Feeds:
Posts
Comentários

Archive for 7 de novembro de 2010

Calcinhas de atropelamento

Tia Isaurinha gostava de poucas coisas: da Rússia (mesmo naquela época, jamais citou a expressão “União Soviética”); dos grandes marginais; e de lingerie quase exclusiva.

Suas parcas rendas eram investidas em livros, boa parte erudita, e em sutiãs e calcinhas. A roupa normal, ela não dava a mínima. Se as irmãs a presenteavam com saias, blusas, vestidos tomara-que-caia e terninhos, todos bastante usados, a tia agradecia com um gesto irônico de cabeça, acompanhado de um “muuuuuito obrigada, alma boa”. Como poderia ser vaidosa somente “por baixo”?, eu me perguntava.

Era a irmã mais nova do meu pai, e é claro que jamais tive a pretensão de entendê-la, assim como o resto dos meus tios. Havia, neles todos, um traço de tragédia que não consigo explicar direito, algo assim como uma constante preparação para quebras inesperadas de rotina. Quem poderia imaginar, por exemplo, que um louco furioso invadisse a nossa casa, com um punhal nas mãos, procurando uma próxima vítima? Pois meu pai previu uma cena dessas. Sempre trancava o portão a cadeado, isso às dez da manhã, e nos batia, a mim e ao meu irmão, se não tomássemos o mesmo cuidado. “Um dia um doido vai nos atacar a punhal!”, berrava ele.

Pois, um dia, um pobre homem em farrapos, os olhos esbugalhados, como se fosse um ator fazendo papel de louco, irrompeu pela nossa rua com um punhal na mão. Diante do pânico total, gente correndo e batendo portas, mães histéricas gritando pelos filhos que andavam livres no bairro, meu pai gritou, do terraço da casa: “Aqui você não vai entrar, imbecil! Experimente, experimente!”.

O pobre homem nem chegou perto. Foi atingido no ombro e no pescoço pelos chumbinhos da espingarda do vizinho ao lado e, quando viu o próprio sangue, largou o punhal, sentou-se na calçada e começou a chorar baixinho.

Morávamos numa mesma casa, imensa, com jardins na frente e largos oitões, meus pais, meu irmão, eu e tia Isaurinha. Mas todos os meus tios e tias moravam por perto. Eu era o preferido da “doidinha”.

“Você vai ser intelectual”, ela me dizia, brincando, “porque é preguiçoso demais. Deve pensar mais do que os outros.”

Certa vez, aproveitando a liberdade que ela me dava, e perturbado pelo mistério da lingerie de alto padrão, que vivia comprando, especulei:

“A minha mãe me disse que a senhora iria sair amanhã para visitar o comércio. Posso saber o que vai comprar?”

“Idiota. Você já sabe o que eu compro: só livros e as minhas calcinhas de atropelamento.”

“De atropelamento?”

“Bem, compro uns sutiãs também. Mas o importante são as calcinhas. Meu filho: você sabe que eu sou míope mas me recuso a usar óculos na rua. Aí eu saio tateando por aí, me distraio, não vejo o carro, e pum! Lá vou eu jogada a cinco, dez metros de distância, caio no asfalto, morta, ensanguentada. Na queda, a minha saia se levanta e quase me cobre o rosto. Então os populares cercam meu corpo. E comentam: ‘vejam só que mulher relaxada; olha as calcinhas dela, que horror!’ Não, não, meu sobrinho, isso jamais acontecerá comigo! Quando os populares olharem para o despudor do meu corpo defunto, vão ter o prazer de apreciar as mais belas calcinhas da cidade…”

Essa mania de morte violenta era recorrente nela (tia Isaurinha costumava afirmar que a maior solidão que um ser humano poderia experimentar era a de morrer esticado no asfalto), assim como no resto da família. Meu pai, além da história do louco com o punhal, imaginava-se num avião que começava a cair, “e eu no banheiro, sentado na privada e com vergonha de abrir a porta”.

Tia Rosinha, outra irmã dele, não permitia que nenhum homem desconhecido entrasse na sua casa carregando uma mala. “Vai me matar e me fazer em pedacinhos e sair pela rua sem que ninguém desconfie.”

Morreram todos na cama; se não como passarinhos, quase. A única exceção foi mesmo tia Isaurinha. Acho que ela se tornou a primeira vítima de bala perdida no Brasil. Vinha pela rua, atrapalhada pela miopia, as roupas gastas, carregando um exemplar de “Nostra Señora de Rusia”, de um escritor argentino maldito, quando uma bala de fuzil a atingiu pelas costas. Nas ruas, estudantes reagiam ao golpe de 1964 e alguns soldados começaram a atirar neles. Nenhum estudante saiu ferido. Tia Isaurinha, a quase dois quarteirões de distância, acabou atingida.

Já chegou morta no pronto-socorro. Os médicos perceberam que seu sutiã era francês, de rendas bicolores delicadíssimas. E que o bordado das suas calcinhas era de dar inveja a atriz do cinema. Mas não havia populares entre os que a viram naquele estado de graça.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

 

Read Full Post »