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Archive for 3 de abril de 2011

Françoise nua

Gostaria de oferecer, todos os dias, uma corbeille de flores a Françoise. Tenho-a em alta conta, ou, melhor dizendo, sou apaixonado por ela. De certa forma. Isso tem atravessado os séculos. Infelizmente, é a minha própria inconsequência que não me deixa aprofundar um sentimento que poderia evoluir até, quem sabe, à coabitação e mesmo ao matrimônio.

(Talvez seja pretensão minha; como posso ter certeza de que ela concordaria com minhas ilusões?).

Não saberia dizer qual fora o melhor momento da minha amiga, em todo esse tempo imemorial. Talvez tenha sido em fevereiro de 1894, em Paris: ela posou nua para o fotógrafo americano Nick Jones, apesar do frio terrível que fazia naquela tarde e da insistência do rapaz em levá-la para a cama, após a sessão de fotos. Nick ficou literalmente enlouquecido ao contemplar aquela deusa em brasas de sedução e charme. Mesmo nua (e o gringo repetiria isso pelo resto da sua vida), Françoise jamais perdera a majestosa elegância (como se a nudez fosse, em si mesma, uma espécie de traje). Mesmo quando, todo o corpo eriçado de frio, ela se recostou em uma maravilhosa chaise longue – as pernas cruzadas, o cotovelo direito apoiado no encosto da cadeira; aí foi levando a piteira à boca, jogando a cabeça um pouco para trás. Há quem diga que esta foi a imagem de nu artístico mais sensual que a elite francesa vira naqueles tempos.

Mas talvez tenha sido numa outra a ocasião em que a figura de Françoise se fixou na energia cósmica indelevelmente. Teria acontecido durante a Segunda Guerra, em 1942, e já no Brasil, quando, diante de uma briga cruenta entre marinheiros, em algum ponto do porto do Recife, ela se elevou a um palco improvisado, feito de caixotes de material importado e, com a leveza das musas, iniciou um strip-tease, ao som de uma flauta doce que tocava trechos de obras de Chiquinha Gonzaga. A briga parou quase que de imediato. Primeiro, os marinheiros postaram-se imóveis, incrédulos diante do inopinado, porém inesquecível, espetáculo. Depois, quando ela jogou longe a própria blusa (não usava nada por baixo), alguns começaram a urrar, incontidos, e um outro grupo, este de estivadores amigos dela, foi obrigado a formar um cordão de isolamento. Infelizmente, não havia fotógrafos ou cinegrafistas na ocasião. Mas eu estava lá, também, na pele de um comerciante judeu, estabelecido com armarinho em rua próxima.

Então, garotos, o que estamos vendo aqui, nesta praia deserta, e agora, já no limiar do século vinte e um, é apenas mais uma performance da minha amiga Françoise. Vocês estão rindo de quê? Há mulheres que nascem para nos encantar. Olhem bem para ela. Pensem nas suas namoradas. Com todo o respeito: quem, dentre todas, possui o corpo mais belo? Quem foi brindada com seios tão bem proporcionados e tesos que, mesmo ao balanço do corpo, acompanhando a música, quase não se movem?

Parem com isso: Françoise não é uma vagabunda. E se o fosse? Quem teria essa graça, essa esbelteza de ninfa e essa capacidade única de despertar paixões insuspeitadas em qualquer tipo de homem? Eu garanto a vocês: somente Françoise. Ninguém mais. Pobre de mim, que a acompanho há tanto tempo e que ainda não me decidi a lhe ofertar algo mais do que desejos vagos ou corbeilles de flores… Mas posso estar aqui falando asneiras: talvez ela não me tenha percebido, sequer, e este meu sentimento atarantado. E talvez se contente em que eu a tenha, tão somente, em alta conta.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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