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Archive for fevereiro \26\UTC 2015

Como se fosse um rico

De um tempo para cá, Zeca Mindingo começou a sentir pânico só de pensar no pessoal da tevê chegando e provocando a maior confusão; a equipe com câmera, iluminador, repórter, invadiria a praça e o obrigaria a dizer qualquer coisa.
Aquela fora a melhor praça dos últimos anos: quieta, afável. Levantara sua tenda havia uns três meses e os vizinhos dos dois lados da rua (que casas lindas!) não reclamaram. Confirmando, aliás, sua teoria de que rico não enxerga o mundo, a não ser pela televisão. Só vê o que está muito perto, o que está dentro de casa, ou no escritório, ou no clube.
Não perceberam, os ricos, que um invasor refestelara-se nos seus jardins além-muro. Zeca Mindingo era um homem escuro, de barbas compridas, e há mais de dez anos vivia debaixo de uma tenda negra. Gostava de invadir as praças mais floridas, mais charmosas. Ninguém jamais o incomodou.
Mas, se os ricos adultos não o viam, seus filhos, aquelas crianças iluminadas (os filhos dos ricos são as criaturas mais bonitas do mundo!) que saíam para tomar sol na rua, além das babás, cozinheiras e arrumadeiras, não só o percebiam como se tornaram íntimos.
“Aí, tio, vai uma torta de limão?”
Que maravilha, torta de limão! Os ricos possuíam as melhores receitas. E, assim, dos empregados ele ia aceitando tudo: comida, roupa, santinhos com orações. Menos sopa. Esse é um problema que as pessoas têm, ricas ou pobres: imaginam que todos os mendigos devam tomar sopa. Sopa não é refeição de gente.
Mas a paz estava perfeita por ali. E ele, paranóico, inventando situações hipotéticas como esse pânico de televisão. “Será que é este o meu problema?”, perguntava-se. “Não consigo viver como um cristão normal?”
Parecia que estava vendo a repórter, toda produzida, mas suada, metendo-lhe o microfone na cara:
“O que o senhor acha de viver na rua, no meio de uma praça pública, comendo, dormindo, fazendo necessidades?”
“Não acho nada.”
“O senhor não quer me dar sua opinião? O senhor foi expulso de casa? Veio do interior? O senhor…”
Sentia-se muito mal só de pensar. Porque já acontecera uma vez. Dez anos atrás. E ele vivia tendo pesadelos com aquela tragédia. Não era um repórter de tevê, mas de jornal. Muito simpático, maneiroso. E inteligente. Olhou para ele e saiu-se com esta:
“O senhor está aqui, nesta situação, somente porque quer, não é mesmo?”
Bem, era uma pergunta óbvia. Todos os mendigos, especialmente os que moram nas ruas, estão ali somente porque querem. Opções, eles sempre teriam. Mas o repórter achara um jeito diferente de amarrar uma conversa.
Foi aí, na confiança, que Zeca Mindingo se perdeu. Contou tudo ao repórter. Infância no casarão, o pai querido, a mãe doente, os amigos estranhos, a impossibilidade de se fixar em qualquer estudo, ou em qualquer trabalho, quando virou rapazinho, as moças apaixonadas; mas prevalecia aquela vontade irresistível de tomar mundo, sair caminhando, vento no rosto, ensopado de chuva. Pedir e receber. E apenas olhar o mundo do lado de fora – o mundo que os ricos não viam –, degustando tudo o que ocorria à sua volta.
O repórter escreveu uma história linda e, logo depois, a tevê apareceu. Quase o obrigaram a entrar na perua, ele não conseguiu resistir; depois o violentaram com banho, barbeiro, spray contra piolho. Depois, no estúdio, um sujeito bichoso perguntou as mesmas coisas que ele já havia dito ao repórter do jornal.
Começou a chorar.
O viadinho: “Que é que você está sentindo?”
“Estou com muita pena de mim”, ele disse. “Muita, muita pena. Estou quase chorando de pena de mim. Mas sinto pena do senhor também…”
Zeca não admitia que isso se repetisse. Foi a pior sensação da sua vida: sentir pena de si mesmo. Foi acordado do delírio por uma voz dulcíssima, sua conhecida.
“Zequinha, vai dormir mais um pouquinho hoje?”
Era Fernanda, a adorável babá da mansão azul em frente, protegida por guardas de metralhadora – e de piscina térmica no subsolo, segundo comentavam. Fernanda mais parecia a própria felicidade, na sua roupa branca, engomadíssima, uma exigência dos patrões. “Daqui a pouco lhe trago umas paçoquinhas de Minas”, disse ela, com o sorriso também branco.
“Nanda”, disse Zeca Mindingo, subitamente mais jovem, “meu dia estava mais ou menos; agora ficou perfeito…”
“Você não existe, Zeca…” A blusa do seu uniforme ostentava um decote em V quase generoso.
“Eu sei disso, Nanda. Eu sei que eu não existo.”

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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