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Archive for 18 de junho de 2011

Quando voltei ao Brasil, a juventude sumida, o físico bombardeado, muito deprimido com o fim de um casamento sem filhos, encontrei-o quase que exatamente do jeito que o deixei, quando completei vinte e um anos e, radiante, peguei um avião para Nova York.

Lembro-me bem dele naquele dia distante, no aeroporto. Ali estava o folclórico Genival, a figura da família, o mais velho dos oito irmãos do meu pai. Comportava-se com aparente discrição, sempre, mas costumava se vestir com algo que chamava – e muito, às vezes – a atenção do público. Naquele dia da minha despedida gloriosa, a estrela da despedida foi um chapéu dos anos trinta, marrom, de abas, que imediatamente associei aos filmes de gângster. O tio ficou igual a um guarda-costas de Al Capone. Era viúvo e tinha quatro filhos adultos que fugiam dele socialmente; não o entendiam e sentiam-se envergonhados, apesar de ele ter sido, sempre, um ótimo pai. Anos depois, eu entenderia que o tio quis marcar minha memória, no dia mais importante da minha vida. Que chapéu, aquele!

“Marcelo”, disse-me, no aeroporto, nos intervalos dos soluços da minha mãe, “eu acho que você não voltará tão cedo. Gosto muito de você, que é o único sobrinho inteligente que tenho, mas você, infelizmente, é americanófilo. Você se deixou corromper pelos musicais coloridos e acredita na porra do capitalismo. Se existem demônios no mundo, para dar sentido a Deus, são eles, os Estados Unidos”.

Tio Genival sempre aprontava alguma em todas as suas aparições, e naquele dia perdeu mais uma amizade: foi a do meu irmão mais novo, Oscar, por causa da frase sobre ‘o único sobrinho inteligente’. Oscar, arrogante e desagradável desde muito pequeno, cortou-o de sua vida para sempre.

O tio sentia, realmente, certa predileção por mim. Segundo ele, astrológica. “Aquarianos e geminianos se dão bem, é histórico”, afirmava. Para ele, a Astrologia era a única ciência que se devia levar a sério, a mãe de todas as outras. Costumava discorrer, durante horas, sobre a lógica das estrelas; costumes de sociedades antigas; e líderes contemporâneos que se guiavam pelos mistérios do Zodíaco. “Até os filhos de Lúcifer, como Hitler.” Eu ria, com generosidade quase piedosa.

Agora, lá estava eu, quinze anos depois da minha partida, voltando ao mesmo aeroporto, ampliado e modernizado, com ar-condicionado até nos salões de recolhimento de malas. Eu peguei meu saco de viagem, muito usado, que havia comprado numa casa de produtos de caça, e que disfarçava sua indigência com o charme militar dos mil bolsos com zíper, e fui saindo de fininho, com medo de ser reconhecido por alguém do meu tempo. Não havia avisado a nenhum dos meus irmãos da minha volta. Nossos pais haviam morrido há anos e eles jamais perdoaram a minha ausência nos enterros. Oscar, o ‘não-inteligente’, parecia o mais revoltado. Eu ainda tinha alguns amigos, sim, como o João Sinfrônio, com quem jamais deixei de me corresponder. João se transformara em um empresário de muito sucesso e vivia me chamando para ajudá-lo na ‘divisão internacional’ da sua empresa, produtora de sucos de frutas tropicais. Havia outros, um ou dois, mas João era o mais próximo da minha necessidade de sobrevivência. Ele foi um dos poucos a me visitar nos Estados Unidos.

Tudo o que acontecia com as pessoas queridas vinha em forma de pequenas notícias que minha mãe escrevia. Ela não gostava de falar comigo ao telefone porque isso lhe dava a estranha ilusão de que eu jamais saíra da cidade. Meu tio figura jamais me escreveu ou telefonou, mas eu sempre recebia os recados dele, nas cartas da minha mãe: “diga ao Marcelo que não nos comunicamos fisicamente, através de papéis, mas que eu tenho certeza de habitar seu pensamento, assim como ele passeia pela minha mente”.

Era verdade. Eu o sentia sempre ao meu lado e, o que é mais incrível, dando-me conselhos. Ele insistia, surgindo como um guia virtual, que se intrometia nos meus mecanismos mentais. Chegava a ser invasivo, às vezes, repetindo que eu não deveria me casar com Joyce Lee, por exemplo. “Vai lhe cornear de todas as formas, com todos os seus amigos ou conhecidos”, era a voz do tio imiscuindo-se entre meus pensamentos, sempre irônico, o chapéu de Al Capone meio penso para um lado.

Quando surpreendi Joyce Lee transando na nossa cama com o vizinho, um policial aposentado do andar de cima, meu primeiro e surpreendente pensamento foi de preocupação com a mulher do sujeito, Catherine, uma irlandesa de sorriso bondoso, que carregava o marido para cima e para baixo, numa cadeira de rodas; dava-lhe banho, trocava as fraldas e limpava a bunda.

Oficialmente, o tenente Grover havia sido atingido a bala, na coluna, por um adolescente flagrado por ele, numa rua escura ali perto, com uns papelotes de cocaína.

‘Esse puto enganou todo mundo, fingindo-se de paraplégico, inclusive os médicos da polícia e até a pobre da dona Catherine, e ainda vem aqui comer minha mulher… ’ , foi o que me passou pela cabeça.

Joyce Lee pulou da cama, pelada, vestiu-se com uma camisa minha, que era o pano mais próximo, e disse-me com sua voz invariavelmente doce:

“Não nos faça mal, my darling, eu estou dando a Grover apenas a ilusão de que ele consegue trepar.”

O tenente não se mexia, a cabeça enfiada no travesseiro, e não pude deixar de me espantar com a brancura quase celestial das suas nádegas. Como se sangue algum corresse por elas.

“Oh, Jesus, oh, Jesus!”, soluçava ele num inglês texano. “Eu estou morto, mister Marcelo, sua esposa está sendo caridosa comigo…”

“É verdade, my darling, vamos ter de ajudá-lo para sair da cama. Ele é paraplégico. Ele imagina que seu tesão pode voltar… com alguém…”

“Logo com você.”

“Comigo, my darling. Eu sei que estou errada. Mas achava que fazia uma boa ação.”

Tive ganas de correr até o apartamento do filho da puta e trazer a pobre Catherine para ajudar-nos na remoção do corpo inerte que, afinal, poderia estar fingindo ou não sua imobilidade. Eu acreditava até que não, em função da minha confiança na polícia de Nova York. Como um idiota como Grover enganaria uma das melhores corporações policiais do mundo?

Assim, Joyce Lee e eu vestimos o pobre canalha e o ajeitamos na sua cadeira de rodas, deixando-o no elevador. Percebi, apesar da minha completa confusão mental, ódio misturado com ressentimento, raiva com piedade, que não houve sequer uma troca de olhares cúmplices entre o traste e Joyce Lee. Será que ela falava a verdade? Que estava tentando ser piedosa? A mente da minha mulher era bastante complexa. Bem que tio Genival, nas suas invasões da minha mente, aconselhara: ‘caia fora dessa vagabunda!’.

Nosso casamento, é claro, não sobreviveria à tragicomédia. E foi com esse estado de espírito que desembarquei no aeroporto, com vergonha de ser reconhecido. No entanto, lá estava ele, meu querido tio. Fiquei muito assustado: como descobrira que eu desembarcaria na cidade, naquele voo, naquela hora? Incrível como ele conservara o mesmo rosto que tinha há quinze anos, no dia da minha despedida gloriosa.

“O.k., você deve estar se perguntando como adivinhei sua volta, o que não tenho como explicar. Deu-me vontade de vir até o aeroporto. Pensava em você, sim, mas penso em você sempre. Só posso lhe dizer, mas já lhe disse mil vezes, que a vida é um mistério. Mas, esqueça! Não deveria lhe dar qualquer atenção, você não seguiu nenhum dos meus conselhos. No entanto, como sou idiota, vou preparar seu retorno à normalidade…”

Disse isso e me abraçou. E somente aí pude reparar o detalhe que vestiu para chamar a atenção de todo mundo. Um brinco discreto, de ouro, com um ponto azul, mínimo, ao centro. E ele já completara oitenta e seis anos.

Do livro “Memórias Embriagadas” – Editora Noovha América, São Paulo, 2008.

 

 

 

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