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Archive for setembro \03\UTC 2011

Sonhos

“A primeira cena de que me lembro, nesse sonho, é Natália se levantando de uma cama ao lado da minha (por algum motivo eu não estava dormindo com Júlia).’’

“Natália? Ah, desculpe, doutor, esqueci que é a minha primeira sessão com o senhor. Eu lhe disse, troco de analista como quem troca de roupa, eh… Natália é minha advogada, desquitada, gostosa, me ama. Júlia, o senhor sabe, é minha esposa. Cerimonioso esse ‘esposa’, não?”

“Mas Natália levantava-se da cama e subia uma escada, de camisola curta, as coxas aparecendo. Ela é magra, cheia de costelas, como eu gosto. Lembro-me de que eu observava com muita atenção as coxas dela, em especial a direita, nossa, que beleza aquele músculo comprido, visto de lado, estufando a carne branca. Ela caminha muito no parque. Eu a chamei, baixinho, cheguei perto dela, tomei até coragem para tocar nas suas coxas, mas ela estava apressada. Ainda conseguiu dizer uma coisa que me deixou intrigado: ‘Desculpe, João Pedro, mas fiz uma grande besteira…’ Ora, ora, pensei, ela é esperta, conhece bem as leis, não faz besteiras de tamanho nenhum. Sua única cagada foi a de ter-se casado com um traste, um filho da puta que estourou a praça com duas empresas fantasmas!”

“Aí, não sei de onde, surgiu Júlia. Nos sonhos, o senhor sabe, as pessoas aparecem de repente, sem nenhum motivo, em especial a mulher da gente. Aliás, motivo tem, mas aí quem interpreta é o senhor. Eu fiquei pensando que a grande besteira de que Natália falou poderia ser um e-mail que ela tivesse passado a Júlia por engano, achando que era o meu endereço. No e-mail ela dizia que me amava e me queria. Mas Júlia chegou, com uma cara normal, sentou-se do meu lado, conversamos abobrinhas. De repente (sonho é foda!), lá vinha Natália descendo a escada, de roupa, cabelo molhado, e com uns papéis na mão, manuscritos, provavelmente uma carta. Nem olhou para mim, dirigiu-se a Júlia, deu-lhe os papéis, Júlia deixou-os cair e eles se espalharam no chão.”

“Eu lhe peço desculpas, Júlia”, disse Natália, “mas está tudo aí explicado. Leia”. Júlia fez cara de vítima. E eu, babaca, olhando para as duas e boiando.”

“Não, doutor, nada mais aconteceu. Foi só isso. Aposto que o senhor vai dizer que eu sofro de complexo de Édipo, mas é o óbvio, e não vou aceitar; talvez diga de uma forma diferente, mais cortês, que não me fixo em mulheres, em função das minhas relações com mamãe, mas isso foi o que o outro analista falou e eu o mandei se roçar nas ostras.”

“Aquele sonho, então, pulou para um outro tema, bem mais agradável. Agora era Vanessa, mulher de um amigo meu, o Zeca. Vanessa é outra gostosa; certa vez quase que a gente se engata, numa festinha lá em casa, e no sonho ela aparecia em close, só o rostinho lindo, sorrindo, estava feliz, e eu a beijava com muito carinho, na boca, nas bochechas, depois a minha mão começava a agir… bem, o senhor sabe como acabam essas coisas… Está vendo como gosto de mulher?”

“Se consumei o ato? Infelizmente não. O sonho foi interrompido no melhor e lá estava eu e Júlia viajando para um hotel numa cidade do interior. Acho que a gente ia ver uma propriedade, o senhor sabe, invisto em imóveis também. Súbito, estávamos já acordando, e eu achei esquisito o fato de o quarto ter crescido tanto. Havia outras camas em espaços mais ou menos iguais, divididos por paredes leves, de compensado, e num desses espaços vejo duas mulheres com três crianças. As crianças correm na minha direção e pulam na minha cama, eu tento dissuadi-las, brincando, as mulheres não se mexem, aí eu percebo que todos os quartos estão ligados entre si e que há todo tipo de gente no hotel, confraternizando, e não são somente os quartos, mas todos os cômodos do prédio são interligados. Isso me assustou muito, doutor, o que significaria? Medo de que um candidato de esquerda ganhe as eleições?”

“Onde estava Júlia? Sei lá. Nos momentos mais doídos ela não se faz presente. Também, foda-se. Não sinto falta. Não quero ninguém se imiscuindo nos meus sonhos. Aliás, nesse sonho, eu é que saio à procura dela, a encontro no hall, conversando com os porteiros, um monte deles. Eu a chamo para dar uma volta, saímos, mas o pneu do meu carro estoura, coisa que jamais acontece com esses utilitários esportivos importados. Descemos, nós dois, e voltamos a pé para conversar com a multidão de porteiros. Peço para chamarem um borracheiro. Dizem que não há, num domingo. Como não há? Aí um deles nos diz que o único borracheiro da cidade é um tal de Jeremias que, nos dias de folga… (o sujeito faz um gesto com a mão direita virada para baixo, dedos unidos, a mão subindo e descendo).”

“Porra, não dá pro cara trepar em dia útil à noite e atender clientes desesperados num domingo?”, eu pergunto, irritado.

“Não”, diz o capiau, “ele só gosta de fazer isso domingo” (e repete o gesto).

“Achei, doutor, uma ousadia, aquela conversa diante da minha esposa, mas o tal hotel era meio surubento mesmo. Como Júlia reagiu? Sei lá. Por que o senhor quer saber? Aliás, o que é que o senhor pensa de tudo isso? Um outro analista, não o último, o do complexo de Édipo, mas o anterior, insinuou que eu precisava trabalhar uma possível tendência homossexual, mas pera lá, o senhor acha que isso são sonhos de viado? Bem, esse foi o resultado da noite de ontem. Toda noite tem frege. Aí eu me acordo com essas histórias na cabeça, e fico pensando o dia inteiro nelas, no que significam, se o meu casamento acabou, se as fantasias são normais… Isso me inquieta muito, doutor, e eu não consigo trabalhar direito…”

“Sim, eu sei que sou ansioso, sou assim desde criança. Há um outro sonho recorrente, da infância, mas acho que não vou contar pro senhor, não. Tenho vergonha. Talvez, se o senhor insistir… Fico temeroso, sabe? O senhor pode vir com interpretações que me agridam moralmente e eu não pago uma fortuna aos analistas para ser caluniado e ofendido. Pode tirar seu cavalinho da chuva.”

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