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Archive for fevereiro \27\UTC 2013

Toda a família dera graças a Deus: após anos de internações por alcoolismo, perda de muitos empregos (chegara a perder, até, um emprego público), lágrimas e dor dentro de casa, com os filhos adolescentes revoltados, os irmãos ajudando com as despesas, muita novena e promessas, Yuri conseguira se acertar na vida. E tudo isso por causa do japonês.

Mestre Nagayama, como era chamado, muito mais do que um patrão compreensivo e generoso, era um verdadeiro guru para todos os seus empregados. Quando aceitou que Yuri tomasse conta da contabilidade da sua pequena indústria de produção de patinetes, foi logo avisando:

“Tomei informações do senhor e sei que tem problemas com a bebida, mas que é um profissional honesto. Se me permitir curá-lo do seu problema, seu emprego estará garantido. Se não, o senhor já sabe o que vai acontecer: o mesmo que ocorreu nos outros lugares onde esteve.”

A postura direta e generosa do novo patrão mexeu com os brios de Yuri e ele aceitou tentar curar-se. Já tentara de tudo, inclusive os Alcoólicos Anônimos, mas nada dera certo. Epifânia, sua mulher, perdera qualquer esperança, arrumara um jeito de faturar alguma coisa, vendendo perfumes naturais, do contrário ela e o casal de filhos iriam de vez para a miséria.

A transformação do ainda jovem contador foi pouco mais do que um milagre. Epifânia, os filhos, todo mundo, ninguém acreditou, nos primeiros meses. Não que Yuri fosse agitado ou violento, não era, fazia mais o estilo bêbado deprimido, que chora e pede desculpas. Mas a sua própria situação instável o deixava com os nervos à flor da pele, gaguejando, esquecendo-se de tudo, esbarrando nas portas, mexendo sem controle alguns músculos do rosto, como um piscar de olhos sem fim.

Agora, não. Sem beber um gole, pelo menos dentro de casa, tornara-se pacífico, afetuoso, compreensivo. E até fizera amor com Epifânia, numa sessão de ternuras e delicadezas que durara uma noite inteira de sábado.

“Foi o japonês também que ensinou essas técnicas pra você?”, perguntou a esposa, alegremente exausta.

“Foi. É Tantra Yoga. Nós nos tocamos, e nos tocamos, e não cansamos de nos tocar, porque você é minha deusa e eu sou o seu deus…”

“Foi o melhor jeito de fazer, Yuri, mas eu teria ficado mais feliz se você tivesse, ham, chegado lá.”

“Não, não. Se eu chegasse lá teria desperdiçado o meu amor. Seria o fim da comunhão entre nós dois. E seria a prova de que não consigo dominar meu próprio corpo.”

“Mas eu cheguei, Yuri, e nunca senti isso antes…”

“Quero que você seja feliz”, disse ele, enigmático.

Já se passara um ano de paz em casa e Epifânia participou à família, filhos inclusive, que o marido estava curado. Ganhara até um aumento na empresa, apesar da conta da livraria, um absurdo, e só de livros de meditação, espiritualismo, budismo, yoga.

Yuri evoluía mais. Tentava convencer os filhos sobre as excelências de um tal Quarto Caminho, mas não teve muito sucesso, assim como não conseguiu levar Epifânia às reuniões regulares do Grupo do Lótus Cambiante, presidido pelo genial Nagayama, cujos empregados acabavam de ganhar um prêmio de produtividade da Associação das Pequenas e Médias Indústrias. “Usamos técnicas de meditação transcendental”, ele explicara ao maior jornal da cidade, muito interessado no assunto. Na foto do grupo de meditação, lá estava Yuri, na primeira fila.

O contador, agora, pedia a Epifânia que liberasse o quarto de casal durante duas horas por dia, pois ele estava tentando mais uma técnica espiritual de equilíbrio psicossomático.

“Mas, meu amor, está tão bom assim… Você é outro homem com essas novidades todas, não precisa fazer mais nada.”

“Querida esposa: não há volta neste meu caminho. É a minha evolução, estou cuidando do meu futuro espiritual…”

Pelos livros que andava lendo e por algumas conversas ao telefone com outros adeptos, Epifânia e os filhos descobriram que Yuri tentava chegar à levitação, naquelas horas em que se recolhia ao quarto.

Certo dia, Ramiro, o filho mais velho, chegou pálido junto à mãe, que via televisão na sala, expulsa do seu canto preferido.

“Mãe, mãe, eu… estava olhando o pai pela fresta da janela…”

“O que, Ramiro, você fez isso?”

“Fiz, mãe, desculpe, mas é coisa mais séria, mãe: o pai está suspenso no ar lá dentro. Está a uns dez centímetros do chão…”

“Mentira.”

“Juro, mãe, juro. Vai lá ver.”

“Eu não. Eu respeito a privacidade do seu pai.”

Tempos depois, Epifânia respondia com alguma tristeza a quem da família perguntasse se tudo continuava bem entre eles. Ela mordia o lábio inferior (seu jeito de demonstrar preocupação) e balançava a cabeça, afirmativamente, mas não convencia. Estava tudo ótimo, ela dizia; melhor impossível, na verdade. Yuri é que andava bastante diferente. Os gestos cada vez mais lentos, harmoniosos. A fala mansa e cheia de pausas. Agora só comia arroz integral, verduras e frutas, perdera mais de vinte quilos e ganhara uma saúde inabalável. O lado afetivo, bem, desse ela não podia se queixar, mesmo. Mas alguma força superior se apoderara dele, força do bem, é claro, pois ele andava, assim, alheio ao que não fosse sua obrigação para com a família e a evolução do eu superior.

Ela não sabia se explicar direito, mas sentia que Yuri não conseguia pôr os pés no chão (literalmente, até) e isso não poderia ser, na verdade, o melhor dos mundos. Não combinava com a humanidade das pessoas e muito menos com a crueza da cidade. Talvez um pouco de boemia, de sacanagem, até uma certa inconseqüência, fizesse bem à vida dele e da família. Mas já perdera as esperanças.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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A secretária do Instituto de Testes Vocacionais (Intevoc) olhou sorrindo para mim (sorrisos, odeio sorrisos).

Nem Ciências Exatas… disse ela, mordendo a tampa da caneta esferográfica (uma porca)…

“… nem Biológicas!”

Deu uma risadinha fina e eu, não suportando, lancei-a a três metros de distancia, no chão, com um murro no seu rosto. Ela caiu de pernas para cima, ostentando o fundilho fummée.

“Oh…”, ela fez, tentando se levantar, querendo consertar os óculos partidos. “É exatamente isso! É isso!”

Levantei-a pelo pescoço, o rosto dela arroxeou todo (havia só uma pequena circunferência marcada, do murro) e ela ainda gemeu: “É isso, acertamos…”

“O quê? O quê? O quê?”, eu disse, mordendo a língua, a língua sangrando e eu cuspindo sangue na cara da mulher. “O quê? Hem, sua vaca?”

“Sua única vocação”, disse ela estrangulada, ainda segura por minhas mãos enormes, “é para o homicídio profissional . . .”

Fiquei surpreso e larguei-a. A secretária jogou fora os óculos, tirou outros da mesinha (onde também havia um pronto-socorro portátil) e, ainda sorrindo (sorriso deformado pelo inchaço, já não me irritava tanto), completou:

“O senhor é a pessoa mais agressiva que já passou pelo Intevoc. Por favor, vá correndo procurar o Sinexin (Sindicato dos Exterminadores Independentes), vá correndo… Agora!”

E, ao dizer isso, aproximou seu rosto espancado do meu e suplicou, com cheiro de Halitol (odeio perfumarias).

“Me mata agora, bem. Me mata.”

Um clip, que eu já havia transformado em arma com minhas mãos nervosas, foi-lhe enfiado no pescoço, à altura da jugular. A secretária caiu, sangrando, exclamando na agonia: “Meu amor…” (Mas que ódio!)

Sai do Intevoc derrubando a porta com os pés. O Sinexin ficava a alguns quarteirões. Com um paralelepípedo, que apanhei na rua para qualquer eventualidade, esmigalhei o crânio da mulatinha que me veio vender pentes (tenho ojeriza a gente pobre e de cor parda); imobilizei o guarda de transito da esquina, tomei-lhe o revólver, pedi que ele abrisse a boca, ele abriu, e eu descarreguei o revólver dentro. Ouvi as pessoas comentarem perto:

“É um Exterminador! De berço! Dos bons! Incrível! Chuchu-Beleza!”

As pessoas estavam encantadas e eu muito orgulhoso. Enfim, sabia, tinha certeza da minha verdadeira vocação.

O prédio do Sinexin, como você sabe, imbecil, é uma fortaleza blindada com o robô Armando à porta. Armando engatilhou sua metralhadora, acendeu as luzes e perguntou, com a voz de fita já meio estragada:

“Falar com quem? Falar com quem? Falar com quem?”

Saltei de lado, com minha agilidade nata, a metralhadora disparou automaticamente, matando pelo menos quinze pedestres. Com aquele mesmo paralelepípedo amassei a velha lataria de Armando. Ele caiu, só uma luz vermelhinha ficou piscando, mas a fita não se danificou.

“Falar com quem ? Falar com quem ? Falar com quem?”

Irritadíssimo com aquela ladainha nos meus ouvidos, evitei o elevador e subi as escadas de mármore, dois degraus de cada vez. Cheguei ao décimo andar em alguns minutos e nem estava cansado (não fumo, não bebo, não jogo).

Havia uma porta de jacarandá anunciando: Presidente. Num impulso inconsciente (quase todos os meus impulsos são assim), tentei derrubar a porta, não consegui, fui tomado de fúria absurda. Fiquei como um tonto, um louco, procurando no chão alguma coisa pesada, para derrubar, ou forçar, aquele impedimento (não posso ser impedido). Mas a porta abriu-se sozinha e o Presidente apareceu, portando uma metralhadora igual a de Armando. Eu já o conhecia de fotografias nos jornais e da tevê.

“Você é brilhante”, disse-me ele, e a voz também me pareceu gravada. (Seria um robô, talvez?]

Fiquei muito feliz e preocupado ao mesmo tempo porque senti que o elogio destrói  90% do meu potencial agressivo. Então reagi:

“Brilhante é sua mãe, corno safado! Chupador de buceta! Cara de sapo! Cocô de galinha!”

Ele repetiu “você é brilhante”, enquanto arremessava, com um gesto de mágico, quase imperceptível, um punhal sobre o meu peito. Por um segundo, eu me senti como uma câmera de Cinema Novo (e logo eu, que odeio o Cinema Novo!), meus olhos acompanhando a queda do meu corpo, rodando pela sala, fixando um detalhe aqui, um relógio de ouro na parede, o pedacinho do carpete queimado de cigarro, eu morrendo no duro, e os arrepios da morte lembrando sensações esquisitas do tempo em que eu comia (ugh!) mulheres, e o Presidente do Sinexin, com a voz sumida (em off, em off) afirmando que, realmente, eu sou um gênio, uma capacidade, um exterminador nato, eu sou Jesus, Jesus!

Do livro “Leonora Premiada”, Editora Duas Cidades, São Paulo, 1974.

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