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Archive for novembro \09\UTC 2013

Pródigo

Eu sei, mãe, que sou um filho da puta. Com todo respeito, né, mãe, filho da puta não quer dizer filho da puta mesmo.

Chore não, mãe. Hoje em dia, a senhora sabe, um ano passa assim, num já! Viu?, olhe aqui, já tenho cabelos brancos! Sei, sei que fiquei fora mais de dois anos, mas a senhora sabe, estavam atrás de mim, devem estar ainda, só que agora , fodam-se, quer dizer, danem-se.

Vou repetir pra senhora o que já lhe disse naquele tempo: eu só consumia! Não traficava não… Aliás, devo lhe dizer, parei, parei aquele consumo pesado, sabe, todo dia, todo dia. Agora é só quando surge uma oportunidade.

Tô trabalhando. Tá vendo… a senhora riu! Que bom ver a senhora rindo de novo! Sou auxiliar de carga, fico junto do motorista do caminhão, sabe, e quando ele quer cochilar eu assumo o volante, mas ainda não consegui ser o titular. Quer dizer, voltar a ser. É difícil. Andei dormindo no volante, eu sei, mas isso foi só no começo. Se preocupe não, quebrei um braço, este aqui, ó, mas ele ficou novo em folha. O caminhão se danou todo, com a carga e coisa e tal, mas caminhão é coisa, né, mãe? Importante é a gente, viva.

Conheci o Brasil todo. Eta, Brasil! A senhora iria gostar de ver as coisas do Norte, e também do Sul, sabe, um frio… tão bonito, sem essas coisas aqui da cidade, essa violência. Não tem um estado do Brasil que eu não conheça.

Pois foi vindo pra cá, passando por Minas Gerais, que eu conversei comigo mesmo e disse: “Riobaldo, chega! Sua mãe não lhe vê há dois anos, você nem sabe se ela está viva ou não… chega!”

Mas, e a coragem de encarar a senhora de novo? A senhora sabe, mãe, eu nunca fui religioso, nunca fui nada, até zombava das meninas que iam ao culto, ou à missa, um dia zoneei no centro espírita… Meu Deus, eu acho que fui perseguido pelos santos de todas as igrejas, pois aprontava com todos. Mas o Exu, sabe, mãe, o Exu não é santo, não, é o meu chefe, o motorista titular, ele me viu meio jururu assim, pensando na senhora, nesse tempo todo sem lhe ver, aí ele perguntou: “Sei que você não é de se abrir, ô Dentada (sabe, mãe, de brincadeira me chamam de Dentada), mas tem coisa ruim passando na sua cabeça, não tem?”

Não respondi nada. Nem olhei pra ele. Ele continuou: “Seguinte, Dentada: tem uns negócios aqui, uns papéis, com umas coisas escritas. Essas coisas têm ajudado as pessoas desde que entrei nessa vida de caminhoneiro e convivo com o mundo. Vejo uma pessoa triste, aí eu digo: ‘olha esses papéis, escolhe um, lê’. Não tem religião nos papéis, não, sabe? Ou melhor, os papéis são de várias religiões, eu acho, bem, também não entendo disso. Só lhe digo o seguinte: ler essas coisas já me ajudou e ajudou todo mundo. Menos analfabeto, né mesmo, mas esses aí estão rareando. Hoje todo mundo lê, mal, mas lê. Quer ver as coisas?”

Continuei não respondendo, mas me virei pra ele e devo ter feito uma cara de quem diz sim. Tava chateado mesmo, mãe, pensando na senhora. Pois é: fui pegando os papéis, tinha revistinha, até em quadrinhos, tinha caderneta, página solta presa com grampo, tudo isso… e eu fui olhando, sem vontade de ler nada, mas me chamou a atenção uma foto, quer dizer, um desenho, de um homem barbudo que só podia ser o tal de Jesus, e umas coisas escritas embaixo.

Pensei mais ainda na senhora: mãe só falava de Jesus… Pois vou lhe dizer, mãe, quem me trouxe até aqui, quem me fez encarar a senhora não foi Jesus, não, foi um tal de Publius Lentulus. Pois é, nome complicado, né, mas é o nome dele. Depois o Exu, que até que é bem letrado, me explicou melhor, e é o seguinte: o tal do Publius Lentulus era do reino que tomava conta da terra de Jesus. Todo mundo era escravo naquele reino (esqueci o nome). E esse Publius Lentulus era um empregado do rei que tomava conta lá da terra de Jesus. O rei ficou sabendo que havia um homem fazendo milagres por lá e mandou perguntar ao tal do Publius Lentulus quem era essa figura.

Aí eu me achincalhei todo, mãe, quando comecei a ler o que Publius Lentulus escreveu sobre Jesus. Sabe, tirei um xerox. Depois vou ler tudo pra senhora, devagar, né, a senhora sabe que não leio bem, mas naquele caminhão, altas horas, eu lendo aquele negócio, pois é, mãe, não me agüentei e comecei a chorar. Mas chorar mesmo, de balançar a boléia. Me virei pro Exu e esclareci que não era boiola, mas que não estava me agüentando… Ele não gostou, levantou a voz: “Então alguém é boiola porque chora, ô Dentada? Você não imagina quanta gente já se debulhou toda, aqui, do meu lado, lendo esses meus trapinhos, esses papelzinhos… Já vi matador, gente ruim mesmo, se estourando aí do lado. Teve um que se danou comigo, gritou, me acusou. Disse: ‘você me deu isso de propósito, pra eu me emocionar…’ E não foi, não foi mesmo!”

Que foi que Publius Lentulus escreveu? Vou ler tudo pra senhora, mãe, calma! Sempre apressadinha, né? Mãe, ele disse como era o rosto de Jesus, o cabelo, a roupa, os olhos… sabe, mãe, ele escreveu assim, olha, pera aí, deixa eu pegar aqui dentro… ele escreveu, vou ler, não repare: “O olhar de paz é profundo e grave, com reflexos nos olhos de várias cores, e o que mais surpreendem é que resplandecem. As pupilas parecem raios de sol.”

Tá vendo: a senhora já ficou emocionada. Mas isso aqui é só aperitivo, mãe, o tal do Publius Lentulus estava apaixonado por Jesus! Vou dizer uma coisa pra senhora: pra variar, pensei bobagem, achei que esse negócio de achar homem bonito podia ser coisa de viado, mas ele descreve de um jeito que não tem nada a ver, assim como não teve nada a ver o meu ataque de choro.

Mãe, eu não vou virar evangélico, nem carola católico, nem coisa nenhuma, acho que vou ser meio errado o resto da vida, mas eu dei uma mudada, sabe? Já vinha pensando na senhora, durante a viagem, quando me caiu esse papel, que vou ler todo pra senhora, e por isso resolvi dar uma parada aqui. Fico uma semana, mãe, é o máximo que posso. Mas não vou largar a senhora mais nunca! E a senhora vê que coisa doida: tudo por causa de um sujeito que já morreu há dois mil anos, segundo o que Exu me contou, que se chamava Publius Lentulus e que achava Jesus bonito. É demais, né, mãe?

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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