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Archive for dezembro \26\UTC 2010

O diretor de segurança perguntou a si mesmo muitas vezes, naquela semana, porque havia aceito aquele maldito cargo no condomínio gigantesco. Cinco prédios. Mil e quinhentas pessoas. O presidente do condomínio, major Setúbal, preferia dizer “mil e quinhentas almas”. O diretor achava engraçado: como se estivessem todos mortos.

De certa maneira era verdade. O próprio major, com a idade que tinha, e os achaques cada vez mais freqüentes, não parecia exatamente um ser vivente. Mas como enchia o saco!

O major-presidente vivia sobressaltando a todos, no meio das reuniões da diretoria, quando, após qualquer contrariedade, era tomado de ódio tragicômico, avermelhava o rosto e caía duro, literalmente. Quando todo mundo entrava em pânico (“morreu! morreu!”) e a ambulância chegava à esquina, se esgoelando, o major abria os olhos e repetia velhas perguntas de romances arcaicos: “Onde estou? O que aconteceu?”

Conviver com o major e com a velharia toda que o acompanhava na administração já não era fácil. E agora, com aquele mistério das tulhas de cocô que alguém fazia aparecer em locais realmente insuspeitados, como o refeitório (duas vezes), a academia de ginástica, e a “sala dos brasões”, um espaço ridículo que só existia por força da vaidade provecta do major e dos seus amigos; eles, que formavam um certo “Clube dos Cavaleiros”, contemplavam aquelas imagens de escudos esquisitos, mostrando leõezinhos de rabo virado, coroas, bandeiras, e outros desenhos estranhos, e afirmavam que, ali, naquelas figuras, reconheciam sua verdadeira origem.

“Não tem curiosidade de saber de onde vem sua família, seu Maia?”, perguntavam-lhe os velhinhos.

“Nenhuma”, respondia o jovem diretor de segurança, para espanto deles.

Era, verdadeiramente, um estranho no grupo e isso só se justificava pelo fracasso do último diretor que, aos setenta e seis anos, além de ter-se dado um tiro no próprio pé (literalmente), durante uma confusão entre adolescentes, usava o cargo para obter favores sexuais das empregadinhas. Apelidado de “Kid Gatilho”, transformou-se numa espécie de atração turística do condomínio. Os rapazes pregavam-lhe peças, estourando bombas juninas à sua passagem, passando-lhe trotes por telefone ou enviando-lhe revistas pornográficas.

O condomínio carecia, realmente, de uma nova liderança e o Maia que, além de jovem, jogava futebol com a molecada e reclamava de tudo, foi o escolhido. Eleito por unanimidade. Tentou cair fora, mas o major Setúbal fora duro e direto:

“Se não aceitar o cargo, jamais lhe darei direito a uma reclamação, seja qual for…”

Ele pensou bem, e aceitou. Mas agora a coisa se complicara. Superara, sem grandes traumas, os trotes que começou a receber: do outro lado, alguém gemia, como se estivesse em pleno ato sexual, e lhe pronunciava o nome, com interjeições devassas. O pior: era mulher. Conversou com uns amigos na companhia telefônica e acabou descobrindo a origem: a casa do respeitável Doutor Rebouças, que vivia ali com esposa e duas filhas. Convocou as duas, que não passavam dos vinte anos, comunicou-lhes a descoberta e concluiu:

“Certamente alguém usa sua casa para fazer essas coisas. Mas cabe a vocês descobrir quem é…”

“Fui eu mesma que fiz”, respondeu a mais velha, com olhos cúpidos, enquanto a outra ria, divertida. “É que acho você o maior tesão.”

Encerrou a reunião imediatamente, disse que não estava ali para brincadeiras, mas até que se sentiu vaidoso. ‘Agora entendi por que o poder subiu à cabeça do meu antecessor’, pensou consigo. ‘Preciso me cuidar’.

E assim foi resolvendo os pequenos problemas, conversando com um e outro, descobrindo quem roubava bicicletas, ou quem atirava dardos envenenados nos gatos de rua que invadiam a área. Mas aquela história do cocô era demais. Da última vez, um monte de bosta surgiu no banco traseiro do Mercedes de seu Adelino, o empresário de construção, que exigiu do condomínio a troca do forro.

“Já lavei três vezes e o cheiro não sai! Vocês têm de dar um jeito nisso!”

Marcou uma reunião com o major Setúbal, reservada, e propôs a contratação de detetives.

“Com que dinheiro, seu Maia?”

“Ora, de uma reserva qualquer, a gente precisa descobrir essa história…”

“Impossível. Só a convenção de condomínio pode autorizar gastos extras.”

A tulha seguinte chegou dentro de uma cesta de flores, deixada na portaria do prédio e endereçada ao próprio presidente. O porteiro desconfiou por causa do odor estranho, nada floral, e chamou o diretor de segurança que se encontrava no meio de uma reunião de trabalho, longe do condomínio.

“Tô trabalhando aqui, Lisomar.”

“Mas veio com um bilhete, seu Maia.”

“Ah, é? Então já já chego aí.”

O bilhete, assinado por mais de vinte nomes de mulheres, revelava que a brincadeira havia sido inventada por um certo “Movimento Feminista O Grelo”, cujo objetivo era “entregar o poder do condomínio a mãos mais competentes e sensíveis, capazes de interpretarem os anseios comunitários gerais”. E ameaçava transformar aquele espaço num bostal sem fim. Desconfiado, o diretor foi verificar nome por nome. Todos fictícios.

No dia seguinte, três ocorrências: um monte de merda surgira dentro de um armário, na Sala de Ginástica; outro na mesinha usada pelo professor de tênis, num canto da quadra; e o último, que revelava grande ousadia, não era exatamente um monte, mas dois imensos cocôs, individuais, que chamavam a atenção pelo tamanho descomunal e a ausência de odor, surgiu sobre a cabeça da réplica do Discóbolo que enfeitava a entrada do condomínio. Examinados, viu-se que eram de plástico, tão idêntico ao original como a própria réplica.

Mais um dia e surgiram tulhas de verdade na capela, em vários bancos, e aí o jovem diretor de segurança decidiu chamar a polícia, sem consultar sequer o Major Setúbal.

Um delegado e um tira comum chegaram em menos de uma hora, com risos sarcásticos no rosto. Seguiram para a sala de reuniões, onde o diretor sentiu um cheiro estranho, que atribuiu a uma certa mania de perseguição. Mas o delegado, logo após aboletar-se na poltrona negra, saltou, incomodado, e logo descobriu uma pequena tulha debaixo da almofada.

“Bem”, disse o delegado, sério, “vamos começar examinando o material em laboratório”.

“Pra que?”, perguntou o diretor de segurança.

“Bem. Pra saber se tem alguma coisa especial…”, respondeu o delegado.

“O que? Vermes?”

“Sei lá. Alguma pista…”

Aí desistiu da polícia. Até porque o Major Setúbal chegou, gabando-se da sua condição de oficial da reserva do Exército, e dispensando os policiais.

“Foi um erro chamar os senhores… Nosso diretor de segurança é ainda muito verde…”

Mais um dia e a calamidade se instaurara. Surgiram cocôs em todos os ambientes do condomínio. Maia reuniu-se com a mulher e os filhos, que ainda eram pequenos, de dez e doze anos, e perguntou se eles se incomodariam de mudar dali.

“Mas o apartamento é nosso”, reagiu a mulher. “E fizemos muito sacrifício para pagá-lo…”

Tudo isso era verdade, ele reconheceu, mas estava à beira da loucura. Tanto que, após essa conversa, saiu do apartamento em direção à sala de reuniões, onde pretendia, no computador da segurança, digitar sua carta de demissão. Aí viu que o doutor Golias, do edifício Girassol, carregava, furtivamente, um saco plástico, bastante suspeito. Ao se deparar com o diretor de segurança, gaguejou para articular um simples “bom dia” e continuou seu trajeto, quase correndo.

Mais adiante, dona Mirén, do edifício Uirapuru, olhava para dentro de uma grande bolsa escura, com uma certa cara de nojo… que haveria ali dentro? E, assim, o diretor foi flagrando um número inacreditável de condôminos em atitudes estranhas.

Resolveu convocar o Major Setúbal, pois afinal descobrira que todos eram culpados. E que, de algum modo, sentiam-se felizes por atentar contra a lei, uma forma, afinal, de fugir da rotina cruel a que pareciam submetidos.

Esse pensamento acabou por tirá-lo da depressão, e ele começou a listar as mudanças de comportamento a partir da primeira tulha aparecida. As inscrições para a prática de esportes haviam aumentado; os pedidos de reserva para festas nos três salões disponíveis dobraram; e percebia-se, mesmo, um certo desembaraço geral das relações humanas naquele microcosmo.

‘Talvez eles descubram alguma coisa menos desagradável para se expressar, se desrecalcar’, pensou o diretor de Segurança, achando que não valeria mesmo a pena sair atrás de outra comunidade para viver com a família. Aquela, pelo jeito, caminhava a passos decididos para a normalidade.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Via cavalos bravios a correrem por dentro da sala; ouvia o tropel deles, cascos sobre o piso de cerâmica.

Via cegonhas (ou seriam emas?) voando à altura do lustre trabalhado em cristal e seu Romão se espantava de que nada quebrava, nada saía do lugar. Por um motivo simples, talvez: as imagens em movimento nada tinham a ver com o fundo. Tratava-se, tão somente, de uma justaposição.

“Alguém já lhe disse, minha filha”, perguntou ele a Gezinha, ali perto, “que existem mundos sobrepostos, cada um vivendo sua própria energia? Que coisas radicalmente diferentes acontecem ao mesmo tempo, no mesmo espaço, no meio desta casa, por exemplo?”

Gezinha já ouvira falar nisso, é claro. Aprendera, desde criança, a respeitar as esquisitices do pai, ao contrário dos seus irmãos que agora riam do velho. De fato, Jovelino e Maria Antônia não tinham mesmo jeito: continuavam crianças, a rir de tudo, encarando a vida como uma festa. E o velho pai apenas servia de animação, talvez a mais criativa.

Mas seu Romão sempre fora assim. Antigamente, quando ainda era viva, a mãe dele, vó Augusta, é que contava, história atrás da outra, coisas que o filho fazia desde criança. O causo mais famoso era o do falso coronel Diogo Ascânio, o herói da cidadezinha, Santana do Monte, e do seu retorno triunfal ao povoado, após uma sangrenta batalha com os índios. Estes, normalmente pacíficos, haviam sido massacrados pelos brancos, liderados pelo coronel: era bala contra arco, flecha e borduna; mas as flechas estavam envenenadas.

Os brancos voltaram eufóricos. Haviam contado apenas uma baixa, de um almocreve sem prestígio, meeiro das roças de baixo, as piores e mais alagadas. Sabiam, apenas, que se chamava José. Levara uma flechada no meio do coração. O resto dos atingidos estava apenas ferido: João Sertão, com uma pancada na cabeça, roxa de as moscas quererem pousar; Sifrônio, com um rasgão nas costas, de flecha também, e já medicado com óleo de copaíba, para neutralizar o poderoso veneno; e um mestiço, Leô, que, no meio da briga, pisara em cobra de veneno fraco.

Santana do Monte ouviu os gritos e as risadas longe dos homens voltando a quase dois quilômetros de distância. As mulheres também riram, as crianças se alvoroçaram. Todos estavam preocupados, no entanto: deveria haver uma baixa ou outra, e não fazia sentido tanta alegria. O menino Romão, que não tinha mais de treze anos, virou-se para sua mãe Augusta e disse, olhando os olhos dela:

“Convém esperar, mãe. Não se fie pelas risadas.”

“Esperar o que, Romão?”

“O espectro. A primeira figura que aparecer na cidade não é um cavaleiro; ele e o cavalo são espectros, feitos pela mágica dos índios que estão agonizando.”

“Por que, meu filho? Morreram muitos índios?”

“Quase todos.”

“Ah, meu Deus”, choramingou Augusta, que admirava os selvagens e só se tratava, e ao menino, com os remédios deles. “E dos nossos, quantos morreram, menino?”

“Só o meeiro de que ninguém gostava.”

“Seu pai tá vivo?”

“Pai tá. Nem arranhão.”

“Então o espectro que está vindo na frente é do meeiro?”

“Não, é do coronel Diogo Ascânio.”

“Mas, ele morreu? Você disse que só um morreu…”

“O espectro existe antes da nossa morte, mãe. Todos nós temos o nosso.”

Por algum motivo, Augusta acreditou no provável delírio do filho e pediu ao pessoal que se reunira no barracão que só saísse quando todo mundo apontasse na estrada. Que deixasse o primeiro cavaleiro passar.”

“Por que, Augusta?”

“Pode ser cilada.”

“De quem, Augusta?”

“Não sei, façam o que digo.”

Todo mundo se lembrou, depois, dos olhos da figura do coronel Diogo: não fitavam coisa alguma, como acontece com os espectros. Os olhos do cavalo, também, pareciam feitos de pedra colorida. Mas os dois se moviam, e chegaram a dar uma meia-volta em frente ao barracão. Os gritos dos homens, no entanto, vinham mais atrás.

Ninguém conseguiu impedir que o velho Zé Sansão, poupado da guerra porque bebia demais, abrisse a porta lateral do barracão para abraçar o que ele imaginava ser o coronel. O cavalo fantasma empinou, o cavaleiro ergueu o braço e soltou um grito tão doloroso que o velho bêbado caiu ali mesmo, chafurdando na lama da estrada, e se debateu um pouco antes de morrer. Logo depois chegaram os homens, com o verdadeiro Diogo Ascânio à frente.

Todo mundo vira o acontecido e Augusta não guardou segredo sobre as previsões do seu moleque. O coronel, enquanto esteve no mundo, conversava de vez em quando com Romão: não se conformava de possuir um espectro em vida. Mas o menino, e depois o rapaz, e mais adiante o homem feito, sempre repetia: “Todos nós temos o nosso”.

Essa história vinha sendo contada há quase setenta anos e, agora, sua única testemunha era o próprio Romão. Que, durante a vida inteira, soubera muito mais do que falara, certamente com medo de ficar marcado como bruxo. Hoje, na extrema velhice, andava relaxando e contando as coisas que seus olhos extraordinários viam. Jovelino e Maria Antônia riam dele, preferiam cuidar dos porcos e dos cavalos. Agora era tudo mais fácil. Os caminhões traziam as coisas do mundo dos ricos e já não havia índios na floresta, só uns pobres mendigos que descendiam deles. Mas Gezinha levava o pai a sério, talvez porque imaginasse que, um dia, ele poderia prever a chegada do seu futuro marido a Santana do Monte. Esperava há cinqüenta anos esse momento.

“Continua enxergando muita coisa acontecendo no mesmo espaço, meu pai?”, ela perguntou carinhosamente ao velho Romão, que abriu um sorriso e coçou a barba branca, rala.

“Gezinha, lá perto do paiol, na curva das jabuticabeiras, tá vendo?”

“Tô. Um homem. Quem é, pai?”

“Eu. Eu vou me encontrar comigo, Gezinha. E você sabe que quando isso acontece…”

“Diz que vai morrer, não, pai…”, as lágrimas começaram a se formar nos olhos da mulher.

“Gezinha, não tenha medo dos meus olhos, quando meu espectro chegar mais perto, vindo lá do paiol. Esse duplo é assim mesmo; ele não vê, nem sente. Só espanta.”

Gezinha preferiu não ver o encontro. Correu pra dentro de casa e se trancou no quarto. Soube exatamente o momento da morte do pai com a sensibilidade que herdara dele. Seu corpo queimou, como se tivesse sido atacado por lacraus de fogo, e sua cabeça latejou do lado direito. Quando voltou, o velho estava recostado na cadeira de balanço, branco como uma vela. Seu rosto, no entanto, dizia que o encontro com o espectro não fora tão difícil assim. Romão sorria. E seu sorriso estava vivo, ainda.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

 

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Linda e disponível. Doidinha também, como hoje em dia são essas meninas. Talvez porque, estimuladas, quando ainda crianças, pela erotização promovida pela tevê, sintam-se mulheres feitas aos dezoito, dezenove anos. Aí vêm para estágios nas empresas e começam a paquerar homens mais velhos, experientes e vividos. Como eu.

Morena, seios duros, pontudos, coxas polposas que a minissaia potencializa e exalta, apesar das meias grossas; boa altura, cabelos cheirando a capim-limão. Ela não precisa me dizer nada, basta sorrir. Seu sorriso diz tudo.

Não chegou a ser direta, comigo, mas deu todas as dicas. Ofereceu-se numa bandeja oriental, cruzando as pernas à minha frente, ajeitando-se na cadeira de forma a fazer tremer os seios; sempre sorrindo.

“Aqui, na nossa empresa”, eu comecei a cantá-la, do meu jeito enviesado, não fosse eu um diretor de pessoal, “temos muita preocupação com o assédio sexual. Não o permitimos, sob nenhuma hipótese. Você é uma jovem estagiária, muito bonita, insinuante, e se for vítima de alguma investida, por favor, não deixe de falar comigo…”

“De tudo o que você disse, doutor Cláudio, o que eu ouvi melhor foi ‘você é bonita, insinuante’, porque eu gosto muito do senhor, e também acho o senhor bonito.”

Filha da puta, pensei. Inteligente, vai superar o estágio. Deixou-me à vontade para ir direto ao ponto. Com todo o cuidado possível. Havíamos tido problemas na empresa com alguns relacionamentos. A câmara instalada cientificamente (ninguém conseguia detectá-la) nos dois elevadores do prédio flagrou um amasso de cinema entre a secretária da Engenharia e o gerente de Informática. Casados, os dois pilantras. Como faziam tudo aquilo em poucos segundos de viagem era coisa para figurar no livro dos recordes. Eu, excitadíssimo, via e revia aqueles filmes, infelizmente em preto e branco e de péssima definição. Flagramos também seu Spina, chefe da manutenção, a manusear intimamente o garoto Figueiredo, coitado, que se fingia de morto com medo de perder o emprego. Despedimos todos, discretamente, dando um tempo entre uma demissão e outra e alegando outros motivos. Menos o garoto, é claro. Uma vítima.

Então, eu precisaria tomar muito cuidado com a minha nova estagiária, que se chamava Alba, mas que atendia pelo sensual apelido de “Banã”. Para conquistá-la, teria de estar a sós com ela, em algum lugar que não a minha sala. Iraídes, minha assistente há séculos, começara a desconfiar do jeito da moça e, o que é pior, da minha atitude condescendente. Iraídes era fiel e ciumenta, além de desprovida de qualquer encanto pessoal.

“Cláudio, que estranho, essa menina vive entrando na sua sala…”

“Muito insegura, coitadinha.”

“Insegura sou eu que tenho quase cem quilos! Ela é muito gostosa e muito esperta, isso sim.”

“Calma, Iraídes… Sabe, talvez você tenha razão. Talvez eu dê muita trela a essa menina. Vou lhe confessar, Iraídes: ela lembra muito a Graça, minha sobrinha, que morreu na flor da idade…”

“Oh, meu Deus, não sabia! Pensei que os filhos do seu irmão fossem pequenos…”

“Pelo amor de Deus, não toque no assunto com ninguém. Era filha de um relacionamento da juventude. Ele a sustentava, ajudava a mãe da menina, também. Ficou arrasado.”

“Meu Deus!” Morreu de que, a pobrezinha?”

“De hepatite B.”

“Ai, que horror!”

“Pois é.”

Minha assistente era mais crédula do que gorda. Acreditava em qualquer mentira sentimental. Mas redobrei os cuidados. Até usei as desconfianças de Iraídes como uma forma de avançar no meu objetivo.

“Banã”, eu fui lhe dizendo, num dia em que Iraídes não estava por perto, “minha assistente anda de olho em nós dois; acha que conversamos muito…”

“Que bom que você me chamou de Banã!”

“Você pediu.”

“Ai, que bom! Sabe, ela sente ciúmes de você. É um horror a gente ter tanta afinidade e não poder conversar…”

“Mas a gente pode…”

“Onde, quando? Eu quero!”

A partir daí, ficou mais fácil ainda. Bolei uma viagem, em pleno inverno, ao apartamento da família, na praia. Precisava mesmo dar uma olhada numas infiltrações. Mas não daria chance de que nos vissem juntos. Pelo telefone interno, acertei tudo com ela. Eu chegaria uma hora antes, diria ao porteiro que a “moça da imobiliária” iria me procurar. Perfeito.

Uma hora foi o suficiente para que eu armasse o ninho nos colchões que deixávamos na praia. Levei spray antimofo, champanhe, caviar, salmão defumado. Sentia-me como uma criança.

Ela bateu na porta, pontualmente. Uma deusa. O sorriso me pareceu um pouco tímido, mas é natural: apesar de experiente, um encontro com o chefe em uma outra cidade, num ambiente desconhecido… ela, afinal, não era uma profissional. Apesar de estar um pouco frio, ela dispensou as meias e veio com uma daquelas minissaias devastadoras. Eu fui enfiando as mãos por baixo da sua blusa, ainda na porta. Ela me deteve:

“Não, não, querido. Calma. Calma.”

Teve essa atitude discreta, um tanto escapista, durante algum tempo. Aí eu precisei ir ao banheiro. Na volta, ela era uma outra pessoa, de baby doll transparente, os seios querendo saltar sobre mim, carinhosos. Poucas vezes na minha vida senti-me tão feliz e másculo.

Não posso descrever nossa aventura corporal. Não há palavras. O champanhe e as iguarias foram até esquecidas pela nossa fome de amor. Amei-a como jamais o fiz com qualquer outra mulher, e não conseguia acreditar como uma menina tão jovem dominasse certas técnicas do mais requintado erotismo.

Eu disse que não havia palavras para descrever a relação. Mas sobraram imagens.

A uma certa altura, bateram forte na porta. “É a lei!”, anunciaram, para o meu quase passamento. A minha amada enrolou-se numa toalha e abriu a porta. Entraram três sujeitos, um pouco mais velhos do que ela.

“Tudo certo”, ela disse para eles. “Vou tomar um banho”, completou, e dirigiu-se ao banheiro sem sequer olhar para mim.

Eu nu, no meio da sala, tentando achar minha cueca. “Nem pense em fazer nada, seu diretor”, disse um dos rapazes.

Eu havia sido filmado, em cores, com alta definição, de todos os ângulos possíveis. Na mais constrangedora delas, vi as minhas nádegas, alvacentas, subindo e descendo no close de uma das câmaras. A quadrilha me obrigou a assistir a todo o vídeo numa tevê portátil que ela mesmo trouxe. Banã, de cabelinho molhado, assistiu junto conosco a uma boa parte. Ninguém dizia uma palavra.

No final, eles deixaram claro o que devo fazer lá na empresa, sobretudo com a conta da folha de pessoal e com a escolha dos fornecedores. Um golpe científico, tecnológico. Tão genial que tenho todas as chances de escapar ileso da tramóia, sem que a empresa ou a polícia desconfiem. Mas, se imaginar delatá-los, a fita cairá nas mãos da minha esposa, além de ser enviada ao meu presidente e a um outro presidente, o da Adepe – Associação Nacional dos Diretores de Pessoal. Banã, estagiária competente, ficará mais um tempo na empresa, trabalhando com naturalidade, para que não haja quaisquer desconfianças.

Bem. Posso fazer como os japoneses e beber saquê envenenado. Jogar-me da minha janela e morrer sem glória no meio da marquise. Mas não vou fazer nada disso. Sei lá, fiquei meio insensível depois dos primeiros dias de horror.

Para falar a verdade, só não perdôo o momento em que Banã, logo depois de abrir a porta para seus cúmplices (qual deles dormirá com ela?), correu ao banheiro sem trocar sequer um olhar comigo. De piedade, de escárnio, mas um olhar, um que fosse! Como se tivesse pressa de remover a sujeira da minha paixão.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Gosto deste shopping. Ele dá a sensação de que os produtos que compramos aqui são exclusivos. Como conseguem isso, não sei. Nem estou certo, também, se tiveram essa intenção. Estratégias de marketing me parecem, às vezes, tiros no escuro que acabam dando certo por motivos jamais imaginados pelos próprios marqueteiros. Esta é uma discussão bastante complicada.

Mas é possível que tenha sido algo deliberado, sim, no momento em que decidiram que todas as lojas, sem exceção, teriam de ser aconchegantes, com gente sorridente, cores suaves, poltronas confortáveis, tudo organizado por meio de uma decoração discreta e de bom gosto. É interessante, por exemplo, que existam, na maioria das lojas, pequenas fontes de água corrente, das mínimas, que cabem em uma mesinha, às de um metro por um metro, graciosas e criativas, com anjinhos barrocos a fazer xixi. Água corrente sempre me fez bem; faz a todo mundo, acredito. Então, as lojas transformaram-se em sítios onde você compra sem pressa e, por isso mesmo, compra muito mais.

Já andei bastante por aqui, desde que inauguraram, há uns trinta e cinco anos. Para consumidores preguiçosos, como eu, um shopping é uma delícia: tudo próximo, tudo fácil. Houve uma época de trottoir, também, e muito flertei por estas ruas. Depois, usei o shopping para passear com meus filhos, da infância à adolescência. Consumir, sempre o fiz com alegria e bom humor. Hoje não vai ser diferente.

Mas o produto é novo para mim. Jamais imaginei que, um dia, fosse obrigado a usar uma peruca. Na verdade, não sou. Olhando-me no espelho, no entanto, senti que não tinha o direito de assustar as pessoas com a minha calvície súbita.

Vaidoso? Talvez. Estético, é a definição mais precisa. Encontrei-me com Roger Stelita, meu velho colega de faculdade que, apesar do adiantado da idade, continua desagradavelmente irreverente.

“Trajano!”, ele gritou na rua, quando me viu e demorou um pouco a me reconhecer, “você assim, careca, ficou igualzinho a uma caceta”!

As pessoas que passavam por perto olharam para ele (e para mim) com uma certa pena. Mas ele se dobrou de dar risada.

“Ai, meu Deus! Ai meu Deus! Você me mata de rir, Trajano! Olha, garoto, se você puser uma gola rulê cor-de-rosa vai ser preso por atentado ao pudor!”

“Muito bem, Roger, muito bem!”, eu disse, sem outro comentário a fazer, e fui saindo, de mansinho.

“Ei, figura, a gente não se vê há dez anos e você já está caindo fora? Venha cá, vamos tomar uma aqui perto.”

Fui mais por piedade. O terno dele: antigo e amassado, cheio de manchas; a gravata fininha, fora de moda, com um excesso de flores coloridas. Roger possuía, também, alguns problemas ortodônticos jamais corrigidos que, com a idade, tornaram-se, digamos, odiosos.

Seu rosário de queixas me pareceu inédito, mas ele o desfiava rindo. A tragédia rondava-lhe o lar (perdera um filho num acidente de automóvel; a esposa sofria do Mal de Alzheimer e confundia Roger com o próprio avô dela) e já não conseguia manter sua segunda casa, para onde a amante, trinta anos mais nova do que ele, levara toda a família. Eu não tinha dúvida de que, no final da conversa, Roger iria me pedir algum dinheiro emprestado, mas não foi isso o que aconteceu.

“Quando quiser, então, Trajano, vá me visitar. Certamente eu terei mais desgraças para lhe contar. Mas diga-me qual endereço você vai preferir, se o da matriz ou o da filial. A vantagem, na matriz, é que Débora não irá reconhecê-lo. Isso facilitaria o nosso papo, pois não?”

Ele ria, ria de si mesmo, e, antes de se despedir, deu-me um conselho.

“Trajano, por que você não compra uma peruca? Vai ficar ridículo, mas em compensação você remoçará vinte anos. Tudo na vida tem as suas vantagens e as suas desvantagens, né mesmo?”

Disse “vantagens” e “desvantagens” imitando um humorista famoso que já perdera a graça havia anos.

“Roger, eu vim pro shopping exatamente para isso: comprar uma peruca.”

“Pois não lhe ajudo por um motivo muito simples: quem tem duas famílias leoninas não pode perder tempo. Estou fechando um negócio sujo com o governo. É o único jeito de ganhar um dinheirinho mais grosso.”

“Roger”, eu o parei, tocando-lhe o ombro, “sabe que a sua mulher… verdadeira tem razão?”

“Ah, é? Em quê?”

“Você está a cara do avô dela.”

Ele morreu de rir, não se embaraçou nem um pouco.

“Você resolveu me imitar, figuraça?”

Não foi uma ideia fácil de digerir, a de imitá-lo, mas logo voltei à minha pesquisa comercial. Alguém me havia dito que a loja de perucas ficava logo atrás da casa de vinhos. E, realmente, lá estava: o nome da lojinha era “coberturas” e, na vitrine, imagens de carecas famosos usando perucas de photo shop. Um achado do marketing! Todos pareciam mais simpáticos.

Lá dentro, somente eu e uma outra cliente, mulher de uns trinta anos. Será que ela procurava uma peça para o marido, vítima de entradas cada vez mais fundas? Ou queria dar um presente no Dia dos Pais ao seu querido velhinho sem pelos? Uma vendedora baixinha, gorducha, muito jovem e linda de rosto, veio me atender com aquele sorriso aberto que era a marca registrada do shopping.

“Posso ajudá-lo?”

“Muito. A senhora me vê…, não, senhora, não, você parece uma filha mais nova, ou até uma neta… você vê esse meu problema?”. Disse-o apontando para a minha própria cabeça, a “caceta”. “Preciso cobrir-me de novo, menina. Quero ser feliz. Olhar-me no espelho sem me sentir um ET…”

“Temos dezenas de opções maravilhosas para o senhor”, continuou o sorriso. “De que cor eram os seus cabelos?” (”Eram”, disse ela; nem sequer uma energia etérica ficou no lugar das madeixas; a calva parecia mesmo irreversível).

Fiquei mudo por um tempo.

“Bem, eram grisalhos.”

“Sim, mas a cor original?”

“Pretos. Quer dizer, não exatamente. Castanho-escuros quase pretos. É possível uma cor assim?”

“Desculpe-me, senhor, mas há o preto, o castanho-escuro e o castanho-claro. E outros tons mais claros ainda, até chegar ao loiro. Temos perucas grisalhas também, com a cor básica que o senhor quiser.”

Levei quase uma hora experimentando as perucas: a cada olhada no espelho, via uma outra pessoa, com um outro nome e personalidade diversa da minha. Com uma “cobertura” curta, castanho-escuro, por exemplo, senti-me um general aposentado, arrogante e manipulador. Mas, em todos os rostos, percebi um certo ar clown, ridículo e postiço ao mesmo tempo, inerente aos peruquentos.

“Minha filha, acho que vou desistir. Eu me acho horrível sem cabelo, mas fico pior de peruca. Com qualquer uma delas.”
“Por que o senhor não tenta o aplique? Gasta-se um pouco de dinheiro, mas há um método novo que se faz fio a fio. Fica perfeito. Nós podemos tratar disso. E o senhor só paga em dez vezes, no cartão.”

“Há dois problemas”, ponderei. “Não sei se o meu médico permitiria qualquer intervenção física, mesmo micro, até um simples implante de cabelo. Outra, é que pessoas como eu não devem fazer compras a prazo.”

Ela fingiu que não entendeu.

“Quimioterapia é uma estratégia arriscada. Ela pode matar o paciente”, esclareci.

A mocinha fez desfilar um silêncio social.

“Talvez o senhor tenha razão”, ela disse. “Mas sabe que não parece que o senhor esteja fazendo químio?”, mentiu ela. “Em geral, as pessoas ficam muito abatidas.”

“Bem, de qualquer forma, tenho quarenta por cento de chance do meu cabelo voltar. Segundo as estatísticas.”

Ela me desejou felicidades, sempre sorrindo, e no íntimo revoltada, certamente, por perder tempo com um sujeito que, apesar de estar sessenta por cento morto, continuava vaidoso. Melhor dizendo, esteta.

 

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007

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