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Archive for julho \25\UTC 2014

O dom de Santo Antônio

“Vi você, ontem à noite, primo Aderaldo, lá pro lado da casa dos gansos.”
“Era eu não, primo Ricardo.”
“Era. Com um rabo de saia do lado. Acaso não seria minha irmã (e sua prima) Jovina?”
“De jeito maneira. Além de não andar com mulher por aí, eu sou respeitador e, mais do que isso, temente a Deus. Como poderia conversar de noite com a prima Jovina?”
“O que eu vi não tinha nada de conversa, primo Aderaldo. Era função de homem com mulher.”
“Coisa horrorosa. Então, quem era? Porque eu…”
“Como eu tinha a intuição de que você iria negar, chamei outras pessoas para lhe ver junto da mulher. O rosto dela estava meio encoberto e a gente não reparou direito. Mas o jeito de andar era todo da minha irmã.”
“Quem são as outras pessoas, primo?”
“Seu Jeremias, o caseiro; a mulher dele, dona Rosa; e o meu pai, seu tio.”
“Tio Figo me viu?”
“Com a mulher junto. Fornicando.”
“T’esconjuro. Como é que vão acordar tio Figo pra fazer fofoca?”
“Tá com medo dele, primo Aderaldo? Eu, se fosse você, ficava mesmo. Pai disse que mataria o primeiro que tocasse a mão em Jovina.”
“Vai, vai me matar?”
“Não, porque ele não acreditou que fosse ela. Nem a gente falou, com medo de que, na hora, ele invadisse o território dos gansos e passasse fogo em você.”
“Ai, minha Mãe! Mas ele viu que era eu?”
“Claro. Seu rosto virado pra lua cheia. Dava pra ver até a cicatriz na testa.”
“Mas, o rosto da mulher, não?”
“Mulher é bicho matreiro. Ela escondia o rosto. Mas o jeito de andar…”
“Primo Ricardo, vou confessar. Nunca contei pra ninguém.”
“Era Jovina.”
“Não, primo. Já disse que não. E o meu respeito e o meu medo de Deus? Era a Cabrália.”
“O fantasma?”
“Ela, primo. Sei que é pecado vadiar com os mortos, mas tenho precisão e já não me sirvo das mulas.”
“Sei não, primo Aderaldo. Pai já viu a Cabrália no mato, mas foi nos tempos da Segunda Guerra; acho que o caseiro Jeremias até já se serviu dela. Aquela mulher que estava com o primo não tinha jeito da Cabrália, pelo menos pelo que sempre ouvi dizer dela. Pelo que sei, a Cabrália é mulher alta, de assustar.”
“Era ela sim, primo. Sei que estou pecando, mas fico me virando na cama com a vontade. E na hora da precisão, fantasma nenhum me intimida.”
“Mas a Cabrália, o povo diz, é fria.”
“Cê pensa. Furacão de fantasma. Enlouquecida. Faz de tudo e faz de novo.”
“E a pele? Amarela? Povo diz…”
“Rosinha. Cor-de-rosa. Igual a pele de cabaço. E com o cheiro daquelas umidades.”
“Tá brincando, primo Aderaldo. Então não é fantasma, é gente.”
“Fantasma, sim, porque não tem pé.”
“Como não tem? A gente viu.”
“Não, não viu. Vocês todos foram me bisbilhotar e não olharam para os pés da mulher. Fantasma não tem pé. Sempre soube, e ontem mesmo vi. Quer dizer: não vi.”
“Bem, é verdade que não olhamos pros pés. Mas, a falta dos pés não incomodou? Pé é bom, na hora do frege.”
“Precisão é a pior cegueira. Se não tivesse cabeça, acho que eu, mesmo assim…”
“Mas que precisão danada é essa, primo Aderaldo?”
“Dos vinte anos. Você, primo, já passou da fase.”
“Mais ou menos. Faço vinte e sete. Tenho minhas fraquezas, também.”
“Quer que apresente?”
“A um fantasma? Credo em cruz.”
“A um alívio, primo Ricardo. A gente, que precisa, não pode medir possibilidade.”
“Ela beija?”
“Quase engoliu minha língua. Beija feito mulher de cinema.”
“Não pode, primo Aderaldo. Cabrália é da antigüidade. De um tempo sem libertinagem.”
“E Sodoma?”
“Bem…”
“E Gomorra?”
“É, mas…”
“E a Babilônia toda? O harém do sheik?”
“Pode ser, primo Aderaldo. Cabrália traz o pecado de longe, então.”
“Pois é. Quer que pergunte a ela se aceita ir com você?”
“Estão íntimos assim, vocês dois?”
“Sabe como é. Eu me sirvo dela.”
“Não sei se vou ter coragem. Com um fantasma.”
“A precisão é a verdadeira força sobrenatural.”
“Vamos parar, agora, primo Aderaldo? Com essas conversas-moles? Quero saber se minha irmã Jovina está grávida, ou não.”
“Primo! A Cabrália…”
“Passou uma conversa parecida com essa na minha irmã? Que boba, ela.”
“Primo Ricardo, já jurei. Era a Cabrália.”
“Não podia ser, primo Aderaldo. A Cabrália, pouco antes de eu descobrir você e a irmã Jovina no território dos gansos, estava comigo. Não falei antes só pra ver até onde chegava sua história.”
“O fantasma, com você?”
“Exato. Fez coisa comigo pouco antes de eu descobrir vocês.”
“Fantasma danado. Com o mesmo dom de Santo Antônio. Ubiqüidade.”
“Confesse, primo Aderaldo. Minha irmã está grávida, não está? Diga de uma vez!”

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, 2007

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