Feeds:
Posts
Comentários

Archive for fevereiro \20\UTC 2011

“Como é que se começa a escrever uma história?”, perguntou o Minotauro.

“De preferência usando ordem cronológica, apresentando os detalhes, mas somente os essenciais…”

“Pontos de vendas…”

“É isso! Pontos de vendas. E o final, o final de uma história é muito importante, não é mesmo”?

A moça estava gostando da conversa. Não era todo dia que o Minotauro puxava assunto assim… Coisa leve.

“Depende”, disse o Minotauro. “Depende.”

Ele deu dois puxões na barba ruiva e, do jeito que o conhecia, a moça se assustou: ele começava a se irritar.

“Sim… mas é claro que depende, sim, que bobagem a minha.”

A moça iniciava um trabalho intuitivo de psicóloga. Estava acostumada a isso. Não, hoje ele não iria virar uma fera outra vez. Hoje não.

“Realmente foi uma bobagem”, disse o Minotauro. Uma pergunta estúpida e infantil. Mas isso é bom: ser estúpido e infantil.”

O Minotauro encarou a moça, com seus olhos miúdos parecendo sempre tão distantes pelas lentes grossas da miopia. A moça, com jeito, não deixou que ele continuasse. Disse:

“Reconheço, já falei. Bobagem. E ser infantil também é bom. Mas olha, olha. Voltando ao final de uma história: tem o ponto de vista literário, não tem? Se for história curta, bem que poderia terminar surpreendendo o leitor com alguma coisa porreta (não estou falando de histórias policiais), o chamado tapa na cara. Ou então terminar suavemente, reticente…”

“Para o viado do leitor abrir o bocão de sono e cair na cama ao lado da mulher frígida”, interrompeu o Minotauro com um risinho débil. A moça fez que não ouviu.

– … tem também o anticlímax, não tem? E eu sei lá… Não entendo nada de técnica literária. Eu leio. Gosto ou não gosto.”

Eles tinham começado a andar a partir do Primeiro Jardim da praia de Boa Viagem, onde se encontraram mais ou menos casualmente. Pelo menos, a moça fez o possível para o encontro parecer casual. Agora estão passando pôr uma barraca de cocos verdes (US$1,50, cada, gelado) e o Minotauro esmurrou o balcão rústico, improvisado, da barraca, num inesperado ataque de raiva, fazendo com que as pequeninas tartarugas peludas da ilha de Efemérides, que o vendedor de cocos guardava debaixo da barraca, com a evidente intenção de vendê-las aos turistas americanos (como se sabe, a venda das tartarugas peludas de Efemérides foi proibida em 1963, no governo de João Goulart e a proibição foi mantida pela ditadura militar posterior), debandassem em todas as direções, com seus chiados lúbricos. Elas esvoaçavam sobre a barraca, algumas pousavam do outro lado da avenida, em frente ao play-grounds de um grande prédio, mas, depois, todas, como em uma esquadrilha de jatos militares, rumaram para o fim do mar.

O Minotauro, deslumbrado com a revoada das tartaruguinhas peludas, não ouvia a moça. A moça cansada de gritar por ele, puxando-o pela camisa de meia.

“Acorda, homem! Vai, homem!”

“Não são lindas?” O Minotauro (que coisa rara) sorriu docemente para a moça e deu um último olhar às manchinhas pretas no céu de cinco ou seis nuvens.

“O que são lindas, homem?”

Desta vez foram três murros no balcão. O vendedor de cocos segurou o facão de outro jeito: pronto para o ataque. O Minotauro virou-se para a moça, pegou-a pelos cabelos, mas sem violência, e seus olhos estavam quase fechados de tanta raiva.

“Você, demente, vai-me dizer que não viu a revoada das tartarugas peludas da ilha de Efemérides? Não viu? Não viu não?”

A moça suspirou. De novo, lá vinha tudo de novo.

“Hem? Hem?” O Minotauro exigia uma resposta.

“Claro que vi, porra! Eu vi! São lindas, ma-ra-vi-lho-sas!”

Era isso que ela não queria, irritar-se também. Mas há quem suporte um homem desses?

O vendedor de cocos perguntou à moça, mostrando o facão, disfarçando:

“Tem algum problema aí, minha senhora?”

O Minotauro virou-se para ele. A moça fechou os olhos. Era sempre assim.

“Como é que é, ó trabalhador brasileiro?” O Minotauro debruçou-se sobre o balcão, desprezando a arma do vendedor. O Minotauro estava muito gentil.

O vendedor, acostumado apenas a bêbados, quase gagueja:

“Eu só perguntei pra mulher do senhor se estava precisando de alguma coisa…”

O Minotauro acariciou a carapinha do homem e, tomados de surpresa, nem o ele nem o facão se mexeram.

“Mas ela está precisando mesmo, meu querido proleta… Ela tomou muita cerveja e esta com uma vontade doida de…”

Puxou carinhosamente o rosto do homem para junto do seu. Olhou para todos os lados, antes de segredar:

“… fazer xixi! Está se estourando! Será que você pode quebrar o galho, meu santinho?”

O vendedor ainda disse, trêmulo, “não tem WC aqui na barraca” e saiu disparado para a praia, com facão e tudo, gritando por um certo “seu Pedro!, seu Pedro!”

O Minotauro virou-se com ar cansado para a moça. Admirou-a. Ele nunca havia visto uma centopeia assim tão grande, e tão simpática, e de pé como um bicho de circo.

“Charmosa…”, disse ele a ela, com toda sinceridade.

“Bianchos! Bianchos, meu filho, meu bem – a moça quase implorava – um dia você ainda se estrepa com essas brincadeiras… Pelo amor de Deus, deixe de fazer isso na minha frente. Provocar os outros. Eu não aguento, meu coração dispara. Eu tenho taquicardia.”

Era uma centopeia frágil, concluiu o Minotauro. E agora abraçou-a, enlaçou-a e continuaram a andar. Ela ainda olhou para trás à procura do provável seu Pedro, que talvez não se intimidasse diante de um publicitário flácido.

“Bianchos”, disse a moça, “você está me abraçando em público.”

“Só agora que você notou?”

“Para de ironia. E tua mulher, Bianchos, tua mulher?”

“Quem come, cansa.” O Minotauro estava seríssimo.

“Como é”?

“Quem come, cansa. Expressão tirada por mim de um velho provérbio chinês. E já começa a fazer algum sucesso entre os bem casados…”

“Tá bom, Bianchos. Mas tua mulher pode te ver abraçado comigo. Ou uma amiga dela. Você sabe, a cidade não é tão grande…”

“E daí, Pepeia? Eu não já disse? Quem come cansa.” Agora foi o Minotauro que suspirou.

“Puxa, Pepeia: você exige demais de mim. Com você, eu tenho de ser didático como um bosta de um professor de ginásio… aliás…de curso polivalente… mudaram o nome, não foi? A gente tem de ser claro, límpido, porque você não entende porra nenhuma…”

“Às vezes a gente entende” – a moça não se achava burra e sempre que possível se defendia – “mas quer o recibo passado…”

“Pois bem, Pepeia. Quando eu digo que ‘quem come, cansa’, estou declarando que já enchi o saco de comer a minha querida patroa e se ela me vir com você, foda-se ela…”

“E os seus filhos, meu nego?”

Ela não deveria tocar no assunto. A fúria poderia voltar. Tentou recuperar-se diante dos dois puxões que o Minotauro se deu na barba ruiva. Era um cacoete providencial, um sinal.

“Por que você está me chamando de Pepeia?”

Ele gostou da pergunta, agradecido pela mudança de assunto.

“Pepeia é carinhosinho de centopeia. Eu nunca andei abraçado com uma centopeia em minha vida. E uma centopeia de circo que se equilibra nas últimas patinhas para…”

A moça fez cara de nojo, arrepiou-se e empurrou-o para um lado. O Minotauro iniciou um daqueles velhos, conhecidos e longos ataques de riso. Ria como um menino, sentado num dos banquinhos da calçada. No céu, agora com certeza, havia três nuvenzinhas. Uma distância de dois metros era suficiente para o ódio da moça, que não era o primeiro e – ela se xingava por dentro – nem seria o último. Mas o que acontecia exatamente, o que era que a deixava romântica, devassa ou louca ao lado daquele homem? Por que ele lhe ensopava as calcinhas com um simples toque nos seus braços, entrelaçando suas mãos, brincando com uma verruga que começava a nascer no seu pescoço esguio, à altura da nuca? Que diabo a atraía, meu Deus? E se perguntara tanto, e ao pai (a mãe morrera quando ela ainda era adolescente), às amigas, a uma cartomante vigarista, a uma cigana de mau cheiro que lhe contou todo o seu passado e futuro e a deixou confusa. A cigana dissera: “Só existirá um homem na tua vida. Ele é muito alto e moreno. Tem os cabelos compridos e usa bigode grosso. É meio gordo, mas a altura dele disfarça. Ele não gosta de ti, porque não gosta de ninguém. Só gosta dele mesmo, mas a culpa não é dele. Foi a criação dele que fez ele ficar assim. Ele é um homem perturbado, mas ele é muito competente. Tudo o que ele fizer com capricho, e às vezes sem capricho, ele faz bem feito. Filha: tu já sabes que ele é casado, mas um homem assim é como se não tivesse apego a ninguém. Ele é ciumento como o diabo, não é, filha? Mas o ciúme dele é ciúme dele mesmo. Ele não admite que uma mulher passe ele pra trás porque isso fere o orgulho dele. Eu não posso te dizer se um dia ele muda. Ele só gosta de duas coisas na vida, depois dele: são os filhos, que ele acha que são como um braço e uma perna dele. Se ele pudesse, teria os filhos dele sozinho. É um homem egoísta demais. Tenho muita pena de ti, filha. São vinte contos, filha”.

Perplexa, a moça deu cinquenta. Não quis troco.

E então estava ele ali, o egoísta, limpando os olhos das lágrimas do ataque com a manga da camisa. O homem que a deixava louca. Que fazia aquilo tudo, que a humilhava o tempo todo, um desvairado completo fora do trabalho e no trabalho só se ouvia elogio. Bianchos, o gênio da comunicação, o gênio da publicidade. O único publicitário brasileiro que vendera um cemitério completo, desses americanizados, com música ambiente e lápides na relva, em menos de um mês. O homem que obrigava os diretores das grandes agências (ele trocava de emprego de quinze em quinze dias, às vezes) a viajar até o Recife porque ele simplesmente se negava a morar no Rio, São Paulo ou Estados Unidos. E era o publicitário mais bem pago do Brasil. Da América Latina, diziam.

Ainda estava rindo. Não tinha carro, podia comprar cinco ao mesmo tempo. A mulher tinha três, um com chauffeur, como ela dizia e ele ria. Estava ali, de calça jeans desbotada, camisa de feira, sapatos de basquete ainda brancos, sem meias, sentado de costas para o mar, recuperando-se de algo desesperadamente hilariante, ou seja, ela, que o amava tanto, transformada em centopeia de circo. Mesmo sendo ele, e depois de tantas experiências parecidas, ela, sinceramente, não via tanta graça na história. Mesmo colocando-se (só que isso era impossível) na pele,  na mente dele. Centopeia. Ora vá.

Colocar-se na pele dele: na cama não era assim. Talvez fosse isso: sexo, apenas? Ela conhecera mais de uma dúzia de bons e maus amantes, mas ele, como definir, ele transformava um simples ato sexual numa parafernália, numa coisa colorida e indescritível nos detalhes, usando sua desenfreada imaginação, dando um tapa na hora certa, um beijo fraternal no momento exato. Na cama também um gênio. Seria só por isso, tanto encantamento? Eu a moça uma idiota, uma masoca? Eu a moça boa família pra frente rica magrinha modelo linda (vejo no espelho, vejo as fotos no jornal, vejo os vídeos que ele grava sempre de mim, ou nua no quarto ou de biquíni na praia) e só com vinte e oito anos? Eu?

“A ideia abstrata do amor é indevassável, minha nega. Não existe nada mais complicado. Para de pensar em amor.”

E ainda essa: adivinho, mágico. Ora porra.

“Como é que você sabe que eu estava pensando em amor, seu…”

“Seu o quê?”

“Seu… sua hiena! Não, ela cedia. Queria feri-lo, mas ele nunca se mostrava ferido.”

“Uma vez você me falou que estava tentando descobrir porque me adora”, disse o Minotauro muito calmo. “E eu gravei o seu rosto naquele dia. Era o mesmo de hoje. Não, nega, não foi adivinhação. Foi hábito, puro hábito dos seus músculos faciais. Aliás, falando em face, a sua hoje está especialmente do caralho!”

Ele via: à sua frente, a grande Lagartixa Azul de Bobalachos, uma ilha muito parecida com Efemérides, feita de corais como Efemérides, mas de fauna bem mais rica e variada. Em Efemérides, a grande atração era mesmo as tartaruguinhas peludas que os americanos chegavam a comprar por oitocentos dólares cada, deslumbrados. Mas, em Efemérides, não se podia deixar de ver, também os Gatos Desconjuntados, cujas escamas, se arrancadas, exalavam um terrível cheiro de sangue pisado. Sangue humano. Mas eram simpáticos. Mergulhavam e traziam plancto de todas as cores, algumas combinações de cores inéditas. Nem as máquinas fotográficas japonesas conseguiam reproduzir. Mais uma meia dúzia de monstrinhos menores e Efemérides acabava.

O Minotauro estava sorrindo, recuperando-se do ataque de riso (um ataque sempre o deixava exausto, sem fôlego para os noventa cigarros de cada dia): a Lagartixa Azul de Bobalachos também sorria para ele, se aquilo poder-se-ia chamar de sorriso. Um esgar, careta, sei lá. Ele entrou em êxtase ao perceber que, atrás da moça-lagartixa, corriam, como em uma avenida à beira-mar, os carrinhos redondos das quermesses infantis, entre inefáveis monstros de papelão dos antigos filmes italianos sem truques de computador; da Disneylândia; ou dos carnavais de algumas cidades europeias. Os pierrôs de Veneza eram os mais bonitos. No lado oposto, havia o imenso bloco verde-escuro de cimento movediço, que os humanos chamavam de mar, mar,  e não viam, concentrados no esforço dos testes de Cooper, que todos os dias, às cinco da manhã, surgiam do cimento sem fim todos os espectros do Recife, rogando salvação em voz alta. Uma vez conseguiu reconhecer sua avó materna, morta de câncer no esôfago, e entrou sem medo, mas penosamente, no meio daquele lodaçal espesso verde-escuro, que mais escuro, quase negro ficava à medida que ele avançava, afastando os braços macerados de zumbis desconhecidos que queriam agarrá-lo para uma reza exclusiva.

“Vozinha…”

“Bianchos, você tem coragem! Ou você não sabe que só ficam aqui os que morreram?”

“Não sabia, vozinha, mas não podia deixar de falar com você. Me diz uma coisa, vozinha, aquele câncer doeu pra caralho, não foi?”

A velha sorriu para ele e não parecia morta.

“Só eu sei, Bianchos! E o filho da puta do médico tentava nos últimos dias me enganar, dizendo que morfina era Complexo B. Logo pra mim, uma hipocondríaca.”

Ele ficou muito feliz naquele dia em que falou com a avó. Tinha visto tudo: até o último momento, a velhinha, desesperada de dor, soltara tantos palavrões que até chamaram um padre. Algumas tias bem intencionadas estavam certas de que ela se apressara a entrar no inferno, antes do suspiro final. O padre chegou, impávido (Bianchos tinha oito anos, mas sua memória sempre foi um prodígio), entrou no quarto da mulher e logo saiu de lá desgrenhado, empurrando tias, tios, crianças e amigos da família. A velha não o poupara:
”Ah, é você, padre Nércio? Logo você, seu crápula, mentiroso, cachorro safado, sacrílego! Ora, vá à merda, padre Nércio! Deixe de bolinar aquele menino, Geodésio, o filho de dona Edwiges, ele vai acabar dando o rabo  por aí. E pare de comer Soninha, que de Filha de Maria só tem mesmo aquela faixa azul, coitada… E você é mesmo burro, padre Nércio: comendo a pobrezinha em pé quando era só arrumar os colchões velhos que o sacristão guarda na garagem, e deitar a menina pra que ela goze sem tanta ginástica… E vê se faz um tratamento para não ficar se esporrando antes da hora, padre Nércio! Nós, mulheres, sabemos quanta frustração nos causa um homem assim, apressadinho…”

“Satanás! Satanás! Satanás!”, gritava o padre Nércio, e só gritava isso, desarvorado, até que correu para a porta levando os instrumentos da extrema-unção. Todo mundo sabia das prevaricações do padre, mas vozinha foi a única a passar-lhe tudo na cara.

Desde aquele tempo, e eu só tinha oito anos, me identifiquei com a velhinha pirada. E como ia ter medo de visitá-la por dentro de um pantanal de concreto verde-escuro?

“Eu posso fazer alguma coisa por você, vozinha?”

“Nada, Bianchos. Você, como eu, sempre desconfiou da vida eterna. Só adianta reza de quem acredita. Fala com tuas tias, a Nonó, a Levita, e sobretudo a Ana Maria, que essa é a pessoa mais besta que eu já vi… Foi a única que se negou a acreditar nas sacanagens do padre Nércio…”

A velha sorriu, levou as mãos ao rosto porque foi enterrada sem a chapa e era muito vaidosa, mesmo em frente ao neto íntimo. De repente começou a gritar. Aqueles gritos do câncer.

“Que foi, vozinha? Que foi?”

“Essa merda desse cimento aqui queima os olhos da gente. Eu esqueci. Vá embora, Bianchos, que esse troço dói pra burro e eu vou gritar feito doida umas duas horas até tirar a porra verde da cara…”

Ele obedeceu, feliz. No outro dia, deu os recados às tias (justificou dizendo que tivera um sonho), tirou um grande empréstimo num banco e reuniu a família, de parte de pai e de mãe, no restaurante Júnior, que alugou com exclusividade para um banquete incrível, de decadência romana. Só faltaram os moribundos, mas foram devidamente representados. Bianchos não quis intromissões e ele mesmo cuidou do microfone e do sistema de alto-falantes. Havia umas cem pessoas ou mais. Depois que ele ficara rico, a família, como todas, o tratava a beija-mãos.

“A ovelha-negra os reuniu aqui”, disse Bianchos, com toda seriedade que lhe foi possível, “para…”

Um primo, já bêbado, discordou da expressão “ovelha-negra”, ameaçou uma louvação, mas foi logo cortado.

“Silêncio!”, berrou Bianchos (e os alto-falantes fizeram um “zuimmmm” de mil decibéis). “Silêncio! Só eu vou falar. E vou direto ao assunto. Todos vocês têm dívidas. Alguns vivem na maior merda. A maioria enche o meu saco e o saco de minha mulher pedindo dinheiro e favores. Eu vou acabar com essa sacanagem toda. Eu sei exatamente quanto cada um precisa para sair das encrencas em que se meteram. Os envelopes (apontou uma mesa, atulhada de envelopes brancos) estão ali, com os cheques nominais. Os cálculos foram feitos por profissionais da minha absoluta confiança. Não gosto de vocês . Da minha lamentável família, a única que amei já morreu. A minha vozinha, que vocês também odiavam. E o único que ficou realmente rico fui eu, a ovelha negra. Agora, quando quiserem sair do restaurante, saiam. Ele está alugado até as oito da noite. Saiam e peguem seus envelopes. Eu vou na frente. Só tem uma coisa: a partir de hoje não quero sequer cumprimentar nenhum de vocês. Não quero aproximação alguma com vocês. Vivo nesta cidade mas quero viver em paz. Não me encham o saco, nem o da  minha família,  nem o das pessoas ligadas a mim. Vocês já me fizeram muito mal.”

E sem olhar para trás, debaixo de um silêncio cortado por arrotos inevitáveis e soluços de uma tia ou outra, saiu glorioso do Júnior. No outro dia, a direção do restaurante devolvia à sua casa uma enorme caixa de isopor cheia de envelopes brancos. Mordendo a língua, foi abri-los um a um. Todos os cheques estavam lá. Chorou e bebeu durante dez dias.

“Bianchos, por favor, Bianchos!”

Era a moça.

“Não me chama assim”, disse ele, com a voz abafada entre as mãos que lhe cobriam o rosto. “Não me chama  assim. Eu sou o Minotauro.”

A moça sabia: sempre depois de um ataque de riso era aquela depressão total, contagiante.

Ele só tirou o rosto das mãos porque vozes estranhas surgiram, surpreendendo até a moça.

“Foi esse aí!”, disse o vendedor de cocos, escondido atrás de seu Pedro.

Seu Pedro, um crioulo entroncado, olhou para o Minotauro e teve pena.

“Esse homem tá é bebo… Eu acho que já vi ele por aqui.”

Seu Pedro voltou-se para a moça:

“Olhe, dona, se a senhora é qualquer coisa dele, leve pra casa. Dê a ele dois engovos e um café bem quente e bem forte, mas sem açúcar. É tiro e queda!”

A moça agradeceu e o Minotauro voltou aos bons pensamentos da Ilha de Bobalachos: a Lagartixa Azul balançava a cabeça, agradecendo a seu Pedro, e isso era de um charme, de uma beleza plástica que atingia, ultrapassava o gênio picassiano. Nem o diretor de arte da agência de São Paulo, um sujeito que ele até suportava, conseguiria entender. E era sensível, inteligente, talentoso, mas quem chegaria aos pés de um Minotauro esteta?

“Bianchos!”, insistiu a moça. “Vamos andar, vamos andar!”

Bobalachos. Maravilhosa fauna. A Lagartixa Azul sobre tudo e todos. Mas havia os Caranguejos Sórdidos e Burlescos, uma estirpe de uns vinte e cinco crustáceos de má índole, especialistas em beliscar, sadicamente, os traseiros gordinhos dos Peixes-de-Antão, esses sem casta, sem história, que se multiplicavam em geração espontânea pela ilha, e não cruzavam já que eram todos assexuados. Os Caranguejos Sórdidos e Burlescos os odiavam. Era tão divertido! Um pássaro, o Penacho-de-Juno, que tinha bracinhos humanoides, lindo! Todo pelado, só uma pena semelhante a de uma arara enfiada no cocuruto, parecendo artificial, e que cantava, afinadíssimo, algumas notas muito semelhantes às músicas gregas do filme “Zorba”. Havia uns dez ou doze na ilha. Bobalachos, onde o ar era tão puro… Nem maresia, nem marola.

“Queres ir lá, comigo?”, perguntou o Minotauro à moça.

“Para Efemérides?” Ela sentia-se definitivamente apaixonada, mais uma vez.

“Não, porra. Efemérides só tem aquelas tartarugas que enchem o saco. Vamos para Bobalachos. Você precisa ver o Caranguejos Sórdidos e Burlescos.”

“OK”, disse a moça, eu topo. “Mas, agora, vamos andar, vamos. Vem.”

O Minotauro tomou a mão da moça e tão delicadamente que foi como se ele a puxasse do banco, e não ela. De novo ele abraçou-a, brincando com a verruguinha que lhe nascera na nuca.

“Meu  amor”, disse o Minotauro, “posso te pedir uma coisa?”

(Ele sempre usava a segunda pessoa quando queria algo especial).

“Claro, pede.”

“A partir de agora, me chama somente de Bianchos…”

“Repete, nego, repete isso…”

“A partir de agora, me chama somente de Bianchos…”

“E se você tiver um ataque? Não vai se irritar, não vai?”

“Não vou ter ataque nenhum. O Minotauro morreu. Olha: só existe uma pessoa, um ente, uma entidade que pode destruir esse meu maldito orgulho, egoísmo, essa minha paranóia…”

“Ah, sim, é claro, eu já sei.”

Inconscientemente, a moça mexeu com a cabeça e afastou  a verruguinha do jugo daqueles dedos alucinantes que encontravam, sempre, um terreno erógeno para desenvolver suas brincadeiras.

“Como é que você sabe?”, Bianchos perguntou sincero. “Eu nunca disse isso a ninguém!”

“A mim, umas quinhentas vezes, você disse: olha: só existe uma pessoa, um ente, etc., que pode destruir esse meu etc. Só existe uma: é você. Only you.”

“Ah? Eu já tinha dito?” Os dedos dele voltaram à periferia da verruguinha, estavam prestes a conquistá-la de novo.

A moça parou em frente a um banco. Empurrou Bianchos carinhosamente. Os dois sentados. Ele quis abraçá-la, ela não deixou.

“Gosto de abraço, meu bem, mas quero falar virada para você, olhando bem você porque pode ser a última vez.”

“Da última vez você disse isso.” Ele sorriu.

A moça tirou um cartão dos seios. Ele pegou, curiosíssimo. Era uma passagem para a França. Só de ida.

“Quanto tempo vai ficar lá? Fim de semana?” Ele fingia (ou não? ela estava muito confusa para perscrutá-lo) que não estava entendendo.

“Um fim de semana com uma passagem só de ida, Bianchos?”

“Ora, ora. Vai a Paris, vôo direto, pega um trem ou aluga um carro, baixa em Lisboa (só quem a viagem é cansativa), faz um joguinho no Estoril, que você gosta muito disso, e volta ao Recife. Ora, ora. sem essa.”

“É impossível dizer a você que eu vou sumir da sua vida?”

Aquele seria o pior momento, a moça se prepara durante dias. Agora ia começar uma velha batalha em que ela saía sempre perdendo. Sempre.

“É possível dizer uma besteira para mim”, respondeu Bianchos, rasgando o bilhete sem raiva. A moça não reagiu. Estudava o inimigo.

“Você só vai acreditar quando o telefone lá de casa disser que eu não estou, não é mesmo?”

“Sim, claro, o telefone informará que você está na praia, no cabeleireiro, ou na clínica dermatológica, eliminando essa interessante verruguinha que, para o seu sono tranquilo, não apresenta sintomas de malignidade…”

Desta vez ele apertou demais a verruga. Doeu. Ela deixou. Jogava.

“Olha, Bianchos: eu te adoro como você sabe. É uma merda para mim, deve ser outra para você, mas antes que eu me suicide, me destrua de vez, quero pensar muito sobre tudo que a gente fez. E parar pra pensar, só muito longe daqui.”

“Você fala como personagem de ‘Love Story’.”

“E se você dialoga comigo, está conivente com ‘Love Story’.”

“Taí: gostei. Gostei muito da jogada. É xadrez ou pôquer?”

“Xadrez.”

“Agora você está falando como personagem de ‘James Bond’.”

Ela quase entregou os pontos só porque teve vontade de rir.

“Estou com frio…” ela disse.

“Vamos ali pro bar.”

Um barzinho rústico da praia, feito das mesmas fragilidades da barraca de cocos. Soprava um cheiro adocicado de sargaços. E as ondas estouravam nas ressacas de agosto. No bar, só eles dois e uma família de cinco crianças tomando sorvete. O garçom chegou sem dizer nada. Seu arremedo de summer estava um horror, não suportaria o próximo verão.

“Uísque”? Foi a moça que pediu.

“Só nacional”. O garçom disse isso com certo prazer.

Bianchos tirou da calça desbotada um bolo caótico de notas, analgésicos, calmantes. Escolheu algumas notas.

“Eu quero uísque estrangeiro, selo preto, qualquer um. Logo. E não adianta dizer que não é possível porque o troco é seu.”

Voltou-se para a moça.

“Ada, Adinha: quero trepar com você hoje lá em casa. Tem uma cama de água, maravilhosa. Norueguesa. A tua é nacional, como esse uísque daqui.”

A moça teve vontade de chorar. Por todos os motivos. Mas especialmente porque sabia o que ia responder.

“E a tua mulher, louco?”

“Viajou hoje às quatro e meia da manhã com a canalha toda…”

(“Canalha”? Chamou os filhos de “canalha”?)

“… para a Suiça, com tudo pago, o futuro pago: colégio de menino, dinheiro sobrando para as operações plásticas e todo o conforto que uma mulher burra brasileira de classe média pode desejar, e isso para o resto da vida de todos eles. Até da babá, que também foi.

“E…”

A moça sabia que agora ele falava a verdade. E não se arrependeu de ter, por conta própria, acrescentado um ponto na incrível história do seu futuro, segundo aquela cigana ensebada de dois anos atrás. Sim, ele poderia ser desencantado!

“Eu ia perguntar outra bobagem”, disse ela. “Quando é que você vai com sua família para a Suíça?”

“Mas é claro que eu estava esperando essa perguntinha.”

Fez um carinho nas costas da mão da moça. O carinho refletiu diretamente na vagina. Como explicar aquilo? Era ele o quê? Eros, o próprio? Ou ela, ninfomaníaca?

“Adinha: você me permite um suspense?”

Ele ia ficando lindo, estéreo, a barba ruiva combinava até com seus olhos míopes atrás dos óculos de aro preto, convencionais, que, talvez fossem, ela pensou sobre isso, o único senão naquele fabuloso conjunto de músculos, cabelos, nariz, boca de traços agressivos. O garçom também olhava para ele, com a garrafa e as doses, como se estivesse constatando a mesma coisa.

“Serve, minha joia!”, ele gritou para o garçom.

A moça chegou próxima do êxtase, fixando o rosto dele.

“Bem, Adinha: eu disse para a minha mulher primeira que ia escrever um romance. Quando acabasse, viajaria para a Suíça. Claro que ela, evidentemente, perguntou quando eu ia acabar…”

“E o que foi que você respondeu?” Ada estava imaginando o que uma cama de água norueguesa poderia ter a mais do que uma nacional.

“Eu? Eu não disse nada! O que é que eu ia dizer?”

“Escuta, Bianchos: vamos falar sério, mas sério mesmo. Amanhã eu ainda, oficialmente, vou para a Europa…”

“Sei: vai-se encontrar com minha mulher por lá. Na verdade vocês duas têm um caso e eu sou outro…”

“Para! Para!”

Ele coçou o nariz dela, carinhoso.

(Se vocês o conhecessem, diriam, unânimes: este é o homem mais bonito que já vimos em nossa vida. Especialmente numa transição de dia para noite, num bar de praia, num fim de inverno no Recife.)

“Agora, Adinha, me diga uma coisa: vai embora pra Paris? Vai?”

“Depende.”

A moça estava estranhando aquele tratamento de “Adinha, Adinha”, o tempo todo. Ele sempre a chamara, sem explicações, de Ata. Agora ele levantou-se da cadeira e, mais surpreso do que irritado, falou alto.

“Depende? Depende de quê, ora porra! Não está tudo certo?”

“Bianchos. Não quero parecer babaca, mas este é o momento mais importante que vivi até hoje. O momento em que o homem que adoro feito uma besta passará a viver comigo. Mas, por favor, sente-se e não diga tão alto ‘ora porra’ porque tem família, criança, aqui no bar.”

Ele sentou, certificando-se de que havia outros humanos ali.

“Mas, Bianchos: o tempo em que vivi com você como amante, naquele dramalhão que você pode não ter percebido, mas deve entender, eu vivi também com as vozinhas, os caranguejos malucos, as ilhas, os paquidermes de um escroto só, o céu de vidro opaco desabando sobre a cabeça dos circuncidados de menos de vinte anos, ora, Bianchos, aquela loucura… O Minotauro…”

Ele interrompeu e imitou a voz dela. A moça se assustou. Até nisso era perfeito. Era a voz da moça, como se fosse gravada.

“… aquela esquizofrenia… Oh, Bianchos, as baleias vermelhas que dançavam às três horas da manhã no Atol do Infortúnio, enfim, meu nego, todo o LSD que você nunca tomou e eu tive de suportar… Para onde vai tudo isso agora, Bianchos?”

Ela quis falar, estava sorrindo, ele não deixou. Agora, respondeu a si mesmo, mas com sua própria voz.

“Sua memória é bem ruim, não, Adinha? Vai tudo pro romance. Eu não disse que ia escrever um? Porra! Não perguntei a você como é que se começava a escrever uma história?”

“Não diga ‘porra’ tão alto que tem crianças no bar. Tá bom. Vai virar um romance. Entendi. Mas você também disse que ia escrever um romance à sua mulher que viajou para a Suíça…”

(Será que havia alguma luz especial naquele boteco humilde para transformá-lo em um deus? Ou ele sempre foi assim tão lindo e eu nunca havia percebido por completo? E esse jeito de sorrir, sacana, por que agora parece mais real e significativo? Ou eu estou me confundindo demais com a minha felicidade? Não, não, eu sou Ada e ele agora é meu).

“De fato eu disse que ia escrever um romance à minha mulher que ia para a Europa… Mas ela agora não vai mais…”

A moça sorriu tão espontaneamente e respondeu sorrindo quando ele ainda perguntou:

“Ia, Ia? Passado, não é?”

“Da Europa, meu anjo, só espero uma cama de água norueguesa…”

A moça mais feliz do mundo ouviu um estrondo de onda mais forte e, ainda sorrindo, virou-se para olhar o mar.

O menino gordinho da mesa de trás entrou em pânico, ficou pálido e nem pôde gritar. Ele jamais se esqueceria daquela boca medonha, boca rasgada, como se o monstro à sua frente, a Lagartixa Azul de Bobalachos, estivesse sorrindo para ele e para o mar.

Do livro “Leonora Premiada”, Editora Duas Cidades, São Paulo, 1974, levemente revisto em fevereiro de 2011.

Anúncios

Read Full Post »