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Archive for dezembro \21\UTC 2013

Miseráveis

Ele já estava na minha mira havia muito tempo. Alto, mal vestido, mas de certa maneira elegante, apesar do vacilo corporal que o mal de Parkinson lhe provocava. Pedia esmolas no sinal entre as avenidas da União e Tomás Álvares, um ponto bastante movimentado e central da cidade. Ia, de carro em carro, a mão em pires, como fazem os pedintes. Não usava latas ou sacolas.

Da primeira vez que o vi, fiquei muito chocado. Ele se aproximou do meu Mercedes pela porta do carona. Acionei o vidro para desculpar-me. “Não tenho trocado”, desculpei-me. E não tinha mesmo.

“Vocês são tão miseráveis…”, ele respondeu, em bom português, mas com sotaque castelhano.

No dia seguinte, passei pelo mesmo lugar, e ele não estava por lá. Mais dois dias, passei naquele cruzamento à noite, acompanhado de uma amiga, Eliana. Linda, rica, produzida. Atrasei a marcha do carro para pegar o sinal fechado.

“Eliana, está vendo aquele mendigo ali? Se ele chegar perto da sua janela, vou abri-la. Negue a esmola. Você vai ver o que acontece.”

“Ele não me machucará?

“Não é louco.”

Ele se aproximou justamente da janela do carona, como da outra vez. Eliana fez que não com a cabeça. Primeiro, ele ficou paralisado diante da beleza dela; depois, rosnou:

“Miseráveis, vocês são miseráveis.”

“Viu, Eliana?”

“Que coisa. Ele é argentino?”

“Não dá pra saber. É de um país de língua espanhola.”

“Está na maior merda e ainda não aprendeu a ser humilde.”

“Acho que é mais do que isso, Eliana.” A moça, além de linda, era inteligente.

“O que você sabe que eu não sei?”, ela arregalou os olhos.

“Depois lhe conto.”

Dia seguinte, comecei a me preparar para a conversa que teria com aquela figura marcante. Escolhi inclusive a hora, de menor movimento, para que não houvesse chance de alguém nos atrapalhar.

Vim pela fila da direita. Ele apareceu. Desta vez na minha janela.

“Tenho esmola aqui pra você”, disse-lhe, mostrando um monte de dinheiro na minha mão. “Só que gostaria de conversar um pouco.”

Ele titubeou, mas acabou dando a volta. Abri a porta do carro por dentro, ele entrou. Um odor quase insuportável invadiu o Mercedes.

“Eu cheiro mal”, ele disse, feliz. “Os burgueses não estão acostumados.”

Tinha olhos azuis, percebi. E hálito de álcool. Levei o carro até uma pracinha próxima, onde, de pisca-pisca ligado, poderia ficar algum tempo.

“Não é que seu cheiro é mau”, disse-lhe. “É insuportável.”

“Onde está o dinheiro?”, ele olhou para mim com muito ódio, e ainda deteve o olhar no discretamente sofisticado painel do carro.

“Quero que, antes, me responda a algumas perguntas.”

“Jornalista você não é. Não existem jornalistas de Mercedes.”

“Não interessa quem eu sou. Sabe, cara, você é agressivo. Por duas vezes você me chamou de miserável.”

“E o que você acha, burguês? Vocês são todos miseráveis, de fato, assassinos sociais, matadores por omissão, desumanos e desprezíveis.”

“Eu pago meus impostos para que o governo cuide de pessoas como você.”

“Você é o governo. Você compra os Três Poderes, com dinheiro mesmo ou favores. Você paga, sim, a advogados, para livrá-lo da maioria dos impostos devidos.”

“Quem você é? Por que pede esmolas? Você é argentino?”

“Acabou a conversa. Quero dinheiro. Ou saio daqui correndo, dizendo que você me propôs sexo, que você é viado.”

“Você não pode correr. O Parkinson.”

Ele começou a rir, quase puxou as notas da minha mão. Seu riso exacerbou seu hálito medonho e eu tive vontade de vomitar. Ele saiu do carro e eu fui correndo pra casa, pra tomar banho, trocar de roupa e depois lavar o carro.

Ele não havia percebido a minicâmara disfarçada no teto e o gravador no porta-luvas. Nem o pessoal que o filmou da camionete logo atrás.

Agora, daqui a dois dias, vou entrar na reunião do partido e mostrar essa jóia política que me veio de presente. O grupo liberal ficará acuado diante do meu diálogo com o mendigo. Ora, mendigo! Um ativista internacional, direi eu. Eles invadiram, como vírus, o tecido social do nosso país. Estão em todos os setores da vida nacional, assaltando propriedades privadas no campo, infiltrados nos órgãos do governo executores de programas populares. Esse mesmo governo, que se diz comprometido com as regras de mercado, mas que, por trás, nos apunhala a todos, detentores dos meios produtivos, é o grão-protetor de todos esses párias. Há uma rede de ONGs apoiando-os, internacionalmente, diante das reuniões dos bancos de desenvolvimento, tentando dilapidar a globalização. Essa gente, como o mendigo com sotaque, está nas escolas, também, dirigindo-as ou atuando como professores, envenenando a mente das nossas crianças.

Nós somos um partido político e nosso primeiro compromisso é para com a sobrevivência da liberdade em nosso país, eu direi, e, dessa vez, aqueles liberais de merda ficarão sem ter como me taxar de direita, extremista ou militarista.

Não posso afirmar se, em pouco tempo, conseguiremos limpar a sociedade dessa praga. Mas alguém tem de começar.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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