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Archive for janeiro \21\UTC 2013

O sujeito bateu no portão que o professor Bernardo mandara gradear na semana passada, depois que assaltaram a venda de seu Quinha, na esquina, a uns cem metros dali.

“Vim desentupir a fossa. Aqui é a casa de…”

Não conseguiu completar: Varão, o mestiço de boxer com mastim napolitano, saiu desajeitado da sala e voou sobre o portão; o homem, certamente, chegou a sentir o hálito de Tutancamon que o bicho exala. É um fedor tenebroso, raro.

“Seu Benardo, pelo amor de Deus!”, o homem deu um salto pra trás, enquanto Varão, enlouquecido, tentava abrir as grades com os dentes. “Fiquei com taquicardia, aqui… O senhor não pode criar uma fera como esta em casa.”

“Eu não sou Benardo, sou Bernardo, um erre antes e outro depois. Cala a boca, Varão! Chispa pra dentro de casa!”

A metade boxer de Varão sempre obedecia. O problema era quando o cachorro assumia seu lado mastim: não havia quem o fizesse mudar de idéia. Foi assim quando ele abocanhou a enorme batata da perna de dona Rosinha, sogra do professor. Cinco pontos no pronto-socorro e uma inimizade para sempre.

“Puxa, seu Benardo”, continuou o sujeito do outro lado da grade. Seu carteiro ainda está vivo? E aí, vai limpar a fossa ou não? Se for, vai ter de prender o Totozinho.”

“Por que o senhor não chama as pessoas pelo nome? O cachorro é Varão. Eu sou Bernardo.”

“Tô me lixando se é Varão ou Maricão, porra! E como é que fica a limpeza da fossa?”

“Ó mar da marejada/ ó mar de plenilúnios, moluscos e marolas/ garbosa e guapa vaga irrompe/ lava a crosta, retorna e se repete…”, recitou o professor, de olhos sem expressão voltados para um céu que ele nem via, por causa do telhadinho que mandara fazer para proteger o novo portão.

“O que o senhor disse, meu senhor?”, perguntou o homem, mais calmo e bastante embaraçado.

“Nada. É somente um poema. Meu.”

“E o que cacete isso tem a ver com a fossa?”

“Calma, seu, seu…”

“Borrachão. Chama logo pelo vulgo.”

“Muito próprio. Mas, é o seguinte: quando sinto o estresse me invadir, como aconteceu agora, eu simplesmente me largo do mundo e recito um dos meus poemas…”

O homem balançou a cabeça, mais constrangido ainda, e baixou ao chão o material que levava numa espécie de saco, às costas. Resolveu fumar um cigarrinho.

“Me desculpa, seu Benardo, mas qual é a profissão do senhor?”

“Professor.”

“De escola do Estado?”

“Sim. Por quê?”

Borrachão não pôde deixar de rir. “Está explicado”, disse.

“O que está explicado?”

“O senhor é funcionário público. Tem tempo de fazer essas coisas que o senhor falou aí. Mas, por favor, seu Benardo: tem limpeza de fossa ou não tem?”

“Não tem.”

“Como? Eu fui chamado pra isso! Peguei um lotação pra chegar até aqui. Investi uma fortuna. Estou deixando de atender outro cliente. Por que me chamaram, então?”

De repente, olhando para Borrachão através da grade, o professor teve a inquietante sensação de estar preso dentro da sua própria casa. A violência da cidade exigia não só aquelas grades como justificava toda e qualquer atitude defensiva. A um custo muito alto. Como perder a amizade da sogra por causa de um cão de guarda. Esse pensamento o arrepiou e ele deixou sua mente voar. O outro reagiu de imediato.

“Ei, você fez uma cara agora de quem vai falar aquelas coisas de novo…”

“Não, não vou não, esqueça. Seguinte: não vai ter limpeza de fossa porque não tenho mais um tostão no bolso. E só recebo sexta-feira que vem.”

“Sabia que você ia me convencer a receber com pré-datado. Vamos fazer assim: metade hoje e metade na sexta-feira.”

“O senhor não entendeu, seu Borrachão. Não posso pagar. Deve ter sido Marília, minha mulher, que chamou o senhor. Ela errou, reconheço. E não pode nem lhe pedir desculpas, foi levar as crianças pra vacinar.”

“E eu fico como? Sem trabalho, perdi o tempo, a passagem… Estou aqui há quinze minutos atrás dessa grade, o cachorro quase me comeu e o senhor nem me convidou a entrar.”

“O senhor vê. Vida de merda.”

“Merda o senhor vai ver quando sua fossa arrebentar. Sabe que tem gente que desmaia quando o cheiro de merda é muito forte? Aquilo são gases quase venenosos.”

“De certa maneira, seu Borrachão, eu já estou nadando na merda.”

O professor disse isso como uma defesa, sem a menor convicção. Estava vendo, na sua mente, a massa de matéria fecal arrebentando o cimento, extravasando, invadindo o quintal, fazendo submergir as mudas de árvores frutíferas que sua consciência ecológica havia insistido em plantar, apesar dos protestos das crianças que reivindicavam o espaço para brincadeiras. A bosta subindo e invadindo a casa pela cozinha, as cadeiras arrastadas, ele e Varão, em pânico, escalando a cômoda, de narinas inflamadas; Varão, com seu olfato privilegiado, chegava a ganir de desespero.

“Ah, mar dos ancestrais/ medusas abissais/ e o monstro da maldade, escamas sublevadas/ cetáceos dilacera e polvos e sereias/ seus olhos verde-musgo garantem que a Morte/ é única verdade/ é meta e esperança…”

O professor Bernardo gesticulava agora, agitado, ao ritmo dos seus próprios versos. Varão se aproximou, tímido, sacudindo o rabo. Borrachão recolheu seu material, não sem uma certa angústia, olhando o professor com piedade, e deu meia-volta em direção do ponto do lotação.

“Não deve ser fácil ganhar o que ele ganha”, resmungou para si mesmo. “E eu, que deveria ficar com raiva, ainda vou embora de coração apertado.”

Durante muitos dias, o bombeiro não conseguiu tirar da mente a figura do monstro da maldade, de olhos verde-musgo, a garantir que a Morte é a única verdade.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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