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Archive for julho \03\UTC 2011

Gritos de prazer

O gato Querêncio apareceu na janela e Claudius Federico teve certeza de que sua amada voltara pra casa. Até que enfim! Ela sumira havia três dias e levara Querêncio junto para uma misteriosa incursão, sabe-se lá onde e para fazer o quê. Claudius Federico não se conformava com esse comportamento da namorada, mas ela fora muito clara: “comigo é assim, eu sou livre.” Bem, pelo menos só fizera isso uma vez.

Mas, que seja livre. O amor que lhe devotava transcendia tudo: convenção social, família e até sexualidade. Rossana era a pessoa mais estranha que ele já conhecera em seus trinta anos malvividos e por quem se apaixonara de uma maneira disparatada, demente, insensata. Contra tudo e contra todos. Ela, que não chegara ainda aos vinte e seis, parecia muito mais vivida do que ele. Só que ninguém sabia o que ela havia realmente vivido. E com quem.

“Gosto de fazer umas brincadeiras de vez em quando. Você se importa, Claudius?”

“Depende da brincadeira, meu amor.”

“Não gosto que me chame de ‘meu amor’, Claudius. Prefiro assim: ‘sua vadia’!”

“OK, sua vadia! Por que você quer ser… insultada?”

“Para ter raiva de você, sempre.”

“O que foi que eu fiz?”

“Nada. Mas vai fazer um dia. Homens não são confiáveis.”

“Que é isso, meu amor…”

“Está vendo? Voltou a dizer bobagem, mesmo tendo prometido que a evitaria. Homens são inconfiáveis, são falsos. Você vai passar a vida inteira jurando fidelidade e vai me cornear por trás.”

“Acho melhor ficar calado diante desse radicalismo.”

“Também acho melhor você ficar calado, sim, Claudius, o timbre masculino da sua voz me cansa.”

Era morena jambo de cabelos lisos e longos, corpo cheio de curvas, altura média, rosto comprido e delicado, um nariz reto, como o de uma estátua antiga. O mau gênio poderia ser sugerido pelos lábios mais finos e o mistério pelo olhar sempre distante, vendo além do objeto enquadrado. Morava sozinha com a mãe, dona Iwone, proprietária e principal funcionária de uma escolinha maternal na cidade, havia trinta anos. Dona Iwone era uma pessoa doce, mas reservada.

Quando começaram o namoro, procuraram fugir dos olhares curiosos do lugar, afinal era uma cidade do interior, não mais do que cem mil habitantes. Claudius Federico nem lhe havia tocado na mão, nem Rossana lhe dera qualquer esperança de intimidade. Andaram em direção a um dos bosques próximos do pequeno zoológico, falando sobre o assunto preferido dela: bichos. De repente, já haviam entrado em uma reserva de mata atlântica, ela começara a lhe dar aulas sobre ruídos que identificam insetos, eventuais cobras, pássaros e roedores, quando, como um felino raivoso, pulou sobre ele, arrancando-lhe os botões da camisa, mordendo-lhe os lábios e o peito, desvairada, misturando afagos com violência.

Ele levou um tempo para entender que aquilo era amor. E, quando começou a responder-lhe, fisicamente, ela o fez parar, gritando que não gostaria de ser violentada.

“Mas foi você que me violentou…”

“Eu? Como poderia, sendo mulher?”

Voltaram logo depois e ela jamais tornara a tocar no assunto. Mas ele se apaixonou. E passou a cortejá-la, procurando-a todos os dias, telefonando, ela dizendo que se sentia abafada, amordaçada, restrita. Foi quando fugiu pela primeira vez, junto ao gato.

Dona Iwone, na sua gentil discrição, ficara bastante preocupada e explicou que a filha costumava sumir assim desde a infância; que, certa vez, ela com dez anos, a encontraram no meio do mato, conversando com uma raposa, doze horas após o sumiço. Até os bombeiros haviam sido convocados. Seu Asdrúbal, o pai, que estava vivo na época, dera-lhe uma surra de chicote tão forte que até um vizinho queixara-se à polícia. Aí a menina sumiu de novo e apareceu dias depois, lanhada e deprimida, diante da piedade geral.

“A partir desse dia, Claudius”, dona Iwone esclareceu, “ela mudou completamente e desenvolveu uma certa ojeriza pelos homens. Menos de você, que ela trata bem, eu acho.”.

“Mas para onde ela foi agora, dona Iwone? Pro mato?”

“Sei lá, meu filho. Rossana não trabalha, não temos muito dinheiro, ela não poderia ir muito longe. Sinceramente, não sei. Saiu com uma mochila onde cabem, no máximo, duas mudas de roupa.”

‘Meti-me numa bruta encrenca’, pensou Claudius Federico, e resolveu pesquisar por conta própria nos bosques que circundavam a cidade. Ouviu todos os ruídos que ela lhe havia ensinado e isso, em vez de lhe meter medo, multiplicou o carinho que sentia pela moça. Escorregou numa ribanceira, passou perto de mortíferas cobras-coral, molhou os pés atravessando ribeirões. Gritou, dentro da mata, chamando pela amada. Nada.

Aconteceu, no entanto, uma coisa extraordinária: começou a ouvir murmúrios, primeiro, depois gemidos… de alguém que faz sexo com volúpia. Eram duas as vozes, um homem e uma mulher. Enlouquecedor: a voz de mulher era a de Rossana; e a de homem… a dele! Mas, como, se ele estava ali, mudo? Começou a correr, de um lado para o outro, procurando o improvável casal de amantes, no meio do mato, e acabou assustando um bicho que parecia um veado (nem sabia que eles ainda existiam naquela mata), até que escorregou e caiu de uma pequena encosta. Ralou-se todo. Os gritos de prazer (agora eram gritos) foram aumentando e o rapaz preferiu fugir daquele lugar. Até hoje se pergunta o que lhe aconteceu.

Dia seguinte, mais um susto: Rossana voltara, como anunciava o gato Querêncio da janela. Claudius Federico, ainda confuso com os acontecimentos da véspera, bateu à porta. A mulher que abriu não parecia Rossana: um sorriso de fada lhe enchia o rosto e até lhe engrossava os lábios; olhos brilhantes, a testa sem uma ruga.

“Sonhei com você a noite toda, meu amor”, ela disse, antes que ele abrisse a boca. Estava dengosa, faceira.

“Onde você esteve, vadia?”

“Puxa, você aprendeu, finalmente…”

“Ah, que bom. Mas onde você esteve, putona?”

“Quando? À noite? Ora, dormi aqui, depois que voltamos da mata…”

“Voltamos?”

“Claudius, jura para mim que me leva lá, de vez em quando, e faz amor comigo do jeito que você fez ontem…”

“Eu? Sim, juro!”

Claudius Federico sentia-se feliz como nunca na sua vida. Não poderia negar. Mas esta felicidade poderia ser completa, se conseguisse alguma explicação para aqueles murmúrios, gemidos, gritos de prazer. Por algum tempo, imaginou que estivesse louco, o ego repartido em dois; ou, pior ainda, projetando um duplo que se especializara em fazer sexo, com a sua namorada, sem o seu conhecimento.

“Na cama vai ser como no mato?”, ela quis saber.

“Só experimentando, né mesmo, grande vagabunda?”

Um sorriso libidinoso enfeitou o rosto da moça.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003

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