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Archive for 7 de abril de 2011

Sempre tenho a impressão de que estes caras estão mortos, embora se movimentem, prazenteiros, por todos os cantos do Chez Camille.

O Chez Camille, vocês sabem, talvez seja o melhor restaurante da América do Sul. Que é o melhor do Brasil, não tenho dúvida. Um almoço sem vinho, individual, não sai por menos de cento e cinquenta dólares. Eu posso pagar, o meu convidado não.

Mas esses zumbis me incomodam. Há alguns anos, eram donos de fazendas, fábricas e até alguns bancos. O fim da inflação e a abertura das importações os destruíram. De repente, viram-se diante de produtos estrangeiros de alta qualidade, vendidos pela metade do preço das merdas que eles fabricavam. Estão aí, agora, gastando o dinheiro dos impostos sociais, que eles não pagam, para fingir que continuam ricos. Conheço todos eles, absolutamente todos. De vez em quando aparece no Chez Camille uma exceção: alguém que já trabalhava com competência, antes do fim da inflação, e que agora precisa apenas manter o ritmo.

Nunca gostei dos Estados Unidos, mas lá os caras ficam ricos unicamente porque trabalham. A maioria não gasta tempo para corromper políticos, não passa a mão nos impostos. Se puderem, os americanos te comem vivo. Mas sabem trabalhar.

Esse cara que vem aí é um desses sanguessugas. O pai dele já havia torrado a fortuna da família, acumulada na primeira leva da industrialização do país, à custa do sangue e da miséria dos operários. O puto está atrasado quinze minutos. Tudo isso é para me impressionar.

Enquanto a família desse corno começava a declinar, a minha iniciava sua aventura capitalista no campo, lá no Nordeste. Não sei bem qual foi a sacanagem que o meu pai fez, porque ele não tinha um puto no bolso, mas em dez anos se transformou no maior produtor de laticínios da região. Nunca me esqueci dos políticos que nos visitavam: meu pai fazia a sala, dava comida, abria litros de uísque, certamente lhes dava algum dinheiro, e depois nos dizia, a mim, meus irmãos e minha mãe, que tinha vontade de vomitar, só de pensar neles.

Que figura, meu pai! Tão simples, direto, empreendedor, valente. Diferente desses mortos-vivos, a pedir especiarias francesas, beber e arrotar, pagos pela poupança dos seus próprios avós. Meu pai foi até a capital, certa vez, só para perguntar a uns colegas dele de infância o que havia de melhor no mundo (“mas de melhor mesmo”, ele insistia) em matéria de educação. Alguém lhe disse que era Harvard. Ele voltou pro sertão, eu adolescente, e me disse: “Carlito, você vai estudar na tal de Harvard. Nem que eu me foda todo.”

“E meus irmãos, pai?”

“Não dá mais tempo pra eles, não. Agora vão ter é de me ajudar a pagar essa escola aí. Mas quem vai é você.”

Quando ele morreu, faltava uma semana para que eu me laureasse em Direito Internacional. Minha mãe e meus irmãos não me avisaram a pedido dele, no leito de morte:

“Venho puxar o pé de vocês todos se não deixarem o Carlito em paz até o último dia de aula…”

Conhecendo meu pai, perdoei minha família. Ainda fiquei um tempo fora, uns três anos, antes de surgir no sertão, de paletó e gravata, e contar pros meus irmãos que estava pronto para assumir as fazendas com eles. Riram tanto que me senti humilhado. “O que vamos fazer com as leis internacionais?”, um perguntava para o outro, enquanto riam. Minha mãe passava a mão no meu rosto, saudosa, pedindo que não ligasse para eles. No fim, todos sorrimos e nos abraçamos.

Passei uns meses por lá, sem fazer nada, percorrendo currais, aprendendo o processo de pasteurização, xeretando no laboratório de aprimoramento genético. Meu pai construíra um oásis num lugar inviável, e meus irmãos o mantinham com sabedoria.

Naqueles dias, eu me deitava na rede, todas as tardes, e Nininha, uma menina de doze anos, filha de um dos empregados da casa, vinha com um imenso leque, que ela chamava de abano, feito com folhas de bananeira, e se oferecia para minorar um pouco a canícula. Eu me entregava então a uma profunda sonolência, cheia de perfumes de mato e sons amigos, chilreios, vozes e latidos longínquos. Nunca fui tão feliz. Fiquei viciado em Nininha. Eu é que mandava chamá-la. Ela vinha correndo, muito menina ainda, com seu sorriso brejeiro, lindo.

“Inhô…”

“Nininha, bana eu…”

“Bano, Inhô…”

Claro, não iria advogar no sertão e acabei, como todo mundo que estuda fora, nas grandes metrópoles. O meu empregador é um dos maiores bancos do mundo, mas entrei nele como simples advogado. Dois anos depois, um dos gringos descobriu a minha grande habilidade para conseguir garantias dos tomadores de empréstimos. E me deu força. Me levou até a presidência.

Agora estou aqui, no Chez Camille, saudoso do berço, esperando um puto falido que se atrasou para me impressionar. O pior não contei: eu e a mulher dele, Anna, estamos apaixonados. Ela tem muito mais dinheiro do que ele, dinheiro de família, e, como a maioria dessas mulheres daqui, é infeliz e drogada. Mas, tão doce… Encontramo-nos em Nova York, na casa de amigos comuns, e aconteceu um fenômeno inédito, pelo menos comigo. Senti-me tão jovem e cheio de vida como nos tempos do sertão, logo depois que voltei do Exterior. Nunca dei muito certo com mulheres, coabitei com três delas, que jamais acompanharam meu ritmo, mas agora descobri que usava o trabalho para não encarar minha absoluta incapacidade de dividir, conviver. Fugia do desamor.

Em alguns dias, Anna me devolveu um pouco dos anos perdidos, foi carinhosa e meiga, riu das minhas histórias e se fascinou com a sabedoria do povo do sertão que ela, espiritualizada, comparava aos sufis da antiga Pérsia.

“Sabe, Anna, a partir de agora meu objetivo é dormir numa rede enquanto você me abana com um leque de folhas de bananeira. Mas não se preocupe, eu também vou abanar você.”

Quando voltamos ao Brasil, alguém nos denunciou ao marido dela. Anna se recolheu, não respondeu aos meus sinais. Um dia, eu no banco, ela me procurou, trêmula, e aí me convenci de que a amava acima de tudo.

“Ele me ameaçou com um escândalo”, ela disse, em pânico. “Minha família não vai perdoar isso.”

Uma semana depois, no entanto, um dos vice-presidentes me chega com um processo de execução para que eu assinasse. Um caso simples, acontecia todos os dias. O marido de Anna arrebentara com a praça. E nós poderíamos tomar-lhe o que lhe restava de bens. Assumi o caso.

Logo depois ele me ligou e marcou o almoço.

Lá vem ele, surgiu na porta. Está morto como todos os outros, apesar da cor bronzeada do seu fim de semana fútil, e do sorriso profissional. A conversa será rápida, direta. Ele perguntará o que posso fazer por ele. E eu lhe responderei perguntando o que ele pode fazer por nós: Anna e eu. Ele me dirá que seu pedido de divórcio já está encaminhado.

Não será o suficiente para que eu fique feliz. Queria estar com Anna muito longe daqui, naquele lugar inviável onde as pessoas e as coisas são mágicas em si mesmas. Ouvindo não exatamente os sons, mas sua meiguice: estalos, arrulhos, latidos longínquos, vozes humanas indefinidas, a vida.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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