Feeds:
Posts
Comentários

Archive for setembro \04\UTC 2014

O caminho do mistério

Roleta paulista, nem pensar. Vocês sabem o que é, não? Era muito usada no tempo do meu pai. Você escolhia um cruzamento, a uma hora tardia, quatro da manhã, por aí, e apertava o acelerador, cruzando o farol fechado na velocidade mais alta possível. Freadas, batidas surdas, gritos… O problema é que você poderia matar também os outros.
Gostaria que meu projeto fosse, sempre, individual. Não quero ameaçar ninguém.
Por muito tempo, pratiquei alguns esportes radicais. O que mais me excitou foi o para-quedismo: deixava para puxar a cordinha no último minuto. Jamais errei, é claro.
“Você não quer se matar, Alemão”, dizia e repetia J. Meira, o psicoterapeuta, grifando o não. “Se quisesse, não estaria aqui”. Até ele me chamava de Alemão, apelido que ganhei logo na escola primária, por causa do meu cabelo quase branco, de tão louro.
“Acho tudo isso aqui, neste mundo, uma grande bosta”, eu tentava convencê-lo. “Não tenho vontade de fazer nada. Você é um homem feliz, gosta de ouvir as merdas dos outros, interpretar, essas coisas, mas eu não tenho vontade de nada.”
Cheguei a imaginar, por causa de umas observações estranhas, que J. Meira duvidava da minha opção sexual. Um dia, após uma pergunta cavilosa, perdi a paciência:
“Caralho, J. Meira, eu não sou viado coisa nenhuma. Nem me importaria se fosse. Quer saber, se eu gostasse de homem e se isso me desse vontade de viver, até que eu toparia. Mas não gosto. E atualmente também não gosto de mulher. Fuque-fuque. Fuque-fuque. Teve um cara que escreveu: ‘O coito é triste.’ Quem foi mesmo? Esqueci. Mas que é triste, é.”
Pobres terapeutas. Fiquei pensando no meu caso. Desde criança, olhando para a minha casa, ampla, com piscina, e com todos aqueles carrões na garagem, olhando para minha irmã, para meus pais, e me perguntando: ‘que porra faço eu aqui?’ E aí chegava à escola, aquela rotina de decorar conhecimentos todos inúteis, caceta, onde é que vou usar trigonometria?, perguntava ao professor de plantão, e ele não tinha resposta, aí inventava que eu era inconveniente, e me expulsava da aula, e vinha meu pai conversar, coitado, boa gente, meu pai, e eu lhe dizia: “pai, não adianta, eu não gosto da vida”.
“Mas a gente pode resolver isso, mando você pra fora, quem sabe, hem?, Suíça…”
“Não, pai, pelo amor de Deus! Você entendeu errado novamente: eu disse que não gosto da vida, da vida de um modo geral, e não dessa vida que eu levo.”
“O que? Viver não é bom? Queria eu ter sua idade, ah, com todas essas menininhas dando sem culpa por aí.”
“Ô pai, será que sua motivação se resume a isso? Fricção sob pressão? Dar uma trepadinha?”
“Não seja grosseiro. Claro que não é só isso.”
“E que mais? Dinheiro? Comida? Viagens?”
“Não vou lhe responder, Alemão.”
Claro. Dizer o quê? Pobre do meu pai. Da minha mãe, nem vou falar, ela só chorava à menção do meu nome, ou melhor, do meu apelido. “Meu filho, coitado, jogado por aí, usando umas roupas de mendigo, largado, come pouco, não estuda… Estamos investindo tudo nele, e ele não responde.”
Cheguei a propor à minha mãe sair de casa e me transformar num morador de rua, desde que ela não me tratasse mais como um investimento sem retorno. Ela percebeu que era sério, que eu iria pra rua mesmo, e deu até um jeito de inventar um fundo familiar de onde eu poderia tirar o dinheiro que me sustenta até hoje.
Não sei se vocês vão me entender. Mas eu acordo de manhã e me pergunto: pra que servem os dias? Vou me arrastar durante umas dezessete horas, por aí, sem ler, sem conversar com as pessoas, sem vontade de explorar o próximo, sem apetite para comida, bebida, drogas. Deito na cama, levanto, saio de casa, vou até a esquina, ou pego o carro, ando pelas estradas, ouço a rádio que só fala de desgraça, e nem incomodado eu fico porque mataram Fulano, ou o deputado Sicrano roubou o País… Agora também não procuro os esportes radiciais para ver se um acidente acontece. Até poderia deixar que acontecesse, eu comento isso com J. Meira. Assim: vou escalar uma montanha, sei que se errar a pisada, sabe, um erro de centímetros, aí posso despencar lá de cima e morro quase sem dor. A porra é que incomodaria os outros, não há como fazer alpinismo individual, é preciso muita infra, e nem todo mundo é como eu.
Completei trinta anos, um dia desses. Martinha me ligou. Eu disse, “perdão, mas não sei quem é você…” E ela: “não acredito, Alemão, já fizemos amor, até”. “Ah, foi, em que ano?” “Verão passado, Alemão, eu sou aquela que usava a rosa amarela na orelha, no baile de reveillon; está certo, fui eu que me cheguei, você estava sentado no muro olhando para o mar…” “Ah, lembrei, perdão, Martinha, mas eu sou assim mesmo. Não é pessoal. Sou doido, desligado.” “Mas você gostou de mim, naquela noite, foi carinhoso…” “Foi uma exceção, Martinha, sabe, não sou muito chegado a sexo.” “Mas, cara, nós fizemos amor e não sexo. Nós nos gostamos.”
Eu cheguei a pensar se a mãe havia contratado aquela moça para me “socorrer”, mas acho que não, eu devo, sim, ter dito coisas para ela. Agora me lembro melhor: disse-lhe que ela poderia ser um caminho para que eu entendesse o mundo.
No dia seguinte, bati à porta de J. Meira, sempre atrasado, o próximo cliente já estava esperando, uma coroa perfumada que me olhou com cara de cão. Eu sempre lhe roubava uns dez, quinze minutos.
“Estou achando você mais animadinho”, disse o terapeuta.
“Marquei um encontro com uma moça com quem já fiquei”.
“Ah, é? Imagino que vá ficar de novo…”
“Talvez. Na hora pode ser que dê vontade de fazer um pouco de…”
“Fricção sob pressão. Mas o ‘coito é triste…’”
“Porra, J. Meira: terapeuta não pode gozar paciente!”. Lembrei-lhe que lhe pagava uma fortuna só pra conversar abobrinhas.
Não sei por que suporto este merda do J. Meira. Aí ele desenvolveu a tese de que o coito, realmente, pode ser a maior tristeza, mas o coito em si mesmo. O coito proveniente de um sentimento, como o tal do amor, este não seria depressivo, mas complementar e dadivoso, a revelação do segredo de viver e blablablá.
No térreo do prédio há uma agência bancária e logo que saí do elevador vi que acontecia um assalto. Ouvi um barulho de tiro e, de repente, um dos vidros da agência se estilhaçou. Vi-me correndo, junto a outras pessoas, para me proteger debaixo das escadas rolantes. Quando chegamos lá, um porto seguro, percebi que era a primeira vez que me preservava. Que vergonha: motivado pelas idéias idiotas de J. Meira, quem sabe, ou ficando velho depois dos trinta, ou levando em conta que pode existir um caminho até o mistério no meio das pernas de Martinha.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

Anúncios

Read Full Post »