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Archive for agosto \03\UTC 2011

Mulher abre a porta do apartamento. De robe azul celeste. Tem 40 anos. É bonita.

“Tá bom, Belmonte, pode entrar. Mas acho estranho você aparecer por aqui. Sabe quando nos vimos pela última vez? Mês e meio atrás.”

“Você sabe, estou enrolado, Luíza. Serviço. Viagens.”

Homem com pasta de executivo na mão vai entrando e se joga numa poltrona. O apartamento é bem arrumado, decoração de móveis modernos. Muita fibra de vidro.

“Mentira, Belmonte. Eu sou realmente uma idiota. Há quase vinte anos que você mente. E eu ainda aceito ouvir suas histórias…”

“Luíza, hoje você pode achar o que você quiser. Se quer me chamar de mentiroso, OK, eu sou. Diga o que lhe vier à cabeça. Xingue. Eu lhe pedi socorro. Preciso falar com alguém que não seja da minha rotina, sobretudo que não seja da minha casa…”

“Aí escolheu sua amante de plantão.”

“Vá em frente, xingue. Solte os cachorros.”

“Seria dar muita importância a você. Você não merece. Quer beber?”

“Nem água.”

Mulher se levanta, serve-se moderadamente de uma dose de uísque.

“Então tá, Belmonte. Você tem alguma coisa a dizer? Hoje não sou amante. Sou ombudsman.”

“Não brinca. Estou cheio. Farto. Não tenho mais nada para dar. Sou vampirizado todos os dias, de todos os lados, em casa, no trabalho, na rua. Você é a única que não me pede nada, nunca me pediu.”

“É que eu só tenho dado esse tempo todo.”

“Para com isso, Luiza. É sério. Eu hoje me dei conta da dimensão do problema: foi logo depois que a mulher me pediu um ‘automóvel japonês’. É possível uma coisa dessas? Um carro japonês?”

“De que marca?”

“Aí é que tá. Esta foi a minha primeira pergunta. Mas ela não especificou.”

“Qualquer um?”

“Para ela, carro japonês é um sedan de mau gosto, meio brilhante, com os faróis sobressaindo… sei lá.”

“Você comprou?”

“Comprei uma revista e mandei que ela escolhesse. Mas o problema não é este…”

“Bem, eu não estava vendo problema nenhum. Sua mulher, burra do jeito que é, é capaz de lhe pedir as coisas mais loucas, e você tem de dar. É o preço de lhe permitir traí-la comigo e Deus sabe com quem mais…”

“Vou fingir que não ouvi. O problema, Luíza, é que ela não quer um carro japonês.”

“Ué, o que ela quer então?”

“Carinho.”

“Carinho?”

“Pois é. Eu não a como, nem toco nela direito; dia desses me conscientizei que nem beijo social ela ganha mais de mim. Você sabe. Então o jeito de receber o afeto que não lhe dou é ganhar um carro japonês. Por exemplo.”

“Belmonte, você está falando uma coisa tão óbvia que chega a me arrepiar. Todo mundo quer carinho. Eu, você sabe, jamais substituiria o carinho que porventura tenha o direito de receber por um carro japonês. Se fosse um cruzeiro pelas ilhas gregas, eu pensaria duas vezes.”

“Você continua destruindo a emoção das pessoas, só para fazer piadinhas?”

“Por que? Você está emocionado?”

“Que os pariu! Nunca pensei nessas coisas antes. Para mim sempre foi uma questão de executar, cumprir, resolver. Nunca percebi que meu filho mais velho come feito um louco porque nem eu nem a mãe lhe damos bola, quer dizer, carinho. Meu presidente, aquele bosta: dia desses eu resolvi tirar um sarro da cara dele e elogiei, até mais não poder, um relatório que ele fez pro Banco Mundial. Uma merda de relatório.”

“E aí?”

“Você precisava ver a reação. Entrou em êxtase. No dia seguinte me devolveu os elogios para o resto da diretoria. Ele só queria carinho, Luíza. Só isso.”

“Belmonte, acho que você está ficando louco. Tem certeza de que não quer uma dosezinha?”

“Nem água.”

Mulher se levanta de novo. Serve-se de um pouco mais de gelo. Retorna ao conjunto de sofás de cor creme. Acetinado.

“Aí o meu psicólogo preferido descobriu que o mundo quer carinho. Filho, mulher, chefe, o garoto que vende balas na rua, o assaltante que rouba para poder comprar uma fazenda, casar, e ganhar carinho, o presidente dos Estados Unidos fazendo…”

“Para por aí, Luíza. Estou em crise, porra! Pedi a você este encontro porque estou em crise. Mas tudo bem. Vou embora.”

Homem ameaça levantar-se.

“Fique por aí, babaca. Vou preparar um uísque pra você.”

“Nem água.”

“Vai beber de qualquer jeito.”

A mulher prepara uma outra dose nada contida, aproxima-se do homem que recebe o copo olhando nos olhos dela. Ela senta-se ao lado e, com seus dedos finíssimos, de unhas bem tratadas, abre uns caminhos pela cabeleira dele, que é vasta e grisalha. Com a outra mão faz uns movimentos circulares sobre seu joelho esquerdo. “Tão sensível, o meu amiguinho…”, ela diz, enquanto aproxima os lábios do seu rosto para beijá-lo, bem de mansinho, superficialmente.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003

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