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Archive for 18 de outubro de 2010

Tenho admirado minha beleza incontestável, vestida de casacão, ou envolta em toalhas, ou nuazinha, nos espelhos dos melhores hotéis de Londres, Paris, Roma… e agora Milão. Não sei se ele é rico ou apenas gentil, extremamente gentil, este rapaz, além de carinhoso, divertido, talvez um pouco irresponsável. Ontem, chegou a me sondar para um compromisso mais íntimo: nós dois vivendo em uma mesma casa, em cômodos separados, durante um certo tempo. Uma experiência.

“Não, não, meu amado”, eu fiz a mais sensual das minhas bocas. “Nós dois somos apenas um momento prazeroso, um sonho realizando-se”.

“Sonhos não se prolongam?” – ele perguntou, sorriso quase tímido.

“Sonhos duram seu tempo próprio”, eu lhe disse com meu sorriso nonsense (devo tomar cuidado; ando repetindo demais esse sorriso). A partir daí, comecei a perder o interesse por ele, pessoa física, e agora tento remetê-lo para o baú das minhas lembranças. A sua imagem ficou roída, chamuscada.

Eu e minha amiga Marly temos planejado minuciosamente nossa vida daqui a quarenta anos, quando chegaremos perto dos setenta. Naquele futuro, possuiremos não exatamente luxo, que no fundo é uma coisa ridícula, mas absoluto conforto, uma viagem a cada dois meses, casa de campo e de praia, vinhos de degustação. Dividiremos quase tudo (Marly não abre mão de uma secretária pessoal exclusiva). E, como dificilmente teremos homens, ou vontade de tê-los, será importante, enquanto somos desejáveis, carregar-se de lembranças maravilhosas deles. Senão, mais tarde, acabaremos por nos transformar em seres de estatística.

“Acho que você será uma das minhas melhores recordações”, disse, no ano passado, a um banqueiro de Porto Alegre. “Você é limpo, ou melhor, é clean; tudo em você flui; tudo fecha, exatamente como as contas dos seus caixas. E, fisicamente, você cheira a um incenso bem suave. Mas o melhor em você é o desapego: você não quer de mim outra coisa além de compartilhar o momento.”

O banqueiro riu muito. Ele, como este outro, aliás, estava convencido de que eu passo o tempo todo tirando sarro, mas não é bem assim. Marly me falou que também conheceu alguém parecido em Nova York, uma lembrança ideal. Tão solta, tão fugidia, ela me disse, que às vezes duvidava tivesse ocorrido de fato.

Diferente deste moço aqui, coitado, que me olha apaixonadamente através da taça de vinho (vai lhe custar uma fortuna!). Estamos num daqueles bares charmosos da Galleria Victorio Emanuele. Este pobre rapaz estragou, com seu romantismo, um grande prazer do meu futuro: lembrar-me dele vivamente, dos seus músculos e gemidos, e como que tocá-lo, senti-lo em meio a outras névoas, éteres, vapores.

Os homens, sempre digo a Marly, jamais aprenderão a sonhar!

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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