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Archive for abril \10\UTC 2012

Aleluia

O homem chegou na Sexta-Feira Santa, às quatro da tarde, e Don Antônio não soube interpretar se isso havia sido um bom ou um mau augúrio. “Sempre ouvi dizer”, comentou depois com Serena, sua mulher, “que Cristo foi crucificado às três da tarde. Às quatro, então, deveria estar morrendo”. Disse isso e se benzeu, sentindo um calafrio.

Mas o homem parecia manso e bondoso, até onde pode ser bom um capitalista. Don Antônio aprendera com Don Carluccio, o pai imigrante, italiano que jamais falara o português, que todos os capitalistas são vermes, com exceção dos capitalistas amigos.

A primeira coisa que perguntou ao homem, antes do nome, foi como soubera que aquela propriedade estava à venda.

“Por acaso”, respondeu o homem. “Eu me encontrava num restaurante da região quando ouvi uma conversa de dois gauchões na mesa ao lado sobre uma linda propriedade que seria vendida.”

“Porca miséria, mas eu não coloquei nada à venda”, disse Don Antônio com o sotaque do pai. “Só comentei que não teria como evitar isso…”

“Há comentários, Don Antônio”, disse o homem com sua inegável sabedoria, “que viajam muitas léguas. Talvez o seu tenha sido um deles.”

“E como é o seu nome, seu… seu capitalista?”

“Horácio Fortes. E se o senhor quer saber, não me considero capitalista, mas um cristão. Cumpro aqui os desígnios de Deus.”

“Como nós todos”, rebateu o colono.

“Como nós todos.”

Era uma propriedade realmente bela, cinqüenta alqueires que subiam e desciam quatro montanhas verdejantes. O rebanho de ovelhas já fora de dez mil cabeças, agora não passava de quatro. Nem Don Antônio nem os vizinhos sabiam exatamente o que havia acontecido: primeiro uma verminose brava; depois, um terço do rebanho fora vendido, para pagar dívidas pesadas à cooperativa; mais adiante algumas dificuldades com os empregados, além de problemas com dois dos cinco filhos que não gostavam do campo e preferiam gastar dinheiro nas cidades, e pronto! A terra, há oitenta anos nas mãos da família, teria de ser vendida. Tragédia completa.

“Vou mostrar pro senhor, Don Antônio, que não sou capitalista. Eu compro a terra, pelo preço de mercado, e o senhor permanece na sua casa, com sua família.”

“Não estou entendendo, seu Horácio. O senhor vai comprar ou não vai comprar a propriedade?”

“Vou comprar o meu direito de vir aqui de vez em quando, olhar as ovelhas, ver se o seu caderninho de entradas e saídas não está com problemas, e só. O senhor continua. Pago-lhe um ordenado de capataz, dou-lhe dez por cento do lucro como prêmio e, em pouco tempo, o senhor terá como iniciar de novo sua carreira de empresário rural.”

“Mas… o que o senhor ganha com isso?”

“Ora, noventa por cento do lucro que o senhor me der.”

Don Antônio suspirou. Havia alguma coisa errada naquilo. Pediu licença, deixou o homem na varanda, sorvendo uma cuia de chimarrão (que havia preparado como se gaúcho fosse), e caminhou até a velha tília que lhe propiciava os melhores pensamentos e decisões. Tocou no tronco da árvore, carinhosamente. Mas sua mente não lhe disse nada. Não havia sentido naquela proposta.

“Sabe o que eu pensei, Antônio? Quatro da tarde da Sexta-Feira Santa pode ser também o começo da ressurreição.”

Don Antônio se assustou com a voz de Serena, às suas costas. Ia dizer-lhe que não gostava de ser incomodado na “hora da tília”, mas gostou do pensamento que sua mulher lhe emprestara. Morte e ressurreição. Pela conversa do homem, fazia mais sentido o segundo conceito.

“Você acha, Serena, que o homem tem trinta e três anos, que nem Cristo?”

“Se tiver, está quase morrendo. Parece ter uns cinqüenta.”

“Também acho, Serena.”

Voltou à varanda e só quis saber de mais duas coisas sobre a proposta: por que o homem confiaria nele, Antônio, se fora justamente ele que deixara o empreendimento descambar?

“Não há ninguém melhor do que o senhor para tomar conta desta terra. O senhor já cometeu todos os erros e, daqui pra frente, só cometerá acertos.”

Fazia sentido. E a segunda coisa se relacionava ao pessoal.

“Meus poucos empregados têm carteira assinada, seu Horácio. Menos o uruguaio.”

“Se ele não quiser regularizar, não há jeito. Não podemos correr riscos, fazer nada errado.”

“Mas ele é só um sujeito esquisito. Amigo dos bichos. Dizem que se serve das ovelhas, mas é desfeita do povo. Eu boto a mão no fogo pelo moral dele.”

O capitalista engasgou-se com o chimarrão, mas, muito educado, conseguiu evitar a tosse. Ficou vermelho, no entanto.

“Don Antônio: nem começamos a trabalhar e já tivemos nossa primeira discórdia…”, disse ele, ainda tentando se livrar das coceiras na garganta.

“Amigo pra mim é amigo, seu Horácio. Meus empregados todos eu trato como filhos. O uruguaio é gente especial. Homem que gosta de bicho como gosta de gente pra mim é quase santo.”

“Tem precedente: São Francisco, que gostava de bichos, defendia o papa e a ordem na Igreja.”

“O uruguaio me defende e não deixa que nada de errado ocorra na criação. Mas, por outro lado, eu não sou o papa, doutor.”

O homem se levantou, com um sorriso desistente no rosto.

“Pensando bem, Don Antônio, acho que São Francisco não daria muita importância à burocracia. Vamos dar uma volta e conversar sobre essas montanhas?”

“O senhor é quem manda, seu Horácio.”

Meses depois, quando a paz voltou ao empreendimento, Serena iria lembrar que o negócio fora fechado num Sábado de Aleluia. Ninguém descobrira coisa alguma a respeito do capitalista, mas todos os meses ele visitava sua nova terra, olhava as contas, perguntava sobre a criação, as parições, o corte da lã, a produção de leite e a engorda. Mas o que lhe dava mais prazer, sem dúvida, era a contemplação dos bichos na sua vida simples. Quando voltava do campo, o homem parecia transfigurado, com o rosto cheio de uma estranha paz que ele carregava, depois, para a cidade grande.

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