salgadinhas, me deram um novo ânimo. Servi Golias, que latiu feliz. Ele se calara ao entrar na pousada, quando recebera um carinho do Sergei, que parecia gentil com bichos.

“Antes de mais nada”, continuou Sergei, “devo lhe dizer que estou me esforçando para me reformar moralmente, e, por isso, prometi não mentir a ninguém. Então, preciso lhe revelar que não me chamo Sergei, mas José Aparecido.” Fez uma pausa suspirante. “É que acho o nome Sergei tão bonito…”

“Pois é, eu sou Júlio Câmara, como você sabe, mas pode me chamar de Dercy.”

“Uai, você é gay?”

“Claro que não, Sergei Aparecido. Não vê que estou tirando um sarro?”

Ele me olhou de lado, examinou Golias de novo, não sei se o convenci.

“Meu santinho, eu tentei fazer com que você mudasse o dia da sua chegada, lembra?, para amanhã, mas você insistiu…”

“É que a minha reforma moral é mais urgente do que a sua.”

“Pois é. Seguinte: uns dias antes da festa de solstício de verão, que vai acontecer quarta-feira que vem (a festa você sabe, né, comemora a chegada da mais alegre das estações, faz-se a louvação do sol, das frutas, dos dias mais longos que as noites), um pessoalzinho especializado promove a queima das velas. É um ritual pagão, muito fechado, e… vai acontecer hoje à noite.”

“E daí? Tô cagando. Se for divertido, vou até ver.”

“Ver? Está louco? É coisa da pesada.”

“Já sei. Os bruxos. Wicca. Magia celta. Xamanismo. Tudo isso é baboseira infantojuvenil. Se fosse uma Missa Negra, eu já sairia correndo daqui.”

“Bem, você é que sabe”, concluiu Sergei, engolindo em seco. “Eu vou ficar longe.”

“Que puta cagaço, hem? Que mal faz, cara, uns bruxinhos queimarem velinhas na floresta? Eu vou e ainda acabo cantando parabéns pra você”.

“Não, santinho, não é vela de altar não. Essas ‘velas’ são, como diria, formas-pensamentos que serão atraídas e queimadas pelo pessoal especializado, a fim de que a região, a cidade, eles próprios se purifiquem para a festa do solstício…”

“Bem, eu nunca vi isso, mas acredito que seja mais ou menos como um filme de terror. Vai aparecer um monte de monstrinhos, aí o pessoal os queima, e pronto.”

“Santinho: da única e última vez que eu fui ver, com mais uns três idiotas do meu colégio, na época, uma forma-pensamento, criada por uma mulher que morreu de tuberculose, se grudou em mim e eu tossi durante dois anos. Não teve remédio que desse jeito. Esse pessoal especializado acabou me arrancando pela boca um pedaço da forma que havia se enfronhando nos meus pulmões. Sobre meus amigos, não quero nem pensar.”

“Fala, cara.”

“Um virou travesti na capital, outro ficou gago e o terceiro se deprimiu tanto que acabou tentando se matar…”

“Ora, ora, Sergei, a bicha apenas arrumou um pretexto para assumir, e os outros são frouxos, mesmo, como você”, eu ri alto, mas logo depois me arrependi de mais essa manifestação de preconceito.

“Olha, se você quiser, vá. Daqui a pouco o pessoal vai chegar. E vem direto pra cá. As roupas do ritual estão todas aí, na sala. É aqui que eles se hospedam.”

“Por que você os chama de especializados?”

“São os maiores bruxos do país.”

“Quantas velas eles queimam?”

“De cem pra cima.”

“Já vi mais, no cinema.”

“Então vá lá. Não perca.” O rapaz ficou meio irritado.

“Claro. Vou mesmo. De peito aberto.”

Esperei que Sergei Aparecido sumisse, na sua moto, e fiquei me perguntando o que diria meu Mestre das minhas novas aventuras. Meu Mestre tem telefone, computador, e-mail, celular, e é empresário. Todo mundo pensa em um mestre como uma figura mística, de hábito de monge, ou fraldas brancas, magérrimo, de turbante. Meu Mestre andava até meio gordinho, certamente por causa dos litros de vinho que consome. Além do mais, é um gourmet. No mundo de hoje, o mestre, como antigamente, aliás, é tão-somente um homem de grande sabedoria. E não se consegue sabedoria vivendo longe do mundo real.

Mas eu é que não trouxera meu celular, de propósito, e por isso não haveria chance de falar com o Mestre. Na pousada não havia telefone, e esta era uma de suas atrações. “Aos queridos clientes”, dizia um cartaz sobre o balcão da entrada, “não temos telefone nem tevê; se quiser, use os seus portáteis.”

Eu não deveria falar com meu Mestre! Porra, não posso depender dele pra tudo! Tenho de agir por mim mesmo. Sem me sacanear, como no caso da Sissi do Pó.

Fiquei pensando: quem iria me garantir o ingresso na queimação dos bruxos? Bem, isso seria resolvido depois. Decidi conhecer um pouco mais de Portal das Canoas. Desci até o rio, que se alongava, poético, acidentado, formando refluxos, exibindo pedras altas e negras que apareciam e desapareciam em meio à espuma. Água límpida, de vez em quando saltava um peixe. Um paraíso, aquele lugar. E continuava deserto. Todo mundo resolvera mesmo dar uma volta. Ali, só eu e Golias, que começara a explorar melhor a região, afastando-se e voltando correndo, com aquela alegria sem motivo que os cachorros têm.

A névoa azulada caía mais densa, agora, e eu divisei, no começo da rua principal, um pequeno grupo de homens e mulheres. Vinha sem pressa nenhuma. Imaginei que havia deixado o carro na entrada, num pequeno campo de futebol. Fui andando, também sem pressa, até eles. Golias teve um dos seus ataques, latindo contra o grupo, mas mandei-o fechar a boca ou o jogaria no rio. Ele entendeu direitinho e não saiu do meu lado, quieto.

De todas as surpresas que já tive na vida, e de todos os sustos, inclusive aquele que me custara o sono e a enrabação iminente, nenhuma foi maior do que a de reconhecer Sidnéia, ou Sissi do Pó, à frente daquele grupo de bruxos. Eram cinco homens e três mulheres.

Eu a via, de longe mesmo, e a via nua, porque já decorara todo o seu corpo; não havia saliência, reentrância, dobrinha que não soubesse de cor. Estava com roupa normal, camiseta e calças jeans, uma mulher simples mas elegante. Por cima da roupa eu via seu púbis e seus pêlos, elegantemente insinuados em direção ao umbigo – me ajuda, Mestre! Fui-me chegando, cada vez mais devagar, e um dos homens passou à frente. Havia todas as idades ali, o mais novo com pouco mais de vinte anos; a mulher mais velha com uns setenta. Sidnéia, eu sabia, completara vinte e seis. O homem que se adiantara deveria ter cinquenta e poucos. Sidnéia, ou sua sósia, bateu o olho em mim, empacou, olhou para trás e para os lados, depois disse alguma coisa ao homem mais próximo e se afastou do grupo, para ir colher umas frutas silvestres ali bem perto. O homem que se adiantou sorriu para mim e gritou, de longe:

“Olá, boa tarde, você é turista?”

“Mais ou menos. Vim dar uma relaxadinha.”

“Sabe quem somos nós?”

“Sim. E queria pedir para assistir à queima de velas”, respondi, alternando o olhar entre ele, que era simpático e sorridente, e Sidnéia, de costas para nós, mexendo no arbusto. Que coisa! Ela surgira do nada. Mas, seria ela mesma? Uma irmã gêmea? O engraçado é que, apesar do susto, e da semelhança entre as duas pessoas, eu duvidava que aquela fosse a minha Sidnéia. Será que teria a mesma energia básica, a expressão, o astral? Fisicamente, era igual à Sissi do Pó, ah, isso era. Mas que fenômeno seria esse? Onde estariam as “energias sutis” de que meu guru falara? Coincidência demais, loucura demais. A essa altura, o grupo de bruxos e eu já estávamos frente a frente. Foram, todos, muito afáveis, durante as apresentações mútuas. Sidnéia, de longe, olhou para nós e sorriu com mansidão.

“Quer assistir ao espetáculo? Não é exatamente uma diversão… Mas você é bem direto, não, rapaz?”, disse-me o cinquentão sorridente, que se chamava Pablo Viveiros. Pablo dirigiu-se aos seus amigos: “Pessoal, que acham?”

“Ele é transado”, disse dona Mirna, a que parecia ter uns setenta anos. “E deve ter consciência dos perigos que corre.”

Aí me contaram o que Sergei Aparecido já havia dito. Eu lhes esclareci que pertencia a determinada ordem, que era guiado por um mestre, mas que, de quando em vez, cometia alguns equívocos. Espiritualmente, estava mais ou menos preparado para a seção da tarde. Ou melhor, da noite.

Dizia tudo aquilo sem tirar os olhos de Sidnéia que, agora, desinteressara-se das pequenas frutas (eram amoras, acho) e olhava para longe, em direção do rio, andando de um lado para outro. Salvai-me, Mestre! Ela mexia comigo de longe, e apesar de todas as complicações e mistérios da situação. Porra, a minha namorada estava presa como traficante na capital e aqui, no interior de um outro Estado, encontro uma mulher igual a ela. Pior: vou-me sentindo envolver, fisicamente; excito-me pelo exercício de vê-la, como a uma miragem, e a memória potencializa essa exaltação dos sentidos, remetendo-me a momentos inesquecíveis, curtidos com uísque doze anos, muito gelo e um cedê maluco do Guns N’Roses.

O grupo pediu licença para conversar entre eles, e eu me afastei. Foi uma conferência bem rápida. Eles voltaram sorridentes, balançando a cabeça, afirmativos. “OK”, disse a mulher mais velha, que simpatizara, evidentemente, comigo. “Você pode ir e nós ainda vamos lhe proteger.”

Aí pediram licença para dar um pulo à pousada deserta. Era o que eu queria: ficar a sós com a minha amada. Sidnéia II olhou para mim e fez um movimento em minha direção, também. Minha respiração ficou suspensa quando nos olhamos nos olhos e o meu rosto chegou a alguns centímetros do seu.

“Você…”, eu consegui balbuciar.

“An-ham…”

Sorriu levemente e apertou minha mão.

“Como é que pode, Sidnéia, você…”

“Não fala.” Ela pôs um dedo sobre os meus lábios. A voz era a dela, e estremeci de emoção pura.

Não havia mesmo o que dizer. Enlacei-a pelo ombro e fomos, com uma certa pressa, em direção ao meu quarto na pousada. Estávamos tremendo de amor. Ficáramos uma semana longe um do outro. Abri a porta, acendi a luz, puxei-a para mais perto de mim e fui abrindo os quatro botões da sua camiseta. Ela arquejava, suas narinas se abriam e se fechavam, e isso me excitou ainda mais. Comecei a me recordar da nossa primeira vez, mas ocorreu uma interferência. Eu me preparava para beijar muito intimamente seu corpo, quando de súbito ela deixou de ser ela mesma e se transformou no meu Mestre: completamente nu e tão excitado como eu.

Primeiro o susto, depois o pensamento sobre os “relacionamentos apenas brilhantes”.

Deve ter sido a única vez na minha vida em que recuei após chegar tão próximo de um objetivo. Os deuses sabem o quanto custou. Diante da cara de espanto de Sidnéia, que retornara à aparência anterior, pus minhas calças correndo e saí, sem camisa, para o lado de fora do prédio. Golias deu o seu segundo ataque e desta vez deixei-o de lado. Ele era capaz de permanecer horas latindo.

“Seu Pablo! Dona Mirna! Todo mundo!”, gritei com todas as minhas forças.

Dona Mirna estava na varanda, vestida totalmente de preto, parecendo mais jovem. Ela chegou a se assustar.

“Dona Mirna, quem é aquela moça que estava à frente de vocês e se afastou para colher umas frutas na hora em que eu apareci?”

“Somos duas mulheres no grupo, eu e a Mary, que não é propriamente moça…”

“Dona Mirna, a moça, bonita, alta, vinte e seis anos…”

“Sua… namorada?”

“Digamos que sim. Então ela é…”

Vi o pânico surgindo no rosto de dona Mirna e ela começou a gritar alto algumas frases incompreensíveis numa língua que me pareceu inglês. No meio das frases, entendi que ela chamava, também, os seus companheiros. A velhinha virou-se para mim.

“Neste ano, as formas-pensamentos chegaram muito antes do que esperávamos, rapaz. Você as trouxe, inconscientemente. Sua energia é muito forte, mas precisa ser equilibrada…”

Olhei para trás, para a entrada da pousada, e vi a minha amada, mais bonita ainda, estendendo os braços para mim. O rosto estava lavado de lágrimas. Ela ia dizer alguma coisa, mas eu a interrompi, falando alto para a velhinha de preto ao meu lado.

“Que é que eu faço, dona Mirna?”

“Fique aí, rapaz. Não saia daí. Veja o que está vindo por trás da… coisa.”

Não é possível descrever. Havia um garçom, elegante e antigo, carregando uma bandeja onde repousava a cabeça ensanguentada do meu Mestre. Ao lado do garçom surgia o mais assustador daqueles presos que, na semana passada, quase me haviam papado. O espectro, ou o que fosse, ajeitava os cabelos com as mãos.

“Não acredite neles, rapaz”, disse a velhinha. “São ilusões, são pensamentos. Não acredite em ninguém, nem em mim!”

Dona Mirna me sorriu como se fora uma avozinha. Dei-me conta de que a névoa azulada virara treva e que a noite baixara de vez em Portal das Canoas.

Estava na hora de queimar as velas.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Tenho admirado minha beleza incontestável, vestida de casacão, ou envolta em toalhas, ou nuazinha, nos espelhos dos melhores hotéis de Londres, Paris, Roma… e agora Milão. Não sei se ele é rico ou apenas gentil, extremamente gentil, este rapaz, além de carinhoso, divertido, talvez um pouco irresponsável. Ontem, chegou a me sondar para um compromisso mais íntimo: nós dois vivendo em uma mesma casa, em cômodos separados, durante um certo tempo. Uma experiência.

“Não, não, meu amado”, eu fiz a mais sensual das minhas bocas. “Nós dois somos apenas um momento prazeroso, um sonho realizando-se”.

“Sonhos não se prolongam?” – ele perguntou, sorriso quase tímido.

“Sonhos duram seu tempo próprio”, eu lhe disse com meu sorriso nonsense (devo tomar cuidado; ando repetindo demais esse sorriso). A partir daí, comecei a perder o interesse por ele, pessoa física, e agora tento remetê-lo para o baú das minhas lembranças. A sua imagem ficou roída, chamuscada.

Eu e minha amiga Marly temos planejado minuciosamente nossa vida daqui a quarenta anos, quando chegaremos perto dos setenta. Naquele futuro, possuiremos não exatamente luxo, que no fundo é uma coisa ridícula, mas absoluto conforto, uma viagem a cada dois meses, casa de campo e de praia, vinhos de degustação. Dividiremos quase tudo (Marly não abre mão de uma secretária pessoal exclusiva). E, como dificilmente teremos homens, ou vontade de tê-los, será importante, enquanto somos desejáveis, carregar-se de lembranças maravilhosas deles. Senão, mais tarde, acabaremos por nos transformar em seres de estatística.

“Acho que você será uma das minhas melhores recordações”, disse, no ano passado, a um banqueiro de Porto Alegre. “Você é limpo, ou melhor, é clean; tudo em você flui; tudo fecha, exatamente como as contas dos seus caixas. E, fisicamente, você cheira a um incenso bem suave. Mas o melhor em você é o desapego: você não quer de mim outra coisa além de compartilhar o momento.”

O banqueiro riu muito. Ele, como este outro, aliás, estava convencido de que eu passo o tempo todo tirando sarro, mas não é bem assim. Marly me falou que também conheceu alguém parecido em Nova York, uma lembrança ideal. Tão solta, tão fugidia, ela me disse, que às vezes duvidava tivesse ocorrido de fato.

Diferente deste moço aqui, coitado, que me olha apaixonadamente através da taça de vinho (vai lhe custar uma fortuna!). Estamos num daqueles bares charmosos da Galleria Victorio Emanuele. Este pobre rapaz estragou, com seu romantismo, um grande prazer do meu futuro: lembrar-me dele vivamente, dos seus músculos e gemidos, e como que tocá-lo, senti-lo em meio a outras névoas, éteres, vapores.

Os homens, sempre digo a Marly, jamais aprenderão a sonhar!

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Ontem chegou um sujeito engravatado, sorriso falso, com um tique nervoso, assim, puxando o pescoço para um lado, que ele tentava disfarçar de todo jeito. Parecia um bicho. Um urubu. Ele falou, falou. Ou melhor: perguntou muito. Eu não dizia nada, o homem era de más intenções. Queria saber da minha técnica.

“O seu trabalho é perfeito. É incrível. A gente nem sabe direito o material que o senhor usa… O monstrinho do meu filho foi quebrado em pedacinhos, o senhor consertou e ficou perfeito!”

“Não fui eu que consertei esse monstro, senhor. Eu me lembro de todos os meus consertos. Esse aí, não.”

“Mas claro, claro que foi o senhor. Bem, foi minha mulher que trouxe o monstro. Parece um dragão e um pato ao mesmo tempo. Todo verde. Esses desenhos malucos de hoje. No meu tempo era só o Pato Donald. Seu nome é doutor Aristóbolo, ela me disse. O ‘doutor das bonecas.’ O senhor.”

“As pessoas me chamam assim, mas alguém está tentando se passar por mim”, respondi, procurando encurtar a conversa. Era mesmo um sujeito baixo-astral, aquele. Autoritário. Não gostou nada do que lhe disse. Veio com ironias.

“Mas, meu Deus, quem ousaria se fazer passar pelo famoso doutor Aristóbolo? Famoso, não: famosíssimo.”

“Eu não sei quem. Quanto a famoso, é o senhor quem está dizendo. Mas não mexi nesse tal monstro com cara de pato.”

“Bem…” (o sujeito ficou sem saída) “Mas o senhor, doutor, me deixaria ver alguns dos seus trabalhos? Sabe, são tão conhecidos…”

Sou diferente do meu pai. Viúvo da minha mãe, ele me criou sozinho e me ensinou tudo, inclusive a consertar brinquedos. Era o seu hobby preferido. Para mim, é profissão. Mas papai era um pouco medroso do mundo. Para ele, gente de paletó e gravata era sempre autoridade. Reverenciava os ricos e poderosos. Eu não. Não gosto dos que têm riqueza ou poder. São egoístas e os egoístas estão num patamar abaixo da humanidade.

“Não, não vou mostrar meus trabalhos”, falei para o engravatado, que disse se chamar Clarêncio, “porque não conheço o senhor. Só por isso.”

“Mas, e se eu quiser que o senhor conserte um brinquedo para mim?”

“Onde está o brinquedo?”

“Bem, não está aqui agora.”

“Traga, então. Dependendo do que for pra fazer, eu aceito ou não.”

Sabe, o mundo é louco. Um dia desses apareceu um rapaz, de uns vinte e cinco anos, querendo que eu pusesse pênis nos seus bonecos infantis. E, num deles, além do pênis, um par de peitos. Expliquei que só trabalhava com brinquedos quebrados de crianças.

“Mas eu pago o dobro, cara.”

“Não vou fazer.”

No ano passado, um outro queria que eu esculpisse duas figuras de demônio. Trouxe-me o modelo numa revista italiana. Não conheço essa língua, mas estava claro que era um demônio de missa negra. Recusei, e esse também quis me pagar o dobro.

Imagine se eu contasse a eles como faço o que todo mundo chama de obras de arte. Uma parte papai me ensinou: argila misturada com areia de uma determinada textura; parafina derretida a uma exata temperatura, etc., coisas de artesão. Mas não é isso o que dá “vida” aos brinquedos quebrados, e sim a minha vontade de torná-los perfeitos, para que as crianças voltem a ficar felizes. É simples, mas é só isso.

Certa vez, pus umas seis bonecas enfileiradas sobre minha mesa de trabalho: uma não tinha um braço, que eu seria obrigado a copiar; outra fora pisada na cabeça, estava com o “crânio” afundado; e a mais problemática de todas perdera o mecanismo do choro. Era uma boneca argentina, difícil de encontrar algo parecido por aqui.

E eu apenas senti vontade de que elas voltassem a produzir felicidade. Aí tudo aconteceu: apesar da precariedade do molde de gesso, o braço perdido ficou perfeito; o crânio da outra voltou à posição num “ploc”, coisa meio milagrosa; aí foi só retocar a pintura. E uma senhora do bairro trouxe-me um monte de brinquedos velhos, imprestáveis. No meio daquele lixão, um mecanismo de choro argentino, quase novo. Coincidência? Não, a minha vontade. Como posso ensinar isso a um engravatado egoísta?

Mas ele não se conformou, pelo jeito. Hoje de manhã apareceu o policial. Barriga estufada de muita cerveja, ar de deboche, a pistola aparecendo debaixo da camisa. Mas não parecia má pessoa.

“Como é teu nome mesmo?” (Nem “bom-dia”, nem “olá”, nada.)

“Aristóbolo. O povo me chama de doutor Aristóbolo.”

“Ah, médico… Ginecologista, também?”

“Como assim?”

“Trata da bocetinha das bonecas? Faz o talho nelas?”

“Que é isso, seu…”

“Calminha.” Pôs a mão direita sobre a arma. “Aqui, ó, sou autoridade.”

“Que história é essa?”

“Que história é essa me responda você.”

Gordo, mas forte, me empurrou e adentrou a oficina pisando duro. Não conseguiu esconder um ar de encantamento, um tanto equivocado, mas encantamento, ao ver as bonecas arrumadas, umas ao lado das outras, e os carrinhos eletrônicos de corrida, prontos para zarpar, os bichos de pelúcia, costurados e lavados. Havia até uma fileira de velhos soldadinhos de chumbo, a maior parte deles já restaurada. Os colecionadores também me procuravam.

O tira, que era mais conhecido como Ernesto Duro, mexeu em cada centímetro do lugar. Mas até a folhinha, com o mês atrasado, mostrava paisagens de inverno e não mulheres nuas.

“É, cara, parece que você está limpo…”, disse-me o barrigudo.

“Isso foi uma denúncia, não foi?”, perguntei.

“Claro, bicho. Você acha que a gente bate na porta das pessoas de graça?”

“O cara que me denunciou é um sujeito engravatado, magro, assim, com uma cara de urubu?”

“Isso eu não sei. Problema do chefe.”

“Esse cara que descrevi quer me prejudicar. Eu me neguei a lhe contar sobre as minhas técnicas de trabalho.”

O policial sorriu para mim pela primeira vez. Parecia sincero, aquele sorriso. Aí contou que tinha uma filha, apesar de não ter se casado, e que uma das bonecas da menina estava com problemas.

“Traga a boneca”, disse. “Não sei qual é o problema, mas resolverei rápido pra você. Afinal, você não me prendeu.”

“Tá bom, eu trago, mas só se você me cobrar e me contar qual é a sua técnica”, ele sorriu.

Aí eu lhe disse que o meu segredo era muito simples: bastava querer que o brinquedo voltasse à sua principal função, que era a de dar alegria.

O gordinho me olhou um tempão e saiu dizendo que, por incrível que parecesse, existiam no mundo pessoas iluminadas. E que eu era uma delas.

“E, sabe mais?”, ele completou. “Estou começando a achar que o cara de urubu que lhe denunciou tem parte com o diabo. Só o diabo quer ver o Bem na cadeia…”

Eu não me acho nada daquilo que ele disse. Mas que o urubu parecia o diabo, parecia. Vejam: fiquei todo arrepiado.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

 

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Para Martha Gallego Thomaz

Alguns meses antes, eu nem teria me concentrado e posto a mão sobre a cabeça da criança, pedindo a Deus que a fizesse retornar à vida. Não ousaria. Mas a expressão da menina, que devia ter uns oito anos e parecia muito mal, me comoveu. Esquálida, largada no catre, revirava os olhos como se ensaiasse a própria morte. O pai, um desempregado, chorava baixo; a mãe e a avó, muito alto – a avó me pareceu histérica; os irmãos, todos mais velhos do que a menina, brincavam de alguma coisa dentro do barraco imundo.

Após o meu toque, a menina fechou os olhos (“morreu”, eu imaginei), ficou assim uns dez minutos, aspirando pesadamente, depois acalmou a respiração, os olhos se abriram e ela, até com uma certa agilidade, se sentou na cama. Olhou para mim e para os pais, sorriu e disse: “estou boa”.

Confesso: foi uma grande surpresa, tanto para mim quanto para os pais da criança, vizinhos e amigos. Era o terceiro milagre. Eu conseguira reviver um velhinho, um mês antes, quando ainda andava pelo Paraná. Ele se engasgara com um pedaço de bife, coitado, talvez pela ansiedade com que engoliu a comida, coisa rara. Estava roxo e já não respirava, quando cheguei. Levantei-lhe meio corpo, no seu colchão fedido, bati-lhe nas costas, ele cuspiu longe o pedaço de carne, teve um ataque de tosse, e voltou, reclamando. “Cadê meu prato? Cadê meu prato?” Eu e os circundantes não podemos deixar de rir.

E há três dias, nessa mesma estrada que dá acesso aqui, à favela, fiz levantar um sujeito destroçado, dentro de um fusca, que uma jamanta havia jogado longe e nem parara para conferir. A mãe dele me pediu intercessão.

“Seu Thomaz”, ela disse, agarrando-me pelo braço, “eu já soube da sua fama, sei que o senhor cura os doentes e faz com que os mortos voltem à vida. Meu filho não se mexe dentro do carro dele, destruído lá na estrada. A mulher dele está grávida do segundo neném, é uma moça doente, e eu não tenho como sustentá-los. Eu sei que ele saiu bêbado com o carro, mas é um bom rapaz e merece uma chance.”

“Pode deixar, dona, se Deus quiser ele se salva.”

“Mas é o senhor quem tem de fazer a intermediação.”

O rapaz parecia, realmente, um monte de carne sangrenta, preso às ferragens do fusca. Me concentrei e pedi. “Jesus, quantas vezes o senhor não fez isso durante sua passagem pela Terra? Atenda aquela mãe e faça este rapaz voltar.”

De repente, o que era carne sangrenta virou apenas ferimentos profundos, o rapaz se mexeu e conseguiu se livrar dos ferros. As pessoas que estavam perto, inclusive o guarda rodoviário que já chamara a ambulância, fizeram o sinal da cruz. “Quem é você?”, o guarda me perguntou, a expressão atemorizada. “Um andarilho”, respondi. “Meu nome é Thomaz.”

Agora, foi a vez de curar a menina quase morta na favela. A avó perturbada ajoelhou-se aos meus pés e agradeceu, soluçando.

“O senhor é o nosso milagreiro!”, ela gritava, e eu me senti contrafeito, pois as pessoas começaram a me tocar e a pedir graças. Duas mocinhas queriam casar, um rapaz implorou apenas um emprego, “qualquer coisa”.

“Eu preciso ser forte, Senhor, para suportar essa prova”, disse a mim mesmo, sentindo medo. “Sou imperfeito demais para imaginar que posso, de fato, ser veículo de um poder divino.”

Aos poucos, as pessoas foram se afastando, ainda reverentes, e eu fui obrigado a me livrar, com um empurrão, de um sujeito seboso que me veio pedir reza para ganhar uma empreitada. “Sai de mim, cara!”, foi apenas o que disse, mas o homem, com um hálito pesado de bebida, afastou-se meio assustado.

Talvez eu metesse medo, mesmo, por causa da minha aparência. Precisava tomar um banho, conseguir umas roupas melhores. O policial rodoviário só deixou que eu chegasse próximo do fusca acidentado por causa da pressão dos populares. “Que é que esse mendigo vai fazer aqui? O que ele vai mudar no cadáver?”, perguntava o policial, quase rindo.

Do lado de fora do barraco, onde deixei a menina ressuscitada conversando com os pais, quedavam-se os meus quatro seguidores: Tomilho, Anacleto, Ramiro e a moça Vivinha. Eu não quis que eles andassem atrás de mim, chamando-me de mestre, mas eram andarilhos como eu, não tinham destino, esperança ou família. E aceitavam rezar e rezar, que era só o que eu pedia que fizessem, para acabar com o sofrimento das pessoas.

Quem anda pelas estradas sabe que só existe sofrimento, dos postos de gasolina aos pequenos sítios, passando pelas cidadezinhas: todo mundo precisa de médico, os adolescentes ainda não acreditam em aids, bandidos e vítimas de bandidos são uma mesma família, interligados por ignorância e carência. Até os religiosos são mais sofridos à beira dessas estradas do nosso país.

“Vivinha”, eu puxei o assunto, uma vez mais, para a moça tão bonita, e tão meiga, que começara a nos seguir na semana passada, “você não tem de vir conosco. Você pode não se sentir bem. Nós somos respeitadores, disso não tenha dúvida, mas somos homens e não temos onde pernoitar, nem para onde ir…”

“Eu vou com vocês”, respondeu com um sorriso. Ela parecia muito segura das suas opções, sempre.

“Tá bom, então vamos seguir”, eu disse, fazendo um gesto com a cabeça para que retomássemos o caminho. Havia dias em que andávamos mais de vinte quilômetros sem parar. Chegava uma hora, na verdade, em que as pernas se mexiam automaticamente, e nos entregávamos aos nossos sonhos. Sequer ouvíamos o ronco dos motores nas estradas. Eu queria que os outros não sofressem, mas Tomilho só pensava na Argentina. “Um dia vou chegar lá, e ver aquelas vacas muito gordas, com aqueles peitos enormes. Um argentino vai-me deixar mamar diretamente naqueles peitos.” Anacleto nos dizia que o sonho dele era esquecer o passado, mas não sabíamos nada dele, nem eu perguntei. E os outros dois, o Ramiro e a Vivinha, nunca revelaram qualquer detalhe das suas vidas. Eu temia um pouco pela moça. Anos atrás, logo que comecei a andar pelas estradas, acercou-se de mim uma outra mulher, mais velha e não tão meiga como a Vivinha, mas com uma grande disposição de ajudar os outros, sobretudo os bichos que sobreviviam aos atropelamentos. Andamos,  juntos, durante mais de três meses. Dormimos lado a lado, mas nem eu nem ela, que dizia chamar-se Ercília, tocamos um no outro. Naquela época eu já me considerava um monge moderno, e já havia tomado minha profissão de fé. A castidade fazia parte dela.

Um dia, lá íamos nós, eu na frente e Ercília a uns vinte metros, acompanhada de mais de dez cachorros apaixonados, quando duas picapes muito grandes frearam, cantando pneus, bem adiante de nós, no acostamento. Homens jovens e bem vestidos pularam para fora dos dois carros. Queriam Ercília. Nem me assustei. Eu já havia visto de tudo naquela vida. Vira homens ricos, em carros importados, que estupravam andarilhas. Caminhoneiros que nos torturavam só para se divertir. Quando acontece algo assim – como aqueles rapazes pulando das picapes – a gente sempre oferece a Deus nossa hora.

“É ela, pai!”, gritou um dos rapazes, apontando Ercília pra um homem muito alto, de cabelos completamente brancos. Os outros cercaram a moça, que tentou fugir, fazendo com que um automóvel, desviando-se dela, quase provocasse um acidente.

“Pegue! Pegue!”, gritava um rapaz para outro.

“Minha filhinha!”, o homem mais velho se aproximou, chorando.

Um dos irmãos de Ercília, que não tinha este nome, e que de vez em quando fugia da família para andar pelas estradas, ainda tentou me bater, como se eu tivesse algo a ver com as opções dela. Ela gritou que eu era apenas um amigo, e o pai se aproximou de mim, ainda choroso, e agradeceu por ter tomado conta da “minha menina”.

“Sua filha é uma pessoa muito boa, ajudou todo mundo na estrada”, eu depus, sereno.

Ercília chorou muito ao se despedir de mim, e acabou levando um dos cães, o mais feio e doente, junto com a família.

Eu temia que Vivinha fosse um caso idêntico e dobrei minha vigilância sobre os outros, para que não lhe destinassem nenhuma iniciativa sexual. Cheguei a conversar com eles sobre o assunto, e eles reiteraram fidelidade e obediência.

“Por mais que o senhor não queira”, disse-me Ramiro, “o senhor é o nosso mestre e nós vamos fazer tudo o que o senhor mandar.”

“Será que, um dia, nós também vamos poder curar os doentes, e reviver os mortos, como o senhor?”, quis saber Tomilho.

“Não se preocupem com nada disso”, eu lhes disse, “dentro de pouco tempo iremos para o sacrifício, vocês e eu.”

“Como, mestre?”, Anacleto assustou-se.

“Vocês acreditam que os verdadeiros donos deste mundo, os líderes religiosos, a polícia, os políticos e os bandidos vão permitir que um andarilho, ou um mendigo, e seus amigos, consigam produzir milagres?”

“Mas o senhor começou a fazer isso…”, ponderou Tomilho.

“Mas não tenho certeza se vou continuar… Não seria lógico, não há clima para fenômenos, ninguém quer saber de milagres e só os pobres acreditam neles. E mesmo os pobres, hoje em dia, querem mais é morrer. Cumprir a missão neste planeta está cada vez mais difícil. E nós somos privilegiados, somos andarilhos, vivemos para nós mesmos. O que vocês fariam se fossem o pai daquela família, a da menina quase morta, e vissem seus filhos abandonados, não por ela, mas pela sociedade que teria a obrigação de cuidar de todos? Diga-me, Tomilho: estou errado?”

Caía uma noite linda na estrada, um céu repleto de estrelas graúdas, como só aparecem nos céus do interior, ainda convivendo com um sol vermelho que se deitava por trás das montanhas de uma reserva de mata atlântica.

“Está errado, mestre. O pai desesperado contou com o senhor. Nós também contamos com o senhor. O nosso maior privilégio é estar aqui, agora. Não importa que ninguém ligue para os milagres. Eles, em si, valem a pena. Aliviam dores, fazem sorrir.”

Andamos quase três quilômetros, em silêncio, para que eu respondesse. A noite havia chegado completamente.

“Talvez você tenha razão, Tomilho.”

Todos sorriram, discretos, mas Vivinha soltou risadas de criança, deu uns saltos, e a sua alegria iluminou o breu da estrada, como se ela fosse uma pequena lua.

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007

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