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Archive for 16 de janeiro de 2011

“Gisele, lembra? Gisele Longano. Amiga lá do pessoal do Partido Comunista, na faculdade.”

“Gisele. Claro que lembro! Alta e magra, longilínea. Hoje seria modelo. Parece que a estou vendo, Armando.”

“Nem diga isso, Gustavo. Esse foi o meu problema, ontem. Há quanto tempo você não vê Gisele?”

“Ora, desde a faculdade. Espera: vi uma foto, dois anos depois da formatura, ela se casando.”

“Com Jocimar, um dos caras do PC.”

“Lembro dele também. Moreno escuro. Parecia hindu. Mas qual é o problema com a Gisele, Armando? Aconteceu alguma coisa com ela?”

“Gustavo, somos amigos há quarenta e cinco anos, desde a faculdade…”

“Não precisa me lembrar.”

“É íntimo, o que vou lhe dizer. A Gisele e eu tivemos um affair.”

“Agora?”

“Não, Gustavo. Logo depois da formatura. Ela queria me converter.”

“Por favor, piada não. Você, comunista?”

“Uai, ela tentou. Não sei se deu pra mim por causa disso ou se ficou envolvida.”

“Você não se envolveu?”

“Nunca. Na vida, só amei e amo a Camila.”

“Mas comeu a Gisele”.

“Quem não comeria a Gisele naquela época, Gustavo? Linda, de coxa comprida, seios mínimos, durinhos. E… ardente. Tomava a iniciativa. Você não imagina.”

“Imagino”.

“Foram seis meses de trepação desenfreada”.

“Meu Deus! A gente se via todo fim de semana, naquela época, e eu nem desconfiei. Come-quieto você, hem? Me conta, Armando: quem mais você traçou?”

“Não é o caso”.

“Don Juan. Barba Azul. Ricardão.”

“Para. O problema é outro, Gustavo. É que encontrei a Gisele ontem. Lá na Hípica.”

“Opa! Recuerdos. Excitação. Uma taça de Chateau Margot para comemorar…”

“Nada disso. Eu a reconheci, cumprimentei, apresentei-a à Camila. Gisele estava acompanhada de um filho mais velho. Rapaz simpático, empresário, exportador.”

“Filho do comunista?”

“Não. O casamento com o comunista durou pouco. Deve ter faltado o essencial. Ela casou pra valer foi com um fazendeiro, o João Roxo. Mais conservador impossível.”

“Mas, e daí, Armando? Seu coração disparou ao se lembrar daquelas coxas longas, ‘dos seios do tamanho de xícaras, que cabiam nas suas mãos’, como dizem nos romances? Ela continua gostosa?”

“Inteirona, para a idade. Mas não me goza, Gustavo. Foi horrível. Eu só me lembrei dela como colega de faculdade, entende? Até o fato de que ela militava, acompanhava o pessoal da esquerda, foi uma recordação vaga pra mim. Nada mais. Das nossas experiências físicas, então, não me lembrei de nada, nada, nada! É possível uma coisa dessas?”

“As trepadinhas, nada?”

“Nada. Nem uma cena surgiu na minha mente naquela ocasião. Como se não tivesse havido.”

“Houve?”

“Puxa, Gustavo, você não percebe que essa coisa, esse encontro, está me incomodando?”

“Desculpe. Mas, e daí? Você não lembrou na hora mas lembrou depois.”

“Foi mais complicado. O encontro na Hípica foi num sábado, o último. Na segunda-feira seguinte ela me ligou no escritório. Chorando.”

“Se apaixonou de novo?”

“Deprimida, Gustavo, deprimida. Percebeu que eu não me recordei da nossa história. Disse-me que, no encontro, eu tinha ‘um olho ausente’. Ou então que eu era de uma insensibilidade absurda. Pior: que eu poderia estar doente.”

“E você?”

“Fiquei ouvindo. Mudo. Ela soluçava.”

“Você não disse nada, Armando?”

“Disse. Uma coisa qualquer. Que a vida tem seus próprios esquecimentos. E que eles acontecem no momento exato.”

“Isto e porra nenhuma é a mesma coisa.”

“Foi a minha intenção, dizer nada. Mas fui me lembrando de tudo a partir das inflexões da voz dela.”

“Memória auditiva, OK.”

“Você continua sem conseguir levar nada a sério, não é, Gustavo? Pensa nela: ali, se humilhando, rogando por um pedacinho de memória…”

“Penso em você também, Armando. Desmemoriado. Esquecendo trepadas. É cômodo, sabe? Eu, infelizmente, ou felizmente, me lembro de todas. Talvez por que não tenham sido muitas, como as suas.”

“Começou. Ironias. E eu só queria desabafar. Um ombro amigo. O meu velho companheiro Gustavo…”

“Esquece meu jeito, Armando. Mas você não me contou o fim da história.”

“Com Gisele? Não tem final. Ela chorou, eu disse aquelas coisas, ela disse algo terrível, do tipo ‘os homens são todos iguais’, e pronto.”

“Sabe, Armando, fiquei comovido, sim. Este seu ombro amigo aqui está sempre à sua disposição. Aliás, nossa amizade, você sabe, vai além do ombro.”

“Que bobagem é esta que você está falando?”

“Do nosso affair, você não lembra?”

“Vai pra puta que o pariu, Gustavo.”

“Ué… Naquela época você me chamava de Gugu. E me pedia para que eu o chamasse de “minha loira, minha loira”. Você esqueceu de tudo, tudo, Armando?”

“Vai pra puta que o pariu!”

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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