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Archive for abril \23\UTC 2011

Eu disse:

“Não, meu filho, eu e seu pai temos de visitar uma pessoa doente e não vamos poder levar você à festa da escola…”

Aí ele ficou me olhando. Sete anos tinha. Olhava com muita pena, não parecia agressivo nem nada. Eu fiquei paralisada, sentindo que alguma coisa estava errada.

“Mãe, posso pedir uma coisa?”

“Claro, querido.”

“Não minta pra mim.”

“Carlos, que é isso? Como tem coragem de dizer uma coisa dessas? Que falta de respeito…”

A piedade nos seus olhinhos negros ia aumentando à medida em que eu falava.

“Ô, mãe, a senhora sabe…”

“Sei o quê, moleque?”

“Sabe…”

“Olha, vou relevar, perdoar você, porque você já vai perder a festa da escola, mas não faça mais isso… Não duvide da gente, não me diga mais uma coisa dessas!”

Foi a primeira vez que aconteceu. Eu me senti muito mal, pois a gente percebe quando nosso rosto nos desmente. Carlos sempre foi uma criança muito doce. Eu e o pai dele continuamos a mentir, é claro, pecados mínimos, falsidades sociais, afinal vivemos disso, não? O tempo todo, não? Pois bem: aos quatorze anos, Carlos ouviu do pai uma grande, mas até caridosa, mentira; o pai lhe garantira que Jonas, o melhor amigo de Carlos, não sofria de uma doença tão grave assim. O garoto perdeu a paciência.

“Pai, ele vai morrer, está morrendo, por que o senhor quer me enganar?”

Meu marido, diferente de mim, decidiu assumir a própria culpa.

“Meu filho, é verdade, ele sofre de um câncer raro. Eu só quis preservar você. Me diga: eu minto tão mal assim?”

“Ninguém mente bem, pai.”

Vocês vejam a situação… Conversei com meu marido a respeito, eu já lhe havia dito que, desde criança, o Carlos não me parecia um filho, mas um mestre. Era uma sensação estranha: eu olhava aquele bebê tão frágil, sentia que dele emanavam milênios de sabedoria e pensava comigo mesmo: meu Deus, por que todo esse respeito? O que é que esse menino veio nos ensinar? Às vezes, Carlos me dá medo.

Interessante que, já rapazinho, não conseguiu manter namoro algum. Fiquei muito amiga de uma delas, a Lu, loirinha, magrinha, boa aluna, uma graça. Lu me contou alguma coisa do relacionamento deles que me apavorou! O Carlos, ela me disse, sabia exatamente quando ela dizia a verdade ou não. Nas mínimas coisas. Na maioria das vezes, ela descobriu depois, ele até perdoava. Mas, quando ela saiu com uma turma de amigos e inventou uma história qualquer, o namoro acabou. Depois de negar, chorar e se descabelar, Lu assumiu que não dissera a verdade.

“Sim, eu entendo. Sabe, Lu, se você quer sair com sua turma, tudo bem, e eu também gostaria de não levar em conta que você preferiu omitir a informação, mas não consigo. Você mente demais, e eu perdi a confiança.”

“Perdeu o amor”, choramingou a moça.

“A confiança vem antes do amor.”

Agora ele está estudando Engenharia, é aplicado além da conta, um cedeefe; poderia ser um homem normal, mas, além de namoradas, também não consegue fazer amigos. Vem pra casa e, quando não estuda, ouve música erudita. Às vezes, chora calado. Não comenta coisa alguma conosco. Eu daria o mundo pra saber o que se passa na cabeça dele. O pai já deixou de mentir pra ele há muitos anos. Meu marido, como todo homem maduro, andou tendo seus probleminhas sexuais, aí se deprimiu, e o Carlos, preocupado, quis saber o que acontecia.

“Filho, você não gosta de ouvir mentiras. Então evite certas perguntas embaraçosas…”

Não sei se ele deveria ter falado aquilo. O Carlos mudou muito depois do episódio. Calou-se. Evitou perguntar, ponderar e até dar sua opinião sobre as coisas do mundo.

Tem-me preocupado muito esse meu menino. Tive uma última conversa séria com ele, dias atrás. Eu me abri, sabe? Disse-lhe que sempre o vi, desde bebê, como alguém que viera ao mundo para me dar lições de vida. Um mentor.

“Ilusões místicas, mãe. Nunca lhe disse, mas tenho um problema: eu sei quando as pessoas mentem porque leio a expressão facial delas. Os movimentos dos músculos do rosto não são os mesmos na verdade e na mentira. Isso não é milagre, é ciência. Um neurologista de alto nível talvez explicasse tudo. Alguma coisa acontece com meu cérebro. Não tenho culpa.”

Nem eu tenho culpa de ser humana e, como os humanos, mentir de vez em quando. Ou muito. Ou sei lá quantas vezes por dia. Que inferno conviver com uma pessoa que nos cerceia, com olhos inquisidores, e nos invade as entranhas da mente, escarafunchando o lixo acumulado…

Eu às vezes saio do sério por causa do meu filho Carlos. Continuo sentindo, sim, que ele é um mestre, mas falso, talvez porque os mestres verdadeiros são compassivos e não nos acusam o tempo inteiro com seu impiedoso silêncio.

Ele diz que não tem culpa de ler rostos. Mas, como eu gostaria de, ao menos uma vez na vida, ler no rosto dele uma grande mentira, dessas pecaminosas, sujas, cheias de muita culpa, algo pesado, sexualmente inconfessável, digamos, algo incestuoso, como os desejos de um filho por uma mãe ou vice-versa.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Sempre tenho a impressão de que estes caras estão mortos, embora se movimentem, prazenteiros, por todos os cantos do Chez Camille.

O Chez Camille, vocês sabem, talvez seja o melhor restaurante da América do Sul. Que é o melhor do Brasil, não tenho dúvida. Um almoço sem vinho, individual, não sai por menos de cento e cinquenta dólares. Eu posso pagar, o meu convidado não.

Mas esses zumbis me incomodam. Há alguns anos, eram donos de fazendas, fábricas e até alguns bancos. O fim da inflação e a abertura das importações os destruíram. De repente, viram-se diante de produtos estrangeiros de alta qualidade, vendidos pela metade do preço das merdas que eles fabricavam. Estão aí, agora, gastando o dinheiro dos impostos sociais, que eles não pagam, para fingir que continuam ricos. Conheço todos eles, absolutamente todos. De vez em quando aparece no Chez Camille uma exceção: alguém que já trabalhava com competência, antes do fim da inflação, e que agora precisa apenas manter o ritmo.

Nunca gostei dos Estados Unidos, mas lá os caras ficam ricos unicamente porque trabalham. A maioria não gasta tempo para corromper políticos, não passa a mão nos impostos. Se puderem, os americanos te comem vivo. Mas sabem trabalhar.

Esse cara que vem aí é um desses sanguessugas. O pai dele já havia torrado a fortuna da família, acumulada na primeira leva da industrialização do país, à custa do sangue e da miséria dos operários. O puto está atrasado quinze minutos. Tudo isso é para me impressionar.

Enquanto a família desse corno começava a declinar, a minha iniciava sua aventura capitalista no campo, lá no Nordeste. Não sei bem qual foi a sacanagem que o meu pai fez, porque ele não tinha um puto no bolso, mas em dez anos se transformou no maior produtor de laticínios da região. Nunca me esqueci dos políticos que nos visitavam: meu pai fazia a sala, dava comida, abria litros de uísque, certamente lhes dava algum dinheiro, e depois nos dizia, a mim, meus irmãos e minha mãe, que tinha vontade de vomitar, só de pensar neles.

Que figura, meu pai! Tão simples, direto, empreendedor, valente. Diferente desses mortos-vivos, a pedir especiarias francesas, beber e arrotar, pagos pela poupança dos seus próprios avós. Meu pai foi até a capital, certa vez, só para perguntar a uns colegas dele de infância o que havia de melhor no mundo (“mas de melhor mesmo”, ele insistia) em matéria de educação. Alguém lhe disse que era Harvard. Ele voltou pro sertão, eu adolescente, e me disse: “Carlito, você vai estudar na tal de Harvard. Nem que eu me foda todo.”

“E meus irmãos, pai?”

“Não dá mais tempo pra eles, não. Agora vão ter é de me ajudar a pagar essa escola aí. Mas quem vai é você.”

Quando ele morreu, faltava uma semana para que eu me laureasse em Direito Internacional. Minha mãe e meus irmãos não me avisaram a pedido dele, no leito de morte:

“Venho puxar o pé de vocês todos se não deixarem o Carlito em paz até o último dia de aula…”

Conhecendo meu pai, perdoei minha família. Ainda fiquei um tempo fora, uns três anos, antes de surgir no sertão, de paletó e gravata, e contar pros meus irmãos que estava pronto para assumir as fazendas com eles. Riram tanto que me senti humilhado. “O que vamos fazer com as leis internacionais?”, um perguntava para o outro, enquanto riam. Minha mãe passava a mão no meu rosto, saudosa, pedindo que não ligasse para eles. No fim, todos sorrimos e nos abraçamos.

Passei uns meses por lá, sem fazer nada, percorrendo currais, aprendendo o processo de pasteurização, xeretando no laboratório de aprimoramento genético. Meu pai construíra um oásis num lugar inviável, e meus irmãos o mantinham com sabedoria.

Naqueles dias, eu me deitava na rede, todas as tardes, e Nininha, uma menina de doze anos, filha de um dos empregados da casa, vinha com um imenso leque, que ela chamava de abano, feito com folhas de bananeira, e se oferecia para minorar um pouco a canícula. Eu me entregava então a uma profunda sonolência, cheia de perfumes de mato e sons amigos, chilreios, vozes e latidos longínquos. Nunca fui tão feliz. Fiquei viciado em Nininha. Eu é que mandava chamá-la. Ela vinha correndo, muito menina ainda, com seu sorriso brejeiro, lindo.

“Inhô…”

“Nininha, bana eu…”

“Bano, Inhô…”

Claro, não iria advogar no sertão e acabei, como todo mundo que estuda fora, nas grandes metrópoles. O meu empregador é um dos maiores bancos do mundo, mas entrei nele como simples advogado. Dois anos depois, um dos gringos descobriu a minha grande habilidade para conseguir garantias dos tomadores de empréstimos. E me deu força. Me levou até a presidência.

Agora estou aqui, no Chez Camille, saudoso do berço, esperando um puto falido que se atrasou para me impressionar. O pior não contei: eu e a mulher dele, Anna, estamos apaixonados. Ela tem muito mais dinheiro do que ele, dinheiro de família, e, como a maioria dessas mulheres daqui, é infeliz e drogada. Mas, tão doce… Encontramo-nos em Nova York, na casa de amigos comuns, e aconteceu um fenômeno inédito, pelo menos comigo. Senti-me tão jovem e cheio de vida como nos tempos do sertão, logo depois que voltei do Exterior. Nunca dei muito certo com mulheres, coabitei com três delas, que jamais acompanharam meu ritmo, mas agora descobri que usava o trabalho para não encarar minha absoluta incapacidade de dividir, conviver. Fugia do desamor.

Em alguns dias, Anna me devolveu um pouco dos anos perdidos, foi carinhosa e meiga, riu das minhas histórias e se fascinou com a sabedoria do povo do sertão que ela, espiritualizada, comparava aos sufis da antiga Pérsia.

“Sabe, Anna, a partir de agora meu objetivo é dormir numa rede enquanto você me abana com um leque de folhas de bananeira. Mas não se preocupe, eu também vou abanar você.”

Quando voltamos ao Brasil, alguém nos denunciou ao marido dela. Anna se recolheu, não respondeu aos meus sinais. Um dia, eu no banco, ela me procurou, trêmula, e aí me convenci de que a amava acima de tudo.

“Ele me ameaçou com um escândalo”, ela disse, em pânico. “Minha família não vai perdoar isso.”

Uma semana depois, no entanto, um dos vice-presidentes me chega com um processo de execução para que eu assinasse. Um caso simples, acontecia todos os dias. O marido de Anna arrebentara com a praça. E nós poderíamos tomar-lhe o que lhe restava de bens. Assumi o caso.

Logo depois ele me ligou e marcou o almoço.

Lá vem ele, surgiu na porta. Está morto como todos os outros, apesar da cor bronzeada do seu fim de semana fútil, e do sorriso profissional. A conversa será rápida, direta. Ele perguntará o que posso fazer por ele. E eu lhe responderei perguntando o que ele pode fazer por nós: Anna e eu. Ele me dirá que seu pedido de divórcio já está encaminhado.

Não será o suficiente para que eu fique feliz. Queria estar com Anna muito longe daqui, naquele lugar inviável onde as pessoas e as coisas são mágicas em si mesmas. Ouvindo não exatamente os sons, mas sua meiguice: estalos, arrulhos, latidos longínquos, vozes humanas indefinidas, a vida.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Françoise nua

Gostaria de oferecer, todos os dias, uma corbeille de flores a Françoise. Tenho-a em alta conta, ou, melhor dizendo, sou apaixonado por ela. De certa forma. Isso tem atravessado os séculos. Infelizmente, é a minha própria inconsequência que não me deixa aprofundar um sentimento que poderia evoluir até, quem sabe, à coabitação e mesmo ao matrimônio.

(Talvez seja pretensão minha; como posso ter certeza de que ela concordaria com minhas ilusões?).

Não saberia dizer qual fora o melhor momento da minha amiga, em todo esse tempo imemorial. Talvez tenha sido em fevereiro de 1894, em Paris: ela posou nua para o fotógrafo americano Nick Jones, apesar do frio terrível que fazia naquela tarde e da insistência do rapaz em levá-la para a cama, após a sessão de fotos. Nick ficou literalmente enlouquecido ao contemplar aquela deusa em brasas de sedução e charme. Mesmo nua (e o gringo repetiria isso pelo resto da sua vida), Françoise jamais perdera a majestosa elegância (como se a nudez fosse, em si mesma, uma espécie de traje). Mesmo quando, todo o corpo eriçado de frio, ela se recostou em uma maravilhosa chaise longue – as pernas cruzadas, o cotovelo direito apoiado no encosto da cadeira; aí foi levando a piteira à boca, jogando a cabeça um pouco para trás. Há quem diga que esta foi a imagem de nu artístico mais sensual que a elite francesa vira naqueles tempos.

Mas talvez tenha sido numa outra a ocasião em que a figura de Françoise se fixou na energia cósmica indelevelmente. Teria acontecido durante a Segunda Guerra, em 1942, e já no Brasil, quando, diante de uma briga cruenta entre marinheiros, em algum ponto do porto do Recife, ela se elevou a um palco improvisado, feito de caixotes de material importado e, com a leveza das musas, iniciou um strip-tease, ao som de uma flauta doce que tocava trechos de obras de Chiquinha Gonzaga. A briga parou quase que de imediato. Primeiro, os marinheiros postaram-se imóveis, incrédulos diante do inopinado, porém inesquecível, espetáculo. Depois, quando ela jogou longe a própria blusa (não usava nada por baixo), alguns começaram a urrar, incontidos, e um outro grupo, este de estivadores amigos dela, foi obrigado a formar um cordão de isolamento. Infelizmente, não havia fotógrafos ou cinegrafistas na ocasião. Mas eu estava lá, também, na pele de um comerciante judeu, estabelecido com armarinho em rua próxima.

Então, garotos, o que estamos vendo aqui, nesta praia deserta, e agora, já no limiar do século vinte e um, é apenas mais uma performance da minha amiga Françoise. Vocês estão rindo de quê? Há mulheres que nascem para nos encantar. Olhem bem para ela. Pensem nas suas namoradas. Com todo o respeito: quem, dentre todas, possui o corpo mais belo? Quem foi brindada com seios tão bem proporcionados e tesos que, mesmo ao balanço do corpo, acompanhando a música, quase não se movem?

Parem com isso: Françoise não é uma vagabunda. E se o fosse? Quem teria essa graça, essa esbelteza de ninfa e essa capacidade única de despertar paixões insuspeitadas em qualquer tipo de homem? Eu garanto a vocês: somente Françoise. Ninguém mais. Pobre de mim, que a acompanho há tanto tempo e que ainda não me decidi a lhe ofertar algo mais do que desejos vagos ou corbeilles de flores… Mas posso estar aqui falando asneiras: talvez ela não me tenha percebido, sequer, e este meu sentimento atarantado. E talvez se contente em que eu a tenha, tão somente, em alta conta.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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