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Archive for julho \09\UTC 2013

 Lá estava o moreno, ali no canto da sala de espera, com a mão na boca, cabisbaixo. Valéria, dentista de classe média, de bairro emergente, não tinha hora para ele, mas sempre morreu de pena das dores do povo. A secretária, com seu horário de seis da tarde vencido, também se apiedara dele: “atende, doutora…”

Valéria, na verdade, não se sentia exatamente feliz por tratar de dentes elegantes, trocando cáries irremediáveis por lindas porcelanas. Para ela, odontologia era um trabalho de sobrevivência, e só. Dava para manter um apartamento, um automóvel e viajar de vez em quando. Muita gente sonharia com isso, mas ela achava muito pouco. Gostaria de fazer algo real, social, que lhe desse o prazer da solidariedade. Desde criança, a humanidade lhe parecia o objetivo maior. Votar não bastava.

Pelo menos andava dando sua colaboração de dentista numa organização religiosa, aos sábados de manhã, o que lhe minorava as culpas sociais. Naqueles dias, voltava para casa sorridente, dormia um pouco à tarde e reunia-se com os amigos à noite, bebericando um pouco de vinho. Vida besta.

Definitivamente, não teria horário para o moreno dolorido. A não ser que passasse das nove da noite. Mas, coitado, ele ali, meio caído de lado na poltrona, a mão direita na bochecha; quase não entendeu o que ele falou. Apenas um balbucio: “dói muito”. O moreno usava camiseta, calças de vincos permanentes e tênis. Deixou-o por último.

Já passava das oito da noite quando o mandou entrar. Estava virada para a cadeira, higienizando-a, quando se assustou com a batida da porta e o ruído da chave na fechadura. Estavam completamente sós, ali. Chegara, finalmente, o momento que ela mais temera nos últimos anos.

Era um homem muito jovem e muito feio. Antes que ele dissesse qualquer coisa, Valéria perguntou, impassível:

“Vai querer dinheiro ou sexo? Dinheiro tenho algum aqui, mas sexo não posso lhe dar. A não ser que você queira ir pro céu.”

O homem perdeu a iniciativa, mas puxou o revólver da cintura, coberto pela camiseta.

“Vou comer você todinha…”

“Olha, cara, até que eu gostaria que alguém me comesse todinha. Estou no atraso há mais de seis meses. Ninguém quer comer aidético, sabia?”

“Você está mentindo, sua vaca! Quer me enganar…”

Valéria sentiu um certo tremor na voz dele; a mão com o revólver balançou um pouco. Ela se manteve com a mesma calma.

“Posso abrir aqui, a gavetinha? Quero lhe mostrar uma coisa. Não tem arma aqui, tá certo? Posso? Obrigada.”

Puxou, devagar, um vidro de remédio importado.

“Está vendo aqui? É isto que é o AZT. Tome, dê uma olhada.”

Ela pôs o vidro no balcão, próximo dele. Ele olhou, sem jeito.

“Você está me enganando, sua vaca…”

“Tá bom, então vamos tirar a dúvida com alguém. Se eu ligar para meu médico, você vai continuar a dizer que eu estou lhe enganando. Então pegue aí o telefone e ligue você para quem quiser. Pergunte que remédio é este…”

Houve uma pausa de séculos. Havia uma raiva frustrada nos olhos do homem.

“Esperei duas horas e meia por você, sua puta…”

“Já não sei mais o que dizer, cara.”

“Quanto você tem aí? Tem dólar?”

“Quem vai guardar dólar em consultório, hem? Tenho algum, mas é dinheiro normal, não é muito, mas também não é pouco.”

Devagar, acercou-se de uma outra gaveta, e pegou um envelope cheio de notas. Alguns clientes, que preferiam pagar assim, haviam quitado naquele dia suas dívidas. ‘Pode ser minha salvação’, ela pensou.

“Está aqui, rapaz. Lamento muito. Se você quiser, posso lhe dar uma carona. Onde você mora?”

A sombra negra no rosto do homem foi-se dissipando.

“Pode deixar. Não caio nessa. Depois, é um lugar perigoso. Eu vou de ônibus.”

O moreno saiu quase se desculpando. Ela desabou na cadeira dos pacientes, as pernas dormentes, uma súbita dor de cabeça que se direcionava à coluna. Uma dor lancinante, como uma punhalada, mas passou logo. Repetiu sua própria mãe, que costumava chamar-se pelo nome, em voz alta:

“Valéria, Valéria, você se saiu muito bem como atriz do seu ato único.”

Levantou-se para beber um pouco de água. Guardou o anestésico importado que mostrara ao moreno.

“Coitado do cara”, ela disse, ainda em voz alta, “só faltou se desculpar. E esses bostas de políticos ainda dizem que as causas da violência não são sociais… O meu estuprador vai de ônibus para casa, pensando nas suas vítimas e correndo risco de assalto…”

Decidiu guardar suas opiniões para si mesma. Seus amigos a chamariam de louca, de esquerda festiva, essas coisas.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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