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Archive for dezembro \19\UTC 2014

Na hora marcada

Uma figura: pequenina, enrugada, elétrica, a voz estridente, dizia pra todo mundo, com orgulho injustificável, que possuía uma altura rara: um metro e cinqüenta e cinco. Gostava de vestidos alegres, de cores fortes, ostentando flores em geral miúdas. Era um “anexo” da nossa família, como João Paulo, nosso irmão mais velho, a definia. Porque não era parente dos nossos velhos pais. Fora herdada junto com o espólio da avó Nicéia, mãe da minha mãe, que morava longe e proibia que a visitassem. Teria sido uma espécie de dama de companhia da vovó maluquinha, mas nem disso tínhamos certeza. Nosso pai conta que, quando foram pegar os móveis na casa da avó Nicéia, a figura, que atendia pelo nome de Zefinha, estava sentada na cadeira de balanço centenária, toda ansiosa, os olhos muito vivos, querendo saber para onde iria e que espaço ocuparia.
“Cuidei de Nicéia durante trinta anos”, ela disse, naquela ocasião. “Perdi a minha mocidade, deixei de casar, mas cumpri a minha missão. Ela morreu toda linda, bonitinha, asseada, somente porque parou de respirar. Milagre, também, não faço.”
Perplexos, nem o pai nem a mãe disseram nada. Mas a figura insistiu:
“E agora, onde vão me enfiar? Num quarto? Numa cama ao lado de algum menino? Vão fazer um puxado no quarto da empregada? Ou aumentar a casa do cachorro?”
O pai, sempre muito calmo, respondia que esperasse um pouco, só um pouco, que a resposta lhe seria dada.
Assim, Zefinha entrou lá em casa, pela primeira vez, cheia de razão. Contrariada. Eu era criança de uns seis, sete anos, e me lembro dela andando de um canto para outro, a perguntar “e eu, onde fico?” Também jamais esqueci de como eram viçosas, quase reais, as margaridas do seu vestido. Imagino, hoje, que aquela seria sua melhor roupa.
A casa era grande, mesmo, tinha oito quartos. E um deles, próximo da cozinha, o nosso preferido, pois era ali que se guardavam as bolas de futebol, os tênis velhos, os brinquedos antigos que sempre nos traziam as melhores recordações. Éramos seis irmãos, todos homens, com a diferença de dez anos do mais velho para o mais novo. E ficamos desarvorados quando soubemos que nosso espaço extra iria desaparecer para virar um quarto de hóspede. Meu irmão Daniel, mais velho do que eu, resolveu protestar publicamente e, além de levar um safanão da mãe, ganhou uma inimiga pelo resto da vida. Zefinha jamais o perdoou.
Na verdade, o mistério não era apenas Zefinha, quem era e de onde surgira, mas a própria avó Nicéia, sempre isolada, reservada, quieta. Ela apenas nos suportava, seus únicos netos, quando a visitávamos, juntos, para levar-lhe o presente de cada Natal. Somente minha mãe a via, durante o ano, mais ou menos a cada dois meses. Aliás, a família materna era muito diferente da família do pai, italiana, festiva, emotiva, alegremente confusa.
Por isso não sabíamos direito das origens de Zefinha. Segundo a mãe dizia, ela sempre estivera lá, na casa da avó Nicéia, pajeando-a com devoção, apesar de não parecer tão mais nova assim, e, quem sabe, não seria uma meio-irmã, filha bastarda do nosso bisavô materno que, segundo consta, era o maior galinha que a cidade já vira?
Mas Zefinha viera para ficar e, apesar de reivindicar, todos os dias, sua condição de aposentada, após “trinta anos, dia e noite cuidando de Nicéia”, fora a melhor coisa que acontecera na vida da minha mãe. A casa, desestruturada pela agitação dos seis rapazes (às vezes, jogávamos futebol até na sala de visitas), transformara-se, em pouco tempo, num reduto alemão. Zefinha pusera ordem marcial na bagunça, demitira empregadas, lavadeiras e passadeiras, chamara a atenção de todos nós, meu pai inclusive, para erros primários que cometíamos nas nobres artes da organização e da convivência. Melhor: ela conseguira pôr um fim ao desperdício geral, obrigando a cozinheira a fazer apenas a comida que seria consumida, cortando o excesso de refrigerantes e de gorduras. Sua vocação de administradora era simplesmente inacreditável.
No começo foi duro para todos nós, mesmo porque a figura ganhou as graças dos nossos pais, eles próprios incapazes de conviver com limites. Lembro-me bem que meu pai só reagiu na hora em que Zefinha tentou se meter no seu orçamento pessoal.
“Não tem sentido ficar comprando esse monte de revistas que você não lê”, ela lhe disse, um dia, indignada.
“Olha, Zefinha, com todo respeito, você tem o direito de mexer em noventa por cento das peças desta casa, mas nas minhas revistas ninguém se mete.”
Ela entendeu. A gente percebia que, do seu jeito enviesado, ela amava meus pais tanto quanto amara a avó Nicéia. E, quanto a nós, vivíamos em permanente tensão, tentando esconder dela nossos pequenos pecados, como o de roubar frutas do próprio quintal, coisa que Zefinha jamais permitira. “Aqui, consome-se a quantidade certa de frutas; por isso só se colhe o que se come. Se é para jogar fora, vamos dar aos pobres”, repetia, e nós odiávamos os raciocínios exatos do “anexo”, mesmo sabendo que, no fundo, ela tinha razão.
E assim o tempo foi passando, meus irmãos mais velhos casando, viajando, a casa cada vez maior, nossos pais envelhecendo e Zefinha com a mesma disposição do seu primeiro dia conosco. Ninguém sabia direito a sua idade, calculávamos setenta e sete ou até oitenta anos. Claro, ela já perdera boa parte da sua agitação física, quase ficara cega de catarata e só aceitou ser operada após um tombo que lhe quebrou um braço. Meu pai, com menos de setenta, parecia muito mais frágil, cheio de achaques, baixando hospital de vez em quando.
Certo dia, quando só estávamos meus pais, Zefinha e eu na casa imensa, ela nos comunicou, durante o jantar, com uma certa pompa, que de “amanhã à meia noite eu não passo.”
“Não passa, como?”, perguntou minha mãe, distraída.
“Ué, vou dessa para melhor.”
“Zefinha, você marcou a hora de morrer?”, riu meu pai.
“Deus marcou. Mas eu fui avisada.”
Ninguém se animou a perguntar como e o jantar transcorreu num constrangido silêncio. Eu imaginei que ela estivesse caducando, finalmente.
O dia seguinte aconteceu como qualquer outro, Zefinha administrou a cozinha, a copa e a roupa lavada; ainda deu um esporro no jardineiro, que deixara de aparar umas roseiras. Às dez da noite, após a última novela, ela se recolheu ao mesmo quarto que fora, uma dia, nosso amado depósito de bolas e brinquedos e que acabara por se transformar, com algumas reformas, numa confortável suite, em homenagem à Zefinha; tinha até televisão grande e ar-condicionado.
Mais ou menos às onze e meia eu não resisti e fui dar uma olhada, pela clarabóia, pra ver o que acontecia lá dentro. Então a vi, deitada com uma camisola florida (pareceu-me miosótis, de longe e no escuro), as mãos no peito segurando o que seria a pequena bíblia que costumava ler, apesar do tamanho mínimo da letra e de jamais termos sabido qual a sua verdadeira religião. Duas velas, no criado-mudo, iluminavam o ambiente. Estava de olhos abertos, mas de vez em quando os fechava e parecia balbuciar alguma coisa pelo movimento da boca.
Fiquei muito tempo olhando para ela e para o meu relógio, até que me cansei da posição na escada. Ela parecia ter adormecido. Já passara da meia noite.
No dia seguinte, acordei angustiado, antes das seis da manhã, hora em que Zefinha se levantava e começava a trabalhar. Quando cheguei em frente ao quarto dela, meus pais já estavam lá, tão aflitos como eu, os olhos fixos na porta.
“Vamos esperar até umas seis e pouco, depois a gente entra”, disse meu pai, muito sério.
Mas, pouco antes das seis, a porta se abriu e o nosso “anexo” foi saindo com sua roupa de trabalho, cabelo molhado, e a expressão do rosto revelando um mau humor inédito.
“Nenhum de vocês vai fazer qualquer comentário”, ela disse, para o nosso alívio e felicidade. E completou: “Nem agora, nem nunca!”

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, 2007

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