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Archive for agosto \31\UTC 2013

A festa na rua me enojou. Tive mesmo vontade de vomitar. Ouvi gente dando vivas ao presidente, como se ele tivesse algo a ver com o time campeão do mundo. Até o craque preferido do general, um sujeito esquisito chamado Dadá Maravilha, nem pisou em campo. ‘Não vai ser fácil fazer esse povo ter consciência dos seus direitos, e ensiná-lo a construir o futuro’, pensei. Mas, em seguida, ocorreu-me a ideia de que a cidade de São Paulo não tinha a exclusividade dessa alienação. O povo dançava e cantava em todo o território nacional. Tricampeonato do mundo. Bom, não era pouco.

Esta cidade, imaginava, talvez fosse a que melhor aceitaria a nossa Revolução Popular. Era um lugar onde todo mundo trabalhava, e muito, o tempo todo. Luxo, só na elite. A maioria das pessoas, burgueses inclusive, pensava apenas em progredir. Aquilo me impressionava. E não era reação de nordestino classe média. Conheci outras cidades grandes. Estive em Milão, até, num congresso da UNE.

A vibração de São Paulo mexia muito comigo, as pessoas correndo de lá pra cá, todo mundo tentando executar com capricho suas obrigações, atendendo rápido nos restaurantes populares, nos cafés. Descobri que até os mendigos eram mais objetivos, pediam e não ficavam olhando pra sua cara, como quem diz “filho da puta burguês, não pode me dar um tostão?” Nada. As pessoas os desprezavam e eles partiam rápido para outras. Cidade incrível.

Os companheiros me diziam que o Rio, sim, era politizado. E eu pensava comigo: com toda aquela gente escrota, pelada, passando o dia inteiro na praia? A Revolução Popular teria de ter muito cuidado, no futuro, para não ser avacalhada por lugares como o Rio e Salvador. Todo mundo me advertia, “olha, não generaliza”, mas o Brasil da beira mar sempre me pareceu indolente, falso e reacionário.

Eu chegara há duas semanas a São Paulo com ordens expressas de me isolar em uma quitinete de um bairro chamado Aclimação. Um “aparelho”, como a imprensa apelidava esses esconderijos. Cabo Genro, meu chefe imediato, só me revelara, genericamente, a missão: uma ou duas apropriações, ou assalto a banco. Treinara durante três meses em uma fazenda do norte de Minas e, por causa da missão, fora obrigado a adiar uma viagem a Havana, onde iria me aprimorar no manejo de outras armas. Mas eu me virava muito bem com a metralhadora Ina. E ainda metia uma 45 por baixo da cintura, do lado esquerdo.  “Eu faço o trabalho em São Paulo e depois vou a Cuba, Cabo Genro. Não fico chateado, não.”

O Cabo, que talvez tivesse escolhido esse nome de guerra por ter sido, no passado, um militar modesto, era um pai para todos nós. Duro, exigente, até grosso, mas um pai.

 

 

Giovanna eu vi no meio da feira. Ali mesmo, na Aclimação. Ela se virou pra mim, pediu troco para uma nota de dez. Eu tinha, dei. Ela não passava de uns vinte, vinte e um anos. Mignon, magra, olhos negros enormes.

Ela: “Oi”.

E eu: “Oi”. Poderia ter-lhe dito: “eu já não lhe fiz o favor, troquei o dinheiro? Menina: sou um guerrilheiro e não tenho futuro pra você, tão linda que é, franzina, mas expressiva, expondo essa boca vermelha que promete beijos especiais”.

Como posso explicar uma coisa dessas? A visão de Giovanna, desde aquele primeiro momento, me despertava a vontade de sexo, algo louco, automático, eu me excitava mesmo, pra valer, olhando seus cabelos escuros penteados de lado, a curva terna dos seios sobre a blusa azul claro. Havia acabado de conhecer a moça e já experimentara a primeira ereção, em sua homenagem. Pensei: ‘estou carente demais’.

“Tá sempre por aqui, comprando?” Ela.

“Não, é a primeira vez”.

“Não se envolva”, dizia o Cabo Genro. “Um soldado é mais forte do que um santo”.

Eu não era bem assim. Alucinado pelos olhos negros da moça, me deixei levar por ela, naquela primeira vez, até o grande jardim do bairro, um parque imenso com lago que servia a namorados e babás. Uma semana depois já trocávamos beijos de fogo, ela dizendo que não entendia o que lhe estava acontecendo, tão recatada, e eu, já com ciúmes, achando que seria apenas uma de suas trepadinhas pequeno-burguesas. Mas eu corria perigo: durante os dois anos de treinamento fora celibatário; nós todos, os companheiros, concordáramos em não levar mulheres à fazenda; e não havia como procurar profissionais nas cidades próximas. Enfim, estava mesmo descompensado. De sexo e de amor. 

E já me apaixonara por Giovanna. A ponto de visitar sua casa singela, com quintal, e conhecer seus pais, filhos de imigrantes italianos que conservavam, até nos pequenos detalhes, toda a mística do país de origem. Enquanto meus companheiros não me contatavam, eu ia bebendo aquele vinho honesto, na mesa alegre, ao som de tarantelas, e, reservadamente, sob o caramanchão, acariciava, sugava, comprimia os seios da minha amada.  Houve uma tarde em que lhe tirei a blusa, completamente, e corremos grande risco.

“Amore mio”, ela me dizia baixinho no ouvido, enquanto se deixava possuir por meus dedos loucos, nem um pouco incomodada com meu apetite agressivo. Havia um quarto de despejo, nos fundos. Giovanna arrumou um colchão velho, não sei onde, e pudemos nos despir. 

“Não é mais virgem, Giovanna”?

“Ninguém mais é virgem”.

Reagi feito criança, fiquei meio quieto, mas não quis lhe perguntar sobre o número um. Na minha terra não seria tão simples, mas aqui em São Paulo, não.

Menti, a ela e aos pais, dizendo-lhe que preparava o vestibular de Direito e que não a deixaria visitar meu apartamento (“é pobre e tenho vergonha”), enquanto ela me levava a conhecer sua enorme cidade, do Zoológico ao Pico do Jaraguá, do estádio do Pacaembu ao centrão, no Pátio do Colégio. Mas gostava da zona chique. Era fascinada por uma loja de roupas, Marie Claire, e sonhava vestir um daqueles conjuntos elegantes. Que eu jamais lhe poderia dar. São Paulo (e essa descoberta foi inquietante) começava a me encantar com seus cheiros. Claro, eu me fixava na colônia de capim-limão, ingênua e nostálgica, que Giovanna usava.

Foi em São Paulo que fui obrigado a usar batom de cacau, pela primeira vez, porque meus lábios se rachavam com o frio; tive de vestir pulôver e ainda uma japona por cima. Vi-me no espelho da casa de Giovanna com toda essa roupa e gostei de mim. Fiquei preocupado com isso.

Nos fins de tarde, um odor mais profundo, de vaga fumaça, me enchia os pulmões e, por algum motivo que jamais soube explicar, me deixava feliz. E nem me senti estranho quando Giovanna me apresentou à Galeria Metrópole, perto da Rua São Luís, de apartamentos imensos onde a elite morava e curtia seus vícios. A Galeria, com um cinema confortável e alguns bares, fazia desfilar uma alegria supérflua e frouxa, mas eu já não tinha forças para odiá-la.  Tinha gente famosa por lá. Uma tarde, vi Milton Nascimento sentado em uma das mesas, parecendo um pouco triste.

 

 

Certo dia, chegou um companheiro, um tal de “Regente”, lá no apartamento, e se identificou segundo o combinado com o Cabo Genro.

“Os quadros da organização estão sumindo”, ele disse. “Tem lido os jornais? (Não tinha). Caiu muita gente no último mês. Precisamos de recursos. Você vai ter de cumprir sua primeira missão. Mas vai ser só você e uma cobertura…”

“Qual o objetivo?”

“Um banco na Rua dos Pinheiros”. Deu-me um papel com o endereço, horário, outras indicações.

“Onde encontro a cobertura?”

“Na hora, lá mesmo.”

“Não tem perigo da meganha aparecer? Seremos somente dois…”

“Confie, né? O Cabo Genro que mandou.”

A apropriação aconteceria às onze da manhã de uma terça-feira. Seríamos dois homens contra uma multidão de clientes imprevisíveis, sem contar a segurança armada. Muito arriscado. Na segunda à noite, véspera da missão, quebrei todas as regras e levei Giovanna ao meu aparelho. Mas tive o cuidado de esconder a Ina, a pistola, as caixas de balas e umas bananas de dinamite que guardava para qualquer imprevisto.

Ela olhou a quitinete sem móveis, com o colchonete no chão, disse-me que eu precisava de um pouco mais de conforto. Caímos no pobre leito e logo fugimos dele, rolando sobre o piso, animais alegres, eu cada vez mais intrigado com a fome de amor da minha amada. Fizemos o que nem eu conhecia. Ela comandava. ‘Onde aprendeu tudo isso? Será que houve muitos caras além daquele primeiro que a inaugurou?’ No fundo, eu me envergonhava dessas considerações, afinal machistas, e me sentia incapaz de qualquer outro sentimento que não uma espécie de encanto demente, quando ela repetiasono tua, sono tua, sono mille volte tua…”

No dia seguinte, não apareci na Rua dos Pinheiros.  

 

 

Foi muito dura minha conversa com o Cabo Genro. Disquei o número de telefone que havia decorado e que só poderia usar uma vez, segundo o trato. Meu velho líder estava irreconhecível. Me chamou de sacana e filho da puta umas dez vezes. Eu poderia ter dito que adoecera, uma febre súbita, e por isso não apareci no banco. Mas, de que adiantaria?

“Isso deve ser puta, isso deve ser puta!”, ele esbravejava no telefone. “Você se corrompeu, cachorro! Se aburguesou! Não toleramos traição, você sabe!”

“Puta é a sua mãe, velho corno!”

 

 

Agora estou aqui, olhando as manchas no colchonete que me despertam o êxtase e me deixam em transe, sentindo que talvez seja possível viver outra vida que não esta, tão falsa e provisória, suicida; talvez revele meu verdadeiro nome a Giovanna, além de confessar que se ela não repetisse tanto “amore mio, amore mio, amore mio”, eu não teria me transformado em um desertor, um rato, um filho da puta infiel. Ou talvez não diga nada, assuma os documentos falsos e morra para a vida revolucionária. Tenho sentido a sensação estranha de que, ao apaixonar-me por Giovanna, passei a gostar de mim mesmo, e muito, de um jeito que jamais imaginara.

Não estou bem. Minha cabeça não funciona direito. Há dois dias não apareço na casa dela, na verdade nem saio deste aparelho e não sinto o cheiro esfumaçado da cidade. A qualquer hora, alguém vai tocar a campainha. Pode ser Giovanna, com sua respiração curta de paixão. Pode ser um mensageiro do meu velho líder quase pai. Não vão me justiçar sem que eu reaja. Tenho amores a defender.    

 

  

 

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Beijos na boca

Um refrigério no meu inferno pessoal, foi como pude definir aquele beijo. Eu dormia sem sonhos (nunca havia tido um sonho desde que me exilei, involuntariamente, na minha casa de campo), quando ela chegou, beijou-me levemente na boca, depois deitou-se ao meu lado, achegando-se a mim, que a abracei.

Doce Tereza. Eu lhe dizia, então, “deixe que lhe prenda, meu amor, e nunca mais permita que você fique longe de mim”. “Hum, hum”, ela fazia e eu me sentia humano e iluminado, integrado, misturado mesmo, a um outro ser.

Um pouco mais adiante eu acordava, de fato, e a procurava na cama. Nada, não havia nada. Havia sonhado que sonhara.

A última vez em que estive com ela, foi muito diferente. Cheguei ao apartamento meio bêbado e drogado. Havia cheirado a noite inteira. Ela abriu a porta, de roupão e cara de sono.

“Henrique, a esta hora…”

Eu deveria estar tomado por demônios e nem deixei que ela acabasse de falar. Joguei-a no chão com uma bofetada, insultei-a, disse-lhe que não a suportava administrando minha vida. Depois, joguei-me na cama, exausto, e, quando acordei, ela já havia levado tudo de seu, da escova de dentes aos porta-retratos. Liguei para ela, ainda tomado, e a insultei de todas as formas. É claro que estava declarando todo o meu amor e a falta que ela me fazia. Mas, quem entenderia?

Pensando bem: ela me faria falta mesmo? Eu não era eu mesmo, mas um personagem com a minha cara, estimulado quimicamente. Eu a amava, mas a usava como uma boneca inflada com quem fazia sexo mecânico, onde urrava sem vontade, numa masturbação assistida. Quantas vezes acordei sem saber que tipo de sexo havia feito… Os que bebem e se drogam vão me entender perfeitamente.

Depois que Tereza foi embora do meu apartamento, veio a voragem. Entreguei-me de uma vez aos cheiros e às noites, larguei a empresa na mão dos empregados e nunca mais a vi.

Um dia, cheirei tanto, bebi tanto que perdi a noção das coisas por um tempo que, sabia, fora longo e tenebroso. Era como se eu me tivesse entregue à liturgia de uma missa negra que durou uma eternidade. Não me lembro de quanto tempo. Uma semana, dois meses, um ano? Acordei na casa de campo, sem ter a menor idéia de como havia chegado até lá.

“Boa dia, doutor”, disse-me um sujeito simpático que eu não conhecia. Apresentou-se como primo do meu caseiro, o Eremides, que havia se dado umas férias. Eu não tinha condição de contestar coisa alguma. Estava largado. Passava o dia na casa, sonolento, quase não me alimentava. E o homem, que se chamava Cristiano, sempre a me servir. Trazia café, roupa lavada, frutas do pomar. Eu só queria dormir – e como dormia! – sempre sem sonhos. Estava destruído, na verdade, e até consumia muito pouco o álcool e o pó que havia na casa.

Aí veio a noite do beijo mágico.

De manhã cedo, ainda sob a impressão daquele sonho, liguei para Tereza. Atendeu um rapaz.

“Está havendo algum problema, senhor. Minha mãe morreu há muitos anos…”

“Ô cara, vai tomar no cu!”

“Calma, senhor. Se o senhor quiser, pode falar com minha tia Sônia…”

Sônia. Durante o meu relacionamento com Tereza, Sônia queria ver-me morto. Aconselhava a irmã a se livrar de mim, antes que acabasse debaixo de um caminhão, porque eu dirigia como um louco, ou então morta de overdose no chão de um apartamento. Sônia era injusta. Tereza jamais aceitara a droga. Bebia comigo, até ficava de pilequinho, mas cocaína não.

“Alô? O que o senhor quer?”, perguntou Sônia.

“Porra, Sônia, quero falar com a Tereza. Um moleque aí disse que ela morreu… Eu sei que Tereza está magoada comigo, mas eu insisto, preciso dela, sonhei com ela…”

“Sonhou com ela?”

“Sabe, Sônia, sei que você não gosta de mim, mas foda-se. Vou contar pra você: Tereza me apareceu em sonho e me beijou na boca. Eu estou muito impressionado com isso…”

“É o Cássio mesmo que está falando?”

“Porra, Sônia, você não reconhece a minha voz?”

“Reconheço, Cássio. Estou arrepiada. É que você… bem, esquece. Tereza também andou sonhando com você, esse mesmo sonho, ela lhe beijava na boca, e você era doce com ela…”

“Que loucura, Sônia. Pelo amor de Deus, me chame a Tereza…”

“Isso não vai ser possível, Cássio…”

E ela bateu o telefone.

Eu deveria ser muito odiado naquela família. Liguei de novo: ocupado. Aí fiquei puto. Abri a porta da casa, o que não fazia havia muito tempo, e fui direto ao caseiro.

“Seu Cristiano! Seu Cristiano!”

Ele não respondeu. Sua porta estava entreaberta. Entrei. Tudo, lá dentro, era abandono e pó. Móveis cobertos de poeira, húmus, ratos correndo de um lado pra outro.

“Mas que porra é essa… Eremides não deixaria a casa neste estado…”

Saí, gritando pelo homem, e pela primeira vez em muito tempo olhei para cima, para a copa das árvores. Não, aquilo não era o meu sítio, mas uma floresta de chuva, úmida e sombria. As árvores, de copas fechadas, encobriam toda a claridade. O chão era de folhas sobrepostas. Cipós se entrelaçavam nos troncos, ouviam-se pios e estalos de pássaros e madeiras invisíveis.

“Seu Cristiano, onde é que você está, seu merda?”

O eco me respondeu. Pensei: ‘não ouço minha voz há tanto tempo…’

Eu não entendia mais nada. Era como se estivesse morto.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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