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Archive for novembro \03\UTC 2011

Será que ele havia bebido ou cheirado alguma coisa? Ou o sucesso costuma deixar as pessoas com cara de espanto, os olhos arregalados?

Estávamos lá, eu, que sou o novelista, e Júnior, o ator, na porta do meu apartamento. Eu o havia chamado. Convidei-o a entrar. Ele se apressou, como se estivesse sendo perseguido.

“Que foi isso, Júnior? Viu fantasma?”

“Quase fui linchado, carinhosamente linchado, aqui embaixo, no calçadão. O povo me reconheceu. E acho que, na confusão, bateram a minha carteira.”

‘Que coisa’, pensei. ‘Este moleque tem pouco mais de vinte anos, era um atorzinho de teatro infantil, agora ganha uma fortuna e ainda reclama do povo, que o ama! O pior é que a culpa é minha. Fui eu que o fabriquei’.

Essas coisas acontecem muito quando se trabalha com comunicação de massas. Na minha novela, uma verdadeira bosta, assim como todas as outras anteriores, pois novela só presta para veicular anúncios e enriquecer a emissora, inventei um personagem meio doido, meio hippy, chamado Mambo-Jambo; um sujeito vazio, louco por ritmos latinos. Ajudei o diretor a escolher o ator e acabamos topando com Júnior, todo pobrezinho, tímido, com dicção péssima e presença de palco zero, mas com uma cara de cubano que justificava tudo.

Mambo-Jambo, o personagem, sujeito pobre, do morro, mantinha um namorico com Cleres, a filha mais nova do empresário Acácio (toda novela é igual). Pois bem: com dois meses de apresentação, eu já era obrigado a passar metade do tempo inventando situações para o casal, tal a popularidade deles. E aí, sem ter mais o que criar, joguei Mambo-Jambo no campo e o transformei num líder camponês, pronto para invadir as terras do próprio sogro que, naturalmente, era o maior filho da puta.

Pronto: o comportamento de Mambo-Jambo (ou Mam-Jam, como alguns fãs-clubes preferiam), passou a ser imitado na vida real: fazendas foram invadidas por todo o país e os militares que detinham o poder mandaram chamar o dono da emissora.

“Dê um sumiço nele!”, disseram a seu Feitosa, o dono, português esperto, mas ignorante que se transformara no maior empresário de comunicação do continente.

“Mas, senhores”, reagiu seu Feitosa, “em toda a minha vida jamais fiz mal a uma mosca. Digo, fisicamente.”

“Não, porra”, gritou o general Assis, segundo o testemunho de quem assistira à reunião, “não é para matar o ator, e sim o personagem.”

“Mas isto é com o Zé Oliva”, ponderou de novo o português.

Eu sou o Zé Oliva. Ex-redator de publicidade, ex-vendedor de carros, mas sobretudo ex-alcoólatra, que vendo o meu talento para enganar as massas. Seu Feitosa ligou para mim, logo que voltou da reunião, que ocorrera na capital. E foi taxativo:

“Quero que acabes amanhã com o Mambo-Jambo, ou eu estou fudido!”

Tentei convencê-lo de que seria muito pior, inclusive para os próprios militares, porque o povo não aceitaria a morte de um fenômeno de popularidade do dia para a noite. Mas seu Feitosa estava histérico:

“Olha aqui, Zé Oliva, se você não matar o personagem, eu mando matar o ator. Não quero problema com os milicos.”

“Da noite pro dia não dá”, apelei. “Tenho de preparar a morte dele.”

“Então tá bom. Uma semana.”

“Quinze dias.”

“Dez dias e não se fala mais no assunto!”, disse aos gritos o português mais poderoso do continente, encerrando a conversa.

Foi aí que chamei Júnior ao meu apartamento e o povo lá embaixo quase o matou de paixão. Contei toda a história a ele, exceto que o português havia ameaçado matá-lo de verdade.

O rapaz ouviu, pensativo. Eu já sabia que ele não era o idiota que eu imaginara, quando o conheci. Naquela época, coitado, parecia incompetente porque não havia estudado, ou treinado o suficiente. Com o tempo revelara-se com certa sensibilidade artística. Mambo-Jambo tinha muito dele. Não se é popular à-toa.

“Bem. Você está me dizendo que Mam-Jam está morto. Que posso fazer? É você que escreve a novela.”

“Não, cara, eu quero outra coisa. Eu quero que Mambo-Jambo me diga se aceita ser eliminado, assim, desta forma estúpida.”

“Não entendi.”

“Caralho: eu pensando cá comigo que você não é uma besta e você não entendeu. Eu quero a opinião do personagem, tá? Eu quero que Mambo-Jambo dê declarações sobre o perigo que está correndo.”

Júnior levantou-se do sofá, pediu licença para desligar a televisão, que ficava no mute o tempo todo, pegou um copo de água no bar, serviu-se, aí se encaminhou à sacada, olhou a inacreditável paisagem da baía, com seus milhões de luzes e, quando voltou, não era ele. Ali estava Mambo-Jambo, minha criação. Até a cor da pele era outra, trigueira e sofrida. Fiquei perplexo.

“O pai quer falar comigo?”, ele começou, com a voz e os cacoetes do personagem.

Repeti tudo o que já havia dito ao Júnior. Mambo-Jambo não conseguia pensar sem se manifestar fisicamente. Dava socos na própria mão espalmada, ajeitava as calças, fechava e abria o zíper da braguilha (gesto que levava as fãs ao delírio). Ficou assim um tempo, andando de um lado para outro.

“Pai, acho que devemos ao povo uma revolução.”

“Como é que é?”

“Vamos não só invadir fazendas como viajar até a capital e exigir que os militares organizem eleições democráticas!”

“Ah, é? E quem vai cuidar do cu do papaizinho aqui, durante a guerrilha promovida por você, Che Guevara de araque?”

“Aí é que está, meu pai”, ponderou Mambo-Jambo, “nosso país é uma grande mentira, o povo prefere acreditar nas ilusões, nossa gente admira as pessoas que aparentemente não existem, como eu, Mam-Jam.”

“Como, aparentemente?”

“Porque, de alguma forma, existimos. Eu sou tão forte que você, meu criador, veio me perguntar se deve me matar ou não. Se eu pedir uma revolução, tenho certeza de que a receberei. Você não imagina o que acabou de acontecer aí embaixo, no calçadão.”

Mambo-Jambo acabou de falar, correu até a sacada, e gritou daquele jeito que tanto influenciava os jovens da idade dele: “Vamos derrubar a ditadura, povo meu!”

Eu tinha de pensar um pouco na hipótese. Porque, na verdade, este foi o meu primeiro impulso, usar o personagem para iniciar uma reação popular contra a tirania.

Bem, se desse errado, seríamos presos, os militares invadiriam a estação, só que arcariam com o ônus da impopularidade. Matar alguém que milhões de pessoas amam? Complicado, claro. Mas poderia dar certo. Nossa moderna democracia começou aí.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003

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