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Archive for dezembro \19\UTC 2012

A Felicidade

Foi de repente: Geneide estava num canto, perto da churrasqueira, conversando com tia Sinhá; pouco antes do acontecido, dizem que ela olhou em derredor, com ar beatífico, mediu cada um dos oito participantes da reunião e aí começou a debulhar-se: lágrimas compridas, grossas, sentidas.

Tia Sinhá não confirma esse olhar de reconhecimento. Ou, pelo menos, não percebeu. Para ela, Geneide chorou de repente, tão de repente como quem sofre um infarto fulminante. Estava ali, falando sobre receitas, e de repente – chuá! – as lágrimas foram surgindo, rolando pelo seu rosto, molhando o vestido fechado no pescoço.

Ainda não comentei, mas já está na hora: Geneide é linda. Não deveria falar assim de uma prima-irmã minha, talvez seja meio incestuoso, mas eu me casaria com ela. Enxuta e esguia como uma top-model, cabelo loiro curto, liso, de franjinha sobre a testa. Jeito inocente, de criança, apesar dos vinte e um anos. Giancarlo, o padeiro italiano, não a deixa passar sem a frase: “coscia lunga, che bella!” É o único que consegue mexer com Geneide, já que, no bairro, poucos entendem italiano; ele, na verdade, está falando das coxas dela, sem que ninguém reclame, ou o pai da moça, meu tio Gerson, lhe arrombe a cara.

Bem, em outra língua fica diferente, parece só elogio. Mas vá alguém dizer em português: “que belas coxas você tem, boneca!” Tio Gerson viraria bicho. Ele morre de ciúmes da filha.

Mas são lindas mesmo, as coxas da minha prima. Ela tem perfeita consciência disso, ou não usaria aqueles shortinhos curtos. Ora, ora, estou desviando: meu assunto é o choro repentino de Geneide, no meio do churrasco da família. Todo mundo junto: tio Gerson, tia Dora, tia Sinhá, irmã de tio Gerson, os três irmãos de Geneide e eu, sempre sozinho e sempre por perto dela. Até agora ninguém desconfiou da minha paixão. Nem ela.

Mas, quando ela começou a chorar, naquele domingo, assim, sem o menor pudor, sem se esconder, nem o rosto, chorando e olhando pra gente, eu me assustei. Tio Gerson empalideceu: “Meu amor, meu amor, o que é que você tem?”

Geneide só balançava a cabeça, fazendo não, como quem diz, “não me aborreçam”, mas sua expressão não era exatamente de dor.

“Meu amor, que foi…?” Tio Gerson ficou mais nervoso.

“Felicidade, pai. Felicidade.”

“O quê, filha? O quê?”

Todos nós já a cercávamos, naquele momento. Meu coração disparara, e eu descobri mais uma medida do meu amor por ela.

“Estou feliz, pessoal. Estou feliz. É só isso”. Geneide repetiu.

E foi aí que se deu o inusitado: ela se levantou e, chorando, pendurou-se no meu pescoço (eu sou ligeiramente mais baixo do que ela).

“Oh, primo, estou tão feliz… tão feliz…”

Eu, idiota, ainda perguntei:

“Então por que está chorando, prima?”

Ela não respondeu de pronto. Depois de um tempo, que na verdade me pareceu um século, largou-me devagar, acariciando-me os ombros (ahhh…) e apenas contou que, de repente, dera-se conta do quanto sua vida era perfeita: tinha um pai e uma mãe supercarinhosos, irmãos protetores, cursava a Universidade, podia comer churrasco todos os domingos num país onde boa parte come mal ou passa fome. Ou seja, descobriu o quanto era um ser privilegiado. Isso a comoveu e aí começou a chorar.

Tia Sinhá se emocionou ao ouvir aquela explicação, e resolveu chorar também. O choro da tia, no entanto, era agressivo, vinha acompanhado de uns grunhidos, uma coisa feia. O choro de Geneide, não: leve e estético, como seus sorrisos.

Tio Gerson aceitou a explicação, mas manteve a pulga atrás da orelha: comentou com o filho Gervásio que aquilo ali parecia mais um choro de mulher apaixonada.

“Será que ela está grávida, pai?”, perguntou o idiota.

“Repita isso e eu te mato!”

‘Giancarlo, será?’, eu pensei, mas depois pedi desculpas, mentalmente, à minha amada. Ela jamais se aproximaria daquele carcamano grosseiro.

Espalhou-se no bairro que uma moça linda havia chorado de alegria. E aconteceu, primeiro, a incredulidade geral. “Mas, de felicidade?”, era o que todos perguntavam. “Na merda em que a gente vive?”, era uma segunda pergunta. Crisóstomo, o açougueiro, que é evangélico e diretor social lá da igreja dele, foi convidar minha querida para que proferisse uma palestra no domingo seguinte sobre, justamente, “A Felicidade”. Geneide recusou, usando uma desculpa bastante dúbia: “Minha felicidade é muito íntima; não posso compartilhá-la com uma multidão…”

Íntima? Hum… Pensando bem, ela tem razão. O que dizer àquele povo simplório sobre um tema tão complexo?

Mas não parava de chegar gente na casa de tio Gerson querendo ver a “santinha que tinha chorado”. Santa, por quê? Começou a correr um outro boato: Geneide havia visto a Virgem Maria num nicho que se armou num dos caquizeiros do quintal de tio Gerson. Povo doido. E o vereador Armandinho Muniz veio pedir à minha prima que revelasse o seu voto, ou que, pelo menos, o deixasse fazer uma faixa com os dizeres: “A linda moça feliz vota no Muniz”. Geneide também recusou, com gentileza.

Há quem diga que, depois do episódio, o astral do bairro mudou. Que outras pessoas começaram a chorar de felicidade, inclusive gente ruim, perversa. O que eu sei é que todas as religiões representadas na comunidade, e não só os evangélicos, aproveitaram o tema para convencer o pessoal de que é possível ser feliz no planeta Terra e, melhor ainda, no Brasil. A dor, eles disseram aos seus fiéis, é apenas um ângulo da vida, e existe para que a gente aprenda a valorizar nossa passagem pelo planeta. É perfeitamente normal, pois, que alguém chore porque é feliz. A felicidade é, ou deveria ser, o nosso estado habitual, e por isso é emocionante.

Sei não. Sei que minha prima adorada ficou famosa de repente. As mulheres dizem que se fossem lindas como ela também chorariam de felicidade. Alguém chegou a comentar que Geneide receberia um convite para desfilar para uma grife conhecida.

Os homens, ao contrário, em vez de lhe darem respeito, passaram a olhá-la com olhos de pecado. Giancarlo mudou um pouco suas observações; agora diz, quando o meu amor chega à padaria: “coscia lunga: piangi che te faccio felice”.

Está exagerando, o filho da puta. Qualquer dia desses, eu e o tio Gerson vamos encher a cara dele de porrada.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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