Feeds:
Posts
Comentários

Archive for novembro \28\UTC 2010

Doutor Acosta tinha vinte e cinco anos de experiência policial e, claro, já vira de tudo em matéria de miséria humana, loucura, desfaçatez. Vira também a tortura, a corrupção e a selvageria fascista dos prepostos da ditadura, mas isso ele preferia não lembrar jamais, até porque esquivara-se de questionar.

Era honrado e cristão, talvez um pouco perturbado por uma certa culpa diante de omissões: quando, por exemplo, seu colega Victor Moreno matou um preso a socos e todos por ali fingiram não perceber. Mas suas defesas emocionais lhe diziam, insistentemente, que a missão policial é incompatível com a revolução, ou mesmo com a reforma moral do mundo cruel. Polícia executa ordens.

Jamais vira, no entanto, algo parecido com aquilo à sua frente: quatro rapazes de pouco mais de vinte anos e uma moça da mesma idade, filhos de pais muito conhecidos, um deles ex-ministro do Tribunal Municipal de Contas. Presos, humilhados, aqueles jovens não pareciam perceber a gravidade da situação; sorriam, beatificamente.

Jamais imaginou, o doutor Acosta, que o delírio religioso pudesse prosperar na classe média alta. Ele estava mais acostumado com os bêbados, drogados e estupradores ricos. Não cansava de comentar, com seus colegas e com um ou outro jornalista de confiança, que as taras da elite são muito mais assustadoras do que as do povo.

Virou-se para Marcos Fernando, exatamente o filho do ex-ministro, e que parecia ser o líder da turma:

“Não sei o que fazer com vocês, rapaz. É um crime sério, violação de sepulturas…”

“O senhor deve fazer o que sua consciência mandar”, disse Marcos Fernando, com voz de Jesus de filme dublado de tevê. “Talvez a divulgação da nossa prisão, e dos nossos motivos, faça despertar a consciência das pessoas, e a gente consiga, antes do que imagina, atingir o objetivo.”

“Olha, garoto, tudo bem, eu entendi que vocês querem clonar o Menino Ariel, e para isso precisam de material genético; também é lógico que este material esteja nos restos do Menino, OK, OK, mas clonagem é uma técnica complexa. Quem iria fazer isso para vocês?”

Marcos Fernando apenas sorriu, docemente, mas foi Christine, que era tão linda como louca, que respondeu:

“Não lhe diremos nem sob tortura, doutor Acosta. Mas o senhor não deveria duvidar da capacidade dos jovens brasileiros.”

‘Bem, já sei que é jovem e brasileira a face científica do grupo’, pensou o delegado. ‘Ou então esta garota é muito viva e está me dando uma pista falsa’.

“Tá bom, tá bom!”, ele desabafou, dirigindo-se a todo o grupo e parecendo encerrar o assunto. Na porta da sala, o policial Alcântara, que lavrara o flagrante, permanecia de pé, como se esperasse uma recompensa por caça tão nobre. O delegado fez um sinal para que o policial se retirasse. Iria resolver aquele caso politicamente, o que não era de seu feitio. Mas devia pensar.

O Menino Ariel morrera de crupe no começo do século passado e desde então as romarias ao túmulo aumentavam a cada ano. Todos os dias, flores frescas enfeitavam a pequena tumba de mármore. No último dois de novembro, uma multidão difícil de calcular atravancara o pequeno cemitério no centro da cidade. Todos os jornais, perplexos, noticiaram.

Na própria família do delegado, ele relembrou, haviam-se registrado duas intervenções do Menino Ariel: uma prima sua fora liberta de um câncer devastador, sem que tivesse havido qualquer explicação científica; e o tio João livrara-se do alcoolismo. Milagres, sem dúvida. Sobretudo o que tirou o tio João da cachaça.

Doutor Acosta ficou andando, de um lado para outro, em frente ao grupo que continuava de pé, apesar das cadeiras que lhe foram oferecidas, e sem quaisquer sinais de tensão, apreensão.

“E vocês acham mesmo que o clone do Menino Ariel, redivivo no século vinte e um, cumpriria as mesmas funções do seu… antecessor?”

“O senhor sabe a resposta”, disse Hermes, um outro do grupo, louro de cabelos finos e longos.

“Não, não sei!”, protestou o policial. “Ou melhor: eu me inclino a responder que não, que vocês estão loucos, misturando tecnologia de ponta com misticismo primário.”

Disse isso e foi procurar o policial Alcântara, que não parecia conformado de ficar do lado de fora.

“Alcântara”, falou o delegado com sinceridade, “acho que você está prestes a concluir o caso da sua vida.”

“Pois não, doutor.”

“Você vai ficar de olho nesses caras”, foi explicando o doutor Acosta, “que em pouco tempo eles vão levar você ao louco que teria condições técnicas de fazer uma clonagem. Talvez um biólogo.”

“O senhor vai soltar eles, doutor?”

“Vou, porque o importante é encontrar o executor do crime.”

“Violar cemitério é crime, mas clonar também é crime?”, perguntou Alcântara, bem mais esperto do que parecia.

“É, sim.” Doutor Acosta correu de volta à sala.

“Meninos, vocês estão soltos. Tiveram muita sorte porque era meu o plantão.”

Os três não tiveram qualquer reação e foram saindo.

‘Meu Deus’, disse a si mesmo o policial. ‘Os ricos que estupram crianças, que se embebedam de madrugada e atropelam pessoas, ou que cheiram pó, tomam LSD e fumam ópio estão se transformando em criminosos românticos. Daqui a pouco vamos ter saudades deles’.

Doutor Acosta concluiu que nem o Menino Ariel, milagroso ingênuo do começo do século vinte, teria paciência de enfrentar todas as formas contemporâneas de delírio humano.

O delegado fechou-se na sua sala, concentrou-se, rezou um Pai-Nosso, e pediu ao Menino Ariel que livrasse a sua família, sobretudo os seus futuros netos, do inferno que está por vir no nosso planeta. Depois, como sempre fazia quando rezava, pediu pelas almas daqueles que viu morrer, na tortura, e não denunciou, em nome da lei e da ordem.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

Read Full Post »

Era ali mesmo, naquele sobrado. Lá estava o aviso, colado à porta: “Precisa-se de secretária particular para pesquisadora psíquica”. Bati com força. Imaginei que surgiria à minha frente uma velhinha doce, aposentada da universidade, e maníaca por espiritismo.

Mas quem apareceu foi uma mulher de trinta e cinco anos, no máximo, de vestido longo de hippy velha, quase bonita, a pele muito branca, cabelos negros compridos e olhos verdes que pareciam pegar fogo quando se fixavam em algo ou alguém desconhecido. Era o meu caso.

“Antes de você entrar, menina”, disse-me madame Micheline, “vá logo dizendo o dia em que nasceu”.

Disse-o, automaticamente, e juntei a hora e os minutos. Sabia de cor, pois minha irmã tinha mania de fazer mapa astral.

“Hum…”, madame fez, coçando o queixo, “gostei muito dessa sua precisão. Acredita em astrologia?”

Eu fiquei em dúvida, um sim ou um não poderiam ser a despedida do emprego que ainda nem me fora oferecido. E ela, de pronto:

“Esperta, hem? Querendo dar a resposta certa… Pra mim tanto faz, menina, se você acredita ou não. Quando sair daqui você estará acreditando até em Papai Noel. OK: está contratada.”

“Mas, senhora, e o salário? E o meu currículo? O contrato…”

“Tirando o salário, pois só posso pagar três mínimos, o resto você me dá que eu assino. Detesto burocracia. Me rouba o tempo.”

“Tá bom, senhora. E quando começo?”

“Já. Trouxe roupa de cama?”

“Não… Mas, não seria o horário comercial?”

“Não existe isso, menina. Existe a vida. Horário comercial, sábados, domingos, o relógio, tudo isso é morte, burocracia… Aqui a gente trabalha e folga quando dá. Se você quiser eu pago extra. Me traga o papel que eu assino. Sem ler. Mas é pegar ou largar.”

Peguei. Não estava em condição de perder três mínimos. Disse-lhe que logo mais, no início da noite, iria buscar minhas roupas de dormir, ela aceitou, e lá fui eu atrás de madame Micheline, que logo me apresentou à sua sala de trabalho, no primeiro andar.

O que me chamou a atenção, de cara, foi a penumbra. Todas as janelas pareciam hermeticamente fechadas, havia um vago e agradável odor de incenso e algo mais, assim como uma neblina, um “ar gaseificado” que pairava pelo ambiente.

Era uma sala muito ampla, duas mesas de tamanho médio, uma chaise longue e quatro pequenas estantes, e umas seis cadeiras com espaldar de palhinha, móveis centenários e elegantes, junto às paredes claras. Em uma das mesas havia um jarro com água e três copos.

Parecia evidente que a intenção era a de manter o espaço o mais livre possível. Havia uma mulher usando um vestido engraçadamente antigo, de veludo azul, recostada na chaise longue; e um homem de terno risca de giz, em pé, de costas, ao lado dela. Havia também alguma coisa estranha no rosto da mulher, não exatamente sua lividez, mas a expressão alheada, um misto de doçura e inconsciência. Era bonita, magra, jovem, mas o seu rosto era um rosto de… nada. Esquisito… ela me parecia muito familiar. Me arrepiei.

“Seguinte, menina”, foi logo dizendo madame Micheline, sem me apresentar a ninguém e pegando um bloco de notas e uma caneta tinteiro que encontrara numa das mesas, “é importante que você descreva tudo o que acontece aqui, a partir de agora, pois há momentos em que eu viajo…”.

“Como?”

“Viajo, saio do corpo, vou dar uma volta nas estrelas”, ela concluiu, meio irritada. “Não sei se você percebeu, pelo anúncio: eu sou uma pesquisadora psíquica. Uma bruxa, vá lá. Está vendo aqueles dois ali?”

“Claro, madame.”

“Pois bem: só ele é real; ela é virtual.”

“Virtual? Como? Ela está ali…”

“Não, não está. Aquilo é uma projeção astral, uma imagem repercutida…”

“Um espírito?”

“Não, não e não. Aquilo ali é o daguerreótipo (porra, você não vai entender isso…) do espírito dela. Um não-ser, uma ilusão virtual. A senhora que produziu essa imagem já bateu as botas há muito tempo. Mas ficou puta da vida quando morreu. E aí ela se projetou junto aos parentes, enchendo o saco de todo mundo. Eu estou tentando resolver esse problema que, você há de convir, é bastante delicado.”

“Meu Deus!”

“Por que ‘meu Deus’? Está com medo?”

“Mais ou menos. A… a projeção não faz nada com a gente?”

“Não, coitada. Só não deixe que ela passe por perto ou através de você. É gelada. As pessoas podem pegar uma baita gripe quando essas coisas ficam animadinhas e pululam pela sala…”

“O que o homem é dela?”

“Bisneto. Quer vender o casarão da família, mas ninguém compra, porque essa figura aparece por lá o tempo todo. Não dá, né? Você comendo, você trepando, tomando banho, e um falso fantasma olhando pra sua cara. O último vigia da casa morreu do coração. Ninguém tem dúvidas que foi a belezinha aí. Bem, você já entendeu o que tem de fazer?”

“Já, madame, já.”

Puxei a cadeira mais próxima, sentei, cruzei as pernas, pus o bloquinho em cima da coxa.

Neste momento, o homem se voltou para nós. Um senhor bem-cuidado, bonito, deveria estar por volta dos setenta, setenta e dois anos.

“Madame”, ele disse baixinho, com voz rouca, “estou tentando falar com ela, mas não me ouve… Estou pedindo…”

“Eu lhe disse, seu Josué”, cortou madame Micheline, com uma certa grosseria, “que essa coisa aí não é ela, mas você é teimoso demais… Eu só lhe pedi para se concentrar na sua bisavó, ao lado aí da boneca de éter. Você não está vendo que essa coisa tem uma energia quase zero? Não percebe que é menos densa do que um fotograma projetado?”

“Não… não. Ela é a cara da minha bisavó… E quando o espírito de verdade vai aparecer?”

“Sei lá. Agora vou eu me concentrar, vou tentar novamente. Vamos ver.”

Madame Micheline pôs as duas mãos na cabeça, sentou-se no chão com as pernas trançadas como os iogues. Sua respiração ficava pesada, ela ofegava e se debatia um pouco, de vez em quando, como se alguém invisível a ameaçasse, ou empurrasse. Mas era uma mulher poderosa. A imagem, ao lado do homem, começou a se desvanecer, lenta e progressivamente, como se pedaços diáfanos de gaze se lhe soltassem do não-corpo e se espalhassem pela sala.

Aí fui eu que comecei a sentir os efeitos. Um turbilhão de energias mexeu-se dentro de mim.

Seu Josué, transtornado com o fenômeno da aparição que se diluía na sala escura, abriu a gravata, limpou o suor da testa com a mão direita. Aí ele me encarou.

Os seus olhos se foram esbugalhando, e ele, que já estava de pé, cambaleou e foi procurar a cadeira mais próxima. Jogou-se nela. Não tirava os olhos de mim, que devolvi o olhar, sem qualquer simpatia por ele. A essa altura, quase nada restara da imagem antiga. Ela se esvanecera, como uma nuvem.

Madame Micheline tirou o rosto das mãos em concha, olhou primeiro para a chaise longue, onde não havia mais ninguém.

“Eu sei. Eu sei que consegui”, disse ela, para si mesma, meio confusa. “Mas, onde está?”

Depois, a pesquisadora psíquica estranhou a expressão do homem, com os olhos fixos em mim, apoplético.

Madame Micheline virou-se, súbito, e me encarou.

“Puta que o pariu!”, gritou ela, ficando de pé num salto.

Eu comecei a ver o filme, um filme estranho, que se passava dentro da minha mente, como numa vertigem, a uma velocidade impossível, mas do qual eu poderia recordar todo e qualquer detalhe, de toda e qualquer cena. Eu era um bebê de um tempo muito antigo, depois menina no campo, era rica, extremamente rica, mas somente as casas, jardins, roupas pareciam belos, pois havia escravos e sofrimento; as pessoas morriam jovens, algumas ainda crianças. Aí ele surgiu, Hermano, um amor, carnal, violento, ele me esbofeteava, eu gozava, mas casamos e sofri muito nos partos; acabei morrendo jovem também. Não me conformei em deixar o meu mundo; primeiro tentei voltar, de todas as formas, mas só os bichos me viam e uma ou outra pessoa que se assustava com o meu aspecto… Depois, fui impedida por energias luminosas de pairar por dentro da casa, aí, com um esforço extraordinário, insano, criei uma réplica sem energia de mim mesma, jogando-a na casa e infernizando a vida da nova mulher de Hermano e até dos meus próprios filhos… Vaguei e vaguei anos a fio, e acabei acordando no corpo de uma menina pobre, que sou eu mesma, agora, no meio de uma sala, diante de uma mulher de olhos verdes que faíscam e de um velho apavorado.

“Puta que o pariu!”, repetiu madame Micheline. “Como fui idiota! Claro, claro, eu chamei e você veio…”

Depois ela me contaria que os fragmentos da velha imagem se haviam sobreposto ao meu próprio corpo, e eu me parecia, naquela hora, com as duas personalidades: a da vida anterior e a da vida atual.

“Olha aí, seu Josué, que roubada! Sua bisavó já encarnou de novo, é essa menina aí…”

“Mas a projeção, a imagem…”

“Era uma memória enviesada. Acabou, não volta mais, não faz sentido. Ela foi impressa por uma vontade de ferro. Sobreviveu a tudo. Mas nenhuma imagem pode sobreviver à consciência de quem a fez, um dia. Esta menina não quer assombrar ninguém. Agora, o senhor pode vender a porra da sua mansão.”

Eu é que fiquei exaurida, depois daquela experiência. O homem foi embora, mas antes tentou de todo jeito oferecer alguma coisa a madame Micheline, de dinheiro a favores. Ela não aceitou, para meu espanto. E me explicou, depois:

“Na hora em que aceitar dinheiro, caio no inferno em vida. Quem tem o dom não pode comercializá-lo… Por isso vivo fudida e só posso lhe pagar três mínimos, menina.”

A sensação que me ficou foi de um grande alívio. Havia, em mim, desde criança, uma espécie de pressão mental que se transmudava em tristeza e me tomava, de vez em quando, e me impedia de viver normalmente, de ter vida sexual, de sorrir com os amigos, ir a festas, sonhar.

Mas isso não foi nada diante do que testemunhei posteriormente, anos a fio, feito secretária, governanta, amiga e confidente de madame Micheline. Dois dias depois daqueles acontecimentos, em que me libertei das memórias ancestrais, comemoramos o aniversário da pesquisadora psíquica com uma torta modesta, porém deliciosa, recheada de calda de chocolate e sorvete de creme. Madame completara cento e doze anos, e disse, usando os palavrões de sempre, que sobre a contradição entre sua idade e seu aspecto físico ela não iria explicar porra nenhuma.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

 

Read Full Post »

Da última vez que a vi, ela me falou do poncho de estimação que lhe havia emprestado naquela viagem inesquecível a Machu Pichu.

A viagem fora feita com um grupo grande de jovens vibrantes, todos preocupados com as mesmas questões espirituais. Gracinha fazia parte daquela turma e já parecia estranha: guardava uma expressão sempre acabrunhada, era a última a aparecer no café da manhã da modestíssima pousada.

Fomos apresentados, na época, pelo meu melhor amigo, o Gilvan, que estudara com ela durante anos, num colégio chique da capital. Eu conhecera Gilvan durante o trote da faculdade e nos ligamos como se fôssemos irmãos.

“Sabe, Geraldo, eu, lá no fundo da amizade, amo esta Maria das Graças”, confessou-me, em Machu Pichu, no meio de uma trilha luminosa, admirando a graça com que ela escalava as pedras. Foi aí que reparei no potencial de Gracinha para semear emoções fortes. “Você não a acha linda?”, Gilvan me perguntou.

Eu não poderia dizer a verdade: que, para mim, ela jamais fora um ser humano, mas, sim, algo mitológico, fora do planeta, inatingível. Nem pensava direito se era alta ou baixa, mais pra gorda ou pra magra, e se usava óculos. Sua imagem me surgia, integrada, e era só vida, viço, uma deusa que eu deveria reverenciar. Se fosse descrevê-la fisicamente, diria apenas que era morena, de cabelos lisos e longos.

“Ela tem… muito charme”, respondi. “Por que será que está sempre parecendo mal-humorada?”

“Porque é mal-humorada, nasceu assim. Gracinha, eu acho, tem sérios problemas não resolvidos com o pai.”

“Já ficou com ela?” Eu tinha toda a intimidade com Gilvan para lhe fazer uma pergunta dessas.

“Já. E não foi bom. Sem detalhes.”

“Perdão. Eu só…”

“Esquece, Geraldo. Fui eu que puxei a conversa e me abri com você.”

Naturalmente, aquilo era um sinal para que não tocássemos mais no assunto e eu respeitava meu velho amigo. Como fazíamos parte do mesmo grupo de buscadores, eu haveria de me encontrar com Gracinha outras vezes, em vivências ou passeios a sítios especiais, todo mundo de mochila nas costas e muita disposição para grandes caminhadas. Gilvan estava sempre comigo.

Nas duas últimas viagens, leváramos as namoradas que, como um símbolo da nossa irmandade, eram gêmeas idênticas. Fomos obrigados a ouvir, e reagir com bom humor, as maldades: “Vocês não se confundem?”

E Gracinha sempre do mesmo jeito: atrasada para o café e de cara fechada. Lembro-me de uma vez que ela chamou a atenção por ficar conversando (nervosamente, a julgar pelos gestos que fazia) num telefone celular.

E aí veio a grande viagem ao deserto do Atacama. Desta vez, não havia namoradas gêmeas e nem Gilvan, doente de cama com uma ridícula catapora.

Dentro do avião, o olhar que ela trocou comigo revelou tudo: estávamos livres, nós dois, para nos entendermos melhor. Foi a primeira vez, também, que a vi sorrir espontaneamente (era uma campeã de sorrisos sociais), e aquele sorriso desmentia toda a imagem que havia feito dela: seus dentes grandes eram harmoniosamente assimétricos, como se fossem desenhados, e expressavam uma alegria doce.

No dia seguinte, já dormíamos juntos na minha tenda, ampla, aprazível. Numa das noites do deserto, como ela tiritava de frio, dei-lhe o meu poncho de estimação, dizendo-lhe que me devolvesse no fim da viagem. Ela e eu esquecemos.

Apesar de termos sido amantes intensos, de nos termos devorado até com surpreendente sadomasoquismo, não me desesperei para reencontrá-la após a volta da viagem. Algo esquisito, dentro de mim, dizendo que aquele encantamento não perduraria para sempre, me impedia de procurá-la. Achava que o mesmo se passava com ela. Telefonei, uma vez, para a casa dela, um homem de voz desagradável atendeu e despachou-me (seria o pai, com quem ela teria problemas?), dizendo “Maria das Graças não está e não sei se volta”.

“Poderá não voltar nunca?”, eu não consegui evitar a irritação.

“Espero que não.”

Não falei com meu amigo Gilvan sobre o affair no deserto, mas certamente alguém do grupo deve ter comentado com ele. Nossa amizade nunca mais foi a mesma e acho que não só por causa de Gracinha, mas porque estávamos entrando no último ano de faculdade, quando a vida profissional se inicia, de fato; ou talvez porque ele encontrara a mulher da sua vida; ou porque, apesar de não ter qualquer compromisso com Gracinha, tenha-se sentido mesmo traído. Ainda nos vimos algumas vezes, eu estive no seu casamento, mesmo estranhando que não me tivesse chamado para padrinho; depois ele viajou para um longo estágio na Alemanha, e aí, definitivamente, perdi-o de vista.

Dois anos após aquela viagem do Atacama, encontrei-me com Gracinha numa sessão de cinema, ela acompanhada de um homem mais velho, completamente calvo, e eu com uma das inúmeras mulheres com que tentava me envolver, sem sucesso. Cumprimentamo-nos quase friamente, mas senti nela uma emoção trêmula, quando, tomando-lhe a mão, beijei-a no rosto. Ao me afastar, tive a impressão de ter visto um esboço de lágrimas nos seus olhos negros. E eu também me perturbei, a ponto de a moça que me acompanhava ter-me repelido, depois, por um bom tempo.

Após o emocionado cumprimento, apresentamos nossos parceiros, e ela confessou sua vergonha de não me ter devolvido o poncho.

“Não se preocupe, Gracinha, não precisei dele nem viajo mais, já perdi minha juventude”, disse-lhe, com uma amargura que não possuo.

“Percebo que esse poncho é uma víbora da juventude”, interrompeu o careca, com um gesto dramático. “As víboras da juventude são as mais perigosas.”

Gracinha lançou-lhe um olhar caridoso e esta foi a última imagem que guardei dela.

E agora, trinta anos depois, ela me surge à frente na recepção que o embaixador do Brasil oferece a empresários americanos e brasileiros, em Washington. Olho para ela e nasce, na minha mente, entre inúmeras possibilidades, o déjà-vu do encontro no cinema. Pois ali está ela, graciosamente envelhecida, ao lado do mesmo homem calvo para quem o tempo fora devastador.

Ela fica paralisada ao me ver. Ele me parece distraído, vagando nos mundos pré-morte a que alguns idosos se entregam, mesmo socialmente. Eu, como sempre, estou sozinho.

Ela me abraça apertado, sem dizer nada, e me beija longamente no rosto. Quando nos afastamos, percebo que lágrimas correm dos seus olhos. Eu sinto (estou sentindo) uma emoção aguda, de difícil definição, intolerável e prazerosa ao mesmo tempo.

“Geraldo, a única diferença que há em você é o cabelo branco. E agora, finalmente, você tem cara de homem. Antes, tinha rosto de guri.”

Ela continua sendo, agora mais do que nunca, aquela mulher do Atacama que me amara com os dentes e as unhas, literalmente.

“Você conhece, não, o… ”, ela diz, enquanto me apresenta, pela segunda vez, o velhinho.

“Sim, no cinema, você estava com ele. Aí você se desculpou porque não me devolveu o poncho e ele disse uma frase que jamais esqueci.”

Olho no olho do homem, mas duvido que ele me ouça.

“Que eu disse…?”, ele balbucia, conservando sua entonação teatral. Ouviu, sim.

“Disse que o poncho era uma víbora da juventude.”

O homem sorri, esculpindo, no rosto, um incrível painel de rugas.

“Não é minha, a frase”, diz, com uma expressão que me pareceu piedosa. “Era do meu pai, quando se referia a uma lembrança importante dos vinte anos. Uma expressão poética, quase um verso.”

A conversa toma um caminho perigoso e resolvo fugir dela, perguntando qualquer coisa sobre a recepção, mas o homem volta ao assunto.

“Sabe, meu caro, existe alguma coisa entre você e minha filha; pode ser uma víbora. Tenha cuidado.”

“Pare com isso, ciumento!”, ela diz ao idoso, reanimando-o com um tapinha nas costas.

Tenho dificuldade para voltar ao normal, depois do baque. Pai? Eu poderia tê-la procurado, após o encontro no cinema, mas um marido, como tinha certeza de que ele era, é um empecilho respeitável. Sobretudo para nós, buscadores, que levamos em conta as tibiezas da alma e acreditamos em leis ancestrais.

“E sua esposa, como está?”, ela me pergunta, apesar de já ter-me checado os dedos nus.

“Nunca me casei, Gracinha. Você também não, não é mesmo?”

“Não. Mas tenho dois filhos adolescentes, que adotei.”

“Eu nem isso. Diga-me uma coisa: você encontrou o que procurava?”

Ela faz um gesto para que espere, encaminha-se a uma cadeira vazia e ajuda o pai a se acomodar. Volta com um sorriso feliz que só ofereceu aos eleitos, duas a três vezes na vida.

“Eu me achei duas vezes na vida, Geraldo”, ela vai me dizendo. “Com vinte e dois anos, quando desisti até de viver, desesperada com meus problemas em casa, e aí você apareceu no deserto; eu pensava em você o tempo todo. Hoje, estava vazia, deprimida, mais ou menos como naquela época, e você me surge de novo.”

Olho para ela me sentindo febril; febre, mesmo, o corpo incendiando. Todos os mistérios antigos, mitos e filosofias são resolvidos dentro da minha mente, em segundos. Não me lembro de ter dado suspiro tão sentido.

Ainda naquela noite, Maria das Graças me confessaria que fora amante do próprio pai, durante quase todo esse tempo, e que o fato de eu não tê-la procurado antes, nem ela a mim, chama-se, como dizíamos em Atacama e outros lugares míticos, ‘intuição de buscador’.

“Está muito chocado?”, ela me pergunta com um sorriso perscrutador nascendo no rosto.

“Estou com cinquenta e cinco anos e acabo de decidir que não preciso buscar mais nada”, respondo.

Algo me atinge o pescoço, a glote se fecha, o que não me atrapalha o sorriso demencial. Mas não tenho dúvida de que sobreviverei ao bote.

Do livro “Memórias Embriagadas” – Editora Noovha América, São Paulo, 2008.

Read Full Post »

Calcinhas de atropelamento

Tia Isaurinha gostava de poucas coisas: da Rússia (mesmo naquela época, jamais citou a expressão “União Soviética”); dos grandes marginais; e de lingerie quase exclusiva.

Suas parcas rendas eram investidas em livros, boa parte erudita, e em sutiãs e calcinhas. A roupa normal, ela não dava a mínima. Se as irmãs a presenteavam com saias, blusas, vestidos tomara-que-caia e terninhos, todos bastante usados, a tia agradecia com um gesto irônico de cabeça, acompanhado de um “muuuuuito obrigada, alma boa”. Como poderia ser vaidosa somente “por baixo”?, eu me perguntava.

Era a irmã mais nova do meu pai, e é claro que jamais tive a pretensão de entendê-la, assim como o resto dos meus tios. Havia, neles todos, um traço de tragédia que não consigo explicar direito, algo assim como uma constante preparação para quebras inesperadas de rotina. Quem poderia imaginar, por exemplo, que um louco furioso invadisse a nossa casa, com um punhal nas mãos, procurando uma próxima vítima? Pois meu pai previu uma cena dessas. Sempre trancava o portão a cadeado, isso às dez da manhã, e nos batia, a mim e ao meu irmão, se não tomássemos o mesmo cuidado. “Um dia um doido vai nos atacar a punhal!”, berrava ele.

Pois, um dia, um pobre homem em farrapos, os olhos esbugalhados, como se fosse um ator fazendo papel de louco, irrompeu pela nossa rua com um punhal na mão. Diante do pânico total, gente correndo e batendo portas, mães histéricas gritando pelos filhos que andavam livres no bairro, meu pai gritou, do terraço da casa: “Aqui você não vai entrar, imbecil! Experimente, experimente!”.

O pobre homem nem chegou perto. Foi atingido no ombro e no pescoço pelos chumbinhos da espingarda do vizinho ao lado e, quando viu o próprio sangue, largou o punhal, sentou-se na calçada e começou a chorar baixinho.

Morávamos numa mesma casa, imensa, com jardins na frente e largos oitões, meus pais, meu irmão, eu e tia Isaurinha. Mas todos os meus tios e tias moravam por perto. Eu era o preferido da “doidinha”.

“Você vai ser intelectual”, ela me dizia, brincando, “porque é preguiçoso demais. Deve pensar mais do que os outros.”

Certa vez, aproveitando a liberdade que ela me dava, e perturbado pelo mistério da lingerie de alto padrão, que vivia comprando, especulei:

“A minha mãe me disse que a senhora iria sair amanhã para visitar o comércio. Posso saber o que vai comprar?”

“Idiota. Você já sabe o que eu compro: só livros e as minhas calcinhas de atropelamento.”

“De atropelamento?”

“Bem, compro uns sutiãs também. Mas o importante são as calcinhas. Meu filho: você sabe que eu sou míope mas me recuso a usar óculos na rua. Aí eu saio tateando por aí, me distraio, não vejo o carro, e pum! Lá vou eu jogada a cinco, dez metros de distância, caio no asfalto, morta, ensanguentada. Na queda, a minha saia se levanta e quase me cobre o rosto. Então os populares cercam meu corpo. E comentam: ‘vejam só que mulher relaxada; olha as calcinhas dela, que horror!’ Não, não, meu sobrinho, isso jamais acontecerá comigo! Quando os populares olharem para o despudor do meu corpo defunto, vão ter o prazer de apreciar as mais belas calcinhas da cidade…”

Essa mania de morte violenta era recorrente nela (tia Isaurinha costumava afirmar que a maior solidão que um ser humano poderia experimentar era a de morrer esticado no asfalto), assim como no resto da família. Meu pai, além da história do louco com o punhal, imaginava-se num avião que começava a cair, “e eu no banheiro, sentado na privada e com vergonha de abrir a porta”.

Tia Rosinha, outra irmã dele, não permitia que nenhum homem desconhecido entrasse na sua casa carregando uma mala. “Vai me matar e me fazer em pedacinhos e sair pela rua sem que ninguém desconfie.”

Morreram todos na cama; se não como passarinhos, quase. A única exceção foi mesmo tia Isaurinha. Acho que ela se tornou a primeira vítima de bala perdida no Brasil. Vinha pela rua, atrapalhada pela miopia, as roupas gastas, carregando um exemplar de “Nostra Señora de Rusia”, de um escritor argentino maldito, quando uma bala de fuzil a atingiu pelas costas. Nas ruas, estudantes reagiam ao golpe de 1964 e alguns soldados começaram a atirar neles. Nenhum estudante saiu ferido. Tia Isaurinha, a quase dois quarteirões de distância, acabou atingida.

Já chegou morta no pronto-socorro. Os médicos perceberam que seu sutiã era francês, de rendas bicolores delicadíssimas. E que o bordado das suas calcinhas era de dar inveja a atriz do cinema. Mas não havia populares entre os que a viram naquele estado de graça.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

 

Read Full Post »