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Archive for dezembro \03\UTC 2011

O revertério

A manhã, que já ia alta, estava especialmente quente na varanda do casarão, e Djair cochilava, deitado numa das redes, ainda de pijama, recuperando fragmentos de sonhos eróticos que tivera durante a noite com Eneida, a vizinha. Se alguém lhe perguntasse o que é ser feliz, aquele momento teria grandes chances de servir de modelo.

Tinha dezenove anos, acabara o curso médio e se preparava para entrar na Escola de Contabilidade. O professor particular vinha sempre depois do almoço, ficava duas horas; depois, ele estudava um pouco até as seis da tarde. Tomava um longo banho, usando cremes e águas de cheiro, jantava frugalmente (não tinha o menor apetite) e, por volta das oito da noite, quando a maioria das pessoas da casa se recolhia e os irmãos mais velhos ganhavam a rua, ele escalava o muro de trás e ia ter com Eneida, no próprio quarto dela. A mocinha, de dezesseis anos, já o esperava de janelas entreabertas.

Não eram encontros perfeitos, ainda, pois Eneida não abria mão da virgindade, mas aquilo, ele sabia, era uma questão de tempo. O maior risco, na verdade, era dele: e se ela engravidasse pelas coxas? Gostava de riscos. Não era por outro motivo que estava ali, no quarto contíguo ao do major Vilella, pai da moça, chefe de polícia e desafeto de seu pai, o amanuense Figueiras. O major andava armado, já dera tiros para assustar um namorado da filha mais velha, que acabara por fugir de casa. Djair podia ouvir o ressonar do velho e o ranger da cama no quarto ao lado, mas isso não o incomodava: Eneida tinha seios redondos, gostava de tirar toda a roupa para que ele a apreciasse e, nos momentos mais íntimos da relação, excitava-o ao máximo sussurrando com um sotaque próprio: “Djair, vem d’gente, vem d’gente…”

Possível ser mais feliz? Pensando bem, sim. Se fosse quebrada a rotina. Se um risco maior surgisse; encoxar Eneida era pouco. Sua vida havia se transformado numa rotina agradável, mas rotina: saía do quarto de Eneida por volta das onze da noite, pulava o muro de volta, ia direto para o próprio quarto, que dividia com Zito, o irmão mais velho. À noite, sonhava com a amada. De manhã, tomava um café reforçado e, ainda de pijama, caía na rede da varanda para ler, entre cochilos, um romance vagabundo, de capa e espada, que o atraía pelo lado romanesco. Djair sempre se identificava com o herói principal.

O amanuense Figueiras criava os filhos assim: o que vale é a satisfação dos sentidos e a realização dos sonhos. Não se pode descuidar de um bom ganha-pão, mas isso não é o mais importante. Já para as filhas, o discurso mudava radicalmente: o que importa é um casamento próspero, após o que poder-se-ia pensar na satisfação de necessidades exclusivamente espirituais, como a arte, sobretudo o piano, e o atendimento social aos desvalidos. Já dona Clara, a mãe, discordava pacificamente de tudo isso. Para ela, só a igreja, o padre de plantão e o Papa importavam. Era uma família de bem e de posses: três moças e quatro rapazes que adoravam os pais e, no geral, davam bons exemplos à comunidade.

Só o major Vilella implicara com o amanuense Figueiras e o insultava junto a amigos comuns, chamando-o de ladrão, por causa do patrimônio e nível de vida desproporcional ao cargo de funcionário público. O amanuense, na verdade, recebia muitos presentes e era amigo de políticos e homens de negócios influentes. E daí? Major da polícia, reagia o amanuense, só serve mesmo para ter filhas gostosas.

Assim, naquela manhã quente, Djair foi acordado por um ruído incomum: batidas surdas no chão, como numa parada de Sete de Setembro, e gritos incompreensíveis e decididos. Era um grupo militar que se aproximava.

Pulou da rede, deixou o romance cair no chão, e foi olhar da varanda, lá de cima, já que a casa, imensa, de quatorze quartos, repousava sobre um promontório.

O grupo vinha vindo numa marcha pouco organizada, mas impressionante pelas expressões inabaláveis dos combatentes. Eram rostos heróicos, de quem realmente salvaria a Pátria. E o coro, agora audível, arrepiou Djair:

“Ao poder! Ao poder! Ao poder!”

À frente, um homem mais velho, de rosto escuro de tanto sol, longos cabelos brancos, agitava o rifle numa das mãos, conclamando o povo a olhar pelas janelas medrosas, ou por detrás dos postigos das portas.

“Venham, venham conosco, vamos salvar o Brasil!”

Logo atrás dele, um adolescente garboso empunhava uma bandeira vermelha com uma foice e um martelo como símbolo. Djair não tinha a menor idéia do que aquilo significava, mas não pôde se conter e gritou alto, da sua varanda distante, tentando avisar o pessoal das casas vizinhas, todas mais acanhadas e baixas:

“Pessoal! É a revolução! Vão derrubar o governo!”

Falou sem pensar que seu pai era um funcionário do governo, mas governo para ele era algo perpétuo, imutável. Ninguém na rua reagiu ao seu grito. ‘Ê, povinho…’, ele pensou, e não teve dúvidas: correu para dentro da casa à procura do velho rifle do pai. Na hora em que passou pelo banheiro, ouviu a voz abafada e trêmula de dona Clara que havia se trancado ali com as três empregadas. Segundo padre Januário, os sanguinários comunistas estavam a ponto de tomar o poder no Brasil: fuzilariam todos os católicos e comeriam as criancinhas em churrascadas regadas a cachaça.

“Quem está aí?”, perguntou dona Clara, com o choro histérico das empregadas ao fundo.

“Sou eu, Djair, mãe.”

“Venha pra cá, meu filho! Os comunistas…”

Nem ouviu. Já pegava o rifle no fundo do armário, procurava uma calça cáqui do uniforme escolar e uma camisa verde musgo, cheia de bolsos, que seu pai usava para a caça. Jamais se vestiu tão rápido, desceu as escadas aos saltos e pegou o rabo da fila, formado por gente meio mal-encarada, uma boa parte com menos de vinte anos.

“Trouxe munição?”, perguntou um deles.

“Munição? Não…”

“Então vai buscar, burguês de merda! Quem você acha que nos abastece de munição?”

Voltou novamente, com o rifle na mão, demorou um pouco para achar as balas dentro de uma caixa velha de sapatos. Aproveitou e pegou emprestado um xale vermelho da sua irmã Lita, para usá-lo como lenço de pescoço, como boa parte dos revolucionários faziam. Ainda conseguiu alcançar o grupo, os bolsos da camisa e da calça estufados de balas; muita gente miserável, mulheres inclusive, agora acompanhava os soldados e já era a maioria; só aí ficou sabendo que a patuléia, militares à frente, se dirigia ao centro da cidade para tomar o palácio do governo. Procurou tomar posição próximo à liderança.

Após uma caminhada extenuante de sete quilômetros, quando chegaram a ser agredidos por inócuas balas de chumbo de inimigos que encontraram no caminho, chegaram ao centro deserto. Hércio, o de cabelos brancos longos, líder dos insurretos, foi recebendo, à medida que se aproximava do palácio, a mesma mensagem de outros militantes, alguns feridos, o sangue manchando os uniformes improvisados:

“Dispersar, dispersar! Os burgueses ganharam reforço das tropas dos estados vizinhos! Perdemos por enquanto! Vamos nos recompor! Vamos nos recompor!”

Na cidade sem vivalma, de portas lacradas e silêncio agressivo, não havia sequer um inimigo. Os soldados legais, disseram os comunistas feridos, haviam se concentrado na zona sul.

“Gente”, gritou Hércio, “vamos nos dispersar por enquanto; fujam para bem longe, ou daqui a pouco estarão na cadeia. Disfarcem-se. Procurem lugares onde ninguém conheça vocês…”

‘Ah, não… Chegar até aqui e não dar nem um tiro?’ Djair saiu andando sem destino, pisando com dificuldade no paralelepípedo alto, as botas do amanuense Figueiras a lhe apertarem os pés. ‘Ah, não…’

Na primeira praça que encontrou, a do Teatro do Povo, mirou a cabeça de uma réplica de estátua grega e acertou-lhe o olho direito. Não daria mais tiros na sua vida. Nos próximos tempos, iria viver de sobressaltos. Vendeu o rifle e as balas a um comerciante, trocou a roupa de revolucionário por um terno velho, descobriu que havia se esquecido de pegar em casa um tostão que fosse, e assim trabalhou quinze dias ordenhando vacas num sítio da periferia.

Na primeira oportunidade, roubou o sitiante. Acostumou-se a beber vinho com ele, durante o almoço, quando o patrão invariavelmente se embebedava e dormia sentado, de boca aberta. Ali, olhando para aquele homem indefeso, que também era bondoso e vicioso, perguntou-se se valeria a pena transformar-se de criminoso político em ladrão comum. Decidiu virar ladrão e roubou tudo o que o sitiante guardava em casa, além de alguns objetos mais ou menos valiosos.

Com os trocados, conseguiu pegar um trem e chegou a um outro Estado onde acabou comprando, junto a uns marginais, documentos de um italiano de nome Simone que havia sido assassinado e emparedado havia algum tempo. Foi obrigado a estudar um pouco daquela língua para imitar o sotaque. Riam dele: “Simone é nome de mulher…” Ele balançava os bagos para quem dissesse: “Olha a mulher aqui, ó”.

Descobriu, naqueles dias infernais, que não sabia fazer absolutamente nada, além de ser gentil com mulheres. Acabou se transformando num gigolô da melhor rua de prostituição de uma cidade bem menor e mais provinciana do que a sua.

Passava os dias e as noites fazendo sexo, com várias clientes. A maioria apaixonada por ele. “Quero fazer nenem com você”, elas diziam, rindo. E ele: “pelo amor de Deus, já destruí minha vida; não jogue terra em cima.” Procurava os jornais do seu Estado e os lia com avidez, à busca de alguma notícia da família ou dos amigos. Um dia soube, através de uma nota mínima, que seu pai lutava na Justiça para reaver o emprego, tirado por suspeita de simpatia pelo movimento comunista internacional. ‘O major Vilella não perdeu tempo; filho da puta’, pensou Djair. A partir daí perdeu até o tesão e não saía mais de casa. Dormia, bebia cerveja e lia jornais antigos. Chorava, às vezes. E, no choro, jurava vingança ao major.

Mas foi num daqueles dias, em que só tinha vontade de se matar, que alguém bateu à porta do cubículo.

“Simone?”

Voz de mulher, mas não das suas meninas.

Levantou-se e abriu, sem querer saber se era uma armadilha da polícia ou de um outro gigolô tentando matá-lo. Mas era Eneida, parecendo mais alta e muito mais bonita, que o abraçou, enquanto lhe sussurrava no ouvido: “Meu pai está atrás de mim; ele me obrigou a bater na porta.”

Mal acabou de ouvir, jogou-se no chão, enquanto a voz do major berrava “sai da frente, Eneida!” E ela: “não, pai, não!”

Fugiu como um réptil para os fundos da casa, as balas passando rente ao seu cabelo desalinhado. Arrombou, com o corpo, a frágil porta de trás e jogou-se no córrego que passava dois metros abaixo, e que servia como o esgoto da zona.

Não conseguiu chafurdar na água imunda. Preferiu morrer. Ficou de pé, ali no córrego, com água pelo joelho e coberto de merda. Estufou o peito para receber as balas do major. Ele e mais três cabras lhe apontavam fuzis e revólveres.

“Ponha as mãos na nuca, filho da puta!”, gritou um dos meganhas.

“Mais respeito, que minha filha está aqui!”, gritou o major com o soldado, que imediatamente se desculpou, em tom de súplica.

“Você vai morrer, safado!”

“E seu neto vai ficar sem pai!”, ele respondeu, de reflexo, pois não havia mais nada a dizer.

“É isso mesmo, pai, estou grávida dele!”, gritou Eneida, a voz abafada, sem aparecer na cena.

“Mas como, se você não tem barriga e esse desclassificado está fugindo há meses?” O major fora tomado de surpresa e tentava entender melhor a situação.

Aproveitou-se da hesitação dos homens e correu, de repente, em direção à linha do trem, onde um mato alto poderia protegê-lo. Os soldados não atiraram de imediato, com medo do chefe. O próprio major perdeu alguns segundos até decidir voltar ao ataque.

“Matem ele! Matem ele!”

As chances de escapar eram, agora, promissoras. Muita gente gritava na rua, assustada com o tiroteio, algumas mulheres jogaram-se sobre os soldados. “O italiano não! O italiano não!”, elas gritavam, histéricas.

No meio da confusão, ele encontrou os fundos da casa de Messias, um comerciante local, de quem era amigo, e que o escondeu até que o perigo passasse.

“O revertério ainda não acabou, Messias”, ele queixou-se ao comerciante, já a salvo, dias depois. “Agora não sei o que fazer”.

“Você vai ter que virar outra pessoa, mas não é por causa do major, não. É que tem umas quatro mulheres esperando filho seu.”

“Tás brincando…”

“Não sabia?”

“Elas falaram, mas achei que era para gozar da minha cara… Messias, me ajuda!”

“Já estou ajudando. Só que o revertério em que você entrou é muito maior do que pensa, italiano. Se acostume com ele e o resto Deus provê.”

Dessa vez não teve vontade de chorar. Pelo contrário: riu muito da própria desgraça. Aquele era o sinal de que precisava para sentir-se, finalmente, um homem.

Do livro “Allegro”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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