Feeds:
Posts
Comentários

Archive for outubro \03\UTC 2011

É inacreditável, mas Cirley não entende nada do que eu falo. A não ser, é claro, a produção do nosso dia-a-dia, pequenas burocracias, satisfação de necessidades fisiológicas, essas coisas comezinhas.

Tentei lhe explicar o que significava Feng Shui e por que eu havia chamado aquele rapazinho bochechudo para dar uma olhada no apartamento, mas foi inútil. Para ela (é sempre assim), desbloqueio energético é o mesmo que as mandingas que seu avô fazia no interior do Paraná, quando ela era criança.

“Vai dar muito mais resultado”, disse-me Cirley (e o rapazinho olhando-a, constrangido e deslumbrado; ela encanta todo e qualquer homem), “se você meter uma espada-de-são-jorge logo na entrada”.

Por via das dúvidas, além de trocar a posição de todos os móveis, comprei a tal planta. E as coisas para mim começaram a funcionar. Acho que a espada-de-são-jorge ajudou.

Tirando essas incompreensões, minha vida com Cirley tem sido uma maravilha. Meus amigos não conseguem entender como estou vivendo com ela já há um ano e meio. Rodrigo, que me apresentou à deusa, disse-me no ouvido, logo depois que nos cumprimentamos, eu deslumbrado com seu ousadíssimo decote em V:

“Campeão, essa mulher não existe. Só um conselho: coma, mas não case.”

A elite, da qual faço parte mais por uma circunstância de família, é assim mesmo: transforma pessoas em robôs, não consegue enxergar o que os seres humanos têm de melhor, de mais profundo e abstrato. Eu pretendo ser uma exceção, e talvez por isso esteja com Cirley até hoje.

Xandá, minha ex, até hoje não suporta o meu caso com Cirley. Fui obrigado a bater o telefone, certa vez, quando ela insultou minha mulher, chamando-a de prostituta, oportunista e outras bobagens.

“Quer saber, Xandá? O pai da Cirley, fabricando sandálias no Paraná, tem mais dinheiro do que sua família inteira.”

Fui cruel com Xandá: isto não é verdade. Ou melhor: ainda não é verdade. É que seu Teotônio aumenta o faturamento a cada ano, enquanto a família de Xandá vai empobrecendo com o passar do tempo e já não consegue manter o padrão de consumo antigo. Depois, as falências, ou os empobrecimentos, também são psicológicos.

Disse-o, com todas as letras, porque este é um argumento que aquela gente entende (de repente, vejo-me, eu também, chamando a minha gente de “aquela gente”, como Cirley se refere à elite).

Mas estamos bem, sim. Não me canso de olhá-la nua na cama, seu corpo absolutamente perfeito, seus pêlos pubianos arrumados como em um jardim – e os cabelos cor de mel adornando o travesseiro.

Ela, se acorda, às vezes, percebe que eu estou ali em pose de oração, louvando ao Senhor pela genialidade com que esculpiu o ser humano, e revela sua modéstia mais desconcertante:

“Você fica me olhando aí, bobão, todo safado. Imagina se eu fosse bonita.”

Certo dia eu lhe perguntei: “Você realmente acha que não é bonita? Você pode me dizer o que falta em você?”

“Eu? Eu sou um horror! Magra demais e cheia de celulite…”

Aí não suportei. Nervoso, quase irritado, expliquei-lhe tudo o que sabia sobre escultura clássica. Fui até a biblioteca e lhe trouxe um livro de fotos de arte, mostrei-lhe as obras de Praxíteles e Fídias. Ela tentava dizer alguma coisa, eu não permitia. “Se você tivesse vivido naquela época, Cirley, esses gênios seriam mais geniais ainda, porque teriam você como modelo…” Ela me ofertava um sorriso de falsa Gioconda, porque mostrava os dentes naturalmente perfeitos, incisivos e molares harmonicamente distribuídos, dentes grandes, brilhantes – que seus lábios carnudos, carnais, carnívoros iam descortinando.

Eu fiquei exausto do eruditismo do meu próprio monólogo, ela disse qualquer coisa sobre o que sua mãe achava de homens apaixonados (usou uma expressão diferente, algo como “mais bestas do que as próprias bestas”, se não me engano) e me perguntou de chofre, sem piedade:

“Amor, sabe o que nasce do cruzamento de japonês com um pavão?”

Fiquei mudo.

“Um espanador de cabo curto.”

Não sei que cara fiz. Mas ela se obrigou a completar:

“É ótima, né?”

“Muito, muito”, eu respondi, perscrutando mais uma vez o seu rosto. ‘E preconceituosa, politicamente incorreta, além de falsa’, pensei comigo, ‘porque japonês de filme de arte tem pau grande’.

Seus olhos emitiam cintilações orientais (nunca havia percebido, antes), sugerindo amêndoas douradas, realçadas pelo negrume dos cílios imensos.

Até eu me assustei com minha própria reverência, o impulso de orar para sua imagem pagã, reafirmando minha condição xiita. Pareço um idiota, eu sei. Mas, se vocês a conhecessem…

 

Anúncios

Read Full Post »