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Archive for agosto \20\UTC 2012

Minha função é falar, mas entro mudo e saio calado no novo emprego. Simplesmente porque não há com quem conversar. Não tenho colegas. Jamais pensei que fosse trabalhar assim.

Fui obrigado a aceitá-lo porque umas fantasias começavam a rondar minha mente e eu me via vendendo balas nos faróis.

Foi Adroaldo que me descobriu, ou seja, descobriu minha voz. Liguei para ele, amigo novo, mas dedicado, perguntando se sabia de alguém que precisava de um auxiliar de enfermagem. Estava topando até pajear velhinhos. O dinheiro havia acabado. Já vendera um relógio antigo da mãe. Sou religioso, temo a Deus, mas não tivera retorno de nenhum pedido que fizera ao Divino.

Adroaldo não respondeu de cara; achei estranho. Levou um tempo e disse:

“Quer repetir?”

“Repetir como?”

“O que acabou de perguntar…”

“É brincadeira?”, ainda perguntei, antes de repetir o pedido.

“Você sabe que possui uma voz bastante expressiva?”, admirou-se Adroaldo. “Eu não havia reparado assim, ao vivo. Agora percebo. Mas é no telefone que sua voz arrasa.”

“Eu?”

“Você. Bem, tenho uma indicação. Mas precisamos conversar antes. Pessoalmente. Só nós dois.”

Imaginei que Adroaldo iria me oferecer um bico de narrador de propaganda política; as eleições estavam chegando. E ele é ligado ao pessoal da oposição. Tudo bem, desde que eu ficasse escondido em algum lugar, porque sou excessivamente tímido.

Marcamos num bar da esquina de casa às nove da manhã. Ele chegou, olhou o ambiente, vazio, por sinal, mas disse que preferia conversar em local mais reservado. OK. Pegamos um ônibus até a zona sul. Sentamos lá atrás. O cobrador fez uma cara estranha: acho que pensou que éramos caso.

“O que vou lhe dizer ficará eternamente entre nós, meu velho. É coisa de irmão pra irmão. Você não poderá tocar nesse assunto nem sob tortura…”

“Preciso de dinheiro, Adroaldo. Só não roubo nem faço michê.”

“É um serviço novo que tem aí. Reservadíssimo. Você fica no telefone…”

“Falando sacanagem pras solitárias? Pras bichas? Saquei.”

“Não é nada disso. É… parecido. Primeiro que os clientes são escolhidos na elite, o preço do minuto é muito alto. Depois, não há propaganda do serviço. É tudo boca a boca. E a regra principal é justamente a privacidade. Se ganha bem. Mas você tem de passar no teste com seu Piva.”

E lá fomos, em direção a um bairro de classe média muito, muito alta. Chegamos a um casarão. Não sei como o Adroaldo se meteu com essa gente. Fomos recebidos por uma secretária branquela, sem pintura, com uma roupa negra elegante que não lhe mostrava sequer os joelhos. Se dissesse que aquilo era um templo disfarçado, eu acreditaria.

Esperamos um momento numa sala de móveis metálicos, sem cinzeiros. Eu já não fumava havia anos, mas não deixava de perceber quando os anfitriões frustravam os viciados. Achava engraçado. Novos tempos.

Seu Piva chegou de terno e gravata, ambos azul-marinho. Alto e magro. Poderia ter quarenta e oito ou sessenta anos, não dava para ter uma ideia. Cabelos pintados com o cuidado de deixar alguns fios brancos. Não sorria. Tinha sotaque do sul. Talvez do Paraná.

Adroaldo me apresentou rapidamente e saiu. Achei-o respeitoso demais com seu Piva, que me ofereceu a mesma cadeira onde eu estava, com um gesto elegante, educado.

Ele explicou, com voz pausada, que vivíamos num mundo complexo, onde o dado comum era o excesso de individualismo, o que vale dizer, solidão. Concordei com a cabeça. E a solidão, ele continuou, não escolhe classe social, ou melhor, talvez os ricos e os quase ricos sejam mais solitários do que a maioria pobre. Também concordei.

“E nós nos propomos”, ele concluiu, “a aliviar um pouco essa carga dos infelizes”.

Tudo bem. Mas aí vinha o “como fazer”.

Seu Piva possuía uma fantástica capacidade para envolver pessoas. Ou tudo o que ele falava era a pura verdade. Eu só concordava. Ele explicou que a maioria das pessoas confunde necessidade de afeto com sexo. E que, através do sexo, que seria a forma mais animal da satisfação da necessidade de afeto (aí não concordei, exatamente), as pessoas se sentiam plenas por algum tempo, o suficiente para que pudessem tocar suas vidas, sem antidepressivos ou mesmo drogas pesadas.

Era inevitável a pergunta: “e eu, como entro nessa?”

“Não sei se você entra”, disse seu Piva. “Vamos testá-lo de várias formas, se você o permitir. Seu timbre de voz é perfeito. Calmo, bondoso, carinhoso. Acredito que você fará sucesso. Qual é sua escolaridade?”

“Formado em enfermagem. Mas leio muito. Sei quem foi Aldous Huxley.”

“Maravilha.”

Os testes foram feitos naquele dia mesmo. Puseram na minha frente uma pequena e sofisticada aparelhagem de som, com microfone embutido. Alguns livros. Alguém, voz de mulher, me fez perguntas de cultura geral, pedidos para que eu pronunciasse, cheio de sentimento, certas expressões como “agora mesmo, amor” ou “eu te entendo como ninguém, querida”. Fui obrigado a ler trechos dos livros, alguns bastante picantes, mas sem baixarias. Foi cansativo, mas eu estava gostando. E ainda me serviram duas refeições perfeitas nas dez horas em que passei por ali.

Seu Piva entrou na sala, finalmente, e pediu que eu voltasse ao local no dia seguinte. Me fez jurar, uma vez mais, que não tocaria no assunto com ninguém, nem mesmo com o Adroaldo. Era a regra do “serviço”.

Cheguei a casa muito tarde, a mãe de cabelo em pé. “Procurando trampo, mãe, procurando”, ainda disse, dando um beijo na testa da velhinha. Tive a impressão de que alguém me seguia, mas depois achei que era bobagem. Me arrependi de não perguntar a seu Piva quanto ganharia, caso fosse aprovado.

E fui. Com louvor. No dia seguinte cheguei na hora certa, depois de uma viagem terrível, longa, dentro de dois ônibus. Toquei a campainha, seu Piva me recebeu pessoalmente. Desta vez, sorriu. Contido.

“O nosso modulador”, ele disse.

“De voz?”

“Sim, claro.”

Aí voltamos para a mesma sala, ele quase me tirou do sério quando me disse o salário fixo. Além da porcentagem por minuto conquistado, emprego com carteira assinada. O cargo era meio estranho, atendente eletrônico, mas dane-se.

“Você, meu caro, tem tudo para se transformar num campeão de minutos”, ele vaticinou. Poderia ter-me dado um tapinha nas costas, mas não deu.

Comecei a trabalhar imediatamente. Dava pra perceber, pelos ruídos de portas batendo, e algumas vozes esparsas, que havia outras pessoas, talvez umas vinte, andando por ali. Mas eu só tive contato, nos primeiros dias, com a secretária branquela e com seu Piva. Uma semana depois, talvez por causa da gripe da secretária, apareceu dona Flor, a copeira, com minhas sempre apetitosas refeições. Outro que apareceu foi o médico, doutor Simas, que me auscultou e me deu algumas vitaminas. Na sala onde ficava, havia cama, poltrona, cadeiras e um banheirinho. Para que eu me sentisse à vontade e conversasse com as clientes do jeito e na posição que quisesse, através de um microfone preso à camisa. Mas eu percebia que seu Piva controlava, rigorosamente, a hora da entrada e da saída. Para que nós, atendentes eletrônicos, não nos conhecêssemos. Pra falar a verdade, eu não era contra isso, não.

Minha primeira cliente deveria estar na faixa dos cinquenta, contou-me toda a vida, e eu mais ouvi do que falei. Não queria sexo. Só falar e falar. No final, me agradeceu muito e confessou que, se não soubesse das regras, iria me convidar para jantar. “A minha amizade é mais verdadeira enquanto virtual”, eu lhe respondi, e ela gostou disso. Foram duas horas e dez minutos. Segundo seu Piva me contou depois, um recorde para um novato. Nesse primeiro dia trabalhei oito horas porque seu Piva me obrigou a parar. “Vamos aos poucos, meu caro”, ele me disse. “Você está ótimo”.

As próximas clientes, todas mulheres, não foram assim tão gentis como a cinquentona que dizia se chamar Martha, com th. Fiquei assustado com o quanto as pessoas estão usando drogas nas classes mais altas e o nível de insatisfação com seus parceiros (que, imagino, estejam tão insatisfeitos como). Intuitivamente, eu caía fora das baixarias, da pornografia pura, e tentava andar por um caminho mais light, propondo carinhos juvenis, passeios por bosques de sonho, mãos dadas, essas coisas. E isso, segundo me confessou seu Piva, que gravava e ouvia boa parte das conversas, estava aumentando o tempo do serviço. Quer dizer, mais e mais dinheiro.

Dois meses depois, com o primeiro salário no bolso, algo que jamais havia ganho em toda a vida durante um ano, quanto mais em tão pouco tempo, trouxe a velhinha para um apartamento muito mais próximo do casarão, consegui uma empregada que lhe ajudasse nas tarefas de casa e passei a quebrar recordes: quatorze, quinze horas. Num dia cheguei a dezesseis e quarenta e dois, e aí me senti mal. Tonturas, um aperto na garganta. Doutor Simas veio correndo. Diagnosticou uma semana de repouso. Eu protestei, pois começava a sonhar mais alto com a grana, mas seu Piva garantiu que me pagaria a média do meu próprio tempo durante a minha ausência.

“E ainda lhe ofereço uma viagem, pelo menos as passagens de avião. Quer ir a Nova York?”

Disse que não, que preferia guardar para outra ocasião. Peguei a velhinha e fomos visitar uns primos no interior. Inventei qualquer coisa para eles, que trabalhava numa empresa de telefonia, e pronto. Vacas, galinhas, longas caminhadas: voltei com tudo.

No meu primeiro dia de retorno, deu-se a grande virada. Peguei uma figura, menina ainda, toda chapada de cocaína, querendo fazer sexo de qualquer jeito e de todas as maneiras. Aí fui levando, aqui e ali, vamos devagar, para aproveitar melhor, etc. Ouvi uns risinhos, uns suspiros. Percebi que estava num viva-voz bastante moderno, como se tivesse muitos canais. E então, aquela conversa, que se iniciou louca, acabou por se transformar num fórum de debates filosófico-religiosos. Eram cinco, ali, três moças e dois rapazes. Ninguém fez sexo. Pelo menos naquele momento pararam de se drogar. Eu sentia, com nitidez, que alguém me ajudava, internamente, lá bem dentro da mente, a dizer tudo o que disse, nas minhas modulações de voz. Eu sozinho não seria capaz de falar tudo aquilo. Nem sei repetir. Cravei cinco horas e dezesseis minutos, coisa muito rara. E quando acabou o telefonema, estava tão disposto como antes.

Dia seguinte seu Piva me chamou. Disse-me que eu era a pessoa mais importante da empresa e que, por minha causa, havia decidido inaugurar um segundo serviço de atendimento, onde as pessoas poderiam conversar sobre tudo, menos sexo.

“Você me convenceu, rapaz, que há outras formas mais inteligentes, e sobretudo mais sensíveis e produtivas, de conviver com os solitários…”

“Eu?”

“Você. E não venha me dizer que você não se dá conta disso.”

Tive vontade de dizer “mais ou menos”, mas fiquei quieto. Assustei-me mais uma vez com o novo salário, a nova participação e as novas funções. E uma responsabilidade maior, porque, no novo serviço, eu escolheria os… moduladores. Segundo seu Piva, que, mais do que um tapinha nas costas, me deu um abraço de despedida, não é todo mundo que leva uma conversa para caminhos positivos e enriquece os interlocutores com suas observações.

Desafios, agora, são comigo mesmo. Ainda assim me incomoda não conhecer quase ninguém no meu ambiente de trabalho. Mas vai melhorar: vou ter de escolher e certamente treinar os candidatos à modulação e à “divisão new age”, segundo a definição de seu Piva para o novo empreendimento. Sabe, pessoal, estou muito feliz.

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