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Archive for março \20\UTC 2011

Muito tempo se passou e eu jamais entendi por que ela usava unicamente azul. Em tons quase sempre suaves. Devia ser coisa da bruxa. Mas, como provar? Ainda hoje me arrependo de não ter feito um escarcéu maior quando Silvinha adoeceu novamente, após parecer curada. E também quando aconteceu o grande mistério do seu sumiço. Havia alguma coisa errada naquela casa, ah, se havia!

Quando se mudou para o último e o menor dos sobradinhos da nossa rua, Silvinha já veio doente. Lembro-me do táxi chegando devagar, o motorista descendo para carregá-la nos braços e entrar na casa. A mãe ao lado, levando uma das malas.

Eram só Silvinha e a bruxa da mãe, que preferia ser chamada de tia Sérgia, e, tempos depois, um homem que só aparecia aos sábados, depois do almoço. Tinha bigodes muito grossos e negros; cabelos negros, também, penteados para trás. Era magro e encurvado, mas as mulheres da rua diziam que era bonito. Diziam também: é o amante da bruxa; um homem casado que almoça em casa, do outro lado da cidade, pega um ônibus e aparece aqui aos sábados. E era apenas aos sábados, fuxicavam as mulheres, que aqueles dois faziam amor. Mas faziam sem parar, elas completavam, rindo muito.

Eu nunca entendi direito porque deram o apelido de “bruxa”, assim, automaticamente, à mãe de Silvinha. Era feia, sim, muito feia. Mas não parecia má pessoa. No entanto, até eu só me referiria a ela como “a bruxa”, durante nosso tempo de convivência.

Silvinha, no dia em que chegou, já tinha uns quinze anos, mas parecia um pouco mais velha. Talvez pela altura, um metro e setenta, ou o rosto sofrido, apesar da expressão imaterial, os traços muito retos de estátua ou de pintura, olhos enormes, negros, de cílios longos. E cabelos tão bem encaracolados, como se tivesse acabado de chegar de um cabeleireiro. Mas, nela, sobressaía a palidez que, além de revelar sua grave doença, a colocava na categoria dos Querubins. Não era bonita. Ao mesmo tempo, no entanto, era linda e única pelo que expressava, emitia, transmitia.

Eu não me apaixonei por Silvinha, como vocês podem estar imaginando. Algo muito intenso (tanto quanto o amor-paixão) me aproximava dela. Mas nosso mútuo querer não era coisa desta terra. Jamais soube definir exatamente este sentimento, nem para mim mesmo. Era amor, lógico, mas de um outro naipe, como se nós dois fôssemos seres de um planeta distante e vivêssemos uma vida paralela, juntos, da qual não tínhamos sequer consciência. OK, era como se fôssemos irmãos, mas siameses.

Do lado dela, o sentimento era exatamente o mesmo, a meu respeito. Naquele primeiro dia em que chegou, nos braços do motorista, trocamos um olhar antigo, de quem se conhece há séculos, e sorrimos juntos, um para o outro. Era como se disséssemos “enfim, aí está você”.

Já no dia seguinte, bati na porta e a bruxa me atendeu. Não sei como fiz isso. Tinha dezesseis anos, um a mais que ela, e era muito tímido. Não disse nada à mulher. Nem foi preciso. “Silvinha me falou que você viria procurá-la”, ela anunciou, sem sorrir. “Vou deixar você entrar, mas procure não cansar muito a menina. Ela precisa atender outras pessoas.”

Como ‘atender outras pessoas?’, pensei comigo, mas fiquei quieto. Entrei. Já conhecia o sobradinho, do tempo em que estava para alugar. Era pequeno, sombrio e úmido. A bruxa pôs a menina numa cama, na sala de estar, o que era esquisito, cercada de cadeiras. Havia um criado-mudo com um copo vazio e um jarro com água. Silvinha se recostava no espaldar pintado de azul, usando dois travesseiros; estes, o lençol e o cobertor eram também azuis, em tons claros. Já o azul do robe de chambre estava mais próximo do marinho. Dava a impressão de que se vestira, ou fora vestida, para receber visitas.

“Oi, Armando.” Ela falava sempre num fio de voz.

“Oi, Silvinha. Como é que você sabe meu nome?”

“A rua é pequena”, ela sorriu.

E aí conversamos. Muito. Sobre tudo. Escola, amigos, heróis, a rua. Eu contei da minha família. Ela não tocou no assunto. Disse apenas: “você já conheceu minha mãe”. Nesse dia eu ainda não vira o misterioso visitante do sábado, mas, sobre ele, nos dias subsequentes não perguntaria nada a Silvinha; eu sabia dos assuntos que ela preferia evitar.

De vez em quando percebi, durante aquela nossa primeira conversa, que alguém surgia à porta, às minhas costas, sem fazer barulho. Claro, só podia ser a bruxa. A um olhar de Silvinha ela retornava. Como se a menina tivesse o comando da casa.

Mas não era bem assim. Naquele mesmo dia, o segundo em que Silvinha viveu no nosso bairro, surgiram os estropiados. Gente quase morrendo, idosos, crianças pálidas, homens e mulheres macérrimos; vinham em macas, às vezes, ou em cadeiras de rodas. Faziam fila silenciosa na calçada. E era impressionante a mudança dos semblantes ao ver a menina, ouvir algumas de suas palavras e receber “a receita”: uma lista de remédios naturais, em geral extratos de plantas conhecidas. A maioria dos doentes que eu conheci experimentou melhoras súbitas, ou de alguma forma teve seus problemas resolvidos, depois, por outros médicos. Mas os progressos vinham sempre a partir da visita à “doentinha”.

Os estropiados eram uns dez, naquele dia. Mas, às vezes, faziam fila além do quarteirão à porta do sobrado, sobretudo nos fins de semana.

Houve um dia, um dia feliz, em que Silvinha experimentou uma espécie de ressurreição; saiu da cama e até visitou, andando, alguns doentes nas vizinhanças. E conversou muito comigo.

Isso aconteceu quase um ano depois que a “menina milagreira” chegou à nossa rua. Um repórter de televisão (e o sobradinho vivia sempre cheio de jornalistas) trouxe um médico estrangeiro, um alemão, para examiná-la. O homem lhe receitou uns remédios coloridos, pareciam vitaminas, e, em uma semana, ela pôde se levantar da cama, andar pela rua, tomar sol. Fomos juntos ao cinema, duas vezes. Aí ela me contou alguns dos seus segredos. Um deles me impressionou: quando algum sofredor chegava diante dela, ela começava a falar automaticamente. Depois, sua mão direita, sem que a mente lhe desse ordens, escrevia coisas que ela própria desconhecia. Os tais remédios de ervas. Mas Silvinha não se achava médium, paranormal, essas coisas. E muito menos santa. Nem religião tinha. Imaginava que havia ganho um dom de Deus.

“E por que não se cura a si mesma? Por que não descobre, pelo menos, sua própria doença?” Eu insistia nisso, mas ela não sabia responder. Aquele seu súbito refazimento durou dois meses.

Eu desconfiava que a bruxa não gostara das mudanças na rotina do sobradinho. Vivia chamando a filha para voltar para casa, dizendo que alguém precisava dela. Foi mais ou menos nessa época que o povo da rua percebeu as visitas insistentes do “bigodudo bonitão”, sempre aos sábados. E Silvinha voltou aos “meus panos azuis”, como ela chamava sua própria cama – sofrera umas complicações sérias, hemorragias que acabaram por levá-la ao hospital durante alguns dias.

Sua doença misteriosa resumia-se numa falta total de energia. Não tinha forças para nada. Levantava-se, às vezes, e desmaiava. Era alérgica à maioria dos remédios. Só parecia melhor, ganhando alguma cor no rosto, quando atendia os estropiados.

A última vez em que conversei com ela foi num domingo de muito calor; ela parecia feliz, tinha conseguido o endereço do médico alemão que a curara antes. Ia escrever para ele. Silvinha me pareceu bem mais criativa, naquele dia. É que nós dois gostávamos de conversar sobre coisas inexistentes, histórias que nós mesmos inventávamos, gente e bichos de formas diferentes, terras distantes, planetas impensáveis. Era o nosso código, nossa cumplicidade.

No dia seguinte não a visitei, tinha de estudar, andava com umas notas baixas na escola. Mas, na terça-feira, antes de chegar à porta do sobradinho, percebi que a casa estava deserta. Bati, como um louco, na porta, nas janelas, chamei por ela, mas os vizinhos disseram que a mudança havia saído no dia anterior, de manhã. E que ela fora carregada, mais uma vez; que a bruxa não dissera uma palavra a ninguém, nem um “até logo”. Ah, e que o bigodudo estava junto, seríssimo, carregando malas.

Chorei muito e caí numa depressão que assustou meus pais. Levaram-me a um médico que apenas sorriu ao ouvir parte da história. “Certos amores são complicados”, disse o doutor à minha mãe, imaginando que eu não estivesse ouvindo. Não tive ânimo para mandá-lo à merda.

Mas o susto pior aconteceria seis meses depois, quando descobrimos a foto da bruxa e do bigodudo numa revista de reportagem social. Os dois vestidos como ricos, ela de longo negro, com uma joia pesada no pescoço, ele de smoking, durante o casamento da filha de um ministro. Como? Se eram remediados, classe média baixa, como nós? O que acontecera com eles?

Aí, o povo começou a especular que a bruxa aceitava dinheiro pelas receitas da filha. E também disse que aquele era um grupo de vigaristas, que Silvinha jamais fora doente, e todas essas histórias que os pobres de espírito costumam inventar.

Pedi ao meu pai, com insistência, que ele procurasse a polícia, mas ele se negou. “Vão rir da minha cara”, disse. “Se eu ficasse rico, por algum motivo, talvez comparecesse ao casamento da filha de um ministro. E, depois, nada sabemos do bigodudo. Pode ser um empresário, que possuía uma amante, depois transformada em esposa, ora. Sua imaginação, meu filho, sempre foi muito fértil. Não temos nada a ver com os problemas daquela família.”

Eu ainda a sinto, de vez em quando, sobretudo quando levo alguma porrada emocional, ou quando me perco no mundo, achando que a vida não tem sentido. Nesses momentos, consigo vê-la nítida, sorrindo para mim, na moldura azul da sua cama e dos seus panos. E aí choro. Às vezes, convulsivamente.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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