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Archive for maio \12\UTC 2012

Havíamos planejado aquele mergulho fazia quase seis meses. Eu e Binho não nos separávamos, nem na escola. O padre diretor até procurara nossas mães para dizer que andava muito preocupado com uma amizade tão… estreita.

“O que o senhor está querendo dizer com isso?”, perguntou a mãe de Binho, que não gostava de padres e dizia pra todo mundo que era comunista e que, em vez de adorar santos, preferia prestar culto ‘à santa madre Rússia’. “O senhor acha que eles estão de troca-troca?”

“Eu não disse isso, minha senhora.”

“Insinuou.”

“Longe de mim. É que há tantos meninos da idade deles na escola…”

“Mas, vocês, da Igreja, são fascistas mesmo, não? Agora querem se meter na amizade dos outros? Meu filho escolhe o amigo que quiser. E o seu, Hermelinda?”

“O meu também”, apoiou minha mãe, que, no fundo, admirava a ousadia e algumas posições de dona Celsa, a mãe de Binho.

“Bem”, suspirou o padre, “já não está mais aqui quem falou. Depois, não se arrependam.”

“Arrepender de que, seu padre? Quer ser mais claro?” Dona Celsa dava sempre a última palavra.

“Com licença, senhoras, boa tarde.”

E foi assim que os padres no colégio nos deixaram em paz definitivamente. Ora, ora, troca-troca… Como se nós fôssemos mulherzinhas. Eu sabia que Binho já havia pegado o Angu, um fresco do terceiro ano, mas todo mundo pegava o Angu, atrás das mangueiras, na hora do recreio. Eu não queria saber de encoxar meninos, mas nunca comentei este assunto com o meu melhor amigo. Nós dois gostávamos mesmo era de jogar botão, empinar pipas e bater uma pelada, fazendo tabelinhas no ataque. Mas o maior sonho era atravessar o rio Cajazeiras.

Na volta da escola, uns cinco quilômetros a pé até nossa vila, a gente ia olhando e admirando o Cajazeiras. Não podia haver nada mais lindo! O rio, às vezes estranho, às vezes escuro, mas de águas limpas, escoava com rumores diversos, ora sussurros, ora alvoroços, dependendo do tempo, do vento, da chuva. Binho e eu catalogamos vinte e oito ruídos diferentes que o Cajazeiras fazia. Ele estava sempre vivo, esperto, o nosso rio, formando rodamoinhos ou pequenas ondas que surgiam do nada, de repente. No trecho mais propício ao nado, deveria ter uns quinze metros de largura. As pessoas preferiam a pesca ao banho, mas eu e Binho estabelecemos um pacto: deixaríamos de ser crianças e viraríamos homens de verdade quando tivéssemos coragem de atravessar o Cajazeiras nadando.

Ninguém, no entanto, poderia desconfiar da aventura. Muita gente já havia morrido lá dentro, puxado pelas correntes, ou por uma certa Mãe Fria, uma mulher pelada, toda nua, de cabelos muito compridos, que morava nas profundezas e preferia meninos: puxava-os pelo pé e, antes que eles se afogassem, pedia para ser tocada intimamente. Nós estávamos certos de que, se nos afogássemos, morreríamos felizes.

O plano foi sendo adiado por falta mesmo de oportunidade. Nós, além de nos atrasarmos na volta a casa, chegaríamos molhados, e alguém, talvez nossas irmãs (o Binho e eu só tínhamos irmãs) nos denunciariam. Porque entrar no rio era rigorosamente proibido por todos os pais do lugar.

Chegou um dia, no entanto, em que ninguém das duas famílias estaria em casa, na hora do retorno do colégio, por volta da uma da tarde. Era fim de inverno, o Cajazeiras andava meio nervoso, formando do nada as tais ondas, e o seu ruído principal naqueles dias era o mais agressivo de todos da nossa lista: um chachuá, chachuá intermitente, esquisito.

Nadar, a gente não nadava direito. Havíamos aprendido alguma coisa, em algumas poucas ocasiões, quando a escola ia fazer piquenique na Ilha do Ouro, um grande lago artificial que havia sido formado para a construção de uma hidrelétrica que jamais saíra do projeto. Por causa dessa obra, o povo dizia que o lugar era amaldiçoado pelo governo. Dona Celsa se aproveitava e conseguia votos para os candidatos comunistas. Que acabavam perdendo, sempre. Mas, afinal, nadar não era tão difícil, via-se na televisão, e a maioria dos garotos da cidade havia aprendido na prática, durante os piqueniques de colégio ou nas férias, no mar. Mas nossos pais não tinham dinheiro para nos levar ao mar, a mais de quinhentos quilômetros dali.

Saímos correndo da escola e chegamos bem cedo ao local da travessia. Descemos o barranco, encontramos um bom arbusto para esconder a roupa. Já estávamos com o calção por baixo. Antes de pular na água eu rezei uma Ave-Maria. Binho não rezou, não acreditava em santos, como a mãe.

Meu amigo saiu na frente, dando longas braçadas e gritos de felicidade. Eu o acompanhava, mas logo deixei de gritar, porque entrava água na minha boca. No meio do rio, não consegui manter-me em linha reta – a correnteza estava muito forte. Vi, com os olhos meio embaçados, que Binho já estava alcançando a outra margem. Fiquei muito nervoso com isso (em que direção nadava?) e perdi a coordenação dos braços. Ainda vi Binho, de pé, gritando pelo meu nome.

Entrei, então, em um mundo que jamais desconfiara existir: o tempo passava em outro ritmo, muito lento, e a paisagem do rio por dentro era ainda mais deslumbrante, de águas azuis e seixos redondos, peixes que pareciam pintados a mão, tudo em cores intensas, envolventes. Eu olhava para o peixe e me sentia um peixe; para o fundo do rio e me sentia seixo ou areia. Eu era eu mesmo, mas também o mundo à minha volta. Aquilo me deslumbrou e eu me esqueci da travessia, do meu amigo, de tudo. Olhei para um lado e vi minha mãe, muito mais moça e mais magra, dando a luz a uma criança que era… eu mesmo. As cenas foram, então, se repetindo, como em uma tela, e, apesar do tempo em volta passar lentamente, as imagens de toda a minha vida transcorriam em um outro ritmo, como se acontecessem ao mesmo tempo, apesar de eu separá-las, apreciando-as e refletindo sobre elas. Difícil explicar isso.

Aí comecei a ver o futuro. Eu acordando na beira do rio, com um monte de gente gritando em volta, eu chegando em casa na picape de seu Dutra, meio zonzo ainda, e recebendo uma descompostura do meu pai e da minha mãe. Mais adiante, eu via meu pai dentro de um trem que, de repente, transformava-se numa grande confusão de bancos voando, ferros tortos e gente perdendo braços, pernas, cabeças. Sangue por todo lado. Isso me assustou e eu gritei.

“Gritou! Ele gritou! A água saiu dos pulmões!”, berrou seu Dutra, do meu lado. Ele fazia massagens violentas nas minhas costas. Eu comecei a vomitar. Uma multidão olhava para mim, assustada. Binho chorava e dizia que a partir de agora iria rezar muito, contrariando a mãe, porque acabara de rezar por mim e conseguir a graça.

Depois aconteceu tudo como eu havia visto. “Eu já sei o que vocês vão dizer”, disse aos meus pais antes da violenta reprimenda.

À noite, tratado com chás e toalhas quentes, recebi a visita de Binho e dos pais dele que, além da solidariedade, vieram nos trazer a notícia de que haviam dado uma surra de cinta no filho. A primeira da vida dele. Binho, realmente, estava meio amuado. Aí eu me lembrei do trem, dos corpos despedaçados e de meu pai lá dentro. Perguntei se ele iria viajar de trem. “Amanhã”, ele respondeu. “Pra capital”. Caí numa crise de choro, quase histérica, e contei o que se havia passado. Ele ficou assustadíssimo e minha mãe resolveu chamar Terezona, a benzedeira, apesar dos protestos de dona Celsa, que passou a nos acusar de fanatismo religioso.

Terezona chegou correndo, ouviu tudo e sentenciou, virando-se para o meu pai:

“O que se vê na zona da morte é pra se levar a sério. Não vá.”

“E as outras pessoas que vão morrer?”, perguntou meu pai. “Como avisá-las?”

“Acho que não vai acontecer nada com elas, com trem nenhum. Aconteceria se o senhor estivesse lá dentro. Daí o aviso que seu filho recebeu na zona da morte.”

“Tá vendo, pai”, eu concluí, “se eu não fosse nadar o senhor poderia estar morto”.

Ninguém disse mais uma palavra naquela noite. No dia seguinte, a caminho da escola, depois de jurar que jamais entraríamos no Cajazeiras, Binho me encheu a paciência querendo saber o que eu havia feito com a Mãe Fria.

“Não apareceu Mãe Fria nenhuma…”

“Conta, conta: ela é mesmo bonita? Você pegou no negócio dela?”

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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