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Archive for 2 de janeiro de 2011

“Sabe, dona Glorinha? Tem alguma coisa estranha com esse padre.”

“Tem nada. É um santo.”

“Eu ouvi.”

“Ouviu o que, Jandira?”

“A cantoria às três, quatro da manhã.”

“Melhor você se aquietar e não ficar espionando o homem, ouvindo por trás das portas.”

“Faço isso, não, dona Glorinha. Mas é que sofro de insônia, também. Ontem mesmo tomei quase um litro de chá de folha de maracujá, e nada, nada. É um inferno. Aí fiquei rodando pela casa, feito alma penada, e aí ouvi: ele cantando umas músicas de… amor.”

“De amor nada. É bossa- nova.”

“Ué, mas falava de ‘meu amor, minha coisinha, minha namorada’.”

“E o que é que você tem com isso, Jandira?”

“Deus me perdoe, tenho nada não. Tou dando graças ao Pai de ter arrumado esse trabalho depois de ter feito cinquenta anos. Tava me vendo na rua, pedindo esmola… Se a senhora quiser eu paro de falar. A senhora é minha chefa.”

“Que chefa, Jandira. Sou a coordenadora da Casa Paroquial, e só.”

“Hum… poderosa a senhora é. Mas eu tenho, sabe, a maior simpatia pelo padre Bicalho. Só achei engraçado ele ficar cantando às quatro da manhã, lá no quarto dele.”

“Olha, Jandira, você é bem esperta. Vou contar pra você, mas que isso não saia daqui; se eu ficar sabendo que você fofocou, você tá na rua.”

“Eu, fofocar? Credo em cruz!”

“Sabe, Jandira, isso é amor.”

“Amor? Amor de quem? Como?”

“O padre é um zumbi. Não dorme. No máximo, duas ou três horas por noite, só. Pensando na sirigaita.”

“Ah, é, dona Glorinha? Dor de cotovelo braba?”

“De arrasar, coitado… E esses ataques batem nele à noite. Ele sempre cantou, dizem, desde jovem, eu só estou aqui há vinte anos. Tocava bem violão, mas teve a artrite, aí…”

“Quantos anos padre Bicalho tem, dona Glorinha?”

“Setenta e lá vai chumbo.”

“Mas que tesão, quer dizer, me perdoe, que afeição.”

“Há uns seis meses comprou um karaokê moderno. Ele liga lá e vai cantando, acompanhando a música. Mês passado perdi a conta de uma tal de ‘Dindi’ que ele cantou. Virgem, eu não posso mais ouvir esse nome: Dindi.”

“A senhora também tem insônia, né, dona Glorinha?”

“Pesada. Hoje em dia, quem não tem? Mas olha, Jandira, você não fale isso pra ninguém.”

“Falar pra quem? Não tenho marido, nem filhos, minha família já morreu toda, só converso com a senhora.”

“Acho que esse foi o problema.”

“Que problema?”

“Do padre. Não poder ter família, filhos. Por Deus, Jandira, acho que a Igreja devia deixar os pobrezinhos se casarem.”

“Senhora acha?”

“Cê vê: um homem velho, um santo, tudo bem, nunca ouvi falar nada dele, mas um homem sem paz, sem sossego, por causa de uma sirigaita.”

“Ela era bonita?”

“Linda, de cinema. Vinha à missa todo dia.”

“Rica?”

“Milionária. Vinha de motorista. Loura. Sempre de roupa escura. Perfume importado. Ardia no nariz dos fiéis. Os lábios eram tão rosados que ela não precisava usar batom. Não era mulherzinha, não. Muito séria, não rebolava, nada. Mas sentava na primeira fila. De olho nele. E ele, coitado, levantando a eucaristia e de olho mole nela.”

“Que situação…”

“É padre mas não tá morto, né mesmo? Aí nasceu a paixão, homem com mulher, já viu…”

“Mas eles chegaram a se…”

“Pêra aí, Jandira. Como é que vou saber de uma coisa dessas se eu não estava aqui?”

“Como a senhora não estava?”

“Essas coisas já fazem muito tempo. Não sou tão velha assim.”

“Pera aí! A loura a senhora conheceu, não foi?”

“De ouvir falar.”

“Meu Deus: a senhora me descrevendo eu vi a mulher na minha frente.”

“É, foi o que me contaram.”

“Dona Glorinha, vamos pensar assim: se as pessoas que lhe contaram inventaram, digamos, uma historinha, isso quer dizer que não houve romance nenhum.”

“Ah, houve.”

“Mas a senhora não viu. E a senhora até dizia que ele é um santo.”

“Agora é santinho, sim. Velho é mais fácil. O apetite já não é o mesmo. O mundo todo viu a loura, Jandira. Caso sério.”

“Padre Bicalho pode ser inocente.”

“Que disse?”

“Pensando comigo… Ele pode gostar só de cantar… como é mesmo o nome das músicas?”

“Bossa-nova. Que inocente, nada! É homem. Tem aquilo, Jandira. Não escapa. Eu já o ouvi cantando uma tal de ‘Se todos fossem iguais a você’ com o maior sentimento! Pensando na loura. Só faltava chorar.”

“Coitado do padre Bicalho.”

“Por que coitado, Jandira?”

“Por nada não. É que neste mundo tem pecador demais.”

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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