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Archive for junho \16\UTC 2012

Fico olhando estas meninas, aqui no Jóquei, e não saberia dizer se as desejo ou se elas me encantam apenas esteticamente, como se eu manuseasse um luxuoso álbum de fotografias.

Acredito que não seja eu somente que, aos sessenta e seis anos, tenha perdido a noção da própria sexualidade. Pergunto a alguns amigos mais íntimos e eles revelam a mesma perplexidade. Já não sabem mais o que são: se homens ou sátiros.

As meninas, neste verão, têm-me assustado com suas ousadias: já não existe mais aquela peça tão sensual, insinuante, clássica, chamada sutiã. Elas se expressam de seios nus, de biquinhos colados aos organdis, lãzinhas ou sedas puras; as saias já não são mini, mas micro. E as atitudes deixariam envergonhada minha mulher, tida como bastante avançada, nos anos sessenta, a primeira a ensinar em uma escola de engenharia para platéias noventa por cento masculinas.

Quantos anos estas meninas têm? Dezoito, vinte e um… Não passam disso. Mas é incrível o que falam de palavrões; o jeito profissional de pegar um cigarro; o descuido ao revelar os fundos das próprias calcinhas.

Sou um homem velho, mas magro e esguio e ainda, no meu rosto, notam-se fulgores da juventude. Enfim, sou um velho bonito, como diria Carol, meu último caso extra-conjugal, morta o ano passado, coitada, de esclerose múltipla.

Talvez por isso, por essa consciência, eu não tenha feito cara de trouxa ao ser abordado por uma das meninas de álbum colorido que vejo passar, incólumes, diante da minha mesa e da minha dose light de uísque.

“Posso sentar com você?” (Branquinha de cabelos negros, sorriso infantil, cintura finíssima, bundinha empinada, coxas de aço, seios como sentinelas, camiseta distraidamente aberta, deve malhar o dia todo.)

“Claro, minha filha.” (Poderia ter dito “minha neta”.)

O garçom, muito jovem, veio correndo atendê-la, e percebi que estava especialmente interessado nos seus seios venusianos. Olhou-os do seu ângulo privilegiadíssimo, levou um tempão para escrever a bebida e salgadinhos de queijo na comanda. Não pude deixar de me irritar.

“Está com alguma dificuldade de escrever, meu jovem?”

“Não, não senhor. A caneta está falhando.”

“Sei.”

Ela sorriu para mim e para ele, como quem diz “meninos, eu traço vocês dois, é uma questão de agenda.”

E era. Não perdeu muito tempo. Agradeceu (“obrigado, guri”, ela disse… seria gaúcha?) e foi direto ao assunto:

“Sei que o senhor pode estranhar, mas sou uma menina de programa.”

Fingi, é claro, que não estava chocado.

“Ah, sim, minha menina, hoje é muito comum. Aqui no Jóquei, hoje em dia, mais ainda…” (Décadas de reuniões empresariais me fizeram um craque da desfaçatez; com meus botões estava pra morrer. Como? Uma puta, logo ali, no meu santuário social?)

“Olha, que esperto! (Fez uma cara de quem acreditara. Prostitutas são sempre crédulas, desde a Babilônia, ou não teriam escolhido aquela profissão.) E eu pensei que estava enganando bem…”

“Mas está, sim. Todo mundo acha que você é uma patricinha.”

“Sabe que até já estou me sentindo assim, tanto que me confundem com elas? E também por causa dessas roupas que visto. E, é claro, porque comecei a fazer compras nas mesmas lojas.”

“Está faturando alto, então.”

“Não posso me queixar. Pra minha idade…”

“Vai largar tudo, depois?”

“Claro. Quero ter dois filhos.”

“Já conhece o pai?”

“O pai não importa.”

Pouco antes de sofrer o meu primeiro enfarte, há vinte e cinco anos, quer dizer, antes da dor aguda, senti uma sensação estranha de alheamento, de fuga da realidade. Eu estava envolvido numa operação extremamente tensa, de compra milionária de um estoque de máquinas, não dormia há dois dias e bebia sem parar. Essa sensação voltava sempre que alguma coisa me perturbava além do normal. Foi o que comecei a sentir naquele momento: uma menina linda, perfeita, inteligente, e já destruída pelo materialismo e a usura – principais características da nossa lamentável sociedade.

“Está tudo bem, gatão?”, ela perguntou. (Eu deveria ter mudado de expressão, subitamente.)

“De onde você é, minha filha? De que bairro?”

Ela desconversou, disse que morava em um apartamento de área nobre da cidade, com mais duas amigas. Mas eu insisti e ela acabou me falando o nome de uma vila que me era completamente desconhecida.

“Jovens nos botequins jogando sinuca. Bêbados batendo nas mulheres e nos filhos. Cachorro latindo por todo lado. Garotos vendendo drogas no meio das ruas…”, eu descrevi seu ambiente.

“Onde quer chegar, cara? Todo mundo sabe como é bairro de pobre.”

“Eu acredito que você seria mais feliz, menina, se em vez de abordar velhinhos com propostas indecorosas, passasse a defender sua gente de alguma maneira, e usar sua esperteza, sua inteligência, porque você tem uma boa cabeça, para transformar aquela gente em pessoas respeitáveis. Esse caminho que você está trilhando é individualista, equivocado, e só vai levá-la à morte prematura.”

“Que é isso? Um comunista aqui no Jóquei?”

Ela sorriu um sorriso de mulher feita, gasta, como se já estivesse viciada e morta. Fiquei com pena também de mim que, a vida inteira, não fizera outra coisa além de vender, exatamente como ela, o meu michê profissional, tendo apenas como objetivo a progressão das minhas contas bancárias.

“Ei, cara, você, além de comunista, é meio louco, não? De repente faz umas caras esquisitas, tristes e alegres…”

Agora estava, sim, alegre. Descobrira, afinal, como fugir daquela sensação de alheamento do próprio corpo. Senti-me até rejuvenescido. E não iria perder jamais essa nova energia com aquela pobre menina egoísta.

“Desculpe-me, querida”, disse-lhe, com um certo carinho, “mas os velhinhos são assim mesmo, cambiantes. Por que você não pensa um pouco no que lhe falei? Eu lhe confesso que jamais disse algo tão profundo e tão útil a alguém, na minha vida, mas hoje estou certo de que, se o tivesse feito sempre, teria sido muito mais feliz. Como estou agora.”

Ela insistiu com sua expressão carcomida, levemente devassa, e eu me assustei ao perceber que a estava captando no futuro. Eu precisava fazer algo mais, inventar uma motivação mais forte para tirá-la daquela barra pesada, mas ainda não sabia o quê.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003

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