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Archive for fevereiro \18\UTC 2012

Estamos ouvindo as cançonetas nostálgicas das caixinhas de música e todos nós sentimos vontade de chorar. Somos quinze ou dezesseis (às vezes me perco) a perambular por dentro deste casarão antigo, ao qual estamos confinados por vontade própria. Gostamos daqui. Viemos para cá quando a construção se iniciou, no final do século dezenove. Nós sempre nos reunimos por afinidade, ninguém jamais nos deu ordens. Temos, em comum, o gosto pelas flores no jardim, o cheiro de tabaco, o som dos pianos de cauda tocados pelas moças mais novas, as caixinhas de música… Há uma energia comum que nos une, e eu diria que é a força do pretérito, de um mundo já superado pelos próprios habitantes da casa, que o preservaram com dedicação carinhosa e ao qual devotam toda a sua capacidade estética.

São engraçadas, essas pessoas. Nascem, crescem, desde cedo vivem na angústia e na dor, mas revelam laivos de sentimentos refinados, sofisticados, e os dessa casa só os encontram quando escarafuncham o passado… deles, porque nós mesmos não temos passado. O tempo é, para nós, uma ficção.

Somos, de certa maneira, seus companheiros de jornada. Eles não nos vêem e não conseguem nos levar em conta. Com exceções, é claro. Nós os amamos porque, enfim, é da nossa natureza amar a todos os habitantes da Concessão Física, e a nós mesmos, oriundos de outras esferas. Não estamos aqui para ajudá-los na dor da existência, e muito menos dar-lhes um norte diante da insensatez que manifestam com incrível freqüência. Poder-se-ia perguntar, mesmo, qual a nossa real motivação ao insistirmos em ocupar esta casa, na nossa forma própria, e eu diria que nada além do prazer que o passado deles nos proporciona.

Dia desses, estávamos todos (foi aí que contei uns quinze ou dezesseis dos nossos), à beira do piano, ouvindo o ensaio com que a menina Cristina nos presenteou em um final cinzento de tarde. Que maravilha! Que talento! Seus sentimentos sutis, manifestados nos seus gestos de virtuose, transformavam-se em vapores suavemente coloridos e prazerosos, tão comuns na nossa esfera, mas tão raros no próprio mundo deles; somente alguns os captam com relativa precisão.

Cristina possui um parente, o Sérgio, que produz o mesmo fenômeno ao escrevinhar alguns versos românticos que acaba por oferecer a uma mulher da noite, de um outro sítio onde os vapores têm mais peso e onde é bem mais difícil penetrar. Os sentimentos desse rapaz, contudo, fazem daqueles versos verdadeiros archotes a destruir toda a treva que envolve a vida da sua amada, e, quando ele os leva até ela, todo o ambiente ao derredor se ilumina e, por um momento, todos os presentes, gente cinza e dura, se comprazem com pensamentos de bondade e paz. (Não estão acostumados a isso).

Eles próprios, então, se assustam de cogitarem, por um átimo, em algo que não seja prazer físico e velhacaria. Mas, ali, o Bem não dura para sempre, pelo contrário. Aquela mulher pintada, contudo, vai aos poucos redirecionando suas pretensões e expectativas, diante de tanta luz emanada dos versos de Sérgio.

Um dia, temos certeza, aqueles dois se unirão em sítio próprio e terão chances de experimentar o amor, privilégio de tão poucos, aqui na Concessão. É mais fácil, para os humanos, apagar luzes benéficas, desfazer essas laborações. Eles são frágeis, imaginam-se ludibriados e traídos, todo o tempo, e por isso insistem em dominar e manipular, de uma forma ou de outra.

Nós os observamos, neutros, porque não sentimos a tristeza deles, não entendemos isso. Para nós tudo é aventura na direção do progresso. Para eles também seria… Mas, como sofrem!

E assim, para não cairmos na rotina dos comportamentos repetidos, procuramos nos acercar daqueles que se diferenciam, seja pelo gosto estético, seja pelas aspirações. A maioria dos habitantes e visitantes desta casa está mesmo a cultivar as experiências já vividas até pelos seus próprios ancestrais. Estão determinados a isso. Nada os faz desistir dessa intenção. E é aí que vamos encontrar os sentimentos mais refinados, a ingenuidade e a beleza.

Nós dissemos que nenhum deles tem a capacidade de nos ver, apenas como exceção. Pois bem: esta exceção apareceu. É Genoveva, a moça que porta acepipes. Ela agora visita todos os dias esta casa, trazendo os doces e salgados que os donos apreciam, e tem se divertido muito a nos observar, em todos os cantos. Vira-se para um e outro de nós e pergunta coisas do tipo: “Ei, pequenino, o que é que você está fazendo aqui?” Ninguém responde porque, se responder, vai acabar estabelecendo uma conexão emocional com ela, e essa gente humana, apesar de frágil, pode ser muito perspicaz e envolvente. Por outro lado, nós não temos licença para nos comunicar diretamente com eles. Incidentes aconteceram. Contaram que um de nós, perdido de encanto por um deles, respondeu ao contato, e aí sobreveio a dor eterna de entrar neste reino de agonias, onde eles se debatem. Nós não estamos preparados para as trevas.

Genoveva, de fato, é um encanto, uma luz rara que jamais conhecemos. Tenho rogado aos meus mentores que ela não se acerque de mim, jamais, e simplesmente não me dirija a palavra. Mas ela sorri, para mim e para os outros, em qualquer lugar onde estejamos: no depósito das frutas, dentro da caixa gelada onde eles guardam os alimentos, ou no meio dos vapores úmidos dos banhos.

“Pequeninos, pequeninos!”, ela nos chama (meu Deus!, como alguém pode ser tão bela?…), com sua graça de fada. “Venham conversar comigo, eu sou uma de vocês, eu entendo vocês…”

Uma de nós, será?

E, fora ela, quem da Concessão nos iria realmente entender?

Eu olho para Genoveva e fico imaginando que certas danações podem valer muito a pena.

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