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Archive for abril \29\UTC 2015

A doidinha tinha pouco mais de quarenta anos, era magra de dar pena, cabelo escorrido, muito negro, repartido ao meio no centro exato da cabeça. Era impressionante a precisão daquele repartido, e eu cheguei a usá-lo como argumentação de que sua loucura só poderia ser relativa, já que maluco algum teria o rigor e o capricho para tratar o cabelo daquele jeito. Naturalmente, minha argumentação não resistiria à lógica primária.
A doidinha era a grande atração do bairro, quando nós chegamos. Um lugar de classe média baixa, no entanto pretensioso, com supermercado e um pequeno shopping center que tentava imitar os do centro. No final do ano, o bairro inteiro se esmerava com suas árvores de natal coloridas, e acontecia uma ‘gastança de energia sem sentido’, como meu pai definia a extravagância.
Os moradores eram tão ciosos do seu pedaço que tentaram, certa vez, mudar-lhe o nome de ‘Rio Velho’ para ‘Rio Dourado’. A justificativa para o ‘dourado’ eram os raros ipês–amarelos que enfeitavam as margens do córrego sujo que atravessava o lugar. Mas o presidente da Câmara de Vereadores, um professor culto, acabou dando uma grande lição às comissões de moradores, demonstrando que o conceito de ‘velho’, quando dado a acidente geográfico ou agrupamento humano, possuía, ele sim, um charme aristocrático, ao contrário do plebeu ‘dourado’, que não passava disso mesmo, uma imitação de quinta categoria do bom e ‘velho’ ouro. O nome não foi mudado, mas o professor perdeu boa parte dos votos do bairro na eleição seguinte.
Não se podia negar que a nobreza estava longe de chegar ao comportamento daquela gente metida. Era o caso da doidinha, por exemplo. A diversão preferida dos garotos do lugar era jogar-lhe pedras, nas duas vezes do dia em que ela, com seus vestidos longos, impreterivelmente negros, apesar de puídos e desbotados, ia até a padaria para comprar leite e pão quente.
Eu completara dezessete anos, na época, e meu pai nos avisara, a mim e ao meu irmão, um ano mais novo, que teríamos de exercitar a paciência: em função de perdas nos negócios, ele seria obrigado a baixar o padrão, e por isso viveríamos por algum tempo naquele arraial presunçoso.
“Jamais se envergonhe do que Deus lhe dá, Mauro Sérgio!”, ralhava minha mãe com meu pai, de dedo em riste, imaginando que ele sofria muito com a queda de status. Minha mãe era uma católica progressista, humanista, compassiva, talvez um pouco autoritária. Sempre trabalhara como professora primária do governo, salário miserável, e justificava-se dizendo que o futuro poderia ser tão negro que seus ganhos humílimos nos impediriam de passar fome. Essa ideia nos tornara inseguros com relação aos negócios do pai.
Eu herdara a compassividade da minha mãe, mas Rio Velho (ou Rio D’ouro, como eu e meu pai chamávamos, zombeteiros, depois da campanha ridícula da mudança de nome) não era o meu lugar. Não pelo aspecto econômico, evidentemente, mas moral. Os pequenos burgueses mostravam-se, na verdade, muito mais intolerantes, racistas e preconceituosos do que os liberais do nosso antigo bairro, Boa Vista, este sim, senhorial, como meu pai enchia a boca para dizer, onde moramos durante boa parte da vida.
Ali, em Rio D’ouro, meus eventuais amigos, adolescentes por volta dos dezessete anos, vinham, além de bisbilhotar nossa família, convidar-nos para programas absurdos, como jogar pedras em uma pessoa. Pior: já haviam feito João, meu irmão mais novo, experimentar aquela emoção medieval.
“Mas péra aí”, eu disse a Sizeno, o garoto que parecia o chefe da gangue do bairro, e que me convidou para a lapidação, “esta senhora fez mal a alguém?”.
“Não é uma senhora, é uma doida!”
“Fez mal ou não?”
Aí meu irmão interferiu e fui obrigado a mandar-lhe calar a boca, não só com a minha autoridade de mais velho, mas impondo-lhe meu físico, superior ao dele.
“O Célio é assim mesmo, Sizeno”, havia dito meu irmão ao pequeno marginal. “É cheio de penas das pessoas.”
“Seguinte, Sizeno”, eu continuei, depois de mandar João ficar quieto, “não é uma questão de ter pena de ninguém, é que o apedrejamento está fora de moda há cerca de dois mil anos”.
O rapaz não percebeu a ironia, e passou a acusar a doidinha de querer se aproveitar, sexualmente, de meninos e meninas.
“Quem acusou?”, eu perguntei.
“Ué, a molecada.”
“Você sabe que crianças mentem, não é mesmo, Sizeno? Não quero afirmar que estejam mentindo, mas a tal doidinha precisa do benefício da dúvida, pelo menos.”
“Crianças não mentem, ô seu bonzinho”, disse Sizeno, meio irritado. “Deixa pra lá, eu só quis lhe mostrar o bairro, e lhe chamar para uma coisa que todo mundo por aqui faz.”
Foi aí que tomei uma atitude que poderia ter-me custado até a vida, como meu pai observou, mais tarde. Em compensação, ganhei definitivamente o respeito da minha mãe, que me garantiu: “se precisar de um soldado, conte comigo”.
“É o seguinte, Sizeno: se eu souber que alguém atirou pedras na tal mulher, que eu nem conheço, não vou chamar a polícia, pois não tenho vocação de dedo-duro, mas fique certo de que vou atrás de um advogado para defendê-la. Ela não pode ser julgada e condenada por vocês.”
O chefe da gangue não disse nada. Simplesmente deu as costas. João ia atrás, mas segurei-o pela gola. A partir daquele dia, apenas as crianças menores ameaçaram apedrejar a doidinha. Sizeno havia entendido que sua liderança se dividira. E o povo do bairro acabou ficando do meu lado, pois arruaceiros, como Sizeno, atraem viaturas policiais; ‘coisas de favela’, para eles. Depois, pensaram bem, gente fina não joga pedras. Em nada. Em ninguém.
Mas eu precisava conhecer aquela que seria, na verdade, minha primeira cliente, antecipando todo o meu futuro de advogado de presos políticos e fundador de partido de oposição.
A casinha, simples, ficava no alto de um outeiro. Havia flores na pequena varanda, além de uma cadeira de balanço de palhinha, bonita, antiga, e gatos por todos os lados. Bati palmas. Ninguém atendeu. Mas percebi que havia um furo na porta, logo acima da fechadura. ‘Está me observando’, pensei. Esperei um tempo. Nada. Bati de novo. Só os gatos se mexiam, preguiçosamente, na varanda. O maior deles acomodou-se na cadeira, como quem reafirma prerrogativas. Esperei um tempo e resolvi falar alto.
“Senhora (eu nem sabia o nome dela), eu sou um amigo! Vim conhecê-la porque acabei de chegar ao bairro. Nem todo mundo, a senhora pode acreditar, está a fim de lhe jogar pedras!”
Esperei mais ou menos um minuto e ela abriu a porta. Havia molhado o cabelo (ou tomado banho?) e o vestido negro parecia impecável, passado, apesar da sua desvanecida pobreza. Senti (que ironia, para Rio D’ouro), um jeito aristocrático na sua figura. Ela disse, muito séria, com voz bonita, de atriz:
“Maria Feliciana Abreu de Carvalho, filha de Roque Cintra de Carvalho e Rosângela Flores de Carvalho.”
Estranho, aquilo. Como se fosse entrevistada por autoridade policial. Era, também, uma forma de entregar-se completamente a um intruso.
“Dona Maria Feliciana…”, eu fui dizendo.
“Feliciana. É mais simples. Abra o portão, entre. Quando era pequena, meus pais me chamavam de Feliz”, ela sorriu. Dentes pequenos, escuros.
Serviu-me chá preto com bolachas murchas. Era o que tinha de melhor. Fiquei sabendo, em pouco tempo, que a casa era paga por um irmão, quase seu vizinho, que morava num casarão próximo, um dos maiores do bairro. O irmão tinha vergonha dela: proibia que ela o visitasse e revelasse o parentesco. Ela o fazia comigo, no entanto, porque vira em mim ‘um olho honesto’. Feliz recebia uma mesada semanal (“antes era mensal, mas ele achou que eu jogava fora o dinheiro, por ser louca; não sou, é que o dinheiro era curto, mesmo”); mas a pequena pensão acabava dando, sem folga, para seus míseros gastos, como os dois pães e o litro diário de leite.
A casinha, por dentro, era limpa, apesar de certo odor abafado de velhice. Tinha duas salas, um quarto, um banheiro e uma cozinha. Nem tão pequena assim.
“E o que a senhora faz, dona Feliz?”, eu perguntei, após ter-me apresentado, falado da minha família e dos meus sonhos.
“Estudo os gatos. Só isso. Não posso trabalhar porque sou louca.”
“Mas quem disse que a senhora é louca?”
“Os médicos.”
“E por quê?”
Ela fez um ar de resguardo, olhou de lado e não me encarou.
“Meu comportamento.”
“Não precisa me dizer mais nada, dona Feliz. Só quero ser seu amigo. Seu comportamento não me interessa. Não gosto que joguem pedras na senhora.”
“Acho que me jogam pedras justamente por causa do meu comportamento”, ela sentenciou, para depois ponderar: “mas o que eu faço, de vez em quando, é porque não consigo parar”.
Reparei, naquele momento, que rugas simétricas enchiam sua testa, como se ela vivesse em estresse permanente. Aparentava a idade que me disse ter, quarenta anos, mas ostentava um ar envelhecido, que nada tinha a ver com o físico.
O que ela fazia? Atacava, sexualmente? Escandalizava os meninos? Ou as meninas? As acusações de Sizeno eram vagas e genéricas, não mereciam crédito. Depois dessa primeira visita à doidinha, perguntei a outras pessoas, que já tinham ouvido falar das suas intromissões sexuais, mas ninguém conhecia qualquer ‘vítima’.
Agora ela estava ali, frágil, entregue, à minha disposição. Sorriu algumas vezes, com timidez. Resolvi, naquele dia mesmo, aprofundar-me na história dos gatos. Que fazia mesmo? Observava-os? Ela me trouxe um monte de cadernos escolares em que, numa letrinha miúda, descrevia o comportamento de cada um deles. Li aquela coletânea, fascinado: ela atribuía a cada bicho sentimentos humanos, como ciúme, inveja, generosidade. Eram peças de ficção. Cometia alguns erros, escrevendo, mas havia até certa elegância no seu texto.
A partir daquele dia, nunca mais jogaram pedras na doidinha. Mesmo os moleques menores. Eu a visitava pelo menos duas vezes por semana, mas não a levei a minha casa, com medo de que ela se apegasse à minha mãe como se havia afeiçoado a mim, e passasse a nos visitar com insistência. A mãe já me havia pedido: “querido, eu quero ajudar a tal doidinha, mas você sabe que, além de trabalhar, tenho de tomar conta da casa; não tenho tempo, por enquanto, pra nada. Quando tivermos dinheiro para contratar alguém que me ajude, eu serei a primeira a visitá-la, também”.
Meu irmão João se afastara de mim, depois do incidente com Sizeno, mas recebera alguns conselhos para que não se ligasse à turma do bairro. Ele seguiu, obediente.
Enquanto isso, Feliz continuava sua vida, de ir até a padaria, duas vezes ao dia, e de observar os gatos, que já eram quinze. Houve uma época em que ela passou a comprar apenas um pão por dia, porque o dinheiro do irmão encurtara um pouco, e ela, além das refeições, precisava se vestir e comprar ração, a mais barata, para seus bichanos. Nesse tempo, emagreceu ainda mais. Eu já trabalhava no comércio e resolvi presenteá-la com boa parte da ração que os gatos consumiam. No começo não aceitou, chegou a ficar agressiva, insistindo que não precisava de esmolas. “Por que eu não posso colaborar um pouco, Feliz? Eu também os amo, e somos amigos.”
Aceitou, ‘por eles’. E voltou a comprar os dois pães diários. Houve um sábado em que ela parecia mais agitada, elétrica. Perguntei o que se passava, ela não respondeu. Sumiu no seu pequeno banheiro. Minutos depois saiu de lá com um roupão surrado, que já havia sido negro um dia, olhou para mim e o abriu, revelando sua esquálida nudez. O cabelo, ainda molhado, repartido no centro exato da cabeça. Tive de fazer um grande esforço para parecer natural.
“Acho você linda e muito atraente, mas não sou o homem da sua vida, Feliz. Um dia, seu homem chegará.”
Ela fez um gesto de impaciência, fechou o roupão, trancou-se no banheiro novamente e não mais retornou. Deixei passar uns três dias e voltei. Ela me recebeu, melindrosa, mas me convidou a sentar e respondeu com monossílabos a tudo o que lhe perguntei. Depois pediu desculpas pelo episódio.
“Você viu, Célio, era por causa desse comportamento que me jogavam pedras.”
E foi aí que percebi, definitivamente, que a loucura de Feliz era a de se mostrar nua, certamente para os meninos, nos dias ‘em que não consigo parar’. Mas, em três anos de amizade, aquela foi a única vez.
Meu pai não permaneceria por muito tempo sob humilhação financeira, e acabamos voltando para o bairro da Boa Vista. Na despedida, vi Feliz chorar pela primeira vez. Um choro muito contido, sutil. Só os doidos são capazes de chorar assim.
“Vão me voltar a jogar pedras”, ela disse, “quando você for embora”.
Eu a convenci que não. Há três anos não acontecia. As pessoas se haviam esquecido daquela infâmia. O chefe da gangue, Sizeno, sumira do bairro com sua família problemática.
Senti que não fora convincente. Voltava a Rio D’ouro, de vez em quando, para vê-la. Mas fiquei longe seis meses, fazendo um curso na França. Da última vez em que estivemos juntos, parecia sombria, falou muito pouco, achei que estava deprimida por causa de Haron, seu mestiço siamês de olhos verdes que morrera de velhice, uma semana antes. Haron, segundo os cadernos de observações, era um bipolar perigoso, capaz de alternar carinho com sadismo.
Passou-se mais um tempo, uns dois meses, e fiquei sabendo por alguém do bairro que ela morrera. Mas o crime acontecera há quinze dias. Feliz estava deitada na cama, onde provavelmente dormia, quando sua cabeça foi esmagada por um tijolo. Assim, a sangue-frio.
Estudante de Direito, pedi socorro a um dos meus professores. Queria que resolvessem o problema, e sabia que um pedido à polícia, vindo de alguém importante, um catedrático, por exemplo, apressaria a solução do caso.
Um mês depois, recebi a informação de que o assassino estava preso e já confessara. Era um garoto de dezesseis anos, Túlio Guedes, que eu até conhecera, bem menor e muito tímido, com o rosto coberto de espinhas. Túlio contara à polícia que a doidinha tentara violentá-lo.
Aí eu a vi, mais uma vez, dentro da minha mente, abrindo o roupão surrado, com sua nudez de campo de concentração. Lembrava-me da cena como se não fosse eu, mas o moleque Túlio. Posso imaginar o susto do garoto que, provavelmente, fugiu apavorado. Não consegui entender porque voltou, depois, e jogou-lhe um tijolo na cabeça. Aquilo o teria perturbado tanto assim?
Não cheguei a sentir raiva do rapaz. Preferi considerar que o mundo está sempre pronto a jogar pedras, todos contra todos, sob qualquer pretexto.

Do livro “Memórias Embriagadas” – Editora Noovha América, São Paulo, 2008.

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